Ago 17

Em nome de Burke e Pessoa, contra os adeptos da Besta Esfolada, mas com vontade de suspensórios

Hoje comecei por ir à estante buscar Edmund Burke (1729-1797), o fundador de uma coisa que nunca houve no Portugal contemporâneo, o conservadorismo liberal, em nome do costume e da constituição não escrita das leis fundamentais, assente num equilíbrio moral e de pensamento, contra revolucionários jacobinos e reaccionários da viradeira e de uma revolução ao contrário. Notei que os defensores de tais princípios, como muitos dos nossos vintistas, poderiam ser considerados em oposição à legalidade de acordo com aquela osmose franquista que mandou destruir os cemitérios desses conservadores, declarou-os inimigos do Estado e chegou a pensar em aplicar a pena de morte para os ditos. Pelo menos, constituiu 80 000 “dossiers” pessoais que fariam as delícias de algum jornalismo português dito de investigação e de certo presidente de um governo regional.

Por isso, reparo que 1910 foi há quase cem anos e ainda há monárquicos de direita e de esquerda, socialistas e liberais, miguelistas e manuelinos, brigantinos e brigões, maçons e catolaicos. Mas sobre as comemorações oficiais, se eu fosse inscrito numa qualquer associação monárquica, apresentaria adequado projecto de participação no comemorativismo e depois, se fosse afastado, não fazia pândega, metia a comissão oficial em tribunal. Já agora protesto como certa rapaziada monárquica reagiu às profaníssimas declarações de António Reis, com quem coincido na necessidade de restauração da república e na respectiva coroação como democracia. Apenas vou mais além, até ao fundo da pátria, e elegeria um rei, sem qualquer restauração, dado que a tradição exige consenso instaurador e autêntica regeneração. Aliás, noutra faceta mais ritual, António Reis é o representante de uma institução com mais cem anos do que a república e com uma maioria de antecessores monárquicos. E sabe que a república, vestida de ditadura e constitucionalizada por plebiscito, que extinguiu a maçonaria, em 1935.

Também observo que os neomonárquicos lusitanos deveriam aceitar o princípio constitucional da “forma republicana de governo”. Já o escrevi e comuniquei em colóquio diante do duque de Bragança e os seus primos brasileiros há mais de uma década. Porque a nossa tradição exige “uma república governada por um rei “(título de obra do nosso renascentista Diogo Lopes Rebelo). Os chamados republicanos é que têm a mania de monopolizar a “res publica” e grande parte dos monárquicos escorrega nessa casca de banana…

O maior inimigo do institucionalismo monárquico é a personalização presidencialista do poder. Nós inventámos a república e o rei para deixarmos de ter um dono, “dependente de uma constipação mal tratada”, como dizia Luís de Almeida Braga, o da “Espada ao Sol” e da campanha de Delgado… Abaixo as ilusões sidonistas, salazarentas, soaristas ou cavaquistas!

Os presidencialistas, incluindo os presidencialistas de primeiro-ministro, caem sempre na tentação de um jardinismo qualquer, para limpeza do reino e suspensão da democracia!

Aliás, pouco monárquicas parecem ser certas fidalguias da dita república, pouco coroada pela democracia, que bem precisava de um D. João II e dos princípios de Alfarrobeira contra os desmandos oligárquicos e fidalgotes. Não! Não chegámos à Coreia, do Norte, mas antes à correia de transmissão do pote sem pol, confirmando as decadências, onde depois dos ditos nobres, vêm sempre os filhos de algo. Do PSD, ao PS, venha o mafarrico e marre!

Talvez se trate de um seguro de limpeza… de sangue, à boa maneira de Vichy, quando Paris até copiava leis lusitanas, conforme o elogio de Jardim, ontem, quando observa que Manuel Ferreira Leite, com as propostas de listas, quis “pôr em contenção indivíduos que têm afinidades com o funcionamento de certas sociedades secretas, as quais têm sido até agora o bloco central do regime e têm-no sustentado, quer com governos PS, quer com governos PSD”…

Aliás, por falar em bisnetodalguia, o antecessor da senhora ex-ministra das finanças e da educação não incorria no grave crime denunciado pelo seu elogiador do Chão da Lagoa e tão publicamente estabelecido pela lei nº 1 da Assembleia Nacional? Como as coisas são tão secretas que até vêm em qualquer manual de história, é melhor que continuem a ler o mundo pelos sucessores de Tomé Vieira e Paul Siebertz… Eu prefiro Fernando Pessoa.

A fila de viúvas do coiso, de filhos e filhas do pai, ou de sobrinhos do tio, faz parte de idêntico quantitativo nos dois partidos. Não os vou nominar, mas já fiz as contas… A essa degenerescência chama-se nepotismo e é tão cancerígena quanto o clientelismo. Resulta da falta de confiança na competição, na sociedade aberta e igualdade de oportunidades. Sucede sempre nos períodos crepusculares, como aquele que vivemos e que, apesar de tudo, pode demorar umas décadas…
PS: Imagem picada num sítio brasileiro