Ago 20

Contra os neo-salazarentos do Bloco Central que tiraram Caines do Purgatório…

Ontem, diante do sol e das férias, não teclei. Já estavam escritas todas as frases sobre os palácios da vigilância, conforme o artigo que publicitei no DN, e as novas sobre a gripe A apelavam para a ditadura dos factos. Apenas confirmei que os engenheiros do “agenda setting” se esgotaram com o BPN, o Freeport e a questão das listas de candidatos, com Moita Flores pelo meio, acabando em cartas de amor tão ridículas quanto a bandeira do trinta e um e a queixa da cml sobre o ataque ao património de pano. Nem Medina Carreira, que revi em video enlatado da SIC, já nos consegue trazer surpresas, porque essa de resolver a crise mandando fazer um relatório a Silva Lopes, quase me poderia sugerir o regresso de Mário Soares a primeiro-ministro, com Adriano Moreira na administração interna. Soares até hoje nos comunica que Karl Marx saiu do Purgatório por causa do neoliberalismo, confirmando a coerência de quem o meteu na gaveta, ao Karl, apesar de o ter incluído no programa anti-social-democrata do PS, obrigando o PPD a fazer o mesmo no respectivo programa, coisas que foram retiradas por Vítor Constâncio e Cavaco Silva, respectivamente, apesar de os laranjas o terem feito depois dos ditos socialistas e com o empenho do ex-ml Barroso.

A consultadoria de pretensos tecnocratas, ditos craques, só porque estão no altar da gerontocracia e se animam com a habitual conspiração de avós e netos, não é o mesma coisa que governar. Governar é a crise e o risco de haver essa suprema decisão sobre fins, que não se pode confundir com a decisão sobre os meios. Governar não é apenas executar, é pilotar o futuro. Aliás, também não se combate a corrupção, solicitando a magistrados mediáticos e aos seus sindicatos outro relatório sobre a falta de meios legais e materiais, para se engordarem os operadores judiciários de aparelhismo.
Medina, em sua Carreira, o ex-ministro das finanças de um PS Marxista, o de Soares, antes de Constâncio, que é justamente implacável na detecção das doenças que o afectaram, continua a perder-se em floreados analíticos, demonstrando como não basta que excelentes e corajosos comentadores se continuem a pensar como simples ajudantes de primeiros-ministros, dispostos a colocarem na ordem os directores-gerais que já não há, e a encomendarem estudos a quem está fora da rede do “outsourcing”. Podem acabar enredados nos próprios discursos e por por tropeçarem nas teias do próprio ego.
Mas as sátiras numerológicas de Medina continuam rigorosamente implacáveis e até surgem justas observações, como essa do “cainesianismo” ser inaplicável a uma economia que é mero elemento fungível das integrações ibérica e europeia, bem como despensa dos fluxos da globalização, principalmente da geofinança. Com efeito, Keynes tanto deu o “New Deal” de Roosevelt quanto o Estado Novo de Salazar, gerando em muitas economias aquilo que a “Societé du Mont Pélérin”, de Hayek, Popper e Ropke, qualificaram como socialismo de Estado.
Por outras palavras, Keynes merece elevar-se à categoria de inimigo da sociedade aberta, porque a ideologia que dele se desprendeu, a tal criatura que se libertou do criador, fez regressar o mercantilismo de um capitalismo de Estado, tornando-nos subsidiodependentes. Agravou a flacidez das banhas do aparelho, descalcificou os ossos e não revigorou a cabecinha, nem os nervos. Até músculos flexíveis desapareceram. E quando meteu o socialismo na gaveta, ao exagerar nas privatizações negocistas do chamado liberalismo a retalho, gerou o neofeudalismo presente, o “gentleman’s agrreement” entre o chefe do governo e certas famílias ou companhias privilegiadas pelo favor do estadão. Basta recordar como certos banqueiros aparecem a defender Sócrates e como se fazem jantaradas de homenagem a Manel Pinho.
Por outras palavras, o cainesianismo de PSD e PS agravou aquele ambiente devorista da privatização dos lucros e da socialização dos prejuízos, como dizia o militante do Partido Socialista Ramada Curto (na imagem). Do partido de 1875, o de Antero e Fontana, que Soares não restaurou, diga-se de passagem. E lá continuámos, com o Bloco Central que resiste e persiste, sem treinarmos a concorrência, sem premiarmos a produtividade, condicionando fortemente a liberdade, porque desincentivamos a imaginação e a criatividade. Prefiro Hayek a Keynes, e Ramada Curto a Sócrates, contra os neo-salazarentos democráticos do Bloco Central…