Ago 21

A propaganda antipropaganda do neocavaquismo sem Cavaco

Ontem foi dia de lançamento de Manuela Ferreira Leite. Ou melhor: de consolidação de um estilo de comunicação íntima, sem a rapidez imaginativa dos “picaretas falantes” e sem a aspereza numerológica de Medina Carreira, mas como um senhora “qualquer” que tenta cativar directamente, não a massa dos telespectadores, mas cada um dos telespectadores em particular ao estilo de conversa em família, invocando o dramatismo da respectiva decisão, depois do tempo dos homens de génio. Nada de novo debaixo do sol, nesta aparente política antipolítica do cavaquismo sem Cavaco e que, para gáudio dos respectivos consultores de imagem, não esteve mal no estilo.

Infelizmente, esteve mal nos argumentos. Menos mal nos já repetidos, como no caso da “asfixia democrática”, onde voltou a repetir o caso Charrua, não acrescentando uma lista de persigangas, onde, nalgumas delas, até encontramos ministeriáveis do PSD aliados, em claustrofobia democrática, a ministeriáveis do PS. Menos mal, no caso das eventuais vigilâncias sobre Belém, mas apenas conseguiu insinuar escutas do caso do microfone instalado no gabinete do Procurador-Geral da República, cujos mistérios já foram detectados nas suas minúcias e se passaram há séculos, por razões privadas.
De qualque maneira, interessava-lhe insistir na circunstância de querer levar os princípios da vida privada e profissional para a actividade política, sem calculismos e sem eventuais benefícios eleitorais, misturando o “faço o que prometo” de Eanes com a secura de Cavaco e o silêncio acompanhante de Dona Maria da Católica. Mas não revelou que Cavaco até recrutou Glória de Matos, para o exercício gutural, e Luíza Manuel de Vilhena, a sogra de m genro assessor, para lhe escrever, em pagelas, a história do gasolineiro de Boliqueime.
Quanto ao programa eleitoral do PSD, disse que as pessoas nunca o iriam ler na praia e que ele não trará nada de espantar, podendo caber numa folha A4, porque apenas não quer o TGV e a 3ª auto-estrada, mas antes investimentos públicos de proximidade, pagamento das dívidas do Estado, revisão do código do imposto sobre o património, não aumento dos impostos e apoio às PME, sem fazer promessas de crescimento. Porque não sabe efectivamente os números de uma crise interna que já existia antes da crise global, acusando o governo de favorecer certas empresas e que nisso é discricionário. Pouco mais.
Sobre o BPN, o Freeport e outras loisas, misturadas com Preto e Isaltino, sem uma única vez usar a palavra corrupção, disse nunca pronunciar-se sobre casos de justiça, porque, sobre eles, “é a justiça que vai dizer”, elaborando uma curiosa distinção entre “arguidos pelo exercício de cargos públicos” e os outros. Mas sempre acrescentou que é “facílimo em política pôr de lado quem nos incomoda e deixar andar quem nos não incomoda”, coisa que, depois aplicou ao afastamento de Passos e passistas das listas do PSD: só integrou nas listas quem assumiu o “compromisso de apoiar uma política e uma orientação de governo”, evitando os que “discordem da política”, dela, abrangendo apenas os ex-opositores que se passaram para a “aprtilha” (sic). Até porque “não sou deputada porque não concordava com a política do partido”. Por outras palavras, definiu o seu futuro grupo parlamentar como uma unicidade de rebanho.
O pior foi misturar Maria José Nogueira Pinto e Moita Flores com isso. Respondeu, para a primeira, que uma coisa é a política autárquica com a política nacional. Que Maria José estava errada no seu apoio a Costa, em Lisboa, e que, em Santarém, ela, Manela, votaria Moita Flores: “acho bem que ele não vote em mim”. Por outras palavras, não foi suficientemente treinada pelos assessores de comunicação para estas manobras nominativas, onde não chega a pretensa ciência exacta aprendida como directora-geral da contabilidade pública.
De qualquer maneira, os fiéis telespectadores mostraram-se contentes com a força que ela emitiu, confirmando o voto no PSD. Os hesitantes entre PSD e PS continuaram hesitantes, pondo, num lado da balança, o ódio a Sócrates e, no lado dela, o voto útil, para o mais do mesmo. Alguns até foram espreitar os blogues de campanha do “Simplex” e do “Jamais”. Uns lamentaram a saída de João Gonçalves, outros a manutenção de João Galamba. E passaram-se para a “Rua Direita”, porque o CDS, aproveitando a indirecta oferta de coligação de Manela, poderá dizer que votar PSD é também votar nos “endireitas do Caldas”, como se houvesse uma diferença entre bonzos e apoiantes endireitas dos bonzos.
Não sei se é boa decisão termos de escolhar o, do mal, o menos, o tal menos que, depois de analisado, pode ser pior emenda do que o soneto do presente situacionismo ministerialista que tem Pedro Mexia como director-geral, o mesmo que poderá ser ministro maneleiro. Entre o mal e o seu menos, sempre os mesmos bailados do Bloco Central, mesmo que tenha Portas como ministro. Estes irmãos-inimigos que mandam muitos bobos da Corte para o jogo verbal sujo, para que os chefes, depois, possam gerir os silêncios, aproveitando a onda e lavando as mãos como Pilatos.
PS: O ambiente está de tal maneira degradado que, mais uma vez, recebi directas ameaças de cariz siciliano. Ainda as mantenho no meu “Facebook”. Desta ainda não voltaram a emitir um blogue com o meu nome, para ataques a uma biografia, mas usando todos os pormenores que tenho publicados na minha página profissional. Não me digo vítima de persiganga. Os factos e os processos falam por si. Continuo a calá-los. Tirarei as conclusões depois da constituição do próximo governo e dos ensaios de coligação dos que há anos se vão ministerializando.