Ago 28

A razão de Estado da teledemocracia

A razão de Estado da teledemocracia não permite que desviemos as atenções de um ritual político, onde não há factos mas apenas interpretação de factos, dado que, muitas vezes, o que parece, e o que aparece, é o que efectivamente passa a sê-lo. As cenas do teatro de Estado valm mais pelo todo do que pelo texto das palavras expressas, sempre inseríveis noutro contexto. Valem, sobretudo, pelo rito facial de dramatismo. Ora, como salienta Lévi-Strauss,  “os factos sociais são, ao mesmo tempo, coisas e representações” e é o pensamento simbólico que “torna a vida social ao mesmo tempo possível e necessária”, dado que “os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam”, até porque “o significante precede e determina o significado”.  Só os manuais dessa claríssima geometria das angulosidades rectas nos permitem concluir que o quadrado da hipotenusa do paralelograma de forças pode ser igual ao quadrado dos catetos que a provocaram, coisa que tanto pode ir do “gato escondido com o rabo de fora” à falta de respeito que as fontes geralmente bem informadas manifestaram pelo actual Estado em figura humana.  Logo, muito atenciosamente, não comentaremos o comentário.

Ago 28

Um programa sem portas esconsas, de acordo com a imagem primeira do respectivo “site”

Não sabemos quantos dos trezentos e setenta e nove políticos com direito a subvenção vitalícia estiveram na sala, nem se o programa teve inspirança naquele antigo conselheiro de Estado que guardava documentos numa parte esconsa da sua casa de banho, mas Rui Machete, Vítor Crespo, António Capucho, Deus Pinheiro, Couto dos Santos, Costa Neves, Pacheco Pereira, Fernando Negrão, Guilherme Silva, Graça Carvalho e Maria José Nogueira Pinto eram inequívocos sinais de renovação da pátria e com aquele ar de ministeriáveis com que nos habituaram há décadas. Ainda bem que o Nacional empatou na ex-Leninegrado, porque, como disse o respectivo treinador, quem não tem cão caça com gato e até tiveram que pôr um miúdo, defesa central, a ponta de lança. O Sporting de Soares Franco perdeu. Tal como o Benfica de Valle e Azevedo. Ainda não contrataram o motorista de Pinto da Costa.

O programa, que não teve o “copy & paste” dos habituais sábios, consta, afinal, de sessentas vezes uma folha de A4, sendo de realçar aqueles gongóricos juridicismos que vão “emprestar” ao Estado a justiça, o bem-estar e a segurança, de acordo com as cláusulas gerais de uma qualquer sebenta de introdução ao constitucional. Porque qualquer homem ou mulher de boa vontade que possa ser chamado para uma eventual grande coligação é capaz de subscrever este menos Estado em termos de mensurabilidade quantitativa do aparelhismo. Porque as doutrinas do socialismo democrático, da social-democracia e da doutrina social da Igreja podem ser iluminadas pelos conceitos indeterminados deste caderno-catecismo, onde uns preferem a suspensão de não sei quê, outros, a continuidade disto ou daquilo, enquanto muitos outros continuam nas paragens, à espera de boleia para um qualquer flanco do poder.

Não me parece que a economia seja a rainha das ciências sociais, a não ser para uma qualquer tradução em teologia da modernização pelo neopositivismo de trazer por casa. Temo que a subespécie do contabilismo possa reduzir Portugal a uma qualquer claustrofobia numerológica que efectivamente asfixie a democracia, nomeadamente se a administração da justiça for reduzida a uma régua unidimensionalizante, mesmo que tenha os padrões economicistas da qualidade. O modelo, que já quase destruiu a deontologia da profissão médica e que quer avaliar os professores, vai agora enredar magistrados, para que todos nos integremos nas pautas da chamada classificação dos funcionários públicos.

Mesmo que se venha a falar em corrupção, as palavras não parecem corresponder ao sentido de verdade proclamado, depois de se confundir o preto com o branco e de se sanearem os hereges e dissidentes da fidelidade política da chefia do partido. Para se combater um PS situacionista, em cumplicidade com o devorismo, este partido maneleiro ameaça continuar a ser complacente com uma decadência que nos vai mirrando, até porque lavar as mãos como Pilatos face às práticas anteriores do cavaquistão é especialmente censurável em quem teve hipóteses de se libertar dessas algemas e de ajudar Portugal a fugir desta espiral crepuscular. O cálice da nossa benévola expectativa já há muito transbordou. Basta reparar na fila de bate palmas ministeriáveis que assistia ao evento, comparando-a com os Santos Silva, os Mário Lino e outros que tais. Este país não devia ser para estes velhos, aposentados, reformados ou vitaliciamente subsidiados, com muitas portas esconsas.