Ago 31

As duas faces da mesma moeda que não é boa nem má, mas o mais do mesmo

Está tudo doido. Alguns activistas do maneleirismo vêm a blogue declarar que terei dito na televisão que vou votar PS. Irra! E insinuam que o faço, porque terei sido maltratado pelo meu reitor, que seria do PS. Irra! Já chega de mentiras e até de trocar o nome aos bois! Abaixo o quem não é por mim, é contra mim! E tudo vem acompanhado por campanhas no Twitter quanto às minhas opções eventualmente místicas, não faltando as próprias ameaças sicilianas, segundo o melhor ritmo bufeiro dos moscas, formigas e outros que tais que fizeram, da nossa dita direita e da nossa dita esquerda, as mais estúpidas do mundo!

Ainda recentemente sofri no lombo a existência de um pseudo-blogue com o meu nome, para uso de lutas internas pelo poder na universidade. Julgo que o respectivo autor conseguiu finalmente ser promovido. Outro, que também anda pelas alturas, até o filho usava como testa de ferro em comentários de blogues que, apesar de adversários nas concepções do mundo e da vida, me respeitavam em diálogo de bela polémica de ideias. Não me consta que qualquer deles seja socrático, bem pelo contrário. E o pretenso socrático que o João Gonçalves, a posteriori, depois do meu comentário, tenta transformar em fantasma deve ser o mesmo que alinhou numa insultuosa campanha contra um paradigmático ministro socrático, servindo de ponta de lança a uma salada de estalinistas, fascistas não disfarçados e laranjadas. Agradeço a socráticos que, correndo risco de persiganga, defenderam comigo a liberdade. Mas nada disto tem relevância. E até gosto mais do João Gonçalves, porque quem bate tem direito naturalmente de levar, e não tem sequer de responder com outra figura do Walt Disney, porque preferiria a versão brasileira do Zé Carioca!
Será que um português não pode, hoje, misturar a mundivisão, que Sócrates diz subscrever, com a denúncia do dirigismo estatal, que Manela diz ser monopólio dela? Será crime gostar do poema satírico de Natália Correia sobre uma “gaffe” de um deputado …de Lamego, quando ela não era parlamentar do PS? Será que todos os do PS são contra o casamento e a família? Será que Manela não é mulher e divorciada? Será que o PPD/PSD não é de Francisco Sá Carneiro, aquele que, por causa de Snu, teve arcebispo de Braga e secretário-geral do PS, em plena televisão, a invocarem a imoralidade…
Não teve o PPD/PSD líderes como Rodrigues dos Santos e Emídio Guerreiro? Será que o PS não recolheu como secretário-geral um António Guterres? Será que a Constituição não admite a defesa política do catolicismo, do agnosticismo, do ateísmo ou do simples panteísmo? Será que a clivagem direita/esquerda passa por essas concepções do mundo e da vida? Irra! Não podemos ser liberais em Portugal? Mesmo sem partido?
Manuela Ferreira tem todo o direito de assumir as legítimas bandeiras axiológicas da doutrina social da Igreja Católica e até a linguagem de propaganda da fé do papa Bento XVI. Assim se explica a razão pela qual a Igreja nunca se quis comprometer com um partido democrata-cristão que tivesse dentro dele uma ala liberal. Sempre preferiu que os seus dilectos se juntassem a socialistas e sociais-democratas para melhor poder influenciar o poder. Lembro-me da história de um fundacional secretário-geral do CDS, quando foi à Madeira, nos primeiros dias de Abril, tentar implantar o partido. Segundo ele me contou, o senhor bispo aconselhou-o a regressar ao contenente, para não dividir o rebanho. O bispo tinha razão eleitoral em preferir Alberto João, como se pode concluir. Pena que este não se actualize em termos de Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, nome que, em 1965, recebeu a Congregação do Santo Ofício, designação dada à mais velha e permanente “Congregatio Sanctae Inquisitionis”.
Aliás, Sócrates ainda ontem se propagandeou, inaugurando a subsidiada Obra do Padre Miguel, para dizer que a IVG e as uniões de facto não são directamente proporcionais às IPSS. Por outras palavras, se considero que Manuela Ferreira Leite pode ser efectivamente democrata-cristã, sem ter que ficar condicionada pelos dogmas laicistas, talvez deva distanciar-se dos congregados de muita comunhão e proclamada libertação que andam por aí diabolizando quem não alinha nessas causas e voltam ao armazém dos martelos contra os heréticos, numa espécie de tentativa de estadualização da luta contra os os ortodoxos e os dissidentes. Apenas recordo que, se o autoritarismo diz que quem não é contra mim é a favor de mim, passa a totalitário quando proclama que quem não é por mim é contra mim.
Considero, contudo, um erro crasso acirrar a falta de compreensão histórica entre homens de boa vontade, sejam do humanismo cristão, sejam do humanismo laico, especialmente quando Roma já não usa a excomunhão para os que fazem dupla filiação. Só considera pecado grave para os que o praticam. E deixa totalmente livres de censuras tipos liberais como eu que não fazem parte do rebanho. Os do humanismo que dizem laico são mais permissivos, dado que deixam isso à consciência de cada um.
Se este estúpido ambiente de decadência agravar a demência, não há capacidade de análise politológica para as esquizofrenias. Bastam as análises de costumes sobre os anjos decaídos. É que, para o homem comum, onde a tolerância é o ar que se respira, não estamos divididos entre o atavismo inquisitorial da velha reacção congreganista e o delírio dos pretensos semeadores dos amanhãs que cantam.
O progresso dos declinadores do pretérito perfeito são os computadores, o ensino do inglês, as escolas profissionais, a paridade, o divórcio não litigioso, a IVG, as uniões de facto e as contas-poupança, enquanto os conjugadores do pretérito imperfeito preferem as PME, a baixa de impostos, a suspensão da avaliação dos professores, porque eu sou mulher e divorciada, vou suspender este TGV, apoio Cavaco, porque vetou as uniões de facto, e quero o regresso aos certificados de aforro, suspender o PEC, remunerar os juízes pela produtividade e baixar a taxa social única. Aliás, já o meu vice-presidente esclareceu que não deixo de querer a alta velocidade, a terceira auto-estrada troço a troço. Uso o futuro no condicional e não faço o catálogo panglóssico do presente governo. Não não vou por aí, não subscrevo os bonzos do rotativismo e, muito menos, os endireitas e canhotos que querem coligações à direita e à esquerda do que está, para que tudo fique na mesma, desde que eles sejam ministros.
P.S. Juro que tudo quanto aqui escrevo não tem mesmo nada a ver com o ex-reformador João Gonçalves. Ontem gargalhámos quanto baste ao telefone. Com todas as naturais divergências sobre o maneleirismo e o presidencialismo. Fui ler a seguir as teorias de Jung e os manuais de análise simbólica sobre os contos de fadas e os desenhos animados…