De regresso, recordando António José Rodrigues de Almeida e a sua Catrineta

Regresso. Não há nota necrológica que possa captar as muitas memórias de um amigo desaparecido. As três frases com que os jornais o descreveram não chegam. Apenas digo que morreu como viveu, na aventura, no risco, na doce procura da insolência. Era um desses portugueses à antiga que nunca venceu e que, por isso mesmo, nunca foi vencido. Sempre se assumiu como o sonho em figura humana, tão gigante de espírito quanto o próprio corpo. Uma lenda que, já em vida, era viva, pelas estórias que os fantasmagóricos inimigos alimentavam, mas que nunca corresponderam a quem, pela bondade natural e educativa, pouca tendência tinha para a vindicta. Apenas se entregava às causas que o mobilizavam com o entusiasmo dos crentes, mas, num tempo de homens lúcidos, sempre teve a lucidez de se assumir como ingénuo. Dele, a lei da morte já há muito que se tinha libertado…

P. S. Tinhas um blogue cujo último postal data de Janeiro de 2006. Deixo nesta recordação a Catrineta de Almada que lá inseriste. Também por estes dias, repetias Pessoa:
O mostrengo que está no fim do mar

Veio das trevas a procurar

A madrugada do novo dia,

Do novo dia sem acabar;

E disse, «Quem é que dorme a lembrar

Que desvendou o Segundo Mundo,

Nem o Terceiro quere desvendar?»
E o som na treva de elle rodar

Faz mau o somno, triste o sonhar,

Rodou e foi-se o mostrengo servo

Que seu senhor veio aqui buscar.

Que veio aqui seu senhor chamar

–Chamar Aquelle que está dormindo

E foi outrora Senhor do Mar.

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