Entrevista ao Expresso

 

- Sem causar grande controvérsia, podemos falar de uma crise na democracia representativa em Portugal: taxas de abstenção elevadas, referendos ineficazes, aumento dos movimentos cívicos e descrença nos partidos políticos ou nos políticos (com alguns exemplos de políticos com processos judiciais em cima a aumentar o problema). Perante isto, como avalia o actual estado da democracia em Portugal? (Identificação dos grandes problemas)

 

A democracia porque não passa de um dever-ser-que-é nunca existiu em nenhum lado e em nenhum e nunca virá a existir. Tal como a justiça, não passa de uma ideia que visa subverter a realidade, em nome de valores, crenças e princípios. Logo, é da essência da democracia a própria crise, como é típico de tudo o que é vida. Porque só não há crise na paz dos cemitérios. Direi que esta democracia, apesar de péssima é o melhor dos regimes que até hoje experimentámos, porque, como dizia Popper, permite que se façam golpes de Estado sem efusão de sangue…

 

- De que forma prevê que esta evolua num futuro próximo?

 

O regime envelheceu, aproximando-se, em quantidade de tempo, do período de vigência do governo de Salazar e, inevitavelmente, começam a notar-se infuncionalidades no sistema representativo, marcado por uma partidocracia que não sabido olear as relações daquilo a que se dá o nome de sociedade civil com o aparelho de Estado. A herança do estadão, de marca absolutista e com a péssima tradição da personalização do poder, começa a sitiar a autenticidade da república, ou da comunidade. O Estado continua um “c’est lui” e não um “c’est nous”, marcado pela falta de autenticidade, dado que há uma grande distância entre os discursos de justificação do ministerialismo e a realidade participativa. Na prática a teoria é outra…

- Os movimentos cívicos parecem ganhar uma força crescente em Portugal. A tendência será para crescerem cada vez mais ou é apenas uma “moda” sem capacidade para se fixar?

 

 

- A crise das ideologias traz uma necessidade de tornar a política mais prática, com respostas concretas a problemas específicos. Como estão os políticos portugueses a responder a esta realidade?

 

Depende do conceito de ideologia. Se falarmos nas ideologias que estão em fase agressiva de conquista da sociedade, isto é, das ideias ainda sem peso social, podermos falar de crise, até porque algumas delas apenas têm como destino a gaveta, quando o partido que as invoca chega ao poder. Se falarmos nas ideologias efectivas que marcam a força da inércia, é possível dizer que há uma que, em Portugal, é tão natural como o ar que se respira: é a do cepticismo pouco entusiasta, de marca utilitária, a que alguns dão o nome de pragmatismo, com algumas pitadas de maquiavelismo da velha razão de Estado, aquela que nos diz que tem razão quem vence e que apela ao paradigma do homem de sucesso. Chamou-se cavaquismo, envelheceu com Manuela Ferreira Leite e é subliminar ao discurso de Sócrates, com algum exibicionismo de autoritarismo de fachada e que leva ao recrudescer dos micro-autoritarismos sub-estatais, onde costuma haver mais papistas do que o próprio pagão invocado que talvez não passe de um tigre de papel

- Neste sentido, acredita que os partidos precisam encontrar uma nova forma de organização?

 

Os partidos são o espelho da nação. Não são causa, são sintoma e consequência e já demonstraram que não conseguem auto-regenerar-se, nomeadamente pela institucionalização do conflito interno, como se demonstra pelos recentes saneamentos de Alegre e de Passos Coelho. Foram construídos do governo para o povo, de cima para baixo, quase actualizando de forma pluralista o modelo salazarento, que instituiu o partido único através de uma formal resolução do conselho de ministros, imitando a fundação d

 

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