O quadrado da hipotenusa

O QUADRADO DA HIPOTENUSA

 

José Adelino Maltez

 

O interessante  acto de teatro de Estado em que o Presidente Cavaco não comentou os comentários sobre o segredo, também de Estado, das improváveis vigilâncias e das eventuais fugas de informação da respectiva casa civil, porque assumiu uma dimensão simbólica, apenas nos permite apenas elogiar a capacidade de encenação manifestada, com tanto rigor técnico. A cena vale mais pelo todo do que pelo texto das palavras expressas, sempre inseríveis noutro contexto. Vale, sobretudo, pelo rito facial de dramatismo. Ora, como salienta Lévi-Strauss,  “os factos sociais são, ao mesmo tempo, coisas e representações” e é o pensamento simbólico que “torna a vida social ao mesmo tempo possível e necessária”, dado que “os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam”, até porque “o significante precede e determina o significado”. Assim, a razão de Estado da teledemocracia não permite que desviemos as atenções desse ritual político, onde não há factos mas apenas interpretação de factos, dado que, muitas vezes, o que parece, e o que aparece, é o que efectivamente passa a sê-lo. Só os manuais dessa claríssima geometria das angulosidades rectas nos permitem concluir que o quadrado da hipotenusa do actual paralelograma de forças pode ser igual ao quadrado dos catetos que a provocaram, coisa que tanto pode ir do “gato escondido com o rabo de fora” à falta de respeito que as fontes geralmente bem informadas manifestaram pelo actual Estado em figura humana.  Logo, muito atenciosamente, não comentaremos o comentário.

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