Dez 10

Brandos costumes, bois amansados pelo jugo, balbúrdia dos insultos e o(a)s mizés em telhado de província

Apesar de chata, gostei da aula do Professor Aníbal. Mas gostaria bem mais de transmissão em directo da reunião que ele, depois, teve com o Sócrates, onde certamente foi tratada a situação grega de endividamento com a eventual inclusão da nossa seleccção nacional no futuro torneio dos PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Spaniazapatero), para efeitos de “ranking” negativo e de decisão em momentos excepcionais de desvario, sujeitos a contratos à força por ordem da comunidade internacional, através da circunspecta UE, com FMI por trás da cortina. Desde que houvesse relato radiofónico à antiga, com posteriores comentários do Rui Santos, sempre pela verdade desportiva dos meios electrónicos, contra os tipos do apito e das agências de taxas de juro, com liberdade de insulto, a partir da bancada e muito direito à indignação dos que pagam o bilhete…

Infelizmente, são outros os relatos da Câmara dos Deputados e ex-Ministros que são abaixo de Lordes e já não passam férias no Dubai: inimputável, palhaço, vendida a qualquer preço, esquizofrénico, aldrabice, trafulhice, tropa-fandanga, burrice. É tudo entre eles, o Estado são eles. Pensam eles. Praticam eles. Vale-nos que temos um povo com brandos costumes de bois mansos e em fila, a caminho do subsídio de reintegração, por acaso, o que mais assassinou figuras cimeiras do Estado no século XX. Temam a revolta dos mansos, dado que as respectivas armaduras começam a entrar em pontas surdas de indignação!
Contrapartidas, BPN, afundações, BCP, sucatas, escutas. Que, grão a grão, se vai enchendo o papo. Não o da revolta. Não o da indiferença. O do desprezo. Política não é Mizé contra o professor de filosofia do rito bracarense. Valia mais terem uma jantarada na Churrasqueira do Campo Grande, com bacalhau à moda de Terras do Bouro, que é província e paisagem para os capitaleiros.
Claro que em latim de Roma, o grande centro de conquista, a tal província, queria dizer “pro” mais “vincere”, coisa para vencer, ocupar, dirigir, incluindo com governadores-civis…
1908 (Rei e P. Real); 1918 (Presidente da República); 1921 (chefe do governo e fundador da República, mais outros); 1965 (chefe da oposição). Não somo à lista Camarate. Ainda por enquanto porque só provámos o assassinato de D. João VI, mais de um século depois. Não há outro país com mais “magnícidios” na Europa, nem com o ciclotímico consequente de quarenta e oito anos de paz dos cemitérios, mas com um ritmo quase anual de intentonas e golpes de reviralho, transformados em comunicados oficiais de suas excelências do estadão, sobre o ter sido evitada ontem mais uma alteração à ordem pública. Claro que não contei com Amílcar Cabral nem com Eduardo Mondlane…
Apenas somei factos. A passagem do laxismo dos brandos costumes para a “balbúrdia sanguinolenta” é como atravessar no século XIX o Pinhal da Azambuja. Remexido, Zé do Telhado e João Brandão são mais recentes que o Robin Hood…
O povo, o povo soberano, que naquele dia tinha nas mãos o ceptro da sua soberania, não é menos dócil do que os irracionais que recordamos. O dia que devia mostrar-se orgulhoso, é quando mais se humilhava; quando podia dispor dos destinos dos seus senhores, é quando mais vergava a cabeça sob o peso que estes lhe assentavam. Não é semelhante esta força inconsciente do povo à do boi robusto e válido, que uma criança dirige e subjuga? Forte como ele, como ele dócil, como ele laborioso, como ele útil, não vê que a mesma força que emprega no trabalho lhe poderia servir para repelir o jugo. Ou, quando vê, é quando o desespero e a fúria, o cegam e impelem a revoltas tremendas (Júlio Dinis, ou um liberal à antiga descrevendo um acto eleitoral do rotativismo devorista).

Dez 10

Bela estátua ao menino Obama. Obrigado, senhor presidente Wilson!

Thomas Woodrow Wilson (1856-1924) foi um presidente norte-americano que queria acabar com o velho hábito das diplomacias de guerra as quais, segundo as suas próprias palavras, faziam dos povos e das províncias mercadorias de troca ou peões do tabuleiro de xadrez. Ele que, na campanha presidencial de 1912, se opusera à política intervencionista dos anteriores presidentes republicanos, desde o big stick de Theodore Roosevelt à dollar diplomacy de William Howard Taft, voltou a vencer as eleições de 1916, em nome da não intervenção norte-americana na Grande Guerra. Contudo, logo em 2 de Abril de 1917, declarou guerra a uma Alemanha de Weltpolitik, Realpolitik e Interessenpolitik, proclamando a necessidade do mundo ser safe for democracy. Depois da vitória dos republicanos nas eleições para o Congresso e apesar de ter sido nomeado prémio Nobel da paz em 1919, eis que não conseguiu que o Senado ratificasse os acordos de paz. Nestes termos, endereçou uma mensagem pessoal às duas Câmaras do Congresso em 8 de Janeiro de 1918

1º Tratados de paz após negociações à luz do dia, a fim de acabar com a diplomacia secreta;
2º Livre navegação em todos os oceanos, em tempo de paz e em tempo de guerra;
3ºTanto quanto possível, supressão de todas as barreiras alfandegárias;
4º Desarmamento, sempre que possível, sem ameaçar a ordem interna;

14ºCriação de uma Sociedade das Nações que assegure a independência política e a integridade dos Estados grandes e pequenos

Assumindo alguns dos legados do modelo kantiano de Paz Perpétua, influenciou, de forma decisiva o Pacto da Sociedade das Nações e o posterior modelo da carta das Nações Unidas, sendo precursor de algumas iniciativas do internacionalismo liberal da década que marcou o primeiro pós-guerra, nomeadamente do chamado Pacto Briand-Kellog, de 27 de Agosto de 1928. Gerou-se uma corrente que o maior jurista do século XX, Hans Kelsen, qualificou como Peace through Law. Dela me considero militante, tentando não consumir o charlatanismo de certas traduções em calão lusitano, celestializadas por discípulos de Morgenthau e pálidos imitadores de Kissinger e Talleyrand. Os que costumam mandar assassinar e depois lamentam o sucedido junto dos familiares das vítimas, justificando a pirataria em nome da gestão de penduricalhos…

Hoje, voltei a ouvir o velho Wilson. Chama-se Obama e disse: There will be times when nations – acting individually or in concert – will find the use of force not only necessary but morally justified. E acrescentou: instruments of war do have a role to play in preserving the peace. Porque, a non-violent movement could not have halted Hitler’s armies. Negotiations cannot convince al-Qaeda’s leaders to lay down their arms. Logo, os Estados Unidos must remain a standard bearer in the conduct of war para se diferenciarem from a vicious adversary that abides by no rules.

Estou pelo bem, contra o mal. Pelo direito contra os interesses. Pela paz com justiça. Viva o regresso ao idealismo, com força!

A linguagem do realismo político continua a mandar ler o idealismo pelo mero jogo das palavras demonizantes do pensamento binário que diz, da ideia pura de paz perpétua de Kant, o que muitos dizem do contrato social ou da vontade geralde Rousseau. Não percebem que nenhuma destas categorias quis representar uma concreta situação histórica que efectivamente tenha existido ou que venha a realizar-se, enquanto os homens forem homens e não bestas ou anjinhos.
Estas categorias sempre foram entendidas como elementos normativos, como exigências dirigidas à realidade, tal como a democracia ou o direito. Em nenhum tempo e em nenhum lugar houve ou haverá democracia ou Estado de Direito, mas isso não significa que eles não mobilizem as concretas realidades humanas num sentido da perfeição. Ai de nós, se não houvesse esse dever-ser, esse padrão que nos permite desenvolver para cima e para dentro (a estátua do menino parece que foi hoje inaugurada na … Indonésia).

Dez 10

A linguagem do realismo político

A linguagem do realismo político continua a mandar ler o idealismo pelo mero jogo das palavras demonizantes do pensamento binário que diz, da ideia pura de paz perpétua de Kant, o que muitos dizem do contrato social ou da vontade geralde Rousseau. Não percebem que nenhuma destas categorias quis representar uma concreta situação histórica que efectivamente tenha existido ou que venha a realizar-se, enquanto os homens forem homens e não bestas ou anjinhos. Estas categorias sempre foram entendidas como elementos normativos, como exigências dirigidas à realidade, tal como a democracia ou o direito. Em nenhum tempo e em nenhum lugar houve ou haverá democracia ou Estado de Direito, mas isso não significa que eles não mobilizem as concretas realidades humanas num sentido da perfeição. Ai de nós, se não houvesse esse dever-ser, esse padrão que nos permite desenvolver para cima e para dentro.