Dez 15

Do poder nu aos anjos decaídos

Hoje, concluirei este habitual ciclo de intervenções públicas em actos de extensão universitária, desde arguição de dissertações e lançamento de livros a outros discursos que nunca divulgo, no “facebook” ou no blogue. Pelo menos, fico mais livre para outras intervenções, sobretudo para fazer a reportagem íntima de certas actividades daquele sacristão que perdeu o sentido dos gestos e a que chamamos regime.

Ainda por estes dias, em vários passos perdidos dos palácios da estadualidade, confirmava esta degenerescência íntima do regime, naquilo que qualifico como privatização clandestina de um antigo serviço público, pela sublimação da velha engenharia feudal da cunha, destruidora da meritocracia.

Os exemplos sagrados e profanos dos recentes episódios, de anjos que, depois da queda, se renomearam, metem ministeriais sumidades dos tempos crepusculares do antigo e do recente regime. O tempo está cinzento e gélido, com muitos cadáveres adiados que, mantendo a categoria do sacristão, se assumem como cardeais desta rede de micropoderes em que nos fragmentámos.

Bertrand Russell falava no mero poder nu, naquele que exprime uma forma de poder pré-político ou não político. Trata-se do poder que se exerce sem aquiescência dos submetidos, durante a conquista, por ocasião da colonização ou através do totalitarismo. Outros referem o poder totalitário, o que é marcado pela “Wille zur Macht”, o poder pelo poder, uma vontade que se fecha sobre si mesma, quando o poder deixa de ter um fim que lhe seja superior, dado que o fim do poder deixa de lhe ser exterior.

Prefiro recorrer ao conceito de anjo decaído, desse que, anteriormente, era um anjo bom. Porque o pecado é uma queda, consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram o Reino. E como invocava São João Damasceno: não há arrependimento para eles depois da queda. Continuo a preferir Albert Camus: o espírito revolucionário recusa o pecado original. E assim se atola nele. O espírito grego não pensa nisso. E deste modo lhe escapa.

Dez 15

Esta degenerescência íntima do regime

Ainda por estes dias, em vários passos perdidos dos palácios da estadualidade, confirmava esta degenerescência íntima do regime, naquilo que qualifico como privatização clandestina de um antigo serviço público, pela sublimação da velha engenharia feudal da cunha , destruidora da meritocracia. Os exemplos sagrados e profanos dos recentes episódios, de anjos que, depois da queda, se renomearam, metem ministeriais sumidades dos tempos crepusculares do antigo e do recente regime. O tempo está cinzento e gélido, com muitos cadáveres adiados que, mantendo a categoria do sacristão, se assumem como cardeais desta rede de micropoderes em que nos fragmentámos. Bertrand Russell falava no mero poder nu, naquele que exprime uma forma de poder pré-político ou não político. Trata-se do poder que se exerce sem aquiescência dos submetidos, durante a conquista, por ocasião da colonização ou através do totalitarismo. Outros referem o poder totalitário, o que é marcado pela “Wille zur Macht”, o poder pelo poder, uma vontade que se fecha sobre si mesma, quando o poder deixa de ter um fim que lhe seja superior, dado que o fim do poder deixa de lhe ser exterior. Prefiro recorrer ao conceito de anjo decaído, desse que, anteriormente, era um anjo bom. Porque o pecado é uma queda, consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram o Reino. E como invocava São João Damasceno: não há arrependimento para eles depois da queda. Continuo a preferir Albert Camus: o espírito revolucionário recusa o pecado original. E assim se atola nele. O espírito grego não pensa nisso. E deste modo lhe escapa.