Dez 09

A minha avó, que não sabia ler nem escrever e gostava de andar descalça…

Hoje é o dia internacional de luta contra a corrupção. O meu amigo Guilherme d’Oliveira Martins, que é o nosso estatal presidente das contas e da luta, já falou e falou. Disse bem contra a elefantíase legislativa. E mais falou. Até disse que não devíamos falar muito sobre a coisa. Logo, não falo mais.

Vou estar atento à entrevista que Vara vai dar, amanhã. Hoje foi só declaração esparsa. Não falarei sobre a matéria. Estive a ver a ficha curricular de um ilustre membro do governo, licenciado e doutorando na minha área, com um bocadito de atraso. Sugiro que se listem os senhores ilustres deputados, ministros e secretários de Estado que, sem qualificações de base adequadas, são ilustres docentes em várias universidades privadas e em muitas públicas, clandestinamente privatizadas. A meritocracia é uma excepção que confirma a regra. Costuma resolver-se por efectivos concursos públicos sem prévia fotografia. Pena que os gestores dos interesses, das pressões e das influências, por mera coincidência, só a vejam entre a partidocracia e seus satélites.

Cá estamos depois do segundo feriado de Dezembro, com mais trabalho em feriados do que em dias ditos de trabalho, porque as formiguinhas investem sem o espectáculo do ofício do corpo presente, com que os avaliólogos nos vão destruindo. Venham mais férias para que a sementeira continue. Porque os nossos dias da semana são mesmo “secunda feria”, “tertia feria”, “quarta feria”, “quinta feria”, “sexta feria”, onde férias não são feiras, mas festividades litúrgicas do valor trabalho. Somos os únicos europeus que seguiram a determinação antipagã do papa. Não por vaticanismo, mas por causa das consequências da crise do século III que nos transformou em ilha, apenas presa por pedra ao continente. Daí esta multissecular vontade de navegar e partir, barra fora, para bem longe daqui…
Apesar de tudo, estou feliz. Há teses ditas de mestrado que são bem superiores a muitas de doutoramento. Tal como há teses de doutoramento que são bem piores do que teses de licenciatura. Os académicos não se medem pelo título formal, nem pela propina de inscrição. A minha avó, que não sabia ler nem escrever e gostava de andar descalça, com as sandálias ao ombro, era bem mais culta do que alguns dos meus colegas catedráticos.

Dez 08

Solstício

Solstício sempre foi sinal físico da mãe-terra, ou mátria, que nos obriga a um acto simbólico de passagem para o aperfeiçoamento. Como diz Louis Pauwels, importa reconhecermos  que há uma sabedoria e uma verdade anteriores  depositadas desde sempre no homem; ao longo da aventura humana manifesta-se uma vontade superior e a história obedece a leis cíclicas. Porque regenerar é o mesmo do que fazer morrer o putrefacto, transpondo a cortina de fogo que separa o profano do sagrado. E como dizia Plutarco, então, o homem, desde então perfeito e iniciado, liberto e caminhando sem algemas, celebra os Mistérios. Ou, como assinalava Fernando Pessoa, neste mundo visível  vivemos um símbolo e uma sombra. Desde que busquemos a verdade, desejando-a e preparando-a. Porque, segundo palavras de Louis Pauwels, que cada um dos símbolos empregados cumpra as suas promessas, isto é, que revele significados sucessivos, complementares e ascendentes, que funcione como o plano de uma verdade sobre a qual o espírito possa trabalhar analogicamente até à eternidade.

Dez 07

Se cuidas que a popularidade é coisa diferente da justiça e da moral austera te enganas

Essa abstracção chamada Estado passou a ser a medida de todas as coisas e ai de quem diz querer ter menos aparelho de Estado, isto é, menos principado, na economia e na sociedade, e mais república, ou comunidade, nas pessoas e nos seus grupos, sobretudo quando já não há apenas o Estado português a que chegámos, mas um “Leviathan” plural, desde a União Europeia ao modelo de globalização da hierarquia das potências… Não sou socialista nem social-democrata, logo quero menos “Estados”, mais sociedade e mais autonomia dos cidadãos, enquanto indivíduos, porque importa reinventar o aparelhismo para deixarmos de ter os “donos” do costume. Digo e repito: quanto mais estatismo, mais corrupção! Sobretudo quando surge o Estado-Empresário que se transforma em patrão, tanto através de “empresas públicas”, como de “empresas de regime”. Mesmo nos ditos países nórdicos da Europa, se há um robusto Estado-Companhia de Seguros, não há nenhuma tentação de intervencionismo na economia… Aliás, quando acusam os liberais de anti-estatismo, esquecem que quem edificou o Estado Contemporâneo foram as revoluções liberais. E o nosso resultou do programa de Mouzinho da Silveira, quando centralizou os impostos que o povo sempre pagou, mas que no Ancien-Régime eram desviados para o clero e a nobreza, ordens às quais cabiam as políticas de educação, saúde, defesa e segurança! Contudo, Mouzinho da Silveira logo se demitiu da pasta da fazenda, ainda no Porto, quando se caiu no oportunismo das expropriações, a velha tentação absolutista, a que continuam a dar o nome de Estado… Se cuidas que a popularidade é coisa diferente da justiça e da moral austera te enganas (conselhos dados ao seu sucessor na pasta da fazenda, José da Silva Carvalho). Tenho a consciência que assumir este programa anti-estatista em Portugal, onde há quase um quinto do eleitorado a votar PCP e BE, como um enorme centrão socialista e social-democrata e um PP pouco liberal, é apenas ter voz que clama num deserto de utopias intervencionistas que são a principal causa de sucessivas derrotas dos portugueses e conduzem ao suicídio do PSD e de todos os outros coveiros do regime… Em Portugal, não é apenas difícil ser liberal nos planos da política, da economia e da sociedade. É pecado! Daí que continue esta economia mística de nacionalização dos prejuízos e de privatização dos lucros, a que muitos já dão o nome de roubalheira, com socialistas e sociais-democratas na habitual música celestial de defesa de um situacionismo de economia privada sem efectivo mercado nem real concorrência! Para os ditos, repito o que sobre o mesmo espírito de seita, proclamou Orwell: The catholic and the communist are alike in assuming that an opponent cannot be both honest and intelligent (Janeiro de 1946, in Polemic). Hoje, ponho em lugar dos CC, os do costume, os salazarentos da economia do condicionamento, os bloqueiros do central e da esquerda e os que não dizem o que pensam porque vivem da Mesa do Orçamento, impedindo a concorrência e a meritocracia. Isto é, impedindo a urgente regeneração dos que querem defender um Estado racional-normativo que não seja capturado pelas forças vivas, pela partidocracia e por essa difusa rede de clandestina privatização do público, a que podemos dar o nome de corrupção, onde uma bandocracia impune até transforma o aparelho policial e judiciário em bodes expiatórios, para que se reduzam a meras bocas que pronunciam as palavras das leis que eles traduzem em calão, para alívio das consciências que dizem ter. Ser liberal, confesso sem peias, é ser efectivamente adepto daquilo que a maioria desta mentalidade dominante considera um impossível lógico: a defesa do capitalismo, enquanto o processo histórico mais eficaz para a defesa da igualdade de oportunidades e a justiça social! Basta recordar que as empresas públicas e as empresas de regime estão para o cidadão como estavam os conventos e hospícios de antes de 1832: segundo Vitorino Magalhães Godinho, os rendimentos das ordens religiosas em 1832 andavam pelos 1 162 contos, enquanto o Estado recolhia apenas 1 600 contos, em impostos directos…

Dez 04

Out of control

“OUT OF CONTROL”

por José Adelino Maltez

 

 

Com o parlamento fragmentado por coligações negativas e positivas, que votam e desbotam, procurando pôr remendos no que devia ser um “ordenamento”, aberto para cima, para os valores, e aberto para baixo, para a sociedade, atingiu-se, no primeiro debate quinzenal do novo governo velho, uma encruzilhada de verbosidade, bem reveladora daquilo que em linguagem estratégica costuma qualificar-se como “out of control”. Quando a palavra se gasta pelo uso e começa a prostituir-se pelo abuso do insulto, acumula-se aquela quantidade de energia gasta pelas mudanças que fica para sempre na zona do desperdício, a tal entropia que já vai além do habitual parlamentarês e ministerialês que já não corresponde ao processo de institucionalização dos conflitos da democracia pluralista.  Esta caricatura da política de “imagem, sondagem e sacanagem” embacia-nos a compreensão do todo. Porque, apesar de haver uma espécie de buraco negro de inércia, detectável na I Série do Diário da República, declara-se, em malhamento, que há tortura, espionagem política, coscuvilhice, suspeitas,  senão mesmo totalitarismo! Uma retórica de mau-gosto, com muitos textos sem contexto, que exagera nos movimentos gestuais, sem ensimesmamento nem maturidade, onde, na prática, todas as teorias passam a ser outra coisa, mas sem natureza da coisas, porque, por dentro delas, as coisas já realmente não são.