A falta de respeito pela palavra dada e o domínio do senhor ninguém

Leio uma de muitas notícias que circulam sobre o debate parlamentar do Orçamento. Sublinho uma das passagens:Subscreveram-na todos os partidos menos o PS. Só que, à última da hora, o PSD retirou-lhe apoio: a proposta foi chumbada com os votos contra do PS, a abstenção do PSD e o voto a favor dos restantes. Jorge Costa, deputado que representa o PSD no CA da AR, explicou ao DN que o seu partido se absteve em respeito ao princípio (não regimental) segundo o qual as propostas oriundas do CA ou são apoiadas por todos ou não são, acusando o PS de ter dado o dito por não dito. José Lello, socialista que preside ao CA, disse ao DN ter pessoalmente apoiado a proposta. Mas o seu partido é que não, bem como o Governo, alegando, segundo afirmou, que conceder o estatuto de nomeação aos funcionários parlamentares criaria “um precedente que poderia contaminar outras situações”. E por isso a bancada do PS votou contra. Jorge Costa adiantou que o dossier pode ser a qualquer momento reaberto. Confirmo: a palavra destes irmãos-inimigos perdeu-se no “comunismo burocrático” daquilo que Hannah Arendt qualificou como o domínio do “senhor ninguém”. Bastou soprarem os ventos da ditadura das finanças, para que os senhores deputados se tornassem contratados a prazo do respectivo directório. E recordo-o em nome da Ana. Que teve a sua última missão pública como assessora da comissão parlamentar de orçamento e finanças. Na precisa véspera da sua súbita e trágica morte, passou a segunda-feira dita de ponte a fazer mais uma acta da dita comissão. Acreditava fazer parte de uma elite de missão entre gente de palavra.
PSD: O espelho da nação. No DN de hoje

Num partido habituado à governamentalização, quando não há votos nem sondagens favoráveis, tudo se fragmenta em neofeudalismos e arquipelágicos apoios locais (mais de metade dos militantes estão em Braga, Porto e Aveiro).

Pesa, sobretudo, a nostalgia de 1985 e 1995, quando foi pioneiro das maiorias absolutas.

Dói concluir que, nestes últimos quinze anos, foi um verdadeiro cemitério de líderes (sete), com apenas dois anos de governança, mas a charneira de Portas.

Porque a pessoa do actual Presidente da República, ao desertificar o partido, passou a ser um ausente-presente, tão invocado como o próprio fundador, embora o irmão-inimigo, depois da saída de Soares, também tenha de contabilizar seis lideranças, embora esmague com treze anos de governo. Contudo, o PSD nunca abandonou verdadeiramente o poder.

Tem, além do Palácio de Belém, o quase monopólio na Madeira. Manda na maioria das autarquias. Fez ascender Barroso a presidente da comissão de Bruxelas. E é representado, no quarto poder, por dois dos nossos principais “opinion makers”.

Depois do fracasso eleitoral do cavaquismo sem Cavaco, o partido vai a Mafra, mas sem poder retomar o segredo da mobilização vitoriosa que levou Sá Carneiro e Cavaco ao poderio.

Já não pode invocar a trindade de “uma maioria, um governo, um presidente”, porque está condenado a apoiar a recandidatura do seu patriarca vivo.

E também está preso por ser a secção nacional de uma das duas principais multinacionais partidárias da Europa, ao lado do CDS.

Tal como está geneticamente imbricado no situacionismo, sobretudo nos “monstros” das políticas educativa e de saúde e na pesada herança do clientelismo e de outros processos de compra de poder, que enferrujaram as nossas canalizações representativas da partidocracia.

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