Abr 19

Entalados entre notáveis

Mário Soares volta a criticar… Basílio Horta. Não consta que participe na campanha do PS em Leiria. Prefere naturalmente o Algarve.

Estava para entregar um para entregar um projecto à rede nacional de subsidiocracia sobre “pantouflage”: basta uma sugestão jornalística. Investiguem o emprego já garantido pelos actuais ministros que não vão para deputados. Em empresas de regime e em negócios universitários. Alguns deles até foram contratados em pleno exercício de funções, face ao incremento extraordinário de currículo por causa da pasta.

Ao Compromisso Nacional, responde agora a Convergência Nacional. É o chamado golpe e contragolpe do abaixo-assinado. O mais do mesmo, até pela coincidência de, pelo menos, um ilustre “guru”, talvez arrependido de ter sido confundido com os donos dos hipermercados.

Entalados entre notáveis, os homens comuns podem ter uma certeza: o justo vai pagar pelo pecador.

Basta uma mera contabilidade de cruzamento de dados para compreendermos o bem pregas, frei Tomás. Grande parte dos notáveis coincidem com as comissões de honra dos candidatos Cavaco e Alegre, há poucos meses. Os comprimissiais com Boliqueime, os convergentistas com Águeda. Como nenhum dos candidatos falou destas verdades, desconfio dos presentes profetas.

Os compromissiais e os convergentistas, nas suas coincidências, apenas confirmam que estão unidos no essencial: deram cobertura ao situacionismo que nos conduziu ao desastre do dependencismo!

O nosso drama pode resolver-se à maneira de um jogo de torneio medieval. Pomos onze notáveis de um lado e outros tantos do outro. As lanças são fornecidas pelo FMI, FEEF e BCE para uso dos bestiais. Só as bestas são as do costume, as do trabalho sem dignidade e dos impostos roubalheiros.

Confesso que começo a estar farto destes jogos florais dos abaixo-assinados e das mensagens partidocráticas da pré-campanha eleitoral, quando estamos à beira de nova questão das subsistências. Vou ter de responder em conformidade, sem seguir o conselho do Marinho e Pinto. Se querem fiado, toma!

Futuro capítulo da história de Portugal: De Cavaco a Sócrates. Entre a ilusão desenvolvimentista e o dependencismo, ou o eterno devorismo, nas teias do socialismo de consumo.

 

Abr 19

Entrevista a O Diabo

DIABO

Adelino Maltez: “Estamos entre socratinhos e cavaquinhos”

por João Vasco Almeida a 19-04-2011

JOÃO VASCO ALMEIDA E JOÃO FILIPE PEREIRA (TEXTO) E ANTÓNIO LUÍS COELHO (FOTOS) Adelino Maltez: “Estamos entre socratinhos e cavaquinhos” Adelino Maltez, professor universitário, é arrasador: ou há uma revolução liberar, uma refundação, ou não vamos sair da cepa torta. “O povo adora estar entre medos”, diz. Mas apresenta uma solução… O Diabo – Há massa crítica no País para sairmos do sítio onde nos puseram? Adelino Maltez – Há gente, há território e há história, claro que há. Nós não somos um Estado exíguo. Mesmo em termos europeus, colocamos-nos na situação de médio Estado. O que há é que, em termos organizativos, quer políticos, quer da própria sociedade civil, nós vivemos numa ditadura de incompetência. Ficamos sempre muito entretidos porque há um bloco central de bonzos, como se dizia na I República, que não são nem carne nem peixe e depois, acompanhando o Bloco Central dos bonzos. Há os bobos da corte há Esquerda e há Direita. Por isso é que Portugal é o País mais conservador do sistema partidário de toda a Europa. Nós estamos praticamente incólumes, à excepção daquela extrema Esquerda que deixou de ser mobilizada pelo Mário Soares para dentro do PS e que constituiu o Bloco de Esquerda. Isto é um sistema mais estático, mais reaccionário e mais situacionista de todos os nossos companheiros da Europa. Portanto, naturalmente conduz a uma ditadura sistémica. Uma espécie de partidos, sistema, que vivem num sistema de autoclausura reprodutiva. O Diabo – Perante isso, a massa crítica de que lhe falava resultou em decisões neste sistema? R: Essa massa crítica parece-me paleio de uma das coisas que nestes últimos anos mais contribuiu para a desgraça nacional que são os escultores das estratégias. São uma espécie de espiões desempregados lendo livros de há 50 anos. De vez em quando há uma minoria de portugueses com generais… O Diabo – Isso toca em quem? Adelino Maltez – Isso toca aos chamados estrategistas. Generais desempregados e aos senhores que andam pelas universidades a dizer que inventaram a ciência da estratégia. Eles é que inventaram uma terminologia tão mortífera que destruiu completamente as nossas Forças Armadas e transformou os nossos espiões em novas PIDE’s em auto-gestão de espiões. Os factores humanos e a própria terra que temos está completamente paralisada por meia dúzia de preconceitos ideológicos. Porque é que Portugal é o único país da Europa onde ninguém pode ser Liberal? O Diabo – Porquê? Adelino Maltez – Eu não sei porquê. É a terceira força no Parlamento Europeu e em Portugal há uma coisa que une Cavaco Silva, Paulo Portas, Passos Coelho, José Sócrates, Louçã e Jerónimo de Sousa: nenhum deles é liberal. E há outra coisa que também é verdade. Se formos aos países que estão no topo dos países com maior desenvolvimento humano do mundo, são todos produtos da civilização Liberal. Se formos a todo o sistema Europeu, mesmo este da União Europeia, Portugal e Espanha são os únicos socialistas. Portugal nem é tão Liberal como o socialismo espanhol. Porque é que nós gostamos de estar em contra ciclo? Porque é que até em termos de coragem, raros são os intelectuais que não têm medo de dizer: “Eu sou mesmo Liberal”? O Diabo – Mas houve liberais a construir o Estado que hoje conhecemos! Adelino Maltez – Quem construiu este Estado, da parte moderna que ele tem, foi um homem chamado Mouzinho da Silveira. Ele, pela primeira vez, fez impostos directos para o Estado. Em segundo lugar, aquilo que temos hoje de Estado Social, não nasceu da Revolução Soviética, nem da Revolução Fascista. Nasceu do Beveridge Report, em 1942, feito por um Liberal – chamado William Beveridge. Quando eu vejo trotskistas, estalinistas, pinsilguistas, a dizer “temos que salvar o Estado Social”… Mas eles não o fizeram, eles destruíramno. Portanto, alguma coisa está mal neste processo. O Diabo – Neste cenário de eleições que se avizinha, não há nenhuma proposta Liberal em cima da mesa. Ou há? Adelino Maltez – Nem a de Passos Coelho. O Diabo – Ele dizia que era liberal… Adelino Maltez – Ele liberalizava. Andava à procura de um novo programa Social Democrata. Paulo Portas faz parte de um partido do qual fiz parte em quanto existiram liberais. Hoje o seu discurso é o choradinho do Papa Leão X, porque isso dá votos. Está no centro católico português do tempo de Salazar. Não passa disso. Assumiu não ser Liberal e até critica o PSD por não se preocupar com a questão social do século XIX. O Diabo – Se a situação é esta nos grandes partidos, nos pequenos partidos – e o senhor passou por um com Manuel Monteiro… Adelino Maltez – Eu passei por duas experiências partidárias no pós 25 de Abril. Uma com Lucas Pires outra com o PND quando ainda foi à Internacional Liberal. Mas também o PND abandonou e foi para o choradinho democrata cristão. O Diabo – Porque é que não funciona, então, o discurso liberal? Adelino Maltez – Não funciona porque não há coragem e qualquer palerma sabe que isto não dá votos. Portanto, não dando votos eles partem para a ideologia que dá votos. O Diabo – A lógica eleitoral em Portugal é uma lógica de mercado? Adelino Maltez – É uma lógica de mercado sem concorrência. É como as empresas de regime, não é uma lógica de liberdade. É uma lógica repleta de preconceitos e de fantasmas. O problema está em percebermos que as eleições estão fortemente condicionadas pelos aparelhos. E há logo uma ideia em Portugal que ser Liberal é estar a favor dos banqueiros. Porque é que eu não hei-de criticar os banqueiros? Os únicos países onde se prendem banqueiros é em países liberais. Ser Liberal é ser pelo Carrapatoso e pelas empresas onde não há concorrência. Mas porque é que eu não hei-de criticar a falta de concorrência nos sectores onde os empresários vão à televisão e andam a fazer programas para partidos políticos? Porque é que o Liberal é aquele que necessariamente não critica os corruptos? Tem graça, eu já fundei duas vezes a organização de luta contra a corrupção, em Portugal. Todas as estatísticas desmentem os preconceitos, e, portanto, nós estamos com um pezinho no Norte de África. Mas enganámos-nos, porque isto agora faz parte da jangada de pedra que saiu de Espanha que arrisca naufragar no Atlântico, a caminho dessas ilusões. Há aqui um grande preconceito. O Diabo – Portugal não acompanhou a Europa? Adelino Maltez – Portugal saiu completamente fora do modelo Europeu, no plano das atitudes da cultura política. Nós estamos em contra ciclo. Estamos a pedir dinheiro a quem tem uma perspectiva completamente diferente da nossa. Até porque os resultados dessa perspectiva tiveram frutos. Mesmo em países de leste Europeu. Portugal é o único país da União Europeia que está a ir ao fundo. Porque adoramos música celestial e comícios à maneira de Matosinhos. Faz-me lembrar o Marcelo Caetano, uma semana antes do 25 de Abril, a ser aplaudido de pé no Estádio José de Alvalade. O Diabo – Ao recordar D. João III, ele também titularizou dívida… Adelino Maltez Nós não estamos como nesse tempo. Porque de vez em quando refundamos-nos. Ao longo da história fomos-nos refundando… A última vez foi em 1974. Portugal só existe porque foi sendo refundado. E é chegado o tempo de nos refundarmos. O Diabo – Como? Adelino Maltez – Isso cada um tem a sua proposta. Temos dois caminhos. Ou regeneramos estes partidos por dentro e os partidos, eles próprios, são parte da mudança ou eles vão continuar no desastre e depois chegamos a uma incógnita. Eu sou de uma geração onde não nos mexíamos por causa de dois medos. O medo dos comunistas, por um lado, e o da tropa que fez um golpe de Estado. Estes dois medos faziam com que a sociedade portuguesa não entrasse neste egoísmo. Desaparecidos estes dois medos só resta, hoje, um: ter medo de mim próprio e da minha atitude. E isso é muito difícil de educar. Nós ainda não nos reeducámos o suficiente para funcionar sem estes dois controlos. Mantemos do anterior sistema uma coisa que Orwell chamava de colectivismo de seita. E isso tinha dois nomes: católicos e comunistas. Não tenho nada contra os comunistas ou os católicos. Muitos patifes na sociedade portuguesa vão à missa ou ao comício do PCP. São tipos que não tem o mínimo de ética comunista ou moralidade cristã e que não ama o próximo como a si mesmo, e fazem aos outros o que não gostariam que fizessem a si, mas que vão à missinha. O que é que nós fazemos? Isto é um centro de lavagem pior que a do dinheiro. Eu até já vi Sócrates a benzer-se. Este colectivismo moral de seita, num país como o nosso que tem quatro séculos de meio de inquisição, 50 anos de ditadura, não repara que vivemos numa sociedade pós totalitária ou pós autoritária. Eliminados os mecanismos exteriores de repressão, permanece o subsistema de medo. O Diabo – Mas os países ex-União Soviética passaram pelo mesmo e conseguiram regenerar-se. Adelino Maltez – Através dos checos. Nomeadamente aquele ambiente de vigésima quinta hora. Nunca houve tanta paz como no tempo de Salazar. Já não havia a PIDE todos os dias a prender e a bater. Mas havia medinho. A malta não se manifestava porque tinha medo. Neste momento não há PIDE. Há uns espiões que tentam copiar isso mas não chega. Mas, pior que isso, há um micro-autoritarismo. Não há Sócrates mas há socratinhos. Tal como não havia Cavacos mas havia cavaquinhos. Aliás, agora esses cavaquinhos e socratinhos, em muitos micro subsistemas estatais – como nas escolas – têm esse poder. E o que é que eles fazem? “Ah o menino porta-se mal? Não tem subsídio”. Têm que perceber que se têm de calar a boca porque quem manda é o chefe e o chefe é o único que lhes garante uma carreirinha sem sobressaltos e umas viagenzinhas ao estrangeiro. O Diabo -Tem respeito por algum dos candidatos deste momento, dos conhecidos à Assembleia da República? Adelino Maltez – Por acaso tenho. Alguns até são meus amigos. O Diabo – E o que é que lhes diz? Adelino Maltez – Digo-lhes isto e eles ouvem. Não me queixo, sou o tipo que sou ouvido, e durante muito tempo fui considerado maluco, mas como tenho acertado. O meu conceito liberal é a coisa mais simples do mundo, é igual à terceira força do parlamento europeu. Tem à direita o PPE, à esquerda o Partido Socialista. Mas não é o centrão, é o centro excêntrico, radical. E em Portugal não há. As regras de liberais que não param a actual globalização permitiram que grande parte do mundo fosse cada vez mais rico, a China, o Brasil… E nós não estamos a perceber que hoje o jogo é um jogo global. O Diabo – É por isso que estamos em crise? Adelino Maltez – Nós estamos em crise porque o euro está em confronto com uma coligação negativa dos chineses e do dólar. Há placas onde isto toca, e nós fomos mais uma vez a vacina. Como foi no tempo em que o comunismo estava a brincar com os Estados Unidos para “papar” Angola e Moçambique. E os grandes deste mundo ocidental disseram: “Deixa estar que os rapazes são insignificantes, se fosse a Espanha era grande demais, vamos espetar a vacina no dorso deles”. O Diabo – Quem são esses “grandes”? Os mercados? Adelino Maltez – Também. Por exemplo, todas as agências de rating e todo este sistema puniram mais do que aquilo que merecia, porque sabem perfeitamente que o sistema partidário português não tem agilidade. E que o Presidente é o Senhor Professor Aníbal Cavaco Silva, que é um homem muito previsível, depois dá sempre tanto a prever que nunca actua. Porquê? Porque não é capaz de dizer a verdade, porque Cavaco Silva, quando foi Primeiro Ministro de Portugal, quis ser bom aluno daquele desenvolvimentismo europeu. Desmantelou a agricultura, desmantelou as pescas, e disse que o nosso futuro agora era uma autoestrada de betão a caminho dos subsídios comunitários. Entrou na monocultura. Naquela altura ele tinha que fazer aquilo, não estou a criticá-lo. Mas nunca num regime de monocultura. Deveria ter manha suficiente para fingir a eles que fazia, mas manter uma reserva estratégica.