Abr 23

De boas intenções, continuamos cheios

Grão a grão, se vai demonstrando como a revolta face ao situacionismo se dilui nas teias do rotativismo devorista, o que abana a árvore do governamentalismo, à espera que ela apodreça, mas para que outro rebento, do mesmo tronco, mantenha o mais do mesmo. Por outras palavras, mesmo na revolta continuamos sem adequada organização do trabalho nacional.

Portugal não continuaria adiado, entre forças vivas e seus feitores, do doméstico e dos supranacionais, se as próximas eleições fossem além do mero reflexo condicionado referendário, provocado pelo habitual monopólio dos perguntadores. Como haveria esperança se elas começassem a dar sinal do golpe de Estado sem efusão de sangue que constitui o mais aliciante das mudanças democráticas.

O homem livre pode, e deve, sujar as mãos no compromisso. Não pode é mudar radicalmente de atitude. Tem de continuar a viver como diz pensar, sem andar sempre a pensar como é que depois vai viver. Não é por se fazer um contrato que ele deixa de ser independente. Corre é o risco de tornar mais evidente a traição da falta de autenticidade. E de, como tal, ser rejeitado por quem nele confiou.

Os maiores exemplos cívicos que conheço são de homens que tomaram partido. Os que, a partir de uma facção, ou de uma perspectiva, conseguiram servir o todo da cidade, sem perderem a alma da convicção. Os que ganharam o respeito dos adversários e a confiança dos cidadãos. Os piores costumam ser os cobardes, desde os indiferentistas aos comodistas. Devemos admirar a coragem de servir.

Os que servem sem servir-se diferem dos serventuários. Tal como os que pensam livremente não podem confundir-se com os intelectuários, a habitual mistura de intelectual e serventuário que procura lentilhas na mesa do orçamento, gerindo a engenharia da cunha, no presente situacionismo, de subsidiocracia e empregomania, onde não faltam manitus, disfarçados de bispos, com o habitual coro de viúvas

Soares entrou em empatia. Menos ideológica. Continua a dizer que um social-democrata é neoliberal. Mas a parte de avô da democracia é ternurenta.

Soares: Passos é “uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar”

Abr 23

O estado febril a que chegámos

Encurrulados pela turbulência, todos confirmámos, a partir do episódio parlamentar de hoje, como o presente modelo de decisões não consegue rimar com a teledemocracia e o videopoder e, muito menos, com o ritmo europeu. Até Sócrates acabou de clarificar o respectivo conceito de diálogo, quando não quis ouvir a oposição na casa da democracia. Preferiu a Razão de Estado, a declaração directa aos portugueses, através do monólogo ou da conversa em família e acabou por aliar-se a todos os que querem que o presente estado febril entre em convulsões verbais. Logo, importa que se elimine a linguagem de guerra que faz da política uma tensão entre o amigo e o inimigo, voltando-se ao consenso mínimo, sem precipitações, isto é, com eleições condicionadas a metas comuns entre os principais partidos do arco constitucional, numa espécie de coligação negativa, não contra Napoleão, Hitler ou outros fantasmas e preconceitos, mas pela boa esperança que dê nova mobilização às tormentas da politiqueirice. O curto-circuito da solidão no poder, de um só lider, de um só órgão de soberania, ou de um só partido chegou ao fim. E o Presidente da República tem um urgente espaço de decisão e de criação de condições para o regresso à confiança pública.  Cabe-lhe um intervencionismo selectivo, mas pode assumir a plenitude da autoridade, pelo menos para evitar que a governabilidade continue reduzida a mera oposição à própria oposição.