A presente decadência do dependencismo

Gota a gota, se vai espremendo o programa do futuro governo de coligação do FMI/FEEF/BCE com os futuros feitores e capatazes da nossa partidocracia, onde terão a benção daqueles que os portugueses consideram os principais culpados da crise.

Os políticos comentam, mas dizem que não são comentadores. Infelizmente, alguns comentadores, como eu, gostavam de não ser independentes. Gostavam mais de um Portugal que tivesse a vontade de ser independente. Com direito às escolhas que podem fazer os holandeses, os dinamarqueses, os suecos, os finlandeses ou os helvéticos.

A presente decadência do dependencismo não vai durar duas décadas. Porque já não podemos salvar o daquém com o além das guerras ou das colónias. Por outras palavras, o próximo governo ou refunda Portugal, ou vai ser o coveiro do regime. E é pena: este foi o melhor regime que até hoje tivemos, depois da monarquia liberal, no período regenerador, entre 1851 e 1891.

Aqui ninguém poderia escolher um Obama, um Churchill ou um Charles de Gaulle. O primeiro por ser neoliberal. O segundo por ser neoconservador. O terceiro por ser tropa e patriota. Aqui, só pronto a vestir da loja dos chinocas, num cabide da Rua dos Fanqueiros e muitos milagres anunciados na habitual Feira da Ladra.

O Estado reuniu hoje nos mercados os mil milhões de euros que pretendia obter em leilões de Títulos do Tesouro a três e seis meses, mas com os juros a subiram em ambos os prazos. O cruzamento de dados continua no mais do mesmo.

Vida nova era PS, PSD e CDS fazerem uma conferência de imprensa conjunta com autocríticas, manifestando sincero arrependimento pelos erros de endividamento cometidos e dizendo, numa folha de Excel, quais eram efectivamente as respectivas divergências no pequeno espaço de autonomia que resta à república dos portugueses.

Continuamos a confundir as árvores com a floresta. Tanto não temos o “esprit geométrique” da dedução, como nos falta o “esprit de finesse” da intuição da essência. Isto é, não admitimos a geometria espiritual, do cartesianismo e da fenomenologia, é só contabilidade de merceeiro e caldos de galinha.

Começo a perceber a razão da ascensão de Salazar à ditadura. É que ninguém foi capaz de assumir as críticas democráticas da Seara Nova à democracia situacionista da decadência. Até há alguns palermas que acreditam na acalmação e dizem que o Palácio de Belém pode ouvir os conselhos das forças vivas e compromissiar num qualquer dos controladores que não controlou nada. Irra!

Ouço o debate da comissão permanente da Assembleia da República. Não há um só discurso que esteja à altura das circunstâncias. Dissolvem-se em passa-culpas, num exercício verboso de campanha eleitoral. Com esta atitude de xico-espertismo, vamos mesmo ao fundo.

Quando o destino dos portugueses está na mão de tecnocratas apátridas, mesmo que sejam excelentes técnicos, não vejo nenhum deputado, salvo o discurso silogístico dos comunistas, que revele a fibra multissecular que nos deu pátria. Eu quero continuar a autonomia política, mas muitos ainda não assumiram que isso passa por refundarmos Portugal através de um novo pacto de união.

A pátria, a liberdade e a justiça não são de esquerda nem de direita. Deviam ser lugares comuns no diálogo entre adversários que constitui a essência da democracia. Se, de dentro ou de fora, puserem em causa os três em conjunto, ou qualquer um deles em particular, há que entrar em resistência. Aí não me importo de fazer alianças com adversários. Até no voto. Não trairei.

Algumas novidades nas listas do PS. Lacão faz as viagens na minha terra ao contrário, caminhando para o Bugio. Gostei particularmente da ascensão da Isabel Moreira, a quem desejo força e boa missão. Por acaso, foram os dois meus alunos.

Por acaso, salário vem do sal que a tropa romana recebia, em troca dos serviços prestados. Os atrasos, hoje confirmados, apenas confirmam a etimologia. Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Muito simbolicamente falando, em termos de hierarquia de valores.

O secretário-geral do PS comunicou ao presidente do Movimento Humanismo e Democracia (MHD), Rui Pena, o fim do acordo político, que tem como consequência a saída das deputadas independentes Teresa Venda e Maria do Rosário Carneiro. Pedro Passos Coelho não foi informado com a devida antecedência.

Comments are closed.