As homilias do regime, no Pátio dos Bichos, com tenda montada

Para vivermos o 25 de Abril, deveríamos fazer o 25 de Abril, rejeitando a brigada do reumático. Para cumprirmos Portugal, deveríamos refundar Portugal, sem a habitual pala nos olhos, sempre no retrovisor. Basta olharmos, não uns para os outros, mas todos na mesma direcção.

Hoje, os donos do poder cimeiro chamaram, aos respectivos palácios, palácios do povo. E a malta fez fila para visitar os jardins e as exposições na jaula.

Lá ouvi as quatro homilias do regime. Não foram discursos fúnebres, não pisaram as raias da literatura de justificação. Ficaram pelos exercícios de construção do epitáfio, com muita metapolítica, em tempo de política. O mais condecorado foi Fernando Pessoa, mas cada um leu o seu heternónimo. O melhor foi a música.

Se decompusermos, frase a frase, cada um dos quatro textos, muitas frase de um deles podem ir para a boca do outro. Dos quatro, enquanto chefes de partido, apenas Soares fez uma coligação pós-eleitoral, enquanto Sampaio, a fez pré, com o PCP, mas para uma autarquia. Olha para o que eu digo, não para o que fiz…

Era eu um puto, adjunto político do VI Governo Provisório e fiz um inquérito com pedaços de programas dos jovens partidos, à laia de totobola. Pedi a vários políticos dessa coligação que respondessem. Até diziam que coisas do CDS eram do programa do PCP. Eis o regresso à nostalgia do ventre materno, ao hermetismo sem hermenêutica.

Foram quatro personagens à procura de autor, quatro textos de um contexto, provocados por um pretexto, como se os nomes correspondessem à coisa nomeada. Porque qualquer um poderia subscrever o abaixo-assinado de qualquer dos outros, como venerandas figuras dos chefes de estadão. Ficaram todos encavacados, porque o último a rir é que riu de vez.

A tenda de Belém é equivalente às procissões onde desfila a banda dos Homens da Luta, como sacristães que perderam o sentido dos gestos. Todos querem vender gato por lebre e facturar os restos. Prefiro os pirilampos que chegaram e as papoilas que despontam, para que as palavras também correspondam à prática.

Para vivermos o 25 de Abril, deveríamos fazer o 25 de Abril, rejeitando a brigada do reumático. Para cumprirmos Portugal, deveríamos refundar Portugal, sem a habitual pala nos olhos, sempre no retrovisor. Basta olharmos, não uns para os outros, mas todos na mesma direcção.

António Barreto voltou ao palco mediático. Para dizer que os 47 já são 4 000. E que vamos ter novos partidos nos próximos anos. Como o presidencial não é seguro e já é velho e como, mais à esquerda, já há partido, pode ser que esteja para aí a espreitar uma espécie de partido republicano. Infelizmente, sou monárquico.

Hoje é sempre o dia em que relembro Mendes Cabeçadas. Foi revolucionário do 5 de Outubro de 1910. Foi o primeiro chefe do 28 de Maio de 1926. E liderou o reviralho anti-salazarista de forma militar. Perdeu sempre, mas morreu tentando.

O regime, desencadeado pelos resultados eleitorais de 25 de Abril de 1975, o que se realizou de forma constitucionalmente pluralista na pós-revolução soarista e cavaquista, encontra-se numa encruzilhada de que só pode sair através de uma escolha eleitoral e da subsequente definição governamental. Que será mobilizadora ou simplesmente coveira.

O saudosismo do PREC é directamente proporcional ao da união dita nacional. O primeiro foi uma subversão a partir do aparelho de poder. A segunda foi um pretenso partido antipartidos, nascido de uma resolução do conselho de ministros. Ambos foram fraudes.

Para a maior crise dos últimos cem anos, com a “troika” escondida atrás do hotel onde viveu a Beatriz Costa, lá ficámos entalados entre as transmissões em directo da RTP-Memória e os habituais críticos de televisão da partidocracia com as “cassetes”. Infelizmente, um velho não pode voltar a ser novo e as águas do rio não passam duas vezes sob a mesma ponte, mesmo que lhe mudem o nome.

 

 

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