Cenas beckettianas à espera do resgate

“Alors, on y va?”…”Allons-y.” Diz o Vladimir para o Estragon no “À Espera de Godot”. Mas afinal “Ils ne bougent pas.” Está tudo no Samuel Beckett. Na peça publicada poucos meses depois de eu ter nascido. Já pisámos o risco do funcionamento regular das instituições. A não ser que o normal seja haver anormais. Glosando Almeida Santos de outras eras: não quero viver num manicómio em autogestão! O burlesco seria divertido, caso o fundo não fosse trágico! Dirão os especialistas em “marketing”: mais uma vez, o chefe marcou a agenda! O senhor banqueiro Salgado não tem nenhuma legitimidade para invocar a “unidade nacional” ou o “projecto europeu”. Tem apenas a obrigação patriótica de cumprir o seu dever como banqueiro. O poder da facção lusa da geofinança está subordinado ao poder político. E ele já demonstrou como não tem legitimidade para aí nos dar sentenças. Nem invocando o estatuto de arrependido. Porque sou liberal, quero a política liberta da pressão do banqueirismo. E é também como liberal que invoco o legado de Mouzinho da Silveira, o principal dos criadores do Estado português contemporâneo. Pelo menos na limpeza das receitas e das despesas. Se continuarmos entre empresas de economia mística, continuaremos a nacionalizar os prejuízos e a privatizar os lucros.  O vasquinho, na “Canção de Lisboa”, também dizia: “chapéus, há muitos”. Mas só para os “palermas”. Não é na 25ª hora que alguns conseguem sacudir a água do capote. Não é dignidade do trabalho que nos agrava o défice. São antes os juros da dívida e as PPPs, as contratadas e as clandestinas. Não estou disposto a continuar a pagar sem a necessária democracia fiscal. Também não quero ser protectorado dos banqueiros dos sucessivos regimes. Esta polémica está a colocar em risco o normal funcionamento das instituições e sugere que se sigam os ex-presidentes da República, que têm tido “uma voz superior a estes partidarismos e a este facciosismo”. Estamos a pisar as raias do funcionamento regular das instituições e a pisá-las, sobretudo, num órgão que devia dar o exemplo”. Citando A. Santos, “isto não pode ser um manicómio em auto-gestão” (JAM, à Renascença). Finalmente, falou o socialista francês, director do FMI e eventual candidato à presidência em Paris, contra a direita. Como é que eu posso acreditar em banqueiros que, ainda há poucos meses, defendiam o betão pelo betão e tratavam a classe política como meros empregados, enquanto nada diziam de mostrengos que agora são os simples contribuintes a terem que pagar, como no caso de suprapartidos do bloqueio central, bem expressos pelo modelo BPN, onde, à esquerda e à direita, se recrutavam ex-ministros para que a procissão da roubalheira criminosa nos sugasse, repetindo o modelo Alves dos Reis e dos seus impolutos administradores, feitos inocentes inocentes úteis, de acordo com os velhos manuais da psicologia da burla! Votarei no político que venha ao espaço público declarar: o problema português não é o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário… Logo, investiguem-me! Aquele que apanhar na minha vida uma só cedência à roubalheira, fique certo que imediatamente me demitirei! O problema político está na desconstrução da linguagem teológica sobre a unidade na diversidade, entre a santíssima trindade laica e a ira divina da ajuda externa que é coisa bem mais prosaica sobre o paga o que deves ao ritmo de “ultimatum” já sem “heróis do mar”… Não foi por alguns, foi só por ele que ele pensava que era o todo e todos tiveram de suspendar a política e voltar à casa, com oikos despote Como disse ontem Carrilho, propaganda hoje é contar-se uma história simples, fingindo que a realidade é ficção e levá-la até à exaustão, com um herói e um vilão, a salvação e o inferno. Digo eu: vivemos em messianismo de telenovela e o povo pode não querer ser autor e continuar como simples auditor. Por mim, prefiro desconstruir, para que venha a verdade em cada um Os contadores de história ainda mandam, entre PECs e FMIs, ao ritmo dos televangelistas, reinventando o “Gegenreich”, o “Anticristo” e a própria antinação, como os derradeiros salvadores deste orgulhosamente sós de má memória. Espero que os socialistas simples não se misturem com este nacionalismo de opereta. Leio mais um comunicado, logo certificado pelo outro, porque antes de o mesmo ser emitido foi negociada a confirmação. Podemos também certificar que um quarto de hora antes do presente situacionismo morrer ele ainda estava bem vivinho com muitos mouros na costa e alguns discursos daquilo que outrora se designou como brigada do reumático. O que eu disse não foi aquilo que vocês ouviram do que eu disse, eu sempre disse tudo aquilo que não me impede de dizer aquilo que me apeteça dizer. Infelizmente, ainda há quem pense que possa dizer alguma palavra em que possamos confiar! O velho partido que nos trouxe o FMI por duas vezes, chegou à conclusão que não há duas sem três. Aliás o director do FMI é um tal de Strauss Kahn, por acaso camarada da Internacional Socialista. Pode ser um argumento que o nosso JSPS use em seu favor… A teoria mais inspiradora que eu conheço tem a ver com o mexilhão, embora esteja momentaneamente suspensa a apanha dos bivalves, para que o mar enrole na areia e dado que as ondas do mar são brancas e no centro são amarelas, prós coitadinhos dos que nasceram e votaram no vira-o-disco-e-toca-o-mesmo Uma jangada de náufragos famintos Portugal já entrou na era pós-gâmica da história, mas sem trazermos canela nem fazermos cristãos. Ficámo-nos pelo Cabo das Tormentas, levámos nas trombas do Adamastor e corremos o risco de afundamento se passarmos até diante do Bojador…pesada é a pedra desta jangada, com tantos náufragos famintos! ‎Julgo que nunca tivemos muito bom senso. E em vez de ter ou estar era melhor o ser… Tenho outra solução: um Portugal feito de “portugueses à solta”, em vez de um Estadão em soltura, ou absoluto, sobretudo para gáudio das empresas de regime e a casta banco-burocrática que mantêm estas sucessivas ditaduras da incompetência, dominadas por uma classe política de bonzos, animando jogos florais de endireitas e canhotos… O mal a que chegámos vem da empregomania, do carreirismo cobarde e de órgãos inventados para que se finja o cumprimento de funções. Por outras palavras, os empresários devem apenas ser empresários. Em política, nem sentenças! Porque a maior fuga que se nota de Portugal não é de capitais. É de gente, de pessoas concretas, à procura de liberdade Hoje, alguma coisa de novo começa a mexer esta carcaça de conservadores do que está que nem sequer são conservadores do que deve ser Depois do Vladimir, fala o Estragon. Para haver diálogo, tem que haver lugares comuns (os “loci” ou “topoi” da velha dialéctica que devia ser sempre o método da democracia). Continuaremos à espera. Preferia fazê-lo por D. Sebastião. A única coisa que a classe política dos náufragos discute: qual o meu lugar na lista e quantos é que vamos meter.  Ser da classe política ou independente à espera de um convite é a grande azáfama de cerca de cinco mil portugueses entre os capitaleiros da sociedade de Corte e os anjos da província que querem bilhete para uma adequada queda. Tudo em nome da defesa do quadrado de muitas vidinhas de subpolíticos profissionais pouco dados ao conselho antigo: vale mais torceres do que quebrares, tu não sabes fazer mais nada!

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