Havia uma grande corrupção, na verdade, mas muito menos devorismo do que cepticismo

Fixem este nome: António Maria Pereira Carrilho (1835-1903). Foi o inventor da Caixa Geral de Depósitos, enquanto director-geral da contabilidade pública. Um desses burocratas que deixou nome nas ruas de Lisboa e que, depois da bancarrota de 1892, conseguiu o convénio com os credores estrangeiros em 1902. E que durou 99 anos.

O chefe do governo francês, Ribot, em 1892, em discurso no parlamento de Paris, chegou a falar na necessidade de uma “intervenção colectiva de todas as potências interessadas”. O último pedaço de empréstimo foi pago em 2001 (sic). Regicídio, republiquicídio e ditadura são a consequência directa dessa agiotagem e dessa incompetência. Só que agora a batalha de Marracuene é o ópio Liga Europa em futebol.

“O maior perigo social, mais do que nas deflagrações do petróleo e nas bombas de dinamite, está na tavolagem dos partidos e na política de arranjos; está no emprego dos expedientes e no abandono dos princípios” (Padre Alves Mendes em 1892, na Igreja dos Congregados, no Porto).

“Pior ainda do que as outras votações simuladas, é a vitória obtida à custa da venalidade das consciências, da corrupção dos eleitores e da falsificação do sufrágio livre, por meio de toda a sorte de indignidades” (Jornal O Século, em 1892, depois da bancarrota).

“É de suicidas o povo de Portugal, talvez ele seja um povo suicida” (Miguel de Unamuno, na imagem, ano de 1893, ano um depois da bancarrota).

“O português é constitucionalmente pessimista” (Miguel de Unamuno, 1894, dois anos depois da bancarrota)

“Não há Portugal sem África” (António Ennes, 1895, três anos depois da bancarrota). “O país já não pode com tantas possessões” (José Bento Ferreira de Almeida, ministro que andou à bofetada no parlamento).

“Não é de hoje: é desde há anos que está travado um duelo entre o País e a oligarquia política” (J. Dias Ferreira, quatro anos depois da bancarrota).

“A minha superioridade consiste em ter apenas uma cara…Vossa Excelência, sendo um político, não tem apenas uma” (Joaquim Mouzinho de Albuquerque sobre José Luciano, em 1897, cinco anos depois da bancarrota).

“No poder têm estado verdadeiras quadrilhas de ladrões” (J. Dias Ferreira em 1897, seis anos depois da bancarrota).

“Em volta do governo está-se planeando uma caterva de negócios” (António Ennes, em 1900, oito anos depois da bancarrota, oito anos antes do regicídio)

“Havia uma grande corrupção, na verdade, mas muito menos devorismo do que cepticismo” (José Agostinho, 1902). ‎

“Os governados não respeitam nem estimam quase nunca os governantes, e ao despotismo de cima, respondem com a má vontade e a rebelião de baixo” (Bernardino Machado, 1903). Por outras palavras, uma década perdida depois da bancarrota, mesmo no ano um do acordo com os credores. O regime só vai cair, sete anos depois, e a tiro.

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