Nov 20

Os chineses do século XVI diziam

Os chineses do século XVI diziam que os portugueses eram bárbaros, isto é, diabos vermelhos, porque comiam pedras (pão) e bebiam sangue (vinho), tal como outros povos diziam que os cristãos eram antropófagos porque, em seus cerimoniais, comiam o corpo de um deus feito homem. É o que fazem todos os que são marcados pela incompreensão face aos símbolos decepados da unidade espiritual de que os rituais são simples parcela. É por esta e por outras que detesto todo o sectarismo que pretende monopolizar o sagrado para a respectiva liturgia e que, fradescamente, semeia a intolerância, insinuando o ridículo face as alfaias que os outros usam para os mesmos fins. Afinal, todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação. Contudo, mais ridículos ainda são os que não têm liturgia sentida por dentro, ou os que se ficam pelos sucedâneos e pelas vulgatas de certo dogmatismo pretensamente antidogmático. Por mim, que, sobre as verdades eternas, apenas sei que nada sei, resta-me continuar a procura da verdade, pelos variados caminhos que segue aquele que apenas pretende ter a boa vontade daqueles que querem conquistar a glória do homem livre. Porque ninguém pode deter o monopólio do “imprimatur” e do “nihil obstat” para a edição desses manuais de metodologia, com os consequentes livros únicos dos inquisidores, vanguardistas, vigilantes da revolução, ou contínuos e sargentos do senhor director.

Nov 20

Das tradicionais formas de sermos imbecis…

A Europa dos partidos e das cores políticas é dominada por duas grandes multinacionais partidárias: a do PPE (onde estão PSD e CDS) e dos socialistas (do nosso PS), dita agora progressista. A terceira grande força, a dos liberais, não tem representantes em Portugal. seguem-se conservadores, verdes, vermelhos (esquerda europeia unida dos nossos PCP e BE) e populistas, que quase todos dizem de extrema-direita. Um mosaico de representantes de representantes que correm o risco de não nos representarem. Por cá, somos dominados pelos bonzos das duas principais multinacionais, não há liberais, há representantes da sexta força, a dos canhotos, e não há endireitas da extrema-direita. Isto é, a nossa representação nacional ainda é menos representativa. Por cá, a direita e a esquerda são mais formas tribais do sindicato das citações mútuas, onde a esquerda não costuma ler o que a direita escreve e a direita diz que não é de direita, para ser a direita que convém à mistura de socialismo catedrático e direita dos interesses que, com Cavaco e Sócrates, se autoqualificou como esquerda moderna. Poucos tiveram a coragem de esquerda de se dizerem de direita, bem como a coragem de direita de se dizerem de esquerda. Por isso, longe de tal hemiplegia, prefiro ser um radical do centro excêntrico, que é uma forma de não ser de esquerda e de não estar à direita, porque até muito da actual esquerda está mais à direita do que eu, que sou contra os fantasmas de direita e os preconceitos de esquerda. Sou um velho liberal que lhes faz o gesto do Zé Povinho. Ainda ontem, num debate público televisivo, concordei com Boaventura Sousa Santos. O que importa, agora, é salvar a democracia e discutir, depois, a esquerda e a direita. Apenas acrescentei que os mercados nunca foram adeptos ou adversários da democracia, e o que precisam é de ser domados pela política, através de velhos e novos centros que os reduzam ao espaço pré-político da casa (oikos dos gregos, donde veio economia), onde há donos (de domus e dominus, em latim, onde há apenas patrões). Um dos que falta é a Europa política, como democracia de muitas democracias. Não cheguei a dizer que nos falta um verdadeiro governo de emergência nacional, aumentando o espaço de apoio da aritmética parlamentar e começando a conjugar a necessária geometria social. Porque podemos entrar em contraciclo. Primeiro, a democracia. Depois, as direitas e as esquerdas. Para não sermos imbecis. “Ser de izquierdas es, como ser de derecha, una de las infinitas maneras que el hombre puede elegir para ser un imbécil: ambas, en efecto, son formas de la hemiplejia moral… “(José Ortega y Gasset, 1937)

Nov 20

Apesar de saber que o capital não tem pátria

Papa vai amanhã a São João Baptista de Ajudá. Ardeu, mas ainda está de pé. Boa viagem. Foi formalmente espaço sob soberania portuguesa…até 1961.

Em Itália, anuncia-se o começo da Terceira República e o regresso da grande política. Na Alemanha, Merkel reforça a popularidade. Em Espanha, a chamada direita pode alcançar a maioria absoluta. A Europa continua no fim da navalha. Esperemos que a política volte a domar os mercados. E que os Estados acabem com a extorsão fiscal dos cidadãos, como em Portugal.

A Europa dos partidos e das cores políticas é dominada por duas grandes multinacionais partidárias: a do PPE (onde estão PSD e CDS) e dos socialistas (do nosso PS), dita agora progressista. A terceira grande força, a dos liberais, não tem representantes em Portugal. seguem-se conservadores, verdes, vermelhos (esquerda europeia unida dos nossos PCP e BE) e populistas, que quase todos dizem de extrema-direita. Um mosaico de representantes de representantes que correm o risco de não nos representarem.

Por cá, somos dominados pelos bonzos das duas principais multinacionais, não há liberais, há representantes da sexta força, a dos canhotos, e não há endireitas da extrema-direita. Isto é, a nossa representação nacional ainda é menos representativa

Por cá, a direita e a esquerda são mais formas tribais do sindicato das citações mútuas, onde a esquerda não costuma ler o que a direita escreve e a direita diz que não é de direita, para ser a direita que convém à mistura de socialismo catedrático e direita dos interesses que, com Cavaco e Sócrates, se autoqualificou como esquerda moderna. Poucos tiveram a coragem de esquerda de se dizerem de direita, bem como a coragem de direita de se dizerem de esquerda. Por isso, longe de tal hemiplegia, prefiro ser um radical do centro excêntrico, que é uma forma de não ser de esquerda e de não estar à direita, porque até muito da actual esquerda está mais à direita do que eu, que sou contra os fantasmas de direita e os preconceitos de esquerda. Sou um velho liberal que lhes faz o gesto do Zé Povinho.

Ainda ontem concordei com Boaventura Sousa Santos. O que importa, agora, é salvar a democracia e discutir, depois, a esquerda e a direita. Apenas acrescentei que os mercados nunca foram adeptos ou adversários da democracia, e o que precisam é de ser domados pela política, através de velhos e novos centros que os reduzam ao espaço pré-político da casa (oitos dos gregos, donde veio economia), onde há donos (de domus e dominus, em latim, onde há apenas patrões). Um dos que falta é a Europa política, como democracia de muitas democracias.

Não cheguei a dizer que nos falta um verdadeiro governo de emergência nacional, aumentando o espaço de apoio da aritmética parlamentar e começando a conjugar a necessária geometria social. Porque podemos entrar em contraciclo. Primeiro, a democracia. Depois, as direitas e as esquerdas. Pará não sermos imbecis.

A minha pátria é a língua de Malangatana, Pepetela, Barbosa, Tenreiro e Cabral. De Pessoa e Cecília Meireles.

A democracia pode vir a ser posta em causa. Não é Otelo que o conspira. É Soares que o memorializa.

Só hoje é que revi o eixo do mal de ontem. Onde Relvas e Duque foram os bombos da festa, deste jogo de poder da aparente não teoria da conspiração. Apenas me foi dado concluir que só um dos três do plano inclinado é que não chegaram aos cadeirões ministeriais…

Quando os negociantes da troika fazem comunicações directa aos lusitanos, como se eles fossem selvagens a civilizar-se pelos WASP da geofinança, convinha dizer-lhes que não somos meras folhas do livro de merceeiro que chegou ao poder antes de Draghi, Papdemos e Monti e antes de Borges se despedir da Lagarde por meras razões pessoais.

Alguns dos que pretendem economificar a política, invocando a titularidade de uma arte que alguns qualificam como a rainha das ciências sociais, talvez devessem ter a humildade não positivista de reconhecer que ela se tem desvalorizado imenso pelo ridículo. Não por causa da ciência, mas pelo espaço que vai de Pinho a Álvaro, com previsões sobre a relação entre o TGV e o surf na Costa da Caparica.

A velha direita do espanholismo castelhanista, liderada por um galego, e vestida de moderação cerebral, terá alcançado a maioria absoluta. Apenas me recordo do debate que Rajoy teve com Rubalcaba. O futuro presidente do governo de Madrid, mesmo em diálogo, tinha de ler a papelada, não fosse a emoção trair o guião que o conduzia. Viva a pilotagem automática, nesta nossa península onde quase todos poderemos derrapar em governanças sem governo

Um outro olhar sobre as eleições nas Espanhas. Catalunhistas da CIU vencem, pela primeira vez, nas gerais, na Catalunha. Independentistas esmagam no País Basco, onde sai vencedor o estreante, Amaiur, que até supera o PNV. Sou solidário, especialmente com os meus amigos de Sant Jordi.

O sistema do “spoil system”, da distribuição de um pretenso poder conquistado, como se ele fosse uma coisa, continua incólume e continua a não haver provas de escolhas onde o risco da competência supere o conforto da lealdade. Por outras palavras, continua a dança de cadeiras entre o bloco central alargado da partidocracia. E a desculpa do costume: não por eu chamar-me Pedro que não posso ser nomeado provedor da santa casa das apostas.

O BCP tem na Bolsa uma acentuada subida. Parabéns ao Pedro, o Africanista. Sete horas em Luanda trazem muita massa.

Estou a fazer análise ideológica sobre a relação do afro-estalinismo com a crise geral do capitalismo, ainda recentemente invocada por Jerónimo de Sousa. Até reparo na circunstância de o Partido Comunista da China ser o gestor de uma das principais caixas da especulação financeira global.

Apesar de saber que o capital não tem pátria, como recordava o velho Karl Marx, quero saudar a chegada de capitais angolanos, chineses, vietnamitas e venezuelanos. Sei relacionar o marxismo-leninismo, até ex-maoísta, com o progresso da humanidade, à luz da teoria do imperialismo, essa que Vladimir Ilitch Ulianov foi plagiar a Hobson. É que este era liberal e tudo. Pelo menos, Durão Barroso, antigo autor de artigos sobre o georgiano Estaline, conhece, de ciência antiga, tais meandros dos dissidentes maioritários, ou bolcheviques, do Partido Social-Democrata da Rússia. Marx era militante dos sociais-democratas alemães.