Há sempre césares quando emerge a chamada “intelligentzia”

Há antigos ministros das finanças que só politicamente existiriam porque foram ajudantes de políticos como Soares e Santana, que percebiam tanto de finanças como Cristo, apesar de terem biblioteca. Quem neles se vicia corre o risco de entrar no desespero dos meios, sem perceber que eles só existem se permanecerem os fins, nomeadamente coisas como crenças, nações e humanidade. Só engenheiros de sonhos políticos, dotados de um mínimo de patriotismo científico nos podem despertar. As únicas ideias que valem a pena são as ideias pelas quais se está disposto a morrer. E as pessoas só morrem por aquilo que amam. Ninguém morre por ministros, contabilistas, comentadores e treinadores de bancada.

O laboratório mais antigo de quem pensa a política continua a ser a longa guerra civil romana que opôs os cesarianos António e Octaviano aos republicanos Brutus e Cassius, com Cleópatra pelo meio. Claro que sempre torci por Cícero contra o concentracionarismo de César e a emergência do principado e do império. E julgo ter compreendido a causa da queda da república romana: quando as instituições se enredaram em aristocracias possidentes e oligarquias de privilegiados e os cesarianas passaram a aliar-se à dinâmica da revolta popular e à instrumentalização da abstracção pátria.

Roma, de guerra civil em guerra civil, de triunvirato em troika, lago acabou em dominado, quando o imperador, apenas aclamado pelos chefes da soldadesca, passou a assumir-se como “dominus et deus”. E tudo se agravou quando ele se converteu ao monoteísmo e fez com que Roma caísse na teocracia do cesaropapismo. Por isso é que continuo pelo politeísmo superior da republica romana, mesmo em forma de reino, sempre contra as monarcias

Quase diria o mesmo do recente filme sobre Freud e Jung. Onde o pai fundador queria cesarismo, isto é, uma revolução com dogmas e ortodoxos, nomeação de um príncipe real e o estrondo de disciplinados apologetas e propagandistas reverenciais. Prefiro o dissidente, o que quis continuar a dizer que só sabia que nada sabia, para integrar a corrente nos mistérios antigos e assim captar a incerteza do futuro, com a consequente aventura da individualidade. Sou da seita de Cícero e Carl Gustav.

Uma só parangona de hoje, desfaz todo o beatífico esforço de conjugação do bloco central, no propagandismo que me chegou ao começo da madrugada, naquela RGA de elites: “Administradores hospitalares ligados ao PS substituídos por gestores do PSD e CDS”. O mais do mesmo, como se esperava.

Recebi um “mail” onde me comunicam que eles elegeram um dos que escolheu quem agora o elegeu. Na Primeira República, na nova república velha, eram menos hipócritas: o ministro até nomeou para a de Coimbra um correlegionário, capitão de qualquer arma. Não é por qualquer destas vias que a coisa volta a ter alma. Mas, por favor, não lhe chamem gestão democrática. É mais continuação das forças vivas, como ministros de espada à cinta e ilharga larga.

Ninguém muda com os que querem só voltar atrás, para que os mesmo continuem a ordenar. Só com libertação deixará de haver esta liberdade vigiada por um clube com rigoroso direito de admissão e cantilenas desafinadas, com letras do sindicato das citações mútuas e do “yes, minister”.

Acordai, dormentes e enjoados! O novo mundo está aí por descobrir e vocelências ainda glosais os lençóis dos velhos do restolho? Olhem que os homens do verso já cantam outros fados. Os das saudades de futuro.

Há sempre césares quando emerge a chamada “intelligentzia”, isto é, uma “nomenclatura” constituída por esse “tertium genus” a que Gilberto Freyre chamava “intelectuário”, quando um pretenso intelectual não repara que é um simples serventuário.

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