Farpas

Ouvi ontem o sotaque beirão de um homem certo num lugar errado. Um excelente juiz que o sistema obrigou a aventuras mediáticas onde é fácil determinarmos que não foi com ele que ocorreram as coisas que ele disse ter iniciado. Eu preferia um servidor público que, a nove meses do respectivo limite de idade, não fizesse epitáfios nem mandasse recados para os grupos de pressão que o minimizam como situado nas circunstâncias. Por outras palavras, este não é o estilo do necessário herói que a república precisa no lugar. Precisamos de um eu e não de um ego, rodeado de outros egos e egas…

A vontade de poder, o amor do poder e o poder pelo poder, a dois ou três anos do limite dito da idade, em quem tem angústia pela finitude e faz dos cargos uma história que quer contar aos netos, ou antevê uma perpetuidade dentro da coisa num outro cargo pode levar a que os jogos que ele controla saiam todos endogamicamente viciados, sobretudo quando encheu a coisa de amigaços, clientes, cunhados e jovens viúvos ou viúvas, todos donos da casa desesperados. O contribuinte é que paga e a instituição dita pública corre o risco de assim ser clandestinamente privatizada. O filme está, neste momento, a correr em muitas e variadas salas desta decadência com muitas troikas…

Adoro aquela retórica que se diz contra a retórica, uma retórica tão boa que até parece não ser retórica, onde a palavra, puxando a palavra, finge que faz acção. Porque, entre a teoria e a prática, tudo é praticamente teórico, quando não é teoricamente prático. Há séculos que nos enrodilhamos nesta armadilha de sermão, para que, dizendo eu que faço, possa ficar no vértice do argumento de autoridade, dizendo, do outro, que ele não presta, porque não faz, quando, muitas vezes, quem tem o poder, isto é, o monopólio da palavra, apenas a usa para não deixar o outro concorrer e, portanto, fazer. O bom saber, caso não seja fazer, é papagaio de papel. Há muitos operacionais do situacionismo que adoram transformar os conceitos em preceitos.

Se ninguém morre se a Grécia sair do euro é porque, um quarto de hora antes de morrermos, já estamos todos mortos, mesmo que digamos sermos “encore vivants”. Pobre Europa semovente, para que Merkel, Sarkozy e o restante PPE não percam eleições.

Um determinado senhor pede que eu seja erradicado de uma associação de que não faço parte. Agradeço o esforço, mas a sítios que ele pensa ser dono, sou costume ir por convite, precisamente para ele não me erradicar. Um problema de hospitalidade e de boa educação. Ou melhor, de berço.

 

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