A ditadura dos factos

Um ano depois, podemos reconhecer a verdade da ditadura dos factos: vivemos em protectorado, o memorando passou a ser superior à constituição, e 85% da nossa representação parlamentar subscreve o estado de excepção. Por outras palavras, a UE, com duas cabeças na troika, bem como o FMI, são uma espécie de super-estados da geo-finança e da geo-economia. E o dito bom e velho Estado, o estado a que chegámos, tem de parecer bom aluno, isto é, governança sem governo, em regime de pilotagem automática, para que os protectores lhe possam dar boa notação e troikos. Infelizmente, ficou à solta o foco colonizador das velhas companhias majestáticas, as dos privilégios da economia privada, mas sem economia de mercado, privatizando os lucros e nacionalizando os prejuízos. E sem justiça, tanto não há a mobilização da república, ou comunidade, como poderá responder-se, ao regime do governo de espertos, com esse estádio superior do indiferentismo que é a anomia. Por outras palavras, podemos deixar de ter portugueses, enquanto cidadãos individuais, autonomia da sociedade civil, instituições e empresas. Logo, o Parlamento é o espelho dessa nação sem a força viva do povo; o PS e o PSD/CDS, espelhos um do outro; e o presidente, mera bissectriz de tal paralelograma de forças. Daí, o perigo de uma democracia sem povo, se a partidocracia nos conduzir à democratura. Porque, nesta Europa a várias velocidades, sem solidariedade nem inclusão, com o modelo social declarado morto pelo presidente do BCE, poderemos ser apenas estipendiários, os que apenas trabalham sem cidadania, ou, dito de outro modo, os que precisam do cheque e não podem chocar-se muito, até porque adoram pirómanos-bombeiros, mesmo com emblema de ministros.

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