Chantal Maillard

Mesmo aqueles que acedem ao clube do pensamento pela via das vulgatas e da propaganda, quando se tornam militantes, podem atingir a autenticidade. Até no fundo de uma ideologia materialista se pode chegar à ascese. Conheço niilistas que no tudo do seu nada encontraram a dúvida criadora que lhes deu a beleza do espírito. E assim ascenderam. Daí, a importância dos símbolos.

No existe el infinito:
el infinito es la sorpresa de los límites.
Alguien constata su impotencia
y luego la prolonga más allá de la imagen, en la idea,
y nace el infinito.
El infinito es el dolor
de la razón que asalta nuestro cuerpo.

(Chantal Maillard)

Há quem jure, em palavras de mentira, que quem, como eu, fala publicamente anda de braço dado com o poder, porque, para tanto, é remunerado. Para os devidos efeitos, comprometo-me a oferecer todos esses proventos a quem vier à rede, provando-o. Basta que solicite tal informação ao fantasmagórico remunerador, naquilo que deve ser informação pública. Não cobro nada pela ofensa. Apenas reivindico a verdade. Porque, calando, pago duas vezes: pelo que não recebo e pelas doçuras com que o poder me trata. Amen!

Hoje, ando às voltas com Chantal Maillard: “cuando la lógica se aplica en ámbitos que rebasan el conocimiento, es un juego parecido al del ajedrez: tienes unas piezas y se juega en el tablero, pero si pretendes que ese tablero es la realidad exterior, es tramposo. Juegos metafísicos los hay en todas partes, pero la trampa es creer en los grandes conceptos, cuando creemos que las palabras dicen algo de lo concreto. Lo concreto es singular, y los conceptos son universales”.

O máximo de poder a que podemos aceder é renunciarmos a poder que manifestamente nos deram. Aquele poder feudal que apenas nos é fingidamente ofertado, para que, depois, ele se retribua em obediência sem consentimento. O que só se consegue quando se rejeita o título, o símbolo e a pretensa honraria que o exercício do poder parece.

A principal forma de poder que se pode exercer é alcançar aquele estatuto que permite a cada um poder não saltar para o cavalo do poder com que nos podemos cruzar. O que impõe não ter cavalariça onde gaurdá-lo. Ou sacristia onde ele possa ser exibido. Só com o anarquismo místico da procura da verdadeira ordem se alcança tal forma de ascese, isto é, de não dependência face aos bobos da Corte.

Ter poder com autoridade é não ser como aqueles politicamente correctos que, quando querem ser ouvidos, têm de proclamar que aquilo que vão dizer não é politicamente correcto. Mesmo quando, como é costume, eles continuam sem dizer nada.

Passámos do que estava para o que está. O que estará pode vir a ser aquilo que esteve. Se continuar o estar em vez do ser.

Há certas modas que deveriam já ter passado de moda. Nomeadamente, o neomarialvismo da revolução por cumprir, a que, assumindo o hierárquico e o proibicionismo do poder formal, diz que não pode cumprir a sua função porque há capitalismo, Estado, tempestades de granizo e trovoada.

Há nomes que, para corresponderem às coisas nomeadas, precisam de formas humanas que não estejam gastas pelo mau uso de certo estilo e, muito menos, se tenham prostituído pelo abuso discursivo. Esse disco riscado continua a provocar-nos alergia. Mas vai tocando o mais do mesmo. Não sou rei para o mandar calar. Apenas desligo.

 

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