Mar 02

O país da gleba hipotecária

 

O país da gleba hipotecária, fabricada para uso da banca e dos patos bravos, financiamento partidocrático e oleosidade da futebolítica, com música celestial de políticos, politólogos e pulhíticos, não vai hoje a fátima nem ao fado, mas ao confronto do Pinto da Costa com o Luís Filipe Vieira, com multinacionais da bola vestidos com a ilusão de camisolas dos dragões e dos águias, antes de preencher o formulário do IRS da troika. Golo!

É preciso que o país da realidade, o país dos casais, das aldeias, das vilas, das cidades, das províncias, acabe com o país nominal, inventado nas secretarias, nos quartéis, nos clubes, nos jornais, e constituído pelas diversas camadas do funcionalismo que quer e há-de ser (Alexandre Herculano, na Carta aos Eleitores do Concelho de Sintra, de 1858)

Se os nossos seleccionadores de elites, os dirigentes dos principais partidos, fossem publicamente escrutinados, como os da futebolítica, já teriam direito a adequadas chicotadas psicológicas. Basta lembrar-nos das cenas que precedem a engenharia das listas eleitorais, ou das manobras de sociedade de corte que envolvem os congressos partidários para as escolhas dos comissionados. Ainda se lembram das cenas que envolveram o presente hemiciclo de São Bento? Aquele onde Basílio Horta+Fernando Nobre=0…entre o modelo Catroga e o desembarque da troika..

Se eu fosse um velho republicano, queria uma espécie de Confederação Helvética, até para a tropa. Como eu sou português, quero o que, de melhor, me trouxe Abril: autarquias locais reforçadas e responsabilizadas e extensão das autonomias regionais políticas ao Continente. Quero um Portugal federalista no plano interno.

O programa da regeneração resume-se a uma frase de Alexandre Herculano: para que o País possa ser administrado pelo País. Acrescento eu: e para que o Povo não continue a ser governado da partidocracia, para a partidocracia e pela partidocracia. Temos de impedir a emergência de uma democracia sem povo, com uma eventual democratura, mesmo que seja em nome da Santa Aliança da troika.

Não fui apenas eu o autor do texto dos dois últimos postais. Foi um velho militante do comunalismo do velho PPM e um activista do movimento Portugal Plural, quando se aliou ao velho federalismo republicano e socialista, em nome das autonomias que vêm dos povos contra o Estadão, através da urgente Patuleia dos resistentes intelectuais ao regresso do despotismo iluminado.

O ministro da província e os deputados da província, muitos com pronúncia do norte, são exactamente aqueles a quem os donos do poder encomendam as falsas reformas locais, típicas do capitaleirismo dominante. A única reforma que permitiria superar a retórica passa pela extinção do estadão, isto é, do conceito de centro da sociedade de corte, pela efectiva regionalização e pelo reforço das renovadas autonomias locais, através de forais contratualizados e de novas comunas sem carta, para que o Estado volte a ser um concelho em ponto grande.

Mar 01

Quanto mais ao povo a alma falta

“Quanto mais ao povo a alma falta, mais minha alma atlântica se exalta” (Fernando Pessoa).

Ontem, fui convidado a assistir a uma reunião bem publicamente discreta. O meu amigo orador falou de relações luso-americanos. E de uma instituição modernamente refundada em 1717.

 

Fev 29

Notas sobre uma comunicação presidencial, com boas intenções….

Cavaco Silva faz comunicação directa ao país e à Europa. Critica a política europeia do directório e reflecte o consenso dos que pensam Portugal na Europa de forma racional e justa, contra a cobardia dos comandantes europeus e a chantagem das agências de ratação. Concordo com este acto de cidadania europeia e que deve mobilizar-nos para um adequado pacto de regime! Também eu quero ser europeu neste cantinho de Portugal!

A situação é tão séria que mesmo um anticavaquista primário como eu é hoje cavaquista quanto à leitura destas palavras de diálogo directo com o eleitorado.

Recordo que estas palavras de Cavaco estão em consonância com os discursos dos três ex-presidentes (Eanes, Soares e Sampaio) na passada cerimónia do 25 de Abril de 2011. Precisamos de um mínimo de consenso nacional face aos ultimatos.

“Our country—when right to be kept right; when wrong to be put right” (discurso de Carl Schurz, em 17 de Outubro de 1899). Numa conferência, dita anti-imperialista. Senador norte-americano por Wisconsin (1829-1906).

Os notários de regime, nos discursos sobre o estado a que chegámos, podem estar cheios de boas intenções, mas de boas intenções estão os discursos presidenciais bem cheios, mesmo quando, depois de terem sido bons alunos, se revoltam agora contra a cobardia, a chantagem e os condicionamentos dos directores da escola europeia.

Convinha acentuarmos que não somos da Europa do Sul, ou do Mediterrâneo. A nossa pluralidade de pertenças é dos vários Atlânticos. A do eixo atlântico que passa por Londres e foi da EFTA. A do Atlântico Norte, com os norte-americanos, que fundou a NATO. A do Atlântico crioulo que nos dá CPLP, sobretudo entre o Brasil e Luanda. E a do Atlântico que nos deu boa esperança para o Oriente e a circum-navegação. Pela Índia, pela China, pela Indonésia e até pela Rússia que desagua no Pacífico. Era bom que o projecto europeu aderisse a esta visão armilar do mundo.

Em verdade, se temos uma maioria (PSD/CDS), um governo (PSD/CDS) e um presidente (PSD/CDS), também não é mentira que essa maioria (a do PPE) governa Berlim e Paris, bem como a maioria dos integrantes da União Europeia, salvo naqueles que estão em suspensão tecnocrática da democracia, como em Atenas e Roma.

Em verdade, se temos uma maioria (PSD/CDS), um governo (PSD/CDS) e um presidente (PSD/CDS), também não é mentira que essa maioria (a do PPE) governa Berlim e Paris, bem como a maioria dos integrantes da União Europeia, salvo naqueles que estão em suspensão tecnocrática da democracia, como em Atenas e Roma.

É evidente que Portugal está em luta pela sobrevivência. E nestas ocasiões, costumamos refundar-nos. Como fizemos em 1974, perante o fim do ciclo imperial e a integração europeia. Como aconteceu em 1910, tanto na luta contra o Ultimatum, pelo patriotismo imperial que nos levou à Grande Guerra, como na luta contra a bancarrota de 1890, onde a república falhou. Agora, sem saída imperial, estamos mais sós na tradicional luta contra o défice. Mas sabemos que a história de Portugal é a história do défice.

Não tenhamos ilusão. É impossível a luta contra o situacionismo do estado a que chegámos através de uma ditadura revolucionária de governos provisõrios. Como o foram os da Regência de D. Pedro IV, de Passos Manuel (1836), dos provisórios (1910-1911) ou dos seis que nos deram a democracia (1974-1976). Agora, resta reinventar-nos sem ruptura de regime, mas com espírito regenerador.

Na Europa, temos de submeter-nos para sobreviver, mas importaria que lutássemos para viver, gerindo as dependências, mas ultrapassando a ilusão do bom aluno, como foram Cavaco e Soares. Não basta sermos bons caixeiros viajantes e exclentes delegados de propaganda médica e é pouco termos boas contas de merceeiro. Não chega a ilusão de um salazarismo democrático, porque é horrorosa qualquer ditadura das finanças.

Precisamos de órgãos de soberania que apelem a um adequado pacto de regime que reforce a maioria da aritmética parlamentar, sem blocos centrais, de direita ou de esquerda. Tal como devem os mesmos lutar por uma nova geometria de um contrato social que vá além do mero teatro da dita concertação. Com empresas, sociedade civil, igreja, forças morais e filosóficas e os próprios sindicatos, incluindo os da CGTP, para que todos as organizações não partidárias deixem de ser correias de transmissão de partidos, desde os nacionais às multinacionais suprapartidárias da Europa.

 

 

 

Fev 29

Untitled

O ritmo da austeridade é directamente proporcional ao das nomeações. Por outras palavras, a sobrevivência do Estado depende da sofreguidão dos aparelhos clientelares, naquilo a que deveríamos chamar o estadão a que chegámos. O poder em Portugalç sempre foi uma coisas que se conquista, onde a culpa é sempre do anterior conquistador.

Cavaco Silva faz comunicação directa ao país e à Europa. Critica a política europeia do directório e reflecte o consenso dos que pensam Portugal na Europa de forma racional e justa, contra a cobardia dos comandantes europeus e a chantagem das agências de ratação. Concordo com este acto de cidadania europeia e que deve mobilizar-nos para um adequado pacto de regime! Também eu quero ser europeu neste cantinho de Portugal!

“Our country—when right to be kept right; when wrong to be put right” (discurso de Carl Schurz, em 17 de Outubro de 1899). Numa conferência, dita anti-imperialista. Senador norte-americano por Wisconsin (1829-1906).

Os notários de regime, nos discursos sobre o estado a que chegámos, podem estar cheios de boas intenções, mas de boas intenções estão os discursos presidenciais bem cheios, mesmo quando, depois de terem sido bons alunos, se revoltam agora contra a cobardia, a chantagem e os condicionamentos dos directores da escola europeia.

 

Fev 26

A história é um género literário, subsidiário da ficção

Viagem pelo domingo. Encontro casual com um casal amigo. Pedem-me conselho. Sobre uns manuscritos de um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX. Encontraram cartas e manuscritos num sótão. Estão em boas mãos. Não sou capaz de, por enquanto, aconselhar o recurso a certas universidades. Dependem das eleições e dos micro-autoritarismos subestatais. Nem eu teria confiança nelas.

Eu tenho pena de escrever isto sobre o meu tempo. Mas não tenho dúvidas de considerar que certas instituições não têm dignidade de conservar coisas que perseguiram. E ainda mandam os perseguidores. Estou a falar de coisas de há meio século.

Qualquer registo ou publicitação desses papéis ainda pode ser considerado como falta de respeito às vacas sagradas que ainda as enxameiam de dejectos.

E como os papéis só viriam se eu desse a minha palavras, como, para os efeitos em causa, nem sequer tenho palavras, apenas calo.

A história é um género literário, subsidiário da ficção e serventuário da literatura de justificação do revisionismo histórico neo-estalinista. Este é que manda. Em muitos sítios.

Eu próprio sou mero detentor de certos legados bibliográficos e de manuscritos e, antes deste encontro, e sem saber o motivo do mesmo, tinha acabado de comunicar que o poderei deixar a um pequeno instituto associativo, por enquanto integrado numa universidade, mas com a condição de eu o poder vigiar e resolver, caso não seja cumprida a missão. Sei o que é a persiganga, o branqueamento e o apagão. Infelizmente.

Fev 23

Zeca Afonso

O poder não é uma coisa que se conquiste. Por um golpe de Estado, por uma herança, por uma doação ou até por eleições. O poder é uma relação permanente entre o aparelho de poder, os micropoderes e a chamada sociedade civil. E um regime político é a relação de um Estado, tanto do Estado-Governo como do Estado-Comunidade, com um determinado sistema de valores, uma concepção do mundo e da vida, ou uma civilização. Daí que regimes lícitos possam perder a legitimidade, mesmo que a decadência dure décadas.

Um regime decadente é mero papagaio de papel que perdeu a ligação ao chão moral da história. Mas há sinais do tempo que podem transformar-se em hinos da nova legitimidade. Tal como os Heróis do Mar que semearam a República ou as canções de Zeca Afonso que nos deram Grândola, Vila Morena. Agora somos macacos cegos, surdos e mudos. Não vemos, não ouvimos, não lemos a metapolítica desta falsa política.

Fev 21

Atenas sob vigilância apertada

O acordo foi concluído às 5 horas da manhã depois de uma maratona negocial final de 14 horas. Espera-se que o balão de oxigénio não seja consumido pelos tradicionais incêndios do que resta das árvores do berço da nossa civilização.

Fev 20

A questão grega

 

O prestígio do chamado Ocidente a nível do mundo vai depender totalmente da forma como se resolver a questão grega em Bruxelas. Se a solidariedade intra-europeia for marcada pelo egoísmo dos ricos, quem pode acreditar em cooperação? A começar pela mediterrânica. Por outras palavras, o Estado que não tiver poder financeiro pode ser obrigado a procurar outras formas de poder funcional e surgirem inesperados indisciplinadores do pretenso equilíbrio, das contas. O que era uma Palestina ou uma Líbia nos Balcãs, ainda por cima ortodoxas? O “softpower” pode ser driblado pelo “hardpower”, sobretudo em estado de necessidade.