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	<title>José Adelino Maltez &#187; Anarquia</title>
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	<description>Breviário de um repúblico.</description>
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		<title>Anarquia</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jun 2011 12:39:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jamaltez</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Anarquia]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Aos meus avós e primos anarquistas Quoique très ami de l&#8217;ordre, je suis anarchiste. Proudhon &#160; por José Adelino Maltez &#160; Anarquia vem do fr. anarchie e este, do grego anarchia. A palavra foi introduzida através das traduções &#8230; <a href="http://jose.adelino.maltez.info/2011/06/anarquia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
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<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Aos meus avós e primos anarquistas</strong></p>
<p><em>Quoique très ami de l&#8217;ordre, je suis anarchiste</em>.</p>
<p>Proudhon<strong></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>por José Adelino Maltez</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Anarquia vem do fr. <em>anarchie</em> e este, do grego <em>anarchia</em>. A palavra foi introduzida através das traduções latinas de Aristóteles. Em sentido etimológico, é o mesmo que ausência de chefe, porque, em grego, quer dizer <em>an</em> (privação de) mais <em>arche</em> (poder, ordem). Se a inicial teoria anarquista terá sido elaborada por Godwin, é Proudhon, em 1840, quem, primeiro, se qualifica como tal, pela defesa de uma <em>anarquia positiva</em> baseada no <em>renascimento da vida local</em>. Gera-se, a partir de então, um movimento social e político revolucionário que, durante a vigência da I Internacional, entre 1864 e 1872, rivaliza com o marxismo.</p>
<p>O movimento é particularmente assumido por autores russos. A ala de Bakunine defende a utilização da violência para a destruição do capitalismo e do Estado. A de Kropotkine opta por uma via de cooperação voluntária, assumindo um anarquismo comunalista, mutualista e solidarista, defensor de uma sociedade baseada na lei da solidariedade e da ajuda mútua, ou entreajuda, porque o homem tem predisposição natural para ela. Assim, considera que a comuna tem de ser proprietária de todos os meios de produção, em nome de uma política norteada por ideias morais, por aquilo que qualifica como <em>o progresso moral da nossa raça</em>. Como confessa, na Sibéria, <em>perdi toda a fé na disciplina do Estado</em>. Assume-se também contra o livre-cambismo, que terá dividido a humanidade<em> em fábricas nacionais, cada uma com a sua especialidade</em>, saudando a <em>nova corrente</em> que <em>leva as nações civilizadas a ensaiar no seu interior todas as indústrias e a encontrar vantagens em fabricar tudo o que dantes recebiam dos restantes países</em>. Insurge-se também contra o darwinismo, que tão marcantemente influenciou o marxismo russo, criticando especialmente a teoria da luta pela vida, apelando, em alternativa, à cooperação e ao auto-governo da <em>solidariedade espontânea</em>. Na sua obra é marcante a influência de Proudhon. Trata-se de um anarquismo que se volta fundamentalmente contra o centralismo tentando delinear uma espécie de anarco-comunalismo.</p>
<p>É evidente que não me considero anarquista, embora não rejeite a mestria de Proudhon, reconheça a importância do anarco-sindicalismo, particularmente vibrante durante a I República, nomeadamente com João Evangelista Campos Lima, Alexandre Vieira ou Manuel Joaquim de Sousa e não possa esquecer as coincidências afectivas que mantive com herdeiros do anarquismo místico, nomeadamente Agostinho da Silva.</p>
<p>Com efeito, não posso deixar de comungar com todos aqueles que, reagindo contra o absolutismo, tentaram, pela via consensualista, institucionalizar formas de <em>controlo do poder</em>, estabelecendo <em>travões</em> ao mecanismo autofágico do <em>Leviathan</em> soberanista. Porque no soberanismo absolutista, o poder supremo não só não admite o controlo fáctico, da divisão e separação de poderes, como o próprio controlo normativo, nomeadamente pela não admissão do conceito de abuso do poder, esse poder supremo que, em nome de um <em>terrorismo da razão</em>, foi a fonte primordial do próprio <em>terrorismo de Estado</em>.</p>
<p>Daí subscrever Alberto Camus e as fortes palavras que no próprio ano do meu nascimento, em <em>O Homem Revoltado</em>, deixou contra o idealismo alemão, em defesa do pensamento do meio-dia que é o espírito mediterrânico, onde <em>a inteligência é irmã da vigorosa luz</em>, <em>a comuna contra o Estado, a sociedade concreta contra a sociedade absolutista, a liberdade reflectida contra a tirania racional e, finalmente, o individualismo altruísta contra a colonização das massas</em>, em suma o equilíbrio contra o desequilíbrio. Porque, na ideologia alemã,  <em>culminam vinte séculos de luta vã, em primeiro lugar, contra a natureza em nome de um deus histórico e em seguida em nome da história divinizada. </em>Logo, insurge-se contra a ideia de revolução e defende a atitude da revolta, do homem que resiste à injustiça para melhorar a sorte dos seus semelhantes.</p>
<p>Por outras palavras, assumo a herança libertacionista e individualista da criatividade, de ser o homem a fazer a história, em vez de ser o processo histórico, ou a ideologia a fazer o homem, mesmo que o homem faça a história sem saber que história vai fazendo, como assinalava Alexis de Tocqueville.</p>
<p>Acresce que raramente se refere que a nossa herança anarquista restaura a palavra política mais autêntica, a de comundidade, fazendo-a rimar com liberdade. Porque as comunidades  têm forte poder normativo (símbolos, valores e sentimentos), embora pouco poder coercivo (meios de violência) e utilitário (activos económicos e capacidades técnicas e administrativas).</p>
<p>Por isso é que interessam menos os nomes e mais as coisas nomeadas, para quem gosta de recordar Alexandre Herculano de Carvalho Araújo (1810-1877), na véspera de morrer, em Fevereiro de 1877, numa carta dirigida a Joaquim Pedro de Oliveira Martins, quando se declarava um <em>liberdadeiro impedernido no pecado</em>, considerando que <em>o socialista vê no indivíduo a cousa da sociedade; o liberal vê na sociedade a cousa do indivíduo. Fim para o socialista, ela não é para o liberal senão um meio, criação do indivíduo que a precedeu, que lhe estampou o seu selo&#8230;a liberdade limita-se apenas pela liberdade, o direito pelo direito</em>, considerando-se entalado entre <em>a tirania em nome do céu e a tirania em nome do algarismo</em> e rejeitando a solução do socialismo chamada monopólio, preferindo contra os abusos da liberdade mandar <em>patrulhar a região do crédito por dois agentes de polícia chamados da prisão celular e presídio d’África</em>, porque <em>esses banquistas daí são uma alcateia de tratantes e burlões e que o Governo quer o monopólio da coisa para uns amigos seus de Lisboa que vão tratando da vida</em>.</p>
<p>A única maneira de superarmos o actual situacionismo está na emergência de uma alternativa que aposte numa nova atitude político-cultural e ao serviço da clássica procura dos valores do <em>melhor regime </em>e da <em>boa sociedade</em>, sem que se continue a entoar a ladainha da repristinação, dominada pelos reciclados <em>homens de sucesso</em> do neo-riquismo, essa imagem que leva os incautos a confundir o liberalismo com o negocismo de gente com <em>fax </em>para o <em>off shore</em>; e o pluralismo dos legítimos grupos de interesse e de pressão, com <em>tráfego de influências</em>. Não sou liberalista, sou liberdadeiro. Não sou libertário, sou libertacionista. Mesmo que me fique <em>o excesso de uma doutrina imperfeita. </em>Os novos-velhos clérigos da nossa <em>intelligentzia </em>e da nossa <em>nomenklatura</em> nunca passaram os olhos pela <em>Filozofia de Príncipes</em>, de Bento José Souza Farinha, publicada três anos antes de se desencadear a Revolução francesa. Jamais compreenderam Silvestre Pinheiro Ferreira. Não ouviram falar nos teóricos de <em>The Federalist</em>, traduzidos por José da Gama e Castro. Não registaram os discursos políticos de Luís Mousinho de Albuquerque. Não conhecem os aforismos de Alberto António de Morais Carvalho (1801-1878). Não sabem da silenciada tese doutoral de António Cândido Ribeiro da Costa (1850-1922), <em>Princípios e Questões de Philosophia Política. Condições Scientificas do Direito de Suffragio</em>, de 1878, por acaso a primeira dissertação da politologia contemporânea deste nosso país. Tendo apenas uma vaga referência sobre Luís Cabral de Moncada, não entendem a angústia do radical democrata antijacobino que foi Raul Proença. Por mim, prefiro seguir a velha lição liberal de Luís Mousinho de Albuquerque, para quem <em>o princípio único de toda a Política é a Moral. Finanças, interesses materiais, formas de Governo, tudo é adventício, tudo é subordinado a esse princípio único. Tudo são entidades secundárias, tudo são acessórios do edifício da existência social</em>. O valor fundamental é a <em>independência portuguesa</em> e o <em>carácter nacional</em>, importando <em>servir o Estado&#8230;o Estado, a República&#8230;este dever todo moral, todo patriótico</em>. Seguindo tal exemplo, importa ser excêntrico a todas as parcialidades, a todas as exclusões, a todas as intolerâncias, para poder ser <em>concêntrico com a nação</em>, para que <em>a nação seja governada para a nação e pela nação. Quer ser governada no interesse de todos, e não no interesse de alguns; quer ser governada pela influência colectiva de todos, e não pela influência exclusiva de uma parcialidade</em>; quer <em>o concurso de todas as virtudes, de todos os talentos, de todas as probidades para presidir aos seus destinos, sem distinção de cores, sem exclusões partidárias</em>. Por isso, há que assumir uma <em>bandeira nacional</em>, que seja <em>excêntrica a todas as paixões, a todos os ódios, a todas as vinganças</em>, em nome do <em>desejo do povo que não aspira à governança, mas sim à felicidade</em>. Por um <em>governo representativo, não em nome, mas em realidade</em>. Por <em>um regime, verdadeiro e sincero</em>, para que a nação seja <em>governada com justiça, com verdade e com amor; porque mal dos povos que não são governados com amor, mal das nações que são regidas sem sinceridade</em>. Podem as nações ter <em>a faculdade de renascer pela reacção contra a força; mas da gangrena moral ninguém ressurge, não é essa gangrena uma das fermentações tumultuosas que transformam uns produtos em outros; é a fermentação pútrida, que destrói radicalmente o ser orgânico, que desagrega, que dispersa os átomos componentes</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>José Adelino Maltez</p>
</div>
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<p>Mas a primária e permanecente forma anarquista é a filosófica, como a do escritor russo Lev Tolstoi, invocando o pacifismo da lei do amor do <em>Sermão da Montanha</em>, contra o estadualismo, entendido como a violência organizada, semente donde brota o anarco-pacifismo de Gandhi, visando o estabelecimento de uma revolução não-violenta.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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