Na véspera de mais umas eleições

Hoje é dia de santa reflexão, para que, amanhã, se finja que houve liberdade e que as eleições foram justas, livres e leais. Hoje é dia de fazermos delete das notícias ditas políticas, isto é, dos tacosemitidos pelas agências de comunicação política, para que a bebedeira de slogans ocultasse a realidade. Amanhã, os velhos donos do poder continuarão a mandar. Porque exprimiremos a vontade de todos em vez da vontade geral. Porque todos votaremos útil, isto é, todos votaremos pensando nos nossos próprios interesses e não no bem comum. Porque cada um não poderá exercer o dever de votar como se ele próprio fosse o soberano. Porque ainda não chegou a hora da moralização da política. E não funcionará o imperativo categórico. Da conduta de cada não se poderá extrair uma lei universal. Rousseau continuará a não ser compreendido. E Kant poderá arriscar-se a ser cognominado como um perigoso maçon, adepto do gnosticismo. Dentro de dias, teremos no governo gente que, apesar de ser mais tolerante e mais democrata, acabará, da mesma forma, ineficaz, porque, depois de um breve estado de graça, não conseguirá que as promessas se concretizem, gerando a inevitável contradição entre as expectativas e as frustrações. Quem regressa à reflexão depois de ter sujado as mãos nos compromissos de uma campanha, dando o corpo e o nome numa pequena resistência simbólica pela liberdade, apenas teve o prazer de exercitar a cidadania pelo combate de ideias. Apenas experimentou aquilo que agora pode continuar a julgar. Teremos, sem dúvida, um novo ciclo no regime. E os derrotados entrarão em transe, alguns deles condenados a uma travessia no deserto, onde nem uma certa candidatura presidencial poderá servir de lenitivo e adiamento. Outros grupos, ditos partidos, deixarão até de existir como instituições, dado que se reduziram a meras personalizações do poder, dado que não conseguirão extirpar os tumores que lhe deram ilusória vitalidade. Ainda terão deputados nacionais e europeus, gestores públicos indemnizados e meia dúzia de autarcas, mas serão nomes sem sentido de futuro. A tristeza pesará. O desencanto continuará larvar. O potencial líder governamental não terá condições anímicas para nos mobilizar, porque tanto não representa o messianismo de esquerda, como está longe do sebastianismo de direita. Por outras palavras, o futuro governo poderá ser o último deste regime, nesta encruzilhada histórica que marca a nossa decadência. O país das televisões, depois de um breve armistício, em breve nos trará a agressiva oposição de velhos e novos opinion makers, com as portas abertas aos velhos e novos escândalos, onde novosdossiers abertos trarão novas chantagens e novas gestões de silêncios. Nenhum dos actuais partidos, solitariamente, tem suficientes quadros para a regeneração de Portugal. E o pior é que uma das facções tenha a tentação de mostrar a face da arrogante perseguição, enquanto os opositores podem não saber fazer oposição. Os compromissos internacionais que nos irão acabrunhar também demonstrarão a impossibilidade de redescoberta da esperança. Chegou ao fim o nosso tradicional recurso ao sonhar é fácil, desta recente sociedade de casino. Os tempos que se avizinham poderão, aliás, ser trágicos e poderá acontecer-nos que, em termos políticos, para fugirmos ao out of control, caiamos na mera pilotagem automática, com um governo de meros autómatos, robotizados pelas regras internacionais, enquanto no plano interno ficaremos crescentemente sujeitos à pressão dos corporativismos, com uma sociedade pouco mobilizável pelo bem comum, onde todos seremos arrastados pelos reflexos condicionados da cenoura e do chicote.

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