o Estado não são apenas eles

Diz-nos o bom senso que a unidade do chamado Estado é apenas unidade na diversidade. Isto é, que o Estado não se reduz ao conjunto dos aparelhos de Estado, ao Estado-Principado, mas antes à soma do Estado-Aparelho com o Estado-Comunidade. Ou, por outras palavras, à relação da sociedade civil com a governação. Porque o Estado não são apenas eles, os que mandam, mas nós todos os que, como cidadãos, temos o dever de participar nas decisões comunitárias. Porque o poder é uma relação entre a chamada sociedade civil e o chamado aparelho de poder, e o poder não é uma coisa que se conquista, com muitos “jobs” para se distribuirem ao “boys”, “friends” e “oldmen”, mas algo que tem se ser inserido na presente “network structure”, numa altura em que até já não há um só Estado, mas vários Estados em confluência, como o real Estado Europeu e o oculto Estado Mundial, naquilo a que muitos chamam partilha das soberanias, interdependência ou gestão de dependências, neste neofeudalismo global. O que está a acontecer é, pura e simplesmente, a manifestação clássica da nossa incompreensão do pluralismo político, numa terra herdeira de sucessivos absolutismos e autoritarismos, onde se confunde unidade com unicidade, unitarismo, unidimimensionalismo e até se teme que toda a pluralidade seja incompativel com a clássica perspectiva que exige o acesso ao universal através da diferença. Quando se concebe que o aparelho de Estado seja uma simples federação de ministérios e se continua a manter, na doutoral constituição, a possibilidade de o número e designação dos ministérios depender do decreto presidencial de nomeação de cada ministro, estamos a gozar com o bom senso e atirar para a rua carrada de dinheiros dos contribuintes. Quando mantemos a ilusão de dizer que há secretariados de reforma ou modernização administrativa, salientando que com a próxima, ou presente, comissão de sábios, com o respectivo relatório, é que vai ser desta, estamos a esquecer-nos que o modelo já vem de 1958 e foi desencadeado pelo ministro da presidência Marcello Caetano. Isto é, estamos a brincar ao estadão, à mania das grandezas típica deste  Portugalório das minúsculas, recorrendo a especialistas em árvores e folhas de árvore e a não recorrermos aos especialistas no todo, na floresta, aos necessários especialistas em assuntos gerais que sabem a verdadeira situação do actual conceito de público que não é o contrário de privado. O Estado, hoje, não é o do tempo do Marquês de Pombal, de Mouzinho da Silveira, de Afonso Costa, de Oliveira Salazar , de Vasco Gonçalves ou da coabitação Soares/Cavaco. Mas a nossa sociedade civil continua a ser uma sociedade de ordens, ferozmente competitiva, em termos de pressão, reivindicação, corrupção e outras nicas. De certa maneira ainda somos uma sociedade de ordens, onde o velho clero, hoje, se chama Igreja mais Maçonaria, mais catedráticos, mais jornalistas e homens de letras, mais investidores na comunicação social. Onde a nobreza mantém restos de militares, mais juízes e outros magistrados, mais políticas, mesmo os dos secos e molhados, mais médicos, mais burocratas. Onde o povo, que era da elite dos homens bons, são empresários, mais capitalistas, mais partidos, mais sindicalistas, mais autarcas, estc. E isto num país onde o primeiro presidente da república civil eleito até foi Mário Soares. Dizem alguns que há condições para um 28 de Maio. Aceito, mas apenas recordo que desde 1921 que havia condições para um 28 de Maio que só chegou cinco anos depois. Tal como o 5 de Outubro só por acaso é que não foi em 31 de Janeiro de 1891. Tal como o 25 de Abril devia ter surgido logo depois das eleições de Delgado. Porque todos os nossos regimes não caíram a tiro, caíram de podre, por sucessivos acasos cómicos ou por revoltas corporativas de caserna. Estamos como estávamos em 1890, como estávamos em 1921, como estávamos em 1958. Estamos desencantados. E com saudades de datas mobilizadoras do bem comum, como foram 1385, 1640 ou até 1820, ou como começou por ser o 25 de Abril de 1974, só corrigido em 25 de Novembro de 1975. Talvez importe começar por deixarmos de “pensar baixinho”. Isto é, sairmos da análise da casca de árvore e passarmos a analisar a floresta no seu todo. Sem complexos de esquerda e sem fantasmas de direita. Para bem desta gente antiga que é o povo de Portugal e que talvez ainda tenha vontade de continuar a querer ser independente.

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