Nov 17

Mário Sottomayor Cardia, ou a coragem que nunca morre!

Acabam de me comunicar o falecimento do meu querido colega Mário Sottomayor Cardia. Não comunicarei aqui as necrológicas palavras do costume, porque quem pensa e semeia o pensamento nunca morre. Este homem de excessos, nos defeitos e nas virtudes, deveria ter sido o autor da necessária teoria da democracia deste regime. Mas preferiu andar sempre à procura e ensinar os amigos e alunos em peripatéticas conversas, algumas delas em longas noitadas, onde, os que dele receberam o privilégio do magistério, muito aprenderam. Eu fui um dos que tive essa honra de perceber o que era ter sido comunista por solidariedade e socialista da velha tradição do liberalismo lusitano. E aos outros tentarei comunicar sempre o que dele recebi. Não posso, contudo, deixar de proclamar que este foi o mais corajoso ministro da educação que tivemos neste regime, porque, contra a destruição da revolução, soube e conseguiu implantar a semente de uma reforma por cumprir, eliminando a estúpida mentalidade da guerra civil friamente ideológica. A Universidade e a democracia muito lhe devem. Para sempre!

Nov 16

Cultura, sociedade de Corte e cinegética do subsídio, com muita padrinhagem…

A Doutora Isabel Pires de Lima, ao ler o jornal “Público” de hoje pode respirar de alívio: um estudo da União Europeia mete finalmente cunha  pela Cultura fazendo-a rimar com PIB. Até se define a dita em sentido amplo:inclui as chamadas “indústrias culturais” (cinema, música, livro, jogos de vídeo), os media (imprensa, rádio e televisão), os sectores criativos como a moda, o design, a arquitectura e a publicidade, o turismo cultural e o sector tradicional das artes (espectáculos ao vivo, artes visuais e património). Não consta que, no mesmo estudo, haja desenvolvimentos sobre aquilo que marca o processo da coisa em Portugal: o regime da caça aos subsídios estatais e dos mecenas privados, sobretudo das entidades místico-bancárias, onde, mais do que esta ou aquela ministra, manda a senhora Dona Maria da Cunha . Já em 1873, Ramalho Ortigão observava que a mocidade vive nas antecâmaras do governo como os antigos poetas do século passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são agiotas ou servidores do estado. Os moços são bacharéis e querem bacharelar à acerca da coisa pública e à custa da mesma coisa acerca da qual bacharelam. Porque, mais de cinco quartos de século volvidos, continuamos a viver o mesmo regime de subsidiocracia, com a consequente feudalização, com a habitual procissão dos criadores culturais à procura de esmola junto de um qualquer influente na “network structure” dos amiguinhos, especialistas na engenharia da posta e do sindicato das citações mútuas. Com efeito, a Dona Cultura em Portugal, face à ausência de mercado e da autonomia da sociedade civil, continua asfixiada pela tradicional poder banco-burocrático que manda nos circuitos das galerias, das editoras e dos jornais, num processo que se estende a certos segmentos da própria investigação científica, dado que mesmo a nível das estaduais fundações continua a vigorar o arbítrio, dado que a escolha dos integrantes dos painéis dos distribuidores do naco depende, muitas vezes, não do critério objectivo da obra produzida, mas da partidarite ou das ambições de uma qualquer personalidade ambiciosa.  Uma, conheço eu, que, para preparar uma campanha eleitoral em curso, escolheu assessores de chefe de governo que nunca foram reconhecidos como especialistas pelos pares, para agora vermos como obrigou os afilhados a terem que participar em listas de apoio à respectiva candidatura a um lugar estadual, sem qualquer laivo de disfarce, dado que até aqueles que ele enfiou no emprego têm de assinar o processo, não faltando sequer o recurso a um assessor de um conhecido grupo parlamentar. Portugal, onde assim se desenvolvem novos ritmos típicos das ciências ocultas, é mesmo um museu daquilo que Norbert Elias qualificava como sociedade de Corte, onde dominam os tais jogos da Corte, essas formas subtis de rivalidade e de competição, visando a obtenção do favor do Príncipe. Essas formas que marcam os ritmos de competição política, mesmo depois da abolição do ancien régime, dada a circulação de modelos, com a cópia de atitudes e comportamentos dos cortesãos por novos grupos sociais.Eufemizou-se ao máximo a violência física, substituindo-se esta pelo espectáculo das rivalidades de partidos e pessoas, com o afrontamento de ideias e o antagonismo de projectos. A emergência das sociedades contemporâneas tem como pilar esta substituição da violência física exterior por um auto-constrangimento, largamente aceite, pelo que se torna possível o controlo de pessoas e povos sem o recurso à violência física, levando, por exemplo, à aceitação como normal do acto de obediência às leis editadas. As infracções individuais a essas leis são, aliás, consideradas como ilegítimas pela maioria das pessoas. Gera-se assim uma espécie de automatismo dos auto-constrangimentos. Se este modelo de padrinhagem continuar a dominar a chamada cultura e a chamada investigação científica, sem qualquer critério de objectividade, poderemos alimentar a vaidade, mas não faremos assentar o necessário patriotismo científico na autonomia dos homens livres, de antes quebrar que torcer, que homens da Corte não podem ser…

Nov 15

Sobre o rapto dos professores e a vigília dos ditos

A manhã acordou cinzenta e novembrosa, sem notícias palpitantes, a não ser nos jornais desportivos que comentam a intervenção dos tribunais nos sofás e écrans de um funcionário de um grande clube desportivo, dado que ainda dominam os ecos das novas de ontem, com frases soltas de Santana Lopes e comentários de vários historiadores sobre uma dissertação de doutoramento espanhola que ainda não tiveram oportunidade de ler. Vale-nos que as polícias continuam a fazer buscas à procura de corruptos e lavadores de dinheiro e que nenhum grupo contra a IVG tratou de assaltar uma qualquer universidade para raptar cinquenta catedráticos, como ocorreu no Iraque.

 

Aqui, se tal ocorresse, nenhum ministro mandaria encerrar as escolas, em acto de protesto, para não ver os professores morrer. Bem pelo contrário, um qualquer director-geral do Orçamento agradeceria esse patriótico contributo para a redução do défice, enquanto assessores dos grandes grupos económicos, com pós-graduação em qualquer Meca da estranja, promoveriam um seminário sobre essa vantagem competitiva para o processso de integração no modelo globalizador.

 

Poucos reparam que estas pequenas fotografias do nosso quotidiano hão-de revelar, no futuro, a pequenez mental da presente lógica de merceeiros e mangas de alpaca que, pelos acasos dos corredores do poder, acederam às categorias ministeriais, onde consideram que ter o poder é o mesmo do que ter autoridade, não sabendo que para que esta exista é necessário ser autor e dar exemplo.

 

Quando as ministeriais figuras que nos restam, ouvindo certos assessores da imagem do poder, preferem o falar forte, de cima para baixo, com o ar que aprenderam na militância da extrema-esquer l’igual que les causes de la elevada abstenció. Veurem si entre tots trobem algunes propostes imaginatives.

Joan Roma i Cunill, diputat en funcions al Parlament pel PSC.

Nov 14

Hermenêutica conciliar, bésculas e obras divinas peninsulares, para que volte D. Sebastião

Perdoem-me, estimados leitores, que este postal não seja escrito em canónico latim vulgar, nem tenha tido prévio “nihil obstat” da Calçada da Palma de Baixo, através das distintas intelectualidades do múnus.  se proclama que o Estado não tem competência para despenalizar crimes que o sejam por natureza, embora se aceite a estatolatria de lhe reconhecer competência para os manter, mandando quea natureza dos polícias, dos tribunais e dos cárceres mantenham aquilo que devia ser apenas julgado pelo tribunal da consciência, nessa ciência dos actos do homem como indivíduo, a que, desde sempre, se chamou moral.  Julgo que o principal problema lusitano está na importação de conceitos iberistas, mas de carácter filipino, tudo por causa dos inúmeros candidatos a Cristóvão de Moura que pululam nas nossas elites, esses que querem servir o filho de Carlos V na Flandres, sem falar nos que não sabem que, afinal, balbuciam as teses de Miguel de Vasconcelos, esse ministro do reino por vontade estranha que foi um dos primeiros teóricos portugueses do conceito bodiniano de soberania. Manuel Alegre dixit. É por isso que me sinto cada vez mais próximo do Manuelinho de Évora, que voltei a mergulhar no visionarismo de D. João de Castro, esse insigne repetidor das teses do sapateiro de Trancoso, e não o das barbas, nesse esoterismo dos mitos lusitanos que nos transformou em guerrilheiros sebastianistas.  Infelizmente apenas temos direito a bésculas sem Garzón, a bêcêpês sem Escrivá e a uma justiça que vai a congressos do PND e a programas de pastéis de nata, sempre em buscas e buscas que não acham nada, nesteenquanto o pau vai e vem, folgam as costas, porque os julgamentos não podem ser feitos com parangonas e fugas ao segredo de justiça. Prefiro continuar a ler o testamento de D. Luís da Cunha , que era magistrado e tudo, mas que se conseguiu libertar do corporativismo e disse a verdade sobre os ambientes dilatórios. O meu sebastianismo aproxima-se cada vez mais daqueles conspiradores que el-rei Junot foi encontrar no miradouro de Santa Catarina e que, em todas as manhãs de nevoeiro, iam olhar a barra do Tejo, não à espera de um rei que efectivamente não morreu, mas antes da esquadra dos aliados britânicos, quando estes ainda não eram amigos de Peniche. Porque, entre o mito e a utopia, há a distância que vai da revolta da Catalunha ao 1º de Dezembro de 1640 e a 28 anos de guerra com Madrid e o Vaticano. Apenas espero que um dos nossos próximos presidentes da república defenda tese numa das universidades do Nordeste brasileiro, sobre o papel dos sebastianistas na revolta dos Canudos, estudando a influência da pomba do Espírito Santo na restauração do Quinto Império, cuja bandeira, conforme as teses do Padre António Vieira, foi asumida pela União Europeia. Continuo a preferir a teoria do poder dos sem poder de mestre Agostinho, que também era templário como o outro a quem chamam borracho. Porque vale mais não dizer se eu não souber soletrar. E por mim prefiro continuar a heresia, para manter a ortodoxia de Aljubarrota e das Cortes de Coimbra de 1385.

Nov 13

O mais do mesmo só merece a gargalhada…

Começo de mais uma semana, depois de uma inspirada peregrinação pela FAC. Leio a parangona onde Bill Gates anuncia que “próxima revolução será acabar com o rato” e reparo que, para quem ainda usa teclado, PCP acredita no futuro do socialismo e PND marcou para Março os “Estados Gerais da Direita” onde pretende definir e “clarificar espaços” da Direita na política portuguesa, numa decisão foi tomada em S. João da Madeira, num encontro que juntou o presidente e alguns membros da direcção, enquanto Mendes prepara medidas para o interior do País.

 

Por isso é que temos de subscrever Sócrates, depois de uma viagem pela nossa terra: os blogueiros e jornaleiros, quando «a análise não é boa», passam «à psicanálise». Vale-nos que o reitor-primaz veio pôr o dedo na ferida: “As universidades públicas vão receber menos 53 milhões de euros do Orçamento de Estado e a quantia transferida (668, 8 milhões) nem dá para pagar os salários dos professores e muito menos para preencher os quadros”. Dizem os metereologistas que a manhã vai estar fresquinha, mas quando o sol chegar ainda podemos gozar o Verão de São Martinho.

Nov 13

Universidade

Como liberal que sou, mas defensor da não fragmentação do papel supletivo do aparelho de Estado, quero que esta forma de comunitarização das universidades, à maneira das “corporations” anglo-americanas, nos consiga libertar das teias do salazarento corporativismo e do seu irmão gémeo negocista, com que muitos socialistas e sociais-democratas traduzem as belas ideias de desregulação e de desestadualização, ao reduzirem-nas aos fins do lucro e da subsidiocracia. Porque a destruição do modelo Pombalista, napoleónico e salazarista de universidade deveria ser acompanhada pelo lançamento de uma forte política pública de criação de um sistema de creditação, que garanta a efectiva igualdade de oportunidades. Mas esta novidade, que, afinal, é um regresso ao conceito medieval de corporação de mestres e sociedade, além de ser flagrantemente inconstitucional, não tem raízes na nossa tradição de deduções cronológico-analíticas, embora seja a mais conveniente para as manobras de engenharia financeira do nosso combate ao défice orçamental, com o governo a poder lavar as mãos como Pilatos e a cair numa espécie de governação sem governo, típica das pilotagens automáticas que pouco se preocupam com as liberdades nacionais. Com alguma desta gente educacionóloga e avalióloga, corremos o risco de uma asiatização do nosso sistema de ensino superior e poderemos cair nas garras sorridentes do grande negocismo, como ocorreu com o lançamento das quase defuntas privadas, cuja imagem de marca se perdeu no Tribunal de Monsanto. Mas vale a pena tentarmos. Os tempos que nos devoram exigem que a ideia de universidade passe a rimar com os homens livres.

 

 

 


Nov 10

As confissões de Saramago…ou de como a montanha da propaganda continua a parir ratinhos

Vem na primeira página de um sensacionalista de hoje, com fotografia e tudo: Saramago confessa ligação fascista. Respirei fundo, olhei outra vez, pensando tratar-se de confissão social-fascista e que se iriam revelar os arrependimentos do chefe comunista do Diário de Notícias em pleno PREC, quando saneou jornalistas que se lhe opunham. Passei para o interrior do mesmo jornal.

 

O título ainda entusiasmava em voyeurismo: Confissão: Prémios Nobel desvendam passado. Saramago e Grass ligados ao fascismo. O subtítulo já perdia gás: os escritores José Saramago e o alemão Günter Grass, ambos prémios Nobel de Literatura, em 1998 e 1999, respectivamente, estiveram ligados aos regimes fascistas dos seus países.

 

Finalmente, no texto, a montanha paria um rato: Chegou a hora de fazer minha confissão: Eu pertenci à juventude salazarista, que se chamava Mocidade Portuguesa. Pertencíamos todos: alunos da instrução primária, do ensino secundário, do ensino superior, todos sem excepção. Era, por assim dizer, automático.

 

Por outras palavras, Saramago apenas confessava que tinha andado no equivalente ao ensino secundário nos anos trinta e que, como todos os alunos do ensino oficial, tinha que participar obrigatoriamente nas actividades circum-escolares que eram, então, monopolizadas por uma organização oficial chamada MP.

 

Saramago, em pretensa ironia, apenas pretendia branquear Grass e dizer-se herói antifascista, porque, no dia em que devia usar a farda, a mesma tinha-se esgotado no depósito distribuidor. Saramago teve ligações ao regime fascista porque andou na escola do tempo do dito cujo, tal como Salazar esteve ligado ao regime maçónico da monarquia liberal e da primeira república porque andou na escola durante os dois e até foi funcionário público e deputado no segundo.

 

Isto é, Saramago esteve tão ligado ao regime derrubado como vinte e cinco milhões de pessoas que viviam sob a soberania do Estado Novo. Andar no liceu e estar obrigado a frequentar as actividades geridas pela Mocidade Portuguesa nunca foi o mesmo do que ser voluntário das SS, tal como a MP não era as SS e Salazar não era Hitler. Confundir os campos é ser trapalhão. Repetir a propaganda do militante do PCP e alinhar na confusão é alimentar a patranha.

 

Saramago fez o mesmo do que todos os portugueses que andavam no ensino secundário antes da reforma de Veiga Simão que, antes de ser ministro abrileiro, com o PS, foi ministro da educação do tal regime fascista, quando aboliu a obrigatoriedade da MP.

 

Eu também fui obrigado a frequentar as actividades da MP. Só que, nessa época, o meu pai teve que comprar a farda do feijão-verde, já não a ofereciam… Dizer que frequentar tais actividades era o mesmo do que alguém inscrever-se no partido único ou participar voluntariamente na Legião Portuguesa é quase dizer que Veiga Simão foi ministro à força, ou que fez um dos discursos do dez de Junho porque foi previamente torturado pela PIDE…

 

Apenas acrescento que seria interessante listarem os membros dos partidos antifascistas que foram da Legião, da UN e da ANP. Ou então falarem nos graduados voluntários da MP que, depois de Abril, se passaram psicanaliticamente para os novos inquisidores. Ainda iam apanhar ex-presidentes da FRELIMO… basta consultarmos os arquivos disponíveis na Torre do Tombo!

Nov 09

A liberal América fez ela própria a sua purga…

Confirma-se que Mr. Donald Rumsfeld, o pentagonal neocon, não mais irá visitar Paulo Portas na sua residência oficial do Forte de São Julião da Barra, embora possa continuar a contratar algumas lusitanas eminências ministeriáveis, para estágios intelectuais nas “georgetowns”. A velha Europa respira de alívio, perante a queda deste pretenso criador de uma nova Europa, com muitos aviões da CIA cruzando os céus do velho continente, criando várias secções da base de Guantanamo e muitos núcleos bem-pensantes neocons e neolibs, numa espécie de marxismo branco.

 

A superpotência que resta, a tal república imperial de que falava Raymond Aron, pode voltar a ajudar o mundo livre, acabando com o dogma ideológico de certo complexo militar-industrial que ameaçava transformá-la numa espécie de novo império celeste, para além do qual só havia as trevas de uma barbárie do eixo do mal, conforme as melhores teorias da conspiração e do inimigo interno. Afinal parece que a liberal América fez ela própria a sua purga, esquecendo-se da caricatura de choque de civilizações que marcava o ritmo do discurso bushomaníaco. Que alívio!

Nov 08

Contra a direita reverencialmente salazarenta e bushosa

Ontem recebi uma lufada de excelência nas relações humanas, com o tal padre Júlio de Melides que esteve sequestrado na cadeia de Pinheiro da Cruz. Trouxe-me à memória os bons sacerdotes que me deram educação, do meu querido padre Urbano Duarte, que era cónego e professor de moral no liceu, o notável director do Correio de Coimbra, aos padres capuchinhos de Santa Justa, para não falar no Padre Felgueiras e tantos outros que viviam como pensavam.

 

Mas é precisamente em nome desta boa memória que rejeito os chamados ratos de sacristia que por aí pululam, entre banqueiros, ex-ministros e secretários de Estado e tias de Cascais que mostram o periscópio das seitas e catecismos catolaicos, alguns de filipina inspiração madrilena e navarrense, com algum besunto vaticano. Se ser de direita é ter que seguir as directivas morais dos bagão félix, eu sou de extrema-esquerda. Ponto. Parágrafo.

 

É por isso que saúdo um blogue anónimo, com quem ontem polemizei sem o nomear, precisamente por não ser assinado. Gosto de polémicas entre quem não confunde as árvores com a floresta e que aceita frechadas. Por isso, declaro que subscreveria o postal de réplica, dado que a corrente onde se filia também me deu raiz. Como saúdo também a emergência de uma maioria de democratas nos USA, com a liderança da senhora Nancy Pelosi, com quem simpatizo, nos seus 66 anos de mãe de cinco filhos e de avó de outros tantos netos. Como compreendo a vitória de Daniel Ortega na Nicarágua, depois de já termos Chávez na Venezuela e Morales na Bolívia, nessa revolta de um nacional-desenvolvimentismo anti-gringo que o bushismo despertou e contra a qual não há Alberto João que resista.

 

Para os devidos efeitos, declaro que não estou borracho e que subscrevo inteiramente as simbólicas frechadas de Fernando Pessoa contra o modelo salazarento, porque o poeta, cedendo ao lume da profecia, conseguiu detectar os desviacionismos do beatério autoritário que iriam amarfanhar-nos, durante décadas, retomando o pior da herança inquisitorial e carlotista. Odeio a tirania, a ignorância e o fanatismo e tenho que ser fiel à memória de sofrimento de meus parentes e avoengos que malharam com os ossos nas masmoras do santacombadense.

 

Se a nossa direita continuar a ser reverencialmente salazarenta e bushosa, lá terei que compreender as vitórias da esquerda folclórica na Nicarágua, na Bolívia e na Venezuela que sempre são melhores do que se colocar o regime de Zé Eduardo dos Santos como lanterna vermelha da corrupção…

Nov 07

Contra a dogmática das seitas e dos catecismos

Há dias em que no começo do dia, passando os olhos pelos jornais, sinto que não há nada para dizer. Passo pelos blogues, à cata de novidades de pensamento provocatório e reparo como continuam quase todos pendurados na dogmática das seitas e dos catecismos. Até um texto do paradoxal Fernando Pessoa recebe tiros de canhão verbal, fazendo jorrar, sobre o que de mais universal há no pensamento político português, o tal sebastianismo que já existia antes de D. Sebastião e que também podemos encontrar noutras culturas, com outros nomes, as habituais rendas de bilros da racionalidade finalística, como se fosse possível aceder-se à racionalidade axiológica sem os laicíssimos mistérios das religiões seculares que fazem a “polis”, a “respublica” ou a “comunidade”. Porque, quando as várias aldeias, cada uma nas suas sete colinas, se congregaram nessa comunidade das coisas que se amam, em torno da simbólica acrópole, a colina federadora assumiu tal missão porque nela estava tanto o Estado (o castelo, ou palácio do rei) como a Nação (o templo, aquele mistério pelo qual podemos dar a vida, porque só podemos dar a vida pelas coisas que amamos).

 

É por isso que as nações todas são mistérios. E tanto o eram no tempo em que a política era a ciência arquitectónica (quando se incluía a religião e o direito como suas servas), como quando a política passou a ser mera serva da teologia. Tudo se complicou na modernidade, depois do deicídio que nos mandou pensar a política mesmo que Deus não exista e que muitos confundem com o ateísmo ou o gnosticismo, coisa que costuma ser particularmente utilizada pelos adeptos da teocracia e do providencialismo, para as tradicionais e estúpidas contendas entre a política e a religião.

 

Esta é a questão. E nada tem a ver com programas de direita contra programas de esquerda, porque há subsolos filosóficos de esquerda que coincidem com os de direita, e vice-versa. Logo, quando cansa a ortodoxia da esquerda ou da direita não há nada de mais eficaz do que introduzir um pedacinho de terrorismo filosofante ou poético, para baralhar os catecismos e os credos. Obrigado, Fernando Pessoa. Aos meninos e aos borrachos, põe Deus a mão por baixo…

 

Eu também me insurgiria contra a primeira lei da Assembleia Nacional salazarista e contra o parecer camaral corporativo que a sustentou. Porque Carmona, Vicente Ferreira e José Alberto dos Reis tinham tido a mesma filiação que Joseph de Maistre. Prefiro o pluralismo da tradição conservadora e liberal que os britânicos e norte-americanos souberam manter.