Mai 20

Destas boas intenções e colectivismos morais ficaram os gulagues totalitários cheios…

Quem é catador dos almanaques da história, pesquisador de alfarrábios e coleccionador de papéis esquecidos, registando factos e analisando comportamentos, pode, sem qualquer arrogância de ciência certa, concluir que os tempos que, por agora, vão passando são mero crepúsculo, plenos de “guerrazinhas de homenzinhos”, onde têm direito a parangonas os mesmos pequenos literatos partidocráticos que consideraram Fernando Pessoa um poeta menor e nem lhe deram o lugar de bibliotecário em Cascais, ou os que escreveram artigos de primeira página num jornal de Lisboa contra o pretensiosismo de Alexandre Herculano. Não reparam que não passam de lixo cujos nomes nem constam da memória dos próprios investigadores desses caixotes, onde os polícias da ASAE são atacados por sopa quente na feira dos fenómenos do Entroncamento e sem recompensas de multinacionais a GNR recupera uma criança raptada, assim se demonstrando como os cidadãos da União Europeia da Roménia não são iguais aos do Reino Unido. Julgo que as senhoras adalgundes e marianas não constarão sequer de uma simples nota de página dos memorandos que relatarão as anedotas do tempo presente. Todas fazem parte de uma categoria que se aproxima daqueles insignes ficantes que pensam que, por fazerem parte de um grupo nominalmente antifascista, não podem cometer actos antifascistas, mesmo que os qualifiquem como o partir dos dentes à reacção. Da mesma maneira, actuam, aliás, os integrantes da procissão dos filhos dilectos de outra seita de sinal contrário. Destas boas intenções e colectivismos morais ficaram os gulagues totalitários cheios… Os pilatos de sacristia sempre lavaram as mãos face aos barcos que partiam para os desterros de Angra, de Timor e do Tarrafal…

Mai 19

Depoimento a o Público

Publico 19 de Maio 2007-05-19

 

“Dentro do esquema de transfiguração, tudo se pode esperar dele, desde montar um esquema para fazer uma coligação com o futuro líder do PSD, como para ser um partido de charneira, muleta do PS em 2009″, considera o politólogo José Adelino Maltês, antevendo que “o pós-ideológico Paulo Portas vai colher à rede quem vier com ele”. Para garantir o seu espaço, o líder do CDS não hesitará em assumir-se num dia como um líder populista e, no outro, como antipopulista, num jogo com o eleitorado que lhe permita alcançar a fasquia dos 10 por cento de votos em 2009.

Mai 19

Denunciando o trabalho de sapa dos animaizinhos que vão corrompendo a liberdade

Imaginem que um funcionário público qualquer, neste tempo de directores regionais que não gostam de anedotas sobre o nosso primeiro, escrevia coisas como estas: quem está nas cumiadas é que sabe de que lado sopra o vento, e que precisa de imitar a canna, que verga e se dobra para não ser arrancada ou quebrada. Se o furacão atirasse das alturas para as varzeas da vulgaridade os homens eminentes que por lá andam, quem perdia não eram elles, era a patria. Estávamos em plena monarquia liberal, com gentalha e quadros mentais de absolutismo e de reacção, mesmo quando invocavam inscrição em partidos de muito progresso e modernidade. Mas poderia dizer-se como hoje: a republica litteraria, como a civil, tem a sua aristocracia, a sua classe média e o seu vulgacho, e, como na republica civil, ha aqui sympathias entre os membros da mesma categoria, e ha malevolencias da plebe contra as superioridades… O homem liberdadeiro que assim escrevia dizia estar alheio da política militante, por não crer na redempção do país e dizia-se afastado das cousas publicas com indifferença, essa indifferença filha das serveras licções da experiencia. E dizia da Sancta Madre Igreja, quando esta foi desafiada por alguém que teimava na defesa das suas ideias, o seguinte: ela agacha-se quando lhe viram o dente. Pensam alguns que é medo. Enganam-se. É para começar o trabalho de sapa. Observava a seguir que a dita tem uma jerarchia interna que nem sempre corresponde à jerarchia official. No fim da escala estão os que possuem olhos no corpo, sem que por isso os tenham na alma. Serve esta espécie de animaesinhos … para aquelles trabalhos subterraneos que se vão abrindo debaixo dos pés dos maldictos...As antimaquiavélicas palavras são de Herculano e bem podem ser aplicadas a este ambiente de decadência que marca os actuais meandros das novas leis da rolha, este garrote sorridente que vai semeando um totalitarismo doce, sob a capa da partidarite, da compra de poder, do clientelismo e da personalização do poder. Espero que muitos continuem em resistência, na defesa da liberdade.

Mai 19

O bailinho da Madeira começa a propagar-se como mancha por todos os segmentos do aparelho público de poder

Os partidos dominantes do Bloco Central tratam a política como uma coutada de caça, com reservado direito de admissão. A política são eles, os partidos-sol, com as respectivas sociedades de corte, de acordo com o desespero típico da hierarquia das potências e todo o universo dependente de satélites, pretensamente independentes, para que possam baralhar e dar de novo. Neste sentido, mantém-se a principal herança de um absolutismo onde o príncipe não está sujeito à própria lei que edita e onde tudo o que ele diz é lei, para que continuemos submetidos à voz do dono, do supremo dono e dos pequenos donos do poder que eles vão propagando pela teia dos muitos micro-autoritarismos subestatais onde se reproduzem. Todos esses mandadores dizem que não estão agarrados ao poder e que têm a consciência tranquila, assumindo uma descarada partidocracia, onde dizem que tem razão quem vence. Se não estamos à beira de uma ditadura das finanças, donde possa emergir um velho Estado Novo, já temos amplas coincidências com esse regime da usurpação que, entre nós, teve exemplo em António Bernardo da Costa Cabral. E não é por acaso que, mais uma vez, entram em cena as figuras do governador civil e de sucedâneos como o director regional. O que hoje se lê no jornal sobre um processo disciplinar a um professor e ex-deputado que contou uma anedota sobre nosso primeiro em privado, talvez aconselhe a que os agentes do poder montem uma rede de detecção de anedotas contrapoder contadas nos corredores dos serviços públicos. Aliás, até poderíamos utilizar os recursos do salto tecnológico para inventariarmos os blogues críticos do poder, ou um serviço de espionagem de “mails” emitidos por funcionários públicos, quando estão no exercício de funções. Por outras palavras, o bailinho da Madeira começa a propagar-se como mancha por todos os segmentos do aparelho público de poder. Os meandros eleitorais da autarquia lisboeta já se aproximam do mesmo asco que quase todos podem observar noutros segmentos de assalto ao poder. Os supremos mandadores não estão isentos das normas constitucionais e penais em vigor. Os sinais da doença autoritária e os reflexos condicionados da persiganga estão a contaminar o edifício democrático e a confiança pública. O chamado défice democrático começa a penetrar nos fundamentos de um aparelho de poder que diz estar ao serviço do Estado de Direito, onde revigora o regime do enquanto o pau vai e vem folgam as costas.

 

Mai 18

Onde fica o exílio adequado para um português que quer continuar à solta, contra os fantasmas do absolutismo?

Hoje, por volta do meio dia, termino uma dessas habituais semanas universitárias de Maio, plenas de colaboração com as actividades de extensão universitária, principalmente em colóquios promovidos pelos senhores estudantes. No dia um, foi uma palestra onde, em coligação com os estudantes, convidámos Manuela Ferreira Leite, com anfiteatro a transbordar. No dia dois, um balanço sobre dez anos de uma licenciatura. No dia três, conferência sobre a teoria política do humanismo renascentista português. No dia quatro, uma aula de antigos alunos para os novos alunos, sobre a questão europeia. No dia cinco, a presidência de um colóquio sobre globalização e inteligência económica. No dia seis, a tertúlia de filosofia política que há seis anos se leva a cabo na Universidade Lusíada, com o Duarte Nogueira, o Barbas Homem, o Guilherme d’Oliveira Martins, o Vera Cruz, a que este ano faltaram o Paulo Teixeira Pinto e o Ricardo Leite Pinto. No dia sete, que é hoje, uma discussão sobre o Brasil com colegas da UNB. Sempre com prévio trabalho de casa, para a elaboração de “papers”.

Os sete dias, que foram suficientes para a criação de outro mundo, acabaram por ser intensos para a reforma universitária, segundo me diz a inside information. O senhor ministro entrou em negociação, com sucessivas novas versões do grande diploma pombalino que nos vai pôr na linha fundacional. Já o meu conselho científico, cientificamente convocado pelos directivos vigentes, escolheu reunir-se precisamente nos dias em que sabia que eu não podia estar presente, para um dos grandes chefes dizer que eu não quis estar presente, mesmo quando presidi a sessões em que ele subscreveu formalmente o convite e também devia estar presente, por razões institucionais. Apenas fiquei esclarecido e responderei, com a necessária greve de zelo e a utilização dos meios contenciosos disponíveis, mas sem me preocupar com o de minimis da alta qualidade humanista dos que nunca foram treinados para a cultura da institucionalização dos conflitos, preferindo os silogismos sebenteiros do cardeal Ratzinger, e mistura com as vulgatas de José Estaline.

Por outras palavras, enquanto o senhor ministro da ciência, e muito bem, parece querer estabelecer um número mínimo de trinta alunos por doutor ,como critério de excelência, os meus grandes chefes da pequena chafarica caminham para estabelecer, para cada um dos doutores que integram as respectivas listas de conquista dos restos do poder, trinta cadeiras por doutor. Por enquanto já vão em vinte e tal para cada um, sem contar com as que têm em acumulação noutras universidades públicas, privadas e concordatárias. E fazem bem, porque assim, com tantos assistentes dependentes, conseguirão maiorias de votos para a respectiva reeleição e sempre poderão continuar a elaborar planos científicos em reuniões onde simples monitores têm tanta qualidade opinativa como doutores, agregados e catedráticos, só porque invocam a chouriçada da bolonhesa, mesmo quando desprezam gritos de revolta institucionais subscritos pelos mesmos estudantes. No intervalo, podem pagar anúncios num semanário de grande circulação, onde põem professores auxiliares, que utilizam como agentes eleitorais, como coordenadores de mestrados, ao mesmo tempo que, em cartazes internos, elevam os ditos, também por lapso, a professores catedráticos, porque a lei para os amigos tem outro sabor.

O poder nu é assim, em qualquer regime marcado pelo arendtiano modelo de governo dos espertos. E quando alguém faz um discurso, em público, olhos nos olhos, criticando o poder, o melhor é sair da sala, para, depois, quando o visado não está presente, no silêncio da alcatifa, se dizer que ele o achincalhou e até insinuar que uma das respostas deveria ser a da pancadaria, ao mesmo tempo que também se insinua que ele é o autor de todos os blogues do mundo, de todos os mails anónimos do mundo, de todo os incómodos do mundo, porque ele, um dia, é do Opus e, no outro, da maçonaria. Não sei mesmo se não será realizador de um video que ainda não vi e que é objecto de trágica risada em toda a escola. No entretanto, sempre se pode sanear efectivamente, nessa ilusória distribuição de serviço com que os que compareceram à reunião dos homens sem sono se banquetearam até à consumação dos séculos. Amen.

Agora, os catadores inquisitoriais descobriram que o subscritor deste blogue acabou de cometer um crime: anda para aí a promover uma associação privada de doutores, agregados e catedráticos de várias escolas, para nela fazer investigação científica interdisciplinar, federando homens livres do subsídio do senhor director, das viagens de turismo científico pagas pelo senhor director, das fotocópias que ele manda afixar em todo o edifício com as entrevistas que dá a jornais da respectiva região sobre as respectivas opções políticas, ou do prévio ofício autorizador do mesmo senhor director, que pretende monopolizar toda a investigação institucional, acumular duas ou três cordenações de unidades, fazer a lista que controla todos os órgãos da escola, ter, na sua directa dependência, todos os assessores técnicos e ser omnipotente na gestão dos orçamento.

Julgo que a mistura de omnisciência com omnipotência, incluindo a filiação no partido que está no poder, mas que não o elevou a secretário de estado da reforma administrativa, bem como a consultadoria da reforma da região autónoma da Madeira não são ingredientes que podem fazer a boa via. Porque não é boa via ser o dito o caminho e a verdade. E sempre deveríamo fugir do concentracionarismo, nesta encruzilhada que aconselha a unidade na diversidade e a manutenção da pluralidade de paradigmas. Continuo a não temer estar em desacordo com a maioria dos outros, para poder estar de acordo comigo mesmo e integrar aquela minoria onde não temo ser o único integrante. Quero viver como penso, sem pensar como depois irei viver. Por favor, onde fica o exílio adequado para um português que quer continuar à solta, à solta contra os fantasmas de um absolutismo, enredado nas teias da ignorância, do fanatismo e da intolerância?

Mai 18

Conferência sobre o Brasil

 

 

Retalhos de sonho de um português que, de vez em quando, fica à solta…

 

José Adelino Maltez

 

 

1

O jornalista-historiador, Eduardo Bueno, vestindo-se de uma linguagem weberianamente dura, descreve, de forma realista, as grandezas e as misérias lusitanas, mas, por isso mesmo, manifesta um intenso amor às origens da sua própria pátria. E lá podemos viajar pelo tempo do senhor D. João III, Tomé de Sousa e Manuel da Nóbrega, entre letrados e guerrilheiros de Jesus, com seculares, burocratas e desterrados que saíam do Tejo à procura de um lugar onde que lhes desse vida, já que, no velho reino, eram mais os pés do que as botas.

 

Reparei que, se hoje cada português gasta, por mês, 430 euros com as alturas da governança, já então, no sistema de governo por conselho, o de D. Manuel tinha quinhentos membros honorários, enquanto o do filho foi reduzido para 66. Já então a história e Portugal era a história do défice, do desperdício e da exagerada carga fiscal.

 

Bueno mostra-nos os extremos, entre o lusitano Caramaru, um desses lançados que se transformou numa espécie de rei dos índios, e o jesuíta Manuel da Nóbrega, o fundador de São Paulo, o gago das mortificações em público, ditas exercícios espirituais. E assim continuamos a viver entre o sórdido da corrupção e o dramático da procura do mais além, enquanto alguns vícios privados, de vez em quando, se inserem no bem comum, mesmo quando misturam feudalismo e estadualismo, economia privada e serviço de el-rei, num acumular de contradições que acabou por constituir esse reprodução de cidades e do próprio reino, a que hoje chamamos Brasil.

 

A descrição de Bueno é atraente, fazendo da história uma espécie de guião cinematograficamente colorido e tornando-se numa espécie de livro de aventuras empolgante, mesmo quando exagera no traço e caricaturiza o lado da degenerescência de uma sociedade de favoritismos, tráfico de influências, exagero de funcionários e corrupção. Porque faz, muito lusiadamente, a denúncia caseira dos nossos próprios vícios.

 

Aliás, a crítica acerba pode ser uma forma humanista de amor, nesta viagem por umas profundas origens medievais e renascentistas, quando ainda não tinham chegado os ventos do soberanismo, do estadualismo e do próprio negocismo capitalista e se viviam as explosões da nossa mistura de heterodoxias, entre cristãos novos, fidalgos falidos, militares andantes, navegadores, arquitectos, físicos e artesãos, todos muito papeleiros e humanamente imperfeitos.

 

Mas foi nesse caos, refugiados nas paliçadas, entre a voragem esclavagista e a antropofagia, que começámos a tal procura do paraíso que levou todos a desmatar uma terra quase virgem, construindo cidades e vilas, dotando-as de vereações pluralistas e erigindo um novo reino, sempre segundo o regimento, sempre violando o regimento, para também se vararem as linhas das Tordesilhas.

 

Todos os povos são também as respectivas origens, esse manifesto destino que a nossa liberdade de sonhar vai construindo e desconstruindo, dia a dia vencendo a necessidade, o tal desafio das circunstâncias que vamos moldando, em nome da perfeição de um mundo melhor, nesse transcendente situado a que chamamos vida, entre a aventura e o pragmatismo.

 

 

2

E lá continuei a peregrinação por esta antiga capital de Portugal, ainda saudoso do esplendor de livros e de pedra talhada do Real Gabinete, onde recordo os sinais e testemunhos deixados por Ramalho Ortigão, Joaquim Nabuco, Gago Coutinho e António José de Almeida, nesta cadeia de gerações que unem os nossos sucessivos sonhos e paraíso. Quase comparo esta visita à viagem que, outrora, fiz à sinagoga portuguesa de Amsterdão. Porque são quase sempre os chamados heterodoxos que resistem na profunda tradição da lusitana antiga liberdade que sempre foi de antes quebrar do que torcer.

 

E, no silêncio do Real Gabinete, lá conversei com meus avoengos mestres, de Herculano a Camilo, de Carlos Malheiro Dias a Jaime Cortesão, nessa constante procura de um Portugal mais do que Portugal, esse sonho que vai além da pátria física da terra dos mortos e se pode sempre elevar em navegação e bandeira, fazendo dos sertões do tempo o espaço do próprio mar-oceano. Especialmente quando a terra-mãe das origens se torna patroa e madrasta, presa nas teias dos donos do poder e de alguns dos restos dos senhores da guerra, com muitos herdeiros de inquisidores, das juntas de providência literária e das reais e republicanas mesas censórias, amarrados às vistas curtas dos conjunturais politicamente correctos, de que são sorridentes escravos, incluindo os ministerais.

 

3

No templo do Real Gabinete se guardam sinais de sonhos e contemplações, prenhes de tradição e de futuro, especialmente daquele quinto império do poder dos sem poder, onde a pátria da língua portuguesa não é senão mera super-nação futura. Aliás, em plena turbulência doméstica, sempre houve cientistas que se puseram a caminho do Sul, como Gago Coutinho, com Os Lusíadas que ofereceu ao Real Gabinete, numa mão, e o sextante, na outra.

 

Sempre houve cultores do verbo e da autenticidade, como António José de Almeida que aqui veio em 1922, agradecer ao Brasil o ter-se tornado independente. Sempre houve António Ferro, clamando pelos Estados Unidos da Saudade, João de Barros ou Nuno Simões. Parafraseando Ramalho, assinale-se que mesmo que haja um cataclismo nos estreitos limites da Europa, não precisamos de jangadas de pedra, porque já nos reproduzimos aqui, neste Portugal maior, neste Portugal à solta, dando novos mundos ao mundo, quando nos diluímos na diferença dos outros, que não considerámos inferno.

 

 

 

 

4

Será mais útil assumirmos que a maior parte dos descendentes dos portugueses do tempo de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral não são os detentores do BI de cidadãos da República Portuguesa. A maior parte desses luso-descendentes são, felizmente, “portugueses à solta” e vivem no hemisfério Sul, lá para as bandas de Porto Seguro. E a República dos Portugueses que restam na Europa, talvez por enjoarem, ganharia muito em abrir as janelas e as portas do respectivo provincianismo aos ventos que vêm do Atlântico Sul, do Índico e do Pacífico, com a humildade de reconhecerem que um Estado com a nossa dimensão, se quiser continuar a querer ser independente, terá que gerir dependências e navegar nas redes da interdependência.

 

 

5

O português à solta era aquele que não se importava de “morrer tentando” e tinha como lema “navegar é preciso, viver não é preciso”. Por isso é que, na “procura do paraíso”, sabia construir. Leiam o Sérgio Buarque de Hollanda (ver acesso na coluna da esquerda, ao fundo) , o tal pai do Chico que queria voltar a desaguar no Tejo, para nos voltar a trazer o que ainda resta desse “imenso Portugal”, o tal do “mar sem fim”.

 

Não, não vou esquecer o Brasil… Leio que nesta segunda fase da campanha para presidente e governadores, Lula se distancia onze pontos do candato tucano e recordo o último debate da Globo a que assisti “in loco”, quando Alckmin enfrentou dois antigos dissidentes do PT. Um virado à direita, sob a chapa do partido de Brizzola, já social-democrata, Cristóvão Buarque, antigo reitor da Universidade de Brasília e antigo governador do distrito federal pelo PT. Outra, a professora de medicina Heloísa, nordestina como Lula, mas que, dizendo não querer trair a sua classe, se assumiu como da esquerda pura, em nome das origens revolucionárias, proclamando que Lula se reuniu de bandidos e continuou a corrupção do governo de Fernando Henrique, sempre a denunciar os mensalões, os sanguessugas e os milhores de dólares de origem desconhecida que inundaram o lulismo. Chamou mesmo, aos ministros da área económica e financeira, muleques da banca e denunciou o desvio de renda que esta tem levado a cabo. Isto é, demonstrou agilidade, inteligência e preparação, não se perdendo em ideologismos, porque tem bem mais substância do que a imagem de exaltada e franzina.

 

Alckmin preferiu o jogo táctico de fugir com o rabo às frechas dos contendores e tratou de desviar todos os ataques ao sistema tucano, tanto pela defesa que fez do legado de FHC, como pelos exemplos de boa gestão que apresentou como governador de São Paulo. Infelizmente para ele não conseguiu mostrar carisma, não vendeu ideologia e não clamou contra o fim da história. Preferiu acentuar a imagem do bom gestor, conhecedor de “dossiers”, quase demonstrando que não vai ter êxito presidencial.

 

Por isso comoveu a prestação de Buarque, o velhote idealista, que leu a cartilha dos valores da democracia, à maneira dos velhos regimes de príncipes, sempre a proclamar princípios e a desenvolver teorias experimentadas, especialmente quanto às medidas que propôs para o combate à corrupção, utilizando desta um conceito alargado, nomeadamente quando considerou que a própria gestão que o governo tem feito da bolsa-família se insere no esquema. Porque tanto serve para criar dependência, como não elimina a própria pobreza, dado que apenas serve para matar a fome sem ensinar a pescar, isto é, sem permitir um desenvolvimento sustentável. O que só seria possível pela revolução da educação e pela aposta na criação de centros de ciência e tecnologia, a fim de serem possíveis situações como as da Embraer, hoje o maior exportador brasileiro.

 

Lula não foi ao debate. Ele sabia que a imagem de pai dos pobres, herdada de Getúlio. tem apenas como adversário o próprio lulismo e a consequente erosão do poder, para o que elege sempre como principal adversário o tucanismo. Ele sabe que o seu prestígio lhe vem dos milhões de famintos que alimenta, mesmo que faça mais caridadezinha estadual do que justiça. Ele sabe que tem com ele a classe média baixa e maioritária, a quem não tocou na bolsa. Manteve pragmaticamente a estabilidade cambial e o programa de luta contra a inflação, em aliança com o sistema financeiro e sem a hostilidade agressiva do associativismo empresarial, ao mesmo tempo que acalmou sindicatos e adormeceu o MST, que se tem entretido, graças a gossos subsídios estaduais, a fazer uma massificada formação de quadros, preparando a passagem a futuro movimento político, sem sabermos ainda se o fará de forma institucional e pluralista, ou, então, através de um processo subversivo ou revolucionário.

 

6

A grande mancha do actual sistema político brasileiro está na corrupção, que se transformou em torrente, ao mesmo tempo que é manifesto o alastramento da incompetência, sobretudo a nível dos altos quadros da administração pública, dado que, ao enxamear-se a máquina de comissários políticos se desestimularam os que apenas reclamam direito à carreira. E assim foi crescendo uma máquina gigantesca que se tornou na principal devoradora dos contribuintes.

 

Julgo que o situacionismo lulista, apesar de tudo, se vai aguentar. A situação económica internacional tem-lhe sido favorável e o povo continua entretido com uma espécie de continuação do menos mal dos remediados, nomeadamente pelo acesso à classe média de três milhões de pessoas, dando esperança aos setenta milhões que permanecem na situação técnica de pobreza.

 

A subida de Lula ao poder, perante a decadência tucana, deu ao Brasil a hipótese acabar com uma larga mancha de esquerda utópica e messiânica que ainda não tinha tido a oportunidade de gestão do poder e, portanto, padecia de algum irrealismo programático. Julgo que Lula teve o mérito de dar à democracia brasileira uma maior base social de apoio e o regime passou a ser efectivamente de todos, sem agressivas exclusões, ao mesmo tempo que surgiram sucessivas quedas dos anjos. O PT já se social-democratizou e passou a alinhar na grande turminha dos blocos centrais, ao mesmo tempo que Lula foi ganhando respeitabilidade na cena internacional, onde, sem ascender à dimensão de um Mandela, soube distanciar-se do espectáculo de demagogia das republiquetas das bananas, onde muitas comédias podem redundar em tragédia.

 

 

7

Reparo como é francamente interessante o balanço das publicações parlamentares, com inúmeros estudos plurais sobre a realidade política brasileira, com particular destaque para as origens do pensamento político, onde os grandes nomes lusitanos, com coincidência de labor com os inícios deste Estado, são talvez mais bem tratados do que na pátria madrasta. Aqui, Silvestre Pinheiro Ferreira é mestre, José Bonifácio, um estandarte e até se conta a história de Avelar Brotero, o jurista, não o botânico, o tal que para aqui veio em 1825, depois de uma actividade de magistrado na pátria de origem, e que se transforma no primeiro lente da Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi secretário durante quatro décadas. Será que nos esquecemos dele, só porque pediu a nacionalidade brasileira em 1833. Mas mestre Agostinho da Silva sempre exibiu, até morrer, o seu passaporte da terra de Vera Cruz…

 

Deparo-me com a reedição da antologia do pensamento político de Walter Porto, dita “Conselhos aos Governantes”, onde alguns portugueses têm as suas obras, como Sebastião César Meneses, D. Luís da Cunha ou Sebastião José de Carvalho e Melo, ao lado dos gigantes como Platão, Maquiavel ou Frederico II, num universo de apenas uma dezena de autores, coisa que espantaria muitos dos nossos tradutores em calão da “political ttheory”.

 

8

Felizmente que nestas bandas o pensamento consegue lançar raízes. Que consigamos retomar as saudades de futuro. Mas outras imagens me são transmitidas com a força da verdade, como a impressionante reportagem que vi na televisão sobre os catadores de caranguejos dos mangues do Nordeste, assim se confirmando como continuam válidas as observações de Josué de Castro sobre “Homens e Caranguejos”.

 

Continuo também a devorar os debates políticos, achando curiosamente arqueológica a intervenção de um representante da frente de esquerda de Heloísa Helena, com esquerda revolucionária, folclórica e comunista, ainda invocando o legado de Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Florestan Fernandes. O que leva o próprio Partido dos Trabalhadores a se assemelhar cada vez mais ao nosso PS dos primeiros tempos da pós-revolução, coinfundindo-se com o grande Bloco Central, dito social-democrata.

 

Contudo, mais de metade do tempo dos noticiários, impressos, radiofónicos e televisivos, passam-se com a denúncia do mais recente escândalo que envolveu a classe política, neste caso do PT, com declarações sucessivas que esperam a salvação vinda dos operadores judiciários e policiais, num modelo que ameaça transformar este país numa espécie de Estado de magistrados e investigadores policiais, enquanto os tradicionais tutores da moralidade e do bem comum, como os militares ou os eclesiásticos se ficam por declarações tipo música celestial.

 

Imaginativos são alguns segmentos da campanha, como a utilização daquilo que aí, no Porto, chamavam cabeçudos e gigantones, com os bonecos dos candidatos, os quais se vão passeando aos saltitos pelo centro da cidade. Entretanto, o líder do Movimento dos Sem Terra trata de proferir uma conferência na Escola Superior de Guerra, onde foi aplaudido por grande parte da elite militar. O resto são sucessivas declarações daquilo a que chamam justiça trabalhista, uma invenção de Getúlio, que não anda à cata das tradicionais vigilâncias sobre as justas causas para os despedimentos, que aqui a legislação é bem mais liberal, mas antes do renascimento da escravidão e da chaga do trabalho infantil. Vale-nos que em Alagoas, as eleições costumam ser violentas e já se despachou para o território tropa federal, num sítio onde o coronelismo ainda usa arma e não aprece haver bala perdida, porque todas elas costumam ser eficazes na eliminação do adversário…

 

9

Não consigo escrever sobre o que se passa dentro de Portugal, assim fora de Portugal e por isso continuo obsidiante sobre este ambiente que me rodeia. Reparo como o Brasil é, ao mesmo tempo, a principal potência católica do mundo e o sítio onde há mais espíritas, à Kardec, com direito a banca de divulgação nas universidades ou nos “shoppings”. E também não é por acaso que, por cá, as actividades da maçonaria são tão naturais como o ar que se respira, ao mesmo tempo que os canais evangélicos nos entram pela casa dentro.

 

Por outras palavras, esta mistura do português sonhador, à procura do paraíso, com a nostalgia das nações índias, dos afro-descendentes e dos muitos e variados povos das outras partes do mundo, gerou esta complexidade crescente, cada vez mais metafísica. Uma entidade espiritual que, começando por ser o mero mundo que o português criou, se tornou, felizmente, uma criatura liberta do criador que foi e continua a dar novos mundos ao mundo, cumprindo seu destino como comunidade nacional ao serviço do universal, como sítio de passagem para a super-nação futura.

 

E eu, português antigo, refeito nestas paragens como português à solta, conforme a definição de brasileiro dada por Manuel Bandeira, me revigoro de cosmopolis, sendo quem sempre fui, mas procurando diluir-me em todos os outros, de acordo com o conselho de mestre Gilberto Freyre.

 

Daí que não comente a citação que o papa Bento XVI fez de um imperador bizantino sobre Maomé e as religiões que usaram da violência. Todas a fizeram, a começar pelo próprio cristianismo. Contra outras religiões concorrentes e contra os heterodoxos domésticos.

 

Sem assumir o tradicional anticongreganismo, feito á imagem e semelhança do próprio congreganismo que dizem combater, prefiro mergulhar nas raízes do nosso pluralismo de crenças, como o mundo ocidental devia ser, para poder ser digno do abraço armilar. Tenho medo das sextas-feiras, dias trezes, quando os poderes instalados decidem decapitar pretensos eixos do mal, esquecendo-se que eles podem disseminar-se e persistir.

 

10

Como heterodoxo lusitano, passível de condenação por heresia, é com uma cumplicidade de afectos plurissecular que assisto a este cadinho de explosões metafísicas que é o Brasil. Até em plena campanha eleitoral se vislumbra o processo, na maneira como é tratada a questão da própria bio-energia, longe desses ecologismos importados do mundo anglo-americano.

 

Apenas espero que o Brasil sonho tornar-se na principal potência espiritual do mundo. Porque assim o nosso compatriota comum, o Padre António Vieira pode voltar a ter razão.

 

Uma revista de grande circulação, cá do Sul, a “Época” decidiu escolher os mais destacados brasileiros da história, tanto pela escolha feita por um júri de 33 personalidades, como por uma votação popular, via Internet. A elite escolheu Ruy Barbosa. O povão preferiu o espírita Chico Xavier. Reparo, como entre os candidatos da elite, aparecem nomes como José Bonifácio ou o Padre António Vieira, bem como escritores como Machado de Assis e os outros habituais heróis brasileiros, de Juscelino a Getúlio Vargas, enquanto o povão andava mais pelo Ayrton Sena e pelo Pelé. Isto é, num tempo de crise de personalidades, o Brasil vai ao passado buscar os seus signos unificantes, assim se demonstrando como uma nação é uma comunidade de significações partilhadas.

 

11

Reparo como vão decrescendo os símbolos comuns à lusofonia. Noto como nas bancas populares ainda circulam em edições de bolso alguns dos nossos clássicos como Eça e anoto que Pessoa ainda aparece num qualquer supermercado, mas temo que a nova era da globalização nos pode distanciar, dado que não me parece que baste Saramago. Vale-nos São Futebol, onde o nome de Scolari faz sempre primeira página e onde também aparece o Deco aqui e ali, mas já sem memórias de um Otto Glória e de outros da mesma geração que nos ensinaram ao processo artístico do pé na bola e muita finta.

 

Ganhou o Ruy e muito bem. Pelo menos recorda-se alguém que foi quatro vezes candidato a presidente da república e perdeu sempre, quando os adversários da república musculada e militarenta lhe chamavam o Rui Verbosa, só porque tinha razão antes do tempo e clamava para esta terra a tripla exigência do abolicionismo, do civilismo e do federalismo. Que viva o baiano que, quando em 1916 foi apresentado o projecto de código civil ao congresso, num trabalho de Clovis Bevilacqua, decidiu trabalhar até altas horas na sua residência, com candelabro atado ao pulso por uma argola, e fazer cerca de mil e oitocentas emendas ao texto. Isto é ficaram mais as emendas do que a intenção de Clovis, para que assim se revogassem nesta terra os restos de Ordenações Filipinas que continuavam em vigor.

 

 

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E tudo isto para continuar a confirmar que, em muitos casos, o Brasil que resta é mais português do que o próprio Portugal. Desde o direito, por causa da permanência das Filipinas, até meio século depois de termos aprovado o Código de Seabra, até ao próprio linguajar. Segundo os peritos, Camões teria mais sotaque português do que o actual ritmo da nossa preponderância da sílaba tónica, engolindo o resto. Que isto das periferias dos Impérios é mais fiel ao passado do que as antigas metrópoles. Até um professor de origem japonesa aqui da UNB me confirmou que Tóqui vem aqui estudar o japonês do pré-guerra, entre os emigrantes do Sol Nascente estacionados nesta terra de Vera Cruz…

 

Mensalão, sanguessugas e ambulâncias são as palavras de maior carga emocional da política brasileira da actualidade, quando a corrupção se tornou palavra de todos os dias, gasta pelo uso e prostituída pelo abuso, nomeadamente pela invocação de uma vaga ética, destinada precisamente a corrigir o que seria natural na actividade política. Só que as denúncias de corrupção são eleitoralmente neutras, dado que todos os partidos têm titulares ou assessores implicados. Porque há oleosidades de mafiosa solidariedade que até levaram à recente decisão parlamentar sobre o fim do voto secreto dos congressistas, até para impedir que alguns se livrem de cassações.

 

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Contudo, o drama do quotidiano parece estar mais interessado no que vai acontecer à taxa de juro e não é paradoxal a circunstância do recente pacote habitacional do governo Lyula ter recebido entusiástico apoio dos banqueiros. Porque nesta terra, com cerca de 70% de excluídos, é natural que a maioria eleitoral apoie um governo que lhe deu subsídio para não entrar na fome, apesar de tal entrega do peixe não significar que os subsidiados tenham aprendido a pescar, através do mirífico desenvolvimento sustentado. Aliás, Lula não se cansa de proclamar que cerca de três milhões de brasileiros entraram na classe média, graças às medidas que tomou.

 

Já um terço da população, o grupo dos remediados, aqui dito da classe média, vai girando em torno do discurso das chamadas elites, cujo dicionário discursivo nem sequer é ouvido pelo tal povão. Porque é neste grupo que se situam as tradicionais divergências de tucanos, PMDB, PT e outros mais, nomeadamente o partido que foi de Brizzola e tem como candidato à presidência o professor Cristóvão Buarque, antigo reitor da UNB, e que invoca o velho nacional-desenvolvimentismo, citando os antigos correlegionários Paulo Freire e Darcy Ribeiro.

 

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Entretanto, esta dinâmica democracia constituiu , a partir da sociedade civil, uma plataforma de luta contra a corrupção que imediatamente emitiu uma cartilha de medidas práticas de denúncia contra a corrupção eleitoral, ao melhor estilo do que foram os códigos e associações de consumidores das décadas passadas.

 

E talvez não seja por acaso que por aqui há 20 milhões de seguidores da religião espírita, de Alain Kardec, aqui actualizada por Xico Xavier. Dizem até que o fenómeno está agora a penetrar em força na classe média e nas próprias elites.

 

É por via destes paradoxos que poucos repararam na reunião cimeira do Brasil, Índia e África do Sul, aqui ocorrida há dias. Este símbolo de uma emergente realidade que pode levar ao estabelecimento de um novo processo de relações entre o Norte e o Sul, com estas três grandes potências a mobilizarem o tertium genus reunido em torno do grupo dos vinte. Todos querem esquecer as Tormentas e assumir a Boa Esperança.

 

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O Brasil tem a vantagem de se assumir como uma espécie de espelho do mundo inteiro, este cadinho de povos entre o Velho e o Novo Mundo, onde a fome de justiça que se manifesta pode ser o sinal de um amanhã pós-ideológico, sem os falsos messianismos que mercaram o sectarismo do século XX.

 

Todos os dias quando acordo, aqui na residência universitária, vejo da janela uma família que habita sob um oleado, encostado ao parque de estacionamento do “campus”. Mais adiante, vai chegando carroça com um desses saloios dos arredores que vem à cidade vender verduras e fruta. Reparo como o povão destas grandes massas ainda vive em regime de “docta ignorantia”, não entendendo o discurso da elite politiqueira, mesmo a que vai cantarolando a causa operária. Também aqui este zé povinho não entende o exotismo de quem faz desta terra sítio de episódico turismo tropical que procura manconha, espiritismo ou sexo abrasador, quando burgueses e “yuppies” do mundo WASP se embebedam de hedonismo terceiromundista, apagando, com dólares, euros e cartões de crédito a ética do puritanismo protesto que os fazem produtores austeros e cidadãos pacatamente silenciosos no dia a dia dos seus cinzentos nórdicos.

 

Porque o grande espaço deste Estado Continental, sem perspectivas hegemónicas ou expansionistas, apenas está condenado a crescer por dentro, transformando o povão em baixa classe média, mas correndo o risco de se fechar sobre si mesmo, sem assumir a missão que lhe cabe no mundo, que é a de contribuir para a mobilização da comunidade lusíada e, a mesmo tempo, sustentar a solidariedade com o mundo dos hispanos, para que valores universais como a democracia e o pluralismo, não continuem a ser traduzidos pelos calão, do anglo-americano.

 

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Aqui continuo neste grande mar do sertão, onde os bandeirantes deram aos locais deste novíssimo mundo os nomes dos ventos de Atlântico Sul, aqui onde navegar é preciso para que viver possa continuar a ser possível, através de uma inevitável submissão para a sobrevivência, através de uma gestão das redes de influência em que se vão fragmentando as teias dos donos do poder. Onde quanto mais localmente feudal se situa o senhorio mais este tem de disfarçar-se de estadão.

 

E foi assim que assisti ao fim da carreata de Roriz e da sua candidata Abadia, ao estádio Mané Garrincha, coisas que ninguém fala aí entre as reportagens da macropolítica que só contabiliza tucanos e pêtistas, esquecendo que há um maior partido brasileiro, tipo saco de gatos, o PMDB, que aposta forte nas candidaturas locais e estaduais, nesse processo de contínua actualização do coronelismo e do federalismo. Porque nunca quis ser governo e dono da presidência, só uma vez a atingindo pelo acaso, quando Sarney teve de substituir Tancredo.

 

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Digamos que, por cá, pouco interessa a leitura dos documentos fundamentais dos vários partidos e movimentos. Como diria o marechal Castelo Branco, na prática, a teoria é outra, isto é, a música celestial das doutrinas não explica como Lula virou liberal ou os tucanos, providencialistas, nesta plástica tão brasileira do submeterem-se para sobreviverem.

 

Reparo como o jornal principal cá da capital federal, retoma o título de uma gazeta liberal lusitana, “Correio Braziliense”, quando o sonho da mesma revolução liberal ainda se conjuga em reino unido, congregando elites de aquém e de além mar, antes de comerciantes de grosso trato animarem a estúpida perspectiva nacionalitária do “passe bem, senhor Brasil”, gerando estúpidos separatismos nos dois lados do Atlântico e não atendendo ao sonho de Silvestre Pinheiro Ferreira.

 

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Muitos esquecem que a mudança da capital de Lisboa para o Rio de Janeiro não ocorreu por pressão de Junot, dado que a mesma era uma alternativa estratégica desde 16140, várias vezes acalentada por D. Pedro II e aparecendo até no Testamento de D. Luís da Cunha como objectivo nacional.

 

Porque nesta banda lusíada do Atlântico Sul, naquilo que foi a América Portuguesa, sempre se publicaram obras de exílio da Europa Portuguesa. Desde os trabalhos do miguelista José da Gama e Castro, ao primeiro volume dos Ensaios de António Sérgio. Por aqui peregrinaram ilustres nacionalistas místicos de estirpe maçónica, como Jaime Cortesão e Agostinho da Silva ou desencantados do 28 de Maio como Fidelino de Figueiredo. E por cá até morreu Marcello Caetano, semeando discípulos como Ubiratan Borges de Macedo, por acaso ligado familiarmente ao próprio Fidelino.

 

À esquerda e à direita, entre os sonhos do progresso ou as nostalgias da reacção, o Brasil sempre foi espaço, não de exílio, mas de refúgio e alento para transfigurações e redescobertas da arte de ser português. Sem este espaço de alento, conforto e reconciliação, com doçura tropical, muito do que melhor se produziu entre certos portugueses tinha ficado no limbo das boas intenções. Espero que a vida continue. Navegar é preciso. Viver também.

 

É que por cá se não cravaram fundas as garras inquisitoriais, ou o clericalismo anticlericalista dos que proibiram vestes talares ou o toque de sinos. A tolerância é condição ontológica do Brasil. O novo mundo só existiu para que os europeus nele pudessem fugir a perseguições de dogmatismos e fundamentalismos,.

 

Não consta que nesta banda do mundo tenham emergido os totalitarismos, nem por cá se contabilizam democídios, como os que mataram cerca de 200 milhões de seres humanos no século XX, para que as doutrinas se pudessem martelar.

 

Por isso, o sonho construtivista de cidades voando para o paraíso, onde Brasília tem algo do sonho de Norton de Matos no Huambo, à procura de uma Nova Lisboa, para se transformar num eventual Rio de Janeiro e que algumas vozes da actual Luanda querem continuar, com a edificação de uma Angólia. Porque a terra que tem por capital uma cidade com nome de São Paulo alimenta algumas das sementes deste desejo de novo mundo e de novo grande espaço para o sonho dos que gostam de navegar no sertão. Viva o Reino Unido!

 

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Lá continuo ouvindo pela enésima vez os chamados blocos de propaganda eleitoral, obrigatória e gratuita, que também há a comercial, reparando como se repetem à exaustão os mesmos discursos, onde os tempos reservados ao PT nunca falam em PT, mas apenas na pessoa do presidente em exercício, assim se demonstrando como o antigo movimento plural de massas que se pretendia horizontalista se rendeu agora às maravilhas do verticalismo estadualista. Até ganhou a serena pose de um estadão moderado, que chama radicais aos oposicionistas que, outrora, lhe atribuíam o mesmo epíteto.

 

Noto como os melhores aliados de Lula são precisamente os dissidentes pêtistas do radicalismo esquerdista revolucionário que com a sua berraria lhe permite colocar-se no centrão da gestão situacionista. Se eles não existissem teriam que ser inventados para o efeito. Porque, seja qual for a sua origem, todo o poder estabelecido tende a assumir o pragmatismo de, ao procurar manter-se, se colocar no âmbito de um discurso centrista, a fim de se disfarçar o conformismo da erosão, com promessas de reforma, feitas renovação na continuidade e permanência na evolução.

 

Daí que precisem de radicais à direita e à esquerda, para que se desenvolvam fantasmas e preconceitos que façam temer a mudança. Porque enquanto houver um qualquer cidadão sem pão que acredite no poder estabelecido, a situação continua. A revolução só acontece quando sucedem as vacas magras, mesmo que se mantenha a aparente força de outrora, ou se proclame a vitalidade da doutrina.

 

E aqui, em Brasil eleitoral pouco carnavalesco, sente-se que, apesar de haver natural crise política, se vive em efectiva paz social, dado que se conseguiu a proeza democrática da instiutucionalização dos conflitos, transferindo-se para o teatro visível da democracia o conjunto de frustrações das expectativas e de revoltas pela fome de justiça.

 

 

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Tenho andado a fazer uma peregrinação pelas nossas raízes comuns, em matéria de origem do político, tendo em vista a matéria de relações internacionais. Reparo que aqui chega bem mais seleccionadamente a central de conformação de conceitos do sistema anglo-americano, sendo traduzidos manuais de forma mais expedita, apesar de haver uma geometria variável no sistema universitário brasileiro, onde, felizmente, há mais pluralidade de paradigmas do que na pequena casa lusitana, onde ainda são quase esmagadores os mestres-pensadores que nos continuam a traduzir em calão muitas modas que passam de moda.

 

Bem tenho pensado nesta emergência de um novo mundo lusíada do político e ainda ontem meditava na circunstância da formação do Brasil ter acompanhado a própria emergência do modelo pós-medieva, com Estado e Soberania, coisas que não existiam quando Pedro Álvares Cabral aqui desembarcou, antes de Maquiavel ser ditado postumamente e de Bodin ter teorizado a soberania. Aliás, no âmbito das revoluções demo-liberais do espaço ocidental, as revoluções sul-americanas, ficam situadas depois da inglesa, da norte-americana e da francesa, mas antes da primavera dos povos da Europa Central e Oriental, tendo o Brasil até exportado para Lisboa uma cópia constitucional que, entre nós, durou mais de meio século, nestas trocas e baldrocas políticas que nos fazem irmandade efectiva.

 

Mandaram-nos para a Lusitânia a Carta Constitucional, o partido dos brasileiros, ou chamorros, vencedor da guerra civil de 1828-1834, e a nossa querida D. Maria II, bem como, depois nos atiraram o positivismo republicano, com os brasileiros Sebastião Magalhães Lima e Bernardino Machado, tal como nós mandámos o Imperador, o Estado Novo e os constitucionalistas de 1976, talvez para compensar a circunstância de os últimos tempos do regime derrubado em 1974, ter sido pautado ideologicamente pelos modelos do Estado de Segurança Nacional de Golbery, para não falarmos nas relações de Gilberto Freyre com o almirante Sarmento Rodrigues, no lusotropicalismo. Está na hora de continuarmos este esforço, agora em conjunto com a própria CPLP. Basta assinalar como hoje foi emotivo o encontro com uma estudante cabo-verdiano, nesta pluralidade de pertenças do espaço de língua portuguesa. Basta relermos o Padre António Vieira, o José Bonifácio ou o Agostinho da Silva, para percebermos a urgência de superarmos a velha retórica dos Estados Unidos da Saudade, dado que os mesmo deixarão de existir se não fizermos investimentos culturais de povo a povo.

 

É por isso que depois de amanhã irei tentar viver a festa do dia da independência do Brasil, mas bem gostaria de poder ter comigo um arquivo que contivesse o discurso do presidente António José de Almeida, em 1922, quando aqui veio comemorar os cem anos do Ipiranga, proclamando vir agradecer ao Brasil o facto de se ter tornado independente. Precisava de o comunicar aqui no meu espaço de diálogo universitário, antes de poder começar minhas pesquisas na biblioteca do Senado, para refazer o espírito de Silvestre Pinheiro Ferreira e de Morais de Carvalho.

 

 

 

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Cá continuo vivendo este quotidiano sertanejo em campanha eleitoral unidimensional que à mesma hora e em todas as estações de rádio deste grande espaço nos traz os mesmos candidatos, o tal “newspeak” ao serviço de um “big brother” democrático, numa lenga lenga discursiva onde ninguém consegue distinguir a direita da esquerda, dado que o situacionismo de esquerda assume poses de estadão e a oposição de direita brinca à demagogia esquerdista. Só desalinham as candidaturas marginais da extrema-esquerda, dos religiosos protestantes ou do populismo que usam e abusam do tópico corrupção, com muitas palavras que metem “mensalão” e “sanguessugas”. Por outras palavras, nesta campanha não se discute política nem se vende ideologia.

 

O lulismo perdeu a ganga do messianismo libertacionista que o marcou e o propagandismo tornou-se numa espécie de normalidade não dramática. O povão continua a discutir os casos do dia policiais, onde um assassinato no Rio de Janeiro é discutido num barbeiro da Amazónia, nesta emotiva e avassaladora comunidade de significações partilhadas, onde a comunicação social desempenha um lugar relevante na unidimensionalização das emoções. Acontece também que esta democracia institucionalizada também se tornou enfandonha, sobretudo quando as grandes questões que marcam o ritmo parlamentar aqui no Planalto se recobrem com a ganga juridicista e regulamentarista, naquilo a que infelizmente dão o nome de Estado de Direito.

 

As grandes massas da geografia da fome continuam aviver num ritmo de multidão solitária, porque se na Europa da UE há dois terços de remediados que vão vivendo menos mal, por cá há dois terços de excluídos, dada a ausência de uma equilibrante classe média. Resta saber se esta gente aparentemente massa não pode explodir de um momento para o outro em revolta. Nem que seja pela fome de justiça. Tudo depende da circunstância da comunidade internacional poder entrar em “out of control”.

 

Por estas razões decidi ontem ir a um comício, por acaso num estabelecimento policial, promovido pelo modelo sindical deste Brasil do PT, e reparei como o discurso dos líderes locais é bem mais afectivo do que o enfandonho dos tempos de antena. Aborda-se o concreto, nota-se fé no pluralismo e na participação e não existe agressividade ideológica. Curiosamente, ao começo da noite fui a um espectáculo de música indiana, no belo e largo espaço do auditório do sindicato dos bancários de Brasília e reparei como esta intervenção cultural dos sindicatos assume uma dimensão que já perdemos na Europa das centrais sindicais à procura do subsídio do Fundo Social.

 

E não foi por acaso que fui à música indiana. Onde até havia um violinista chamado Narayane, como o outro. Foi numa viagem à Índia que Pedro Álvares Cabral descobriu oficialmente a terra brasil, foi por causa do triângulo Portugal, Brasil, Índia que demos novos mundos ao mundo, escapando-nos da tenaz das cruzadas que marcava Roma e a Europa do Norte. Decidimos ir além, baralhando e dando de novo, fugindo, então, à tradicional crise do Médio Oriente. Hoje, entramos na fila dos que costuma tratar os assuntos do Levante com os pés.

 

 

 

 

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Quando venho a estes fundos do Brasil, procurando compreendê-lo, sem os preconceitos do cheguei e sei tudo, sinto que começo a ser um especialista em Brasil, porque sou capaz de reconhecer que preciso de vir cá muito mais vezes e durante mais tempo para descobrir nova faceta neste Novo Mundo que eu amo.

 

E cá estou nesta capital federal, cidade de Agostinho da Silva, neste sertão de terra vermelha e mangueiras, nesta cidade sonhadas por Juscelino e arquitectada por um povo que a fez cruz e asa de avião. E lá trago as minhas agendas de procura, estes “carnets de politologue”, onde tento deter o “mouvant” com um pouco de “pensée”. Preciso destas saídas transatlânticas, a caminho do Sul para me sentir mais morenamente lusíada, procurando respostas para estes novos sinais do tempo.

 

Sou, infelizmente, daqueles que não sabem o que querem nem para onde vão, porque julgo que vale mais a autenticidade da procura, mesmo quando não se acha. Não sou dos que lamentam já não haver doutrinas que tenham força, nessas linhas que davam racionalidade ao pretenso processo histórico que não tinha previsto o fim da URSS e uma globalização com neoliberais e fundamentalistas islâmicos. Chamar caos ao que tem sido o presente baralhar do construtivismo de certas concepções do mundo e da vida talvez seja uma caricatura.

 

Aqui estou neste Brasil de campanha presidencial, ainda sem lhe sentir a alma. Porque o Brasil continua bem longe dos nossos namoros retóricos, como certamente foi notado por Sócrates na sua última visita de Estado. Porque não é apenas com diplomacia e adidos culturais que daremos vida aos eternos Estados Unidos da Saudade.

 

Daqui a bocado, lá terei uma turma deste curso de doutorado e sinto que vou cumprir uma missão que ultrapassa a minha privacidade. Sinto que carrego a responsabilidade de também poder cumprir o legado que me deixou mestre Agostinho da Silva no tempo dos pioneiros de Brasília, quando, começando a ensinar num barracão, decidiu semear nesta cidade do Novo Mundo um pinheiro português…

 

Mai 18

Alfacinhados, lá vamos, cantando e rindo…

Onde fica o exílio adequado para um português que quer continuar à solta, contra os fantasmas do absolutismo?O poder nu é, em qualquer regime marcado pelo arendtiano modelo de governo dos espertos. E quando alguém faz um discurso, em público, olhos nos olhos, criticando o poder, o melhor é sair da sala, para, depois, quando o visado não está presente, no silêncio da alcatifa, se dizer que ele o achincalhou e até insinuar que uma das respostas deveria ser a da pancadaria, ao mesmo tempo que também se insinua que ele é o autor de todos os blogues do mundo, de todos os mails anónimos do mundo, de todo os incómodos do mundo, porque ele, um dia, é do Opus e, no outro, da Maçonaria.  Julgo que a mistura de omnisciência com omnipotência, incluindo a filiação no partido que está no poder, mas que não o elevou a secretário de estado da reforma administrativa, bem como a consultadoria da reforma da região autónoma da Madeira não são ingredientes que podem fazer a boa via. Porque não é boa via ser o dito o caminho e a verdade. E sempre deveríamos fugir do concentracionarismo, nesta encruzilhada que aconselha a unidade na diversidade e a manutenção da pluralidade de paradigmas. Continuo a não temer estar em desacordo com a maioria dos outros, para poder estar de acordo comigo mesmo e integrar aquela minoria onde não temo ser o único integrante. Quero viver como penso, sem pensar como depois irei viver. Por favor, onde fica o exílio adequado para um português que quer continuar à solta, à solta contra os fantasmas de um absolutismo, enredado nas teias da ignorância, do fanatismo e da intolerância?

 

Mai 17

Intervalo

Leio as magníficas novidades sobre a candidatura à autarquia lisbonense, onde destaco os apoios de Júdice e de Saldanha Sanches a Costa, os discursos de Negrão e outras tantas parangonas. Infelizmente, não tenho tempo para ir além da minha chinela, numa semana onde tem sido intensa a minha agenda participativa em eventos académicos, quase sempre promovidos por estudantes. Nem sequer ainda consegui fezer o “download” mental de muitos mais pormenores kafkianos que me comunicaram, sobre a função pública e a vida universitária.

Basta registar a maneira como a arquitecta Helena Roseta tem sido tratada pelos mangas de alpaca que transformaram a democracia nesta chatice sem memória. Por outras palavras, quem tenta escapar ao rolo unidimensional do politicamente correcto corre o risco de continuar a ser integrado naquele “index”, sem direito ao “nihil obstat” e ao consequente “certificado de bom comportamento moral e cívico”. Os reflexos condicionados inquisitoriais, com a consequente falta de portugueses à solta, continuam a impedir que se desencadeie a necessária revolta de escravos.

Mai 16

Antes da temida judicialização da política, vigora a politização da justiça

Assistimos ao rapa, tira, deixa, põe dos armários de uma classe política cada vez mais rarificada, dado que se foi buscar um ministro ao tribunal constitucional e se pôs, como candidato autárquico, um outro juiz, em regime de comissão de serviço parlamentar, assim se demonstrando que, antes da temida judicialização da política, vigora a politização da justiça, como transparece da circunstância de entrarem no grande palco partidocrático tanto um ex-director do SIS como um ex-director da PJ. No intervalo, a decadência continua, como o retrato que ontem aqui deixei sobre a avaliação da função pública, ou a pelingrafia que aqui poderia deixar se divulgasse um video que circula entre telemóveis de alunos de uma determinada unidade orgânica de um estabelecimento de ensino superior público, com cenas ebriamente chocantes de um ilustre membro do quadro docente e dirigente, assim se demonstrando como vivemos no habitual regime crepuscular daquilo a que pleonasticamente chamamos brandos costumes, que, entre nós, tendem a durar décadas e décadas de cobardia cinzentona, com magnicídios à mistura. A monarquia liberal morreu em 1890, mas durou até 1910. A República acabou logo em 1915 e o Estado Novo perdeu os mínimos de legitimidade, até ditatorial, em 1958, deixou assassinar o líder da oposição em 1965, mas só caiu em 1974, derrubado pela máquina que o tinha levado ao poder. Haverá mais um desses multitudinários conselhos ditos científicos, onde um bando de náufragos, ameaçados pelo decretino dito reformista, se entretêm a distribuir serviço para os próximos anos, com três ou quatro grandes e pequenos chefes, que acumulam cerca de um quarto da “coordenação” das cadeiras e cadeirinhas da instituição, a exibir o freudiano poder pelo poder, numa manifestação de certo saudosismo serôdio que confirma aquelas perspectivas freudianas, segundo as quais alguns professores não reparam que são sempre avôs de si mesmos. Por mim, irei apresentar para memória futura, de futuras avaliações independentes e cientificamente fundamentadas, todo o conteúdo da preparação de uma distribuição de serviço frustrada, a fim de saudar a chouriçada reinante neste pequeno regresso aos saneamentos do miguelismo, do PREC e do Salazar entismo, em nome da luta de invejas e da eterna vaidade, nesta mistura de vindicta com requintes de sadismo. Continuo a querer viver como penso, sem pensar como vivo e julgo não precisar de uma fileira de dependentes e de votantes, em regime neofeudal, para ser professor público. Sempre há anúncios de jornal, onde posso pedir emprego, e a internet pode servir para dar as minhas aulas. Não tenho medo e já não preciso de ser promovido.

Mai 15

Um colóquio sobre economia

Uma das fundamentais vertentes da revolução global é a revolução dos mercados. Primeiro, com o reconhecimento do homem como animal de trocas, de mercadorias e de serviços, aquela revolução do doux commerce, na qual muitos profetizaram a inevitabilidade das armas da paz se substituírem às armas da guerra, e que a IBM transformou no seu slogan promocional: world peace through world trade.

Porque, mantendo as velhas leis de Hermann Heinrich Gossen (1810-1852) que ousaram transformar os preceitos do utilitarismo em economia pura, o homem procuraria o seu interesse pessoal e o máximo de satisfação, sempre com o mínimo de esforço.

Com efeito, entre o momento de uma descoberta científica e a respectiva utilização pela grande massa dos homens, sempre houve aquele intervalo que tanto obrigou à produção em série como à sua distribuição pelo comércio. Por outras palavras, a invenção sempre precisou da posterior produção e do mercado e, nestes saltos qualitativos, não bastou o hardware, dado que, muitas vezes, foi o software que permitiu passar das boas intenções à respectiva utilização pelo homem comum. Basta referir o caso da informática, onde os cartões perfurados das primeiras máquinas cibernéticas precisaram de se transformar em personal computer. Mas também este precisou do sistema operacional desenvolvido por Bill Gates, do DOS ao Windows, para poder difundir-se através de uma massificação que, entre o momento do primeiro lançamento comercial do modelo e a actualidade, em pouco mais de duas décadas, gerou um abaixamento dos preços por memória, na ordem dos 99%…

Se perspectivarmos o processo, através de uma das faces da moeda, somos obrigados a louvar, sem qualquer sombra de dúvida, essa revolução pacífica que leva muitos a citarem os exemplos da Alemanha e do Japão que, depois de derrotados e devastados há cinquenta anos, se assumem hoje como os novos senhores do mundo, sem terem investido em defesa e segurança.

Aqueles Estados que, não sendo superpotências militares, nem tendo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, fazem parte do Grupo dos Oito e até são considerados como elementos da tríade dos novos senhores do mundo. Não tanto no aspecto formal e institucional da representatividade visível, mas antes pelo poder infra-estrutural daquela rede global que efectivamente comanda a geo-economia, a geo-finança, a aldeia global da informação e outras tantas actividades discretas que manejam os cordelinhos da humanidade, desde a chamada investigação científica até à própria sabedoria, essa teoria das teorias que permite o manejo dos sistemas gerais, e que controla a recolha da chamada informação-intelligence.

Era a visão do factor Fénix, dos que renasciam das cinzas da derrota, conforme a expressão de A. F. K. Organski (1932-1988), tese a que Mancur Olson (1923-1999) acrescentou a ideia dos vencidos terem que agradecer aos vencedores da guerra, por estes haverem destruído as estruturas políticas e as coligações de interesses que impediam as respectivas economias de atingirem o vigor das leis do mercado.

Aliás, o que nos anos oitenta do século XX se dizia sobre o declínio americano, prenunciando a queda de mais uma grande potência, face àquilo que, então, se supunha ser a irresistível ascensão do Japão, acabou por ser desmentido pela crise dos tigres asiáticos, com o país do sol nascente a sofrer de rigidez e a economia norte-americana a demonstrar flexibilidade, com o desemprego a baixar e a explodirem novos sectores como a biotecnologia ou a chamada nova economia, sem que a Europa mostrasse mais agressividade na sua concorrência, sobretudo, quando preferiu manter o essencial do seu Welfare State.

Talvez a Terceira Guerra Mundial até tenha sido evitada, porque, muito hipocritamente, se concluiu que seria demasiadamente cara, tirando-se uma utilitarista conclusão: afinal, a paz e a cooperação acabam por ser mais baratas para todos! E por isso se seguiu a filosofia típica do merceeiro internacionalista, para quem a paz e a cooperação são de admitir, apenas por gerarem menos despesa ou menos dor.

Neste sentido, o mundo continua a ser uma sociedade irracional no seu todo, conforme as palavras de Herbert Marcuse. Até porque a ameaça da catástrofe nuclear é argumento maioritariamente utilizado pelos que a poderiam desencadear para se perpetuarem, ameaçando toda a humanidade com esse perigo.

No confronto Leste-Oeste da Guerra Fria, acabaram por desempatar os Estados do Oriente e do Extremo-Oriente. A URSS fez a glasnot, mas não fez a perestroika, enquanto a China, preferindo a mudança e a reforma, no sentido do chamado socialismo de mercado, conseguiu garantir a unidade concentracionária do partido único, nessa via totalitária para a liberdade que, por enquanto, é apenas um mercado sem ética e sem justiça. E o maquiavelismo dos ocidentais, preferindo os negócios aos valores da democracia e dos direitos do homem, protegeu o esquecimento de Tian An Men.

Aliás, entre o comércio e a guerra, longa e controversa tem sido a relação. O velho comércio, do latim commercium, de cum mais merx, mercis, mercadoria, pode ser entendido, por um lado, como uma espécie de continuação da guerra por outros meios, e, por outro, ser visto como pax mercatória, como a única forma de se conseguir a justiça.

O mercantilismo, desencadeado pelos primeiros teóricos da soberania, ao assumir a primeira postura, acabou por ser definido por Jean-Baptiste Colbert (1619-1683), como uma guerra perpétua e pacífica de espírito e de indústria entre todas as nações. Porque uma nação só se enriqueceria arruinando as outras nações, ao assegurar uma mais valia das exportações sobre as importações: pour augmenter les cents cinquante millions que roulent dans le public, de vingt, trente, soixante millioins, il faut bien qu’on le prenne aux États voisins.

Assim, ao reduzir a ideia de riqueza estadual à quantidade de numerário possuído por cada Estado, através da técnica do aumento das exportações e da diminuição das importações, o movimento favoreceu a criação tanto de grandes manufacturas, algumas delas directamente geridas pelo Estado, como de companhias de comércio, quase sempre em regime de monopólio. Gerou-se assim um modelo monetarista de intervencionismo do Estado na economia que alguns qualificam como socialismo monárquico.

Esta perspectiva conflitual mantém-se, aliás, no próprio Hegel, quando desenvolveu o conceito de sociedade dos particulares, ou sociedade dos burgueses, esse espaço intermédio entre o familiar e o estadual, que apenas teria como objectivo a prossecução dos interesses dos mesmos particulares, apenas entendidos como os que se dedicam preferentemente a actividades económicas. Esse Estado privado de eticidade, esse Aussererstaat, onde se desenrolaria o combate de interesses privados, da luta de todos contra todos. A tal imperfeita sociedade civil, marcada por laços de profissão e comércio, que apenas teria como objectivo a defesa comum dos interesses e não o interesse público.

Noutra postura sempre se colocou o optimismo liberal. O próprio Hayek (1899-1992) considera que o liberalismo até teria nascido da civilização individualista da Renascença, estando estreitamente ligado à expansão do comércio e correspondendo a uma concepção da vida que surgiu nas cidades comerciais do norte de Itália e obteve pleno desenvolvimento  nos Países Baixos e na Grã Bretanha.

Também para Paul Ricoeur (1913-), o Ocidente é um produto da Idade Média dos séculos XII e XIII, autêntico lugar de criação, dado que foi nesta época que nasceram todas as grandes instituições: a universidade, a moeda, o comércio, o Estado, a vida comercial. As posteriores crises, da Renascença, da Reforma, do Iluminismo e das grandes revoluções do século XIX não passariam, aliás, de meras crises de crescimento.

 

Compreende-se assim que Adam Smith (1723-1790) considere a existência de quatro períodos na evolução humana: a caça, a pecuária, a agricultura e o comércio, salientando que este último teria gerado uma sociedade civil ou comercial, produto de uma espécie de revolução silenciosa que teria ocorrido na Europa e minado as anteriores instituições sociais.

Benjamin Constant (1767-1830) vai, depois, falar numa sociedade mais marcada pelo comércio do que pela guerra: a guerra é anterior ao comércio; porque a guerra e o comércio são dois meios diferentes para se atingir o mesmo fim: o de possuir o que se deseja. O comércio não é senão uma homenagem prestada à força do possuidor pelo que aspira à posse. É uma tentativa para se obter gradualmente o que já não se espera conquistar pela violência. Se a guerra é o impulso; o comércio é o cálculo. Logo, o comércio que foi um acidente feliz é hoje o estado ordinário, o fim único, a tendência universal, a verdadeira vida das nações.

Na mesma onda navega Destutt de Tracy (1754-1836), em A Treatise on Political Economy, Georgetown, 1817, onde, partindo do princípio que a sociedade é apenas uma contínua série de trocas, logo conclui que o comércio é o todo da sociedade.

Não tarda que John Stuart Mill (1806-1873) proclame a chamada lei da troca internacional, segundo a qual o país mais pobre e menos industrializado beneficia sempre com a liberdade do comércio. Da mesma forma, David Ricardo (1772‑1824) em Principles of Political Economy and Taxation, de 1817, defende o livre-câmbio, considerando que este permite tirar todo o partido possível dos favores da natureza: consegue‑se melhor distribuição e mais economia no trabalho. Ao mesmo tempo, espalha-se por toda a parte o bem-estar, o acréscimo da massa geral dos produtos. Conclui, proclamando que a permuta liga entre si as diferentes partes do mundo civilizado por meio de laços comuns de interesse, por relações de amizade e faz dele uma única e grande sociedade.

Longe deste optimismo sempre estiveram os que não beneficiando do free trade, lançaram as bases daquele proteccionismo expresso por Friedrich List (1789-1846), em Das nationale System der politischen Oekonomie, de 1841, que se tornou adversário da escola clássica da economia, a quem acusava de pressupor a existência da associação universal e da paz perpétua, e daí concluir grandes vantagens para a liberdade de comércio, assim confundindo o efeito com a causa. Pelo contrário, no actual estado do mundo, a liberdade de comércio levaria, em lugar da república universal, à sujeição de todos os povos do mundo à supremacia da potência preponderante nas manufacturas, no comércio e na navegação.

O processo já havia sido semeado por Fichte, em Der Geschlossene Handelstaat, de 1800, onde defendia o modelo do Estado Comercial Fechado, uma entidade que devia voltar-se sobre si mesma, tanto no plano jurídico como no plano económico, delineando-se um intervencionismo de tal maneira absurdo que até admitiu proibir ao particulares o exercício de actividades relacionadas com o comércio externo (ver Maltez, 1991, II, pp. 220 ss.).

 

Para além da era da máquina e do free trade, a Revolução Industrial teve também a ilusão de chegar a um admirável mundo novo, quando se difundiu essa maravilhosa forma de energia chamada electricidade, de tal maneira que Lenine chegou a dizer que o comunismo consistiria numa soma do marxismo com a dita.

Outro deses sinais dos tempos foi, sem dúvida, o automóvel, produzido em série pelo fordismo. Assim, o comunismo da electricidade de Lenine e o subsequente comunismo do tractor de Estaline não passam de filhos dilectos daqueles tempos modernos, iluminados pelas Luzes de uma Razão que, no século XIX, produziu o cientificismo e, no começo do século XX, o futurismo do admirável mundo novo. Na URSS, com efeito, de 1928 a 1940, a produção de electricidade passou de 5 biliões para 48 biliões de quilovátios por hora, ao mesmo tempo que a do aço cresceu 4.3 biliões para 18.3 biliões de toneladas; enquanto a dos veículos automóveis subiu de 8000 para 145 000, de tal maneira que a indústria passou a significar 84,7% da economia soviética.

Mas outras assinaláveis aplicações da viragem tecno-científica se iam propagando, como aquele tónico alimentar não alcoólico inventado em 1886 pelo farmacêutico John Pemberton, de Atlanta, pela mistura de folha de coca com noz de cola.

 

A firma lançada pelo inventor da fórmula foi comprada por Asa Candler que, alterando a fórmula secreta do produto inicial, o decidiu lançar como refrigerante, através de uma intensa campanha de propaganda. No final dos anos vinte, a empresa passou a ser dirigida por Robert Woodruff que ousou exportar o sucesso, transformando a bebida num símbolo da american way of life, muito especialmente depois da Segunda Guerra Mundial.

A título de curiosidade, refira-se que, em Portugal, o produto chegou a ser vendido no começo dos anos trinta, cabendo a Fernando Pessoa, então publicitário na Agência Hora, o lançamento do primeiro slogan sobre o mesmo: primeiro estranha-se e depois entranha-se. Contudo, os serviços de controlo da qualidade alimentar do salazarismo acabaram por proibi-lo, dizendo que, se o conteúdo correspondesse à marca, tratar-se-ia de uma droga e que, no caso contrário, seria publicidade enganosa. Apesar das pressões norte-americanas, o mesmo produto só foi autorizado a circular em Portugal Continental depois de 1974, quando o vinho deixava de dar de comer a um milhão de portugueses e a cerveja nos dava certa forma de integração europeia.

 

Faltava também a descoberta do amplificador semicondutor dito transístor, apenas descoberto em 23 de Dezembro de 1947, no Laboratório Bell, de Nova Jersey, que está na base da revolução da informação. Aliás, a passagem da fase eléctrica para a electrónica foi potenciada nos finais dos anos cinquenta, quando surgiram os circuitos integrados, as placas de silício, os semicondutores de cristais de silício ou germânio, que permitiram substituir as anteriores válvulas. O complexo mais uma vez se manifestava, porque é desta possibilidade de miniaturização, com pouca matéria-prima, que se passa à globalização de um processo que nem as potentes antecipações de Jules Verne (1828-1905) conseguiram imaginar.

Curiosamente, neste tempo de globalização, ainda muitos repetem os argumentos dessa velha polémica dos começos do século XIX. Se os optimistas do neo-liberalismo não-ético parecem esquecer que toda a ordem precisa de regulação, já os adversários não querem lembrar que os campeões da regulação da própria economia foram as civilizações onde o livre-cambismo mais prosperou. Basta recordar que o sistema da chamada legislação anti-trust e as próprias regras da concorrência apenas surgiram na Europa Ocidental na segunda metade do século XX, directamente importadas dos próprios Estados Unidos da América, onde haviam sido lançadas a partir de finais do século XIX.

Aliás, nos anos noventa deu-se um salto espectacular da integração económica internacional, não apenas com a transformação da CEE em União Europeia, mas também com a emergência de novas zonas de comércio livre: a NAFTA (North Aemrican Free Trade Agreement), o MERCOSUL e a ASEAN (Association of Southeast Asian Nations).

 

 

Com o findar da Guerra Fria, as questões da economia começaram a superar a questão das armas na cena internacional. Nas décadas de setenta e oitenta do século XX deu-se aquilo que muitos autores qualificam como a redescoberta da economia, entendida como a principal força nos negócios internacionais.

O chamado mundo ocidental e o Japão repararam, principalmente a partir da crise petrolífera de 1973, que estavam dramaticamente dependentes do resto do mundo, principalmente quanto a fontes de energia. A dívida dos chamados países em desenvolvimento cresceu de forma assustadora, com o Japão a assumir-se como um dos principais actores da economia internacional e os Estados Unidos a tornarem-se, de principal credor internacional, em principal devedor internacional. Deu-se também um colapso económico da URSS e alguns dos principais parceiros daquilo que tinha sido o COMECOM começaram a integrar a órbita da chamada União Europeia. Se o Pacífico emergiu como um dos principais centros mundiais de crescimento económico mundiais, a União Europeia transformou-se num efectivo mercado único, dotado até de uma moeda comum. Do mesmo modo, largos sectores dos países em vias de desenvolvimento viram frustradas as suas expectativas, ao mesmo tempo que o desenvolvimento das novas tecnologias da informação criou mercados financeiros globais (cfr. Papp, 1994, p.5)

Por outras palavras, o mundo redescobriu que os problemas económicos não se resolviam apenas com medidas não-económicas, que os problemas económicos apenas se resolveriam com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas, para parafrasearmos uma velha ideia de Emmanuel Mounier.

Contudo, a revolução dos mercados assume hoje novo sentido com a emergência da chamada geofinança, dessa network structure por onde escorrem quotidianamente os fluxos das bolsas de valores de todo o mundo, e onde, minuto a minuto, podem pôr-se em causa empresas, moedas, Estados de todas as dimensões e até grandes espaços. Um quase esotérico sector, onde apenas saberão operar cerca de uma dezena de grandes holdings mobilizadores daqueles peritos que detêm as passwords desse esotérico processo. Esses novos poderes que, segundo Bouthros Bouthros-Ghali, transcendem as estruturas estaduais, gerando um poder mundial que escapa aos Estados.

Basta salientar que os três primeiros fundos de pensões norte-americanos – a Fidelity Investments, o Vanguard Group e o Capital & Research & Management – chegaram a mobilizar cerca de dez vezes mais dólares que os conseguidos em Dezembro de 1994 pelo Departamento do Tesouro norte-americano, o Banco Mundial e o FMI, quando procuraram sustentar o valor da moeda mexicana.

Mais: no jogo das bolsas mundiais, todos os dias, cerca de 95% das divisas que mudam de mão prendem-se com actividades meramente especulativas, sendo ultraminoritárias as que correspondem a actividades clássicas, comerciais. Com efeito, o volume de operações de câmbio é cinquenta vezes mais importante que o do comércio mundial de bens e serviços (Andreff, 1995, p. 112).

Daí que propostas de criação de uma taxa mundial mínima sobre as transacções bolsistas, como a que veio do Prémio Nobel de 1981, James Tobin (1918-), tenham tido pouco acolhimento institucional têm tido, quando tal modelo de aplicação da justiça mundial poderia gerar um rendimento de cerca de mil milhões de dólares, quantia capaz de compensar os também milhões que morrem de fome ou de doença.

O mais importante dos novos poderes passa por esse fluxo marcado pelo imediatismo, pela desmaterialização, pela permanência e pelo planetário, ao mesmo tempo que ressurgem certas formas de inconsciente colectivo, como o revivalismo dos rumores, dos receios e da própria fé nas bruxarias. Passámos assim a viver nas teias de uma sociedade de casino, nessa nova religião dos mercados que tem como principais activistas os descendentes dos yuppies, que vão agitando uma massa informe de devotos de um pretenso capitalismo popular, marcado pela velha lógica do enrichissez vous.

A figura dos corretores aventureiros quase ameaça substituir a dos garimpeiros e dos achadores de volfrâmio, e a realidade quase se transforma numa ficção folhetinesca de telenovela, aproximando-se de muitos dos meandros do romance de Dona Branca. Aliás, podem reunir-se, sob os holofotes televisivos, os líderes das superpotências ou do G8, bem como as cimeiras da NATO, da UE ou da OSCE, mas não se conhece o rosto dos mestres do mercado, desses novos predadores para quem os valores da justiça e da honra parecem não contar.

A este respeito, importa sublinhar que revolução dos mercados, expressa pela livre circulação dos capitais, foi precedida pelo processo da desregulação e das privatizações. Assim, o poder económico desmaterializou-se, deixando de ter como base preponderante os chamado factores de produção da teoria marxista, como eram a terra, os recursos naturais e as máquinas, e passou a assentar em factores imateriais, como o conhecimento científico, a alta tecnologia, a informação, a comunicação e as finanças.

Com efeito, deu-se uma espécie de desmaterialização de certos mercados, onde não faltam as próprias mercadorias imateriais, como os chamados futuros puramente financeiros. O impacto da desmaterialização é, aliás, particularmente patente nas chamadas indústrias culturais, dos livros, da música, das artes plásticas, do cinema e até dos próprios títulos escolares, dado que hoje podem negociar-se mestrados e doutoramentos, quase virtualmente (Capella, 1997, p. 246).

O poder, incluindo o poder económico, transformou-se numa rede de poderes. Deixou de ser uma coisa, um patrimonium, um ter, e volveu-se em relação, numa rede de muitos micropoderes, em que os novos mestres predadores e conquistadores já não são apenas os detentores do capital nem os organizadores da era dos managers, mas antes os efectivos manipuladores dos tentáculos dessa rede, principalmente os que conseguem, por todos os meios, a necessária inside information. Surgiram, deste modo, novos grupos que, escapando às anteriores formas de representação e de legitimação política e social, logo manifestaram desprezo pelo bem mais precioso de qualquer democracia: aquela informação que permite a consolidação de uma opinião crítica.

Continuando a seguir o inventário do professor de economia de Lovaina, Ricardo Petrella, num artigo célebre Les Nouveaux Maîtres du Monde, publicado em Le Monde Diplomatique, de Novembro de 1995, esses novos poderes têm, com eles, legiões de aliados e colaboracionistas, desde os quadros da tecnociência aos criadores de símbolos, onde também é marcante o conúbio entre os universitários e os opinion makers, aliás paralelo à própria entrada dos grandes media no sistema dominante.

Aliás, estes novos elementos até diferem qualitativamente dos anteriores managers ou organizadores, denunciados em 1940 por James Burnham (1905-1987), do mesmo modo se distanciando dos chamados tecnocratas dos anos sessenta. Até vieram dar uma nova dimensão à chamada investigação científica, tornando caducas as velhas estruturas universitárias, quando algumas destas ficaram dependentes das empresas e das fundações transnacionais e se libertaram dos subsídios públicos, directamente recebidos das agências estaduais ou das organizações inter-estaduais. O grupo, cada vez mais cosmopolita, até ganha algumas características de casta apátrida, encontrando-se nas mesmas escolas de formação permanente e actualizando o velho receio da sinarquia, conforme as profecias de Saint-Yves d’Alveydre (1842-1900), para quem o mundo poderia ser conquistado por um sociedade secreta que integraria uma elite de técnicos e de representantes dos banqueiros.

Já não temos as sete irmãs das multinacionais petrolíferas, das grandes famílias que dominavam o tempo de mera troca de mercadorias que marcou o auge da revolução industrial. Passámos para a sociedade da informação, onde o novo bezerro de ouro é um produto que não se consome, como acontecia com o petróleo ou a alimentação, dado que se cria pelo uso e até pode reproduzir-se pelo abuso.

Como assinala Robert B. Reich, na sua obra The Work of Nations, de 1991, as actuais empresas multinacionais já não cabem no universo concentracionário dos modelos burocráticos e centralizados, tendo constituído uma vasta rede de entidades descentralizadas, de tal maneira ramificadas pelo mundo que até já não podem receber um bilhete de identidade nacional. As empresas em causa deixaram, definitivamente, de ter pátria, até pelas participações cruzadas que se foram estabelecendo entre as que representavam as principais marcas do mercado.

O cientista e filósofo húngaro Karl Polanyi (1886-1964) em The Great Transformation, de 1944, já referia a dinâmica interna da produção em massa de mercadorias, porque voltada sobre si mesma, levou a um crescimento ilimitado das trocas e a uma autonomização incontrolada do mercado.

O chamado fim do comunismo não foi, afinal, o fim da história, dado que a vitória dos modelos ocidentais significou a consagração de um estilo de organização marcado por factores totalmente diversos daqueles que poderiam ser captados por Karl Marx ou Lenine. Em primeiro lugar, surgiu a resposta teórica keynesiana, geradora daquilo que uns qualificam como consenso social-democrata e outros, como mero socialismo de direita. Seguiu-se o exemplo do New Deal de Franklin Delano Roosevelt, assente na aliança entre o capital e o trabalho. Avançou-se, depois, no compromisso fordista. E, na Europa Ocidental, social-democratas e democratas-cristãos promoveram a instauração de um Welfare State que acabou por ser eficaz, tanto para a superação do Warfare State, como para a competição com os modelos do socialismo real, de marca sovietista.

Acontece que, com o fim do mundo bipolar, mais do que a emergência de uma só superpotência, começou a desenhar-se um nebuloso império dos grandes países ricos, fundador do Grupo dos Sete, império esse que assenta em três moedas sólidas (dollar, deutsche Mark e yen), tem, como guardas avançadas, duas ou três praças financeiras fortes, núcleo duro que, pelos recursos, pelo poder de mando e pela atracção mimética, foi controlando quase todas as principais elites dos chamados países periféricos, e navegando num mar informativo manejado por agências como a Reuters ou a Dow Jones.

Com a chegada do euro, apenas nos apetece recordar que também o dinheiro não tem pátria. Aliás, o americano dollar tem origens etimológicas no alemão thaler, começando até por ser a designação dada pelos ingleses ao peso espanhol que circulava nas possessões sul-americanas, antes de se transformar na unidade monetária norte-americana desde 2 de Abril de 1792. E foi em nome da americanização que se instituíram o deutsche Mark, gerado pela ocupação americana, e o próprio Yen japonês. As três pessoas da tríade, estão, por dentro, unidas por uma neutra perspectiva circulatória…

A humanidade, depois de 1989 e do dobrar do milénio, também não chegou ao fim da história, porque logo se sucedeu uma espécie de balkamondialisation, com o regresso das nações e até das etnias, não se confirmando a previsão de um Kenichi Ohmae, o mr. Strategy, que proclamava o fim do Estado-Nação e a chegada de uma redentora entidade maior, a que chamava Estados-Região, porque, face à emergência de um capitalismo supra-territorial, os Estados apenas exerceriam funções transitórias no âmbito da organização e da regulação económicas.

Com efeito, o ritmo da política internacional que nos passou a marcar, depois da Guerra Fria, acabou por aproximar-se de modelos típicos dos anos vinte do século passado, dado que inúmeras Nações sem Estado voltaram a emergir. Os nacionalismos, muito particularmente os etnonacionalismos, eram, afinal, brasas por extinguir, que logo se avivaram com os novos ventos da história, quando estes sopraram as cinzas dos superpowers que os proibiam. O explodir do espaço controlado pelo imperial-comunismo soviético; os problemas que o Império Britânico deixou por resolver no Médio Oriente e no subcontinente indiano; a questão do renascimento árabe; ou as guerras civis africanas, afinal, não são causas, são sintomas. Por muito novas que fossem as maravilhas do século XX, nenhuma das forças instaladas no comando do universo foi capaz de construir um desses homens novos que as mesmas, repetindo o Iluminismo gnóstico, prometiam edificar sobre a pretensa tabula rasa do homem de sempre.

A globalização económica, onde a geofinança passou a comandar a geoeconomia, ao mesmo tempo que se desenvolveram instituições globais de vigilância como o G7/G8, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, vai levar a que se assista à eliminação do modelo de Welfare State e à crise das ideologias que o geraram, da democracia-cristã à social-democracia.

O dinheiro transformou-se no mais mobilizador dos valores universais do nosso tempo e, com ele, veio uma difusa forma de corrupção, onde se compram e vendem factores de poder, pelo simples uso da inside information. Porque a sociedade contemporânea, marcada pela difusão da informação, ao criar uma hiper-informação, teve que passar a assentar em redes de circulação, logo, quanto mais a informação de difunde, mais a rede se valoriza.

O poder deixou, assim, de ser uma pirâmide e transformou-se num labirinto, onde, ao mesmo tempo que os actores da decisão se multiplicam, se torna brutalmente desigual o acesso ao que é relevante, dado que raros sabem qual o local onde as fundamentais decisões são realmente tomadas.

 

Sobre as questões da nova economia política: Arrow (1951), Ashley (1980), Blake (1992), Buchanan (1962, 1968, 1975, 1977, 1978, 1986), Corm (1993), Dicken (1992), Downs (1957), Drucker (1993 e 1995), Etzioni (1988), Frieden e Lake (1991), Galbraith (1952, 1967, 1973, 1980), Gill e Law (1988), Gilpin (1987), Goldstein (1993), Gourevitch (1986), Grieco (1993), Hall (1986), Hart e Spero (1996), Hirschman (1945), Knorr (1975), Knorr e Trager (1977), Kuttner (1991), Lairson (1993), Lake e Frieden (1991), Lindbeck (1973), Lindblom (1977), Livingstone (1989), MacNeil, Winsemius e Yakushiji (1991), Medeiros (1992), Murphy e Tooze (1991), Myrdal (1929, 1953, 1957 e 1960), O’Gorman (1995), Oliveira (1998), Olson (1976 e 1982), Perroux (1969, 1970), Porter (1986, 1990), Reich (1991), Robbins (1937), Rosecrance (1986), Rostow (1960, 1978), Sandholtz (1992), Schmidt (1991), Spero (1981), Spiro (1999), Strange (1988, 1991, 1996), Thurow (1999), Tullock (1962, 1978), Walters (1992), Weiss (1998), Young (1968)