Abr 21

Europa, sim, europeias, não!

Assisti ontem ao primeiro debate que a televisão pública promoveu sobre as europeias. O critério da escolha foi o dos que já lá estão, neste clube de reservado direito de admissão. Porque os novos partidos, como o MEP e o MMS, ficarão para as segundas ou terceiras divisões, à semelhança do que acontece com os programas de futebolítica sobre o campeonato dos últimos, ou com a chamada política internacional do G20 e da hierarquia das potências na Europa, mesmo que o treinador possa ser um Mourinho ou um Barroso. Julgo que, mantendo-se esta hipocrisia, seria mais decente proibirmos a constituição de novas forças políticas com a categoria de partidos. Ao menos, não teriam que gastar argumentos justificativos da ditadura do estado a que chegámos, o tal que, muito hipocritamente, manda ex-presidentes e actuais presidentes fazerem apelo à “não resignação” e ao “sobressalto cívico”. Prefiro manter o meu “direito à indignação”.

 

De qualquer maneira, lá assisti ao debate. Que a moderadora permitiu transformar num jogo de quatro contra um, para dar a este um o controlo das interrupções e o domínio do fluxo, graças também ao engenho do Professor Vital Moreira. A principal vítima foi Paulo Rangel que não conseguiu desabrochar, nem colocar-se de igual para igual com o cabeça de lista do PS, até porque caiu na esparrela de ser bem educado. Nuno de Melo e Ilda Figueiredo foram iguais às expectativas e o grande triunfador foi Miguel Portas que, várias vezes, nos trouxe à memória que tanto ele como Vital e Ilda foram do mesmo partido das células, quando o cunhalismo o conformava. O grande derrotado foi o PS, que não conseguiu fazer ascender ao debate nenhum dos representantes da respectiva tradição liberdadeira e europeísta e pôs, na geral, duas senhoras desbocadas e um presidente do INA, despedido como ministro e a caminho da reforma dourada.

 

Como não tenho declarações de interesses a emitir, ao contrário de outros blogueiros meus companheiros de muitos combates, os anteriores elogios que aqui emiti face a Vital e a Rangel nada têm a ver com o meu sentido de voto nas europeias, porque os dois nem sequer me convenceram ainda da utilidade do voto neste processo de repartição de influências das duas multinacionais partidárias da Europa, o PPE e o PSE, as quais atiram para o pequeno palco da politiquice nacional as suas secções: PS, PSD e CDS.

 

Aliás, quando confirmo que ninguém da minha família política, a liberal, vai a votos neste país pós-soarista e pós-cavaquista, apetece fazer-lhes o adequado gesto do Zé Povinho. Quando também reparo que não há europeístas que consigam o “oui” à Europa através do “non” a patetices como a Constituição Europeia ou o Tratado de Lisboa, negando-nos o direito ao referendo, mantenho íntegras as minhas reservas face às regras do jogo que espartilham os  cidadãos e os povos da Europa. Daí o paradoxo de um liberal se sentir mais identificado com algumas das bandeiras de combate ontem emitidas por Francisco Louçã, em entrevista a Mário Crespo, e por Miguel Portas, embora discorde totalmente da receita neomercantilista e estatista que os mesmos nos querem prescrever.

 

A minha declaração de interesses continua a ser a do discurso que emiti contra o Tratado do Mar da Palha e os candidatos a bons alunos que os comissários e as multinacionais partidárias para qui exportaram. Não é com estes agentes que a Europa pode ser uma nação de nações e uma democracia de muitas democracias. Entre o jacobinismo constitucionalista de Vital e o seu sucedâneo do PPE, não me engano com os malabarismos vocabulares de Melo e de Ilda, para que apenas reste a autenticidade de Miguel Portas.

 

A fábula dos falsos debates europeus é idêntica ao convite que recebi há pouco, para a tomada de posse de um velho reitor de uma universidade pública, que acaba de ser reeleito pelo novo modelo, o tal que a nova lei e o velho aparelho escolheram. Porque os ministros passam e as forças vivas ficam. Por outras palavras, o disco virou, mas a música é a mesma, apesar de tantos riscos a desafinarem. Se pensam que a Laurinda Alves ou o Carlos Gomes poderiam entrar na lista dos candidatos escolhidos pelos Conselhos Gerais, continuem a acreditar na tolice dos concursos públicos nacionais e internacionais com que as universidades públicas vão contribuindo para anúncios nos jornais. Nest quinta dos animais partidocráticos há sempre alguns que são mais iguais do que outros e quem, agora, parte e reparte tanto não é burro, como percebe da arte. O Zé já não faz falta…