A democracia pode ser usurpada pela partidocracia…

A democracia pode ser usurpada pela partidocracia, uma gangrena do Estado (Caboara), e tal sistema enredar o regime, especialmente quando somos marcados pelo abuso de posição dominante dos representantes das principais multinacionais partidárias da Europa… Se, com a vitória da AD, a partir de 1980, encerrámos o fatalismo do partido-sistema da I República, quando Soares e o PS sonhavam com a mexicanização do partido revolucionário institucional, clamando pela TINA (“there is no alternative”), mantivemos, contudo, o atavismo de certo rotativismo devorista da monarquia liberal… E rotativismo, alimentado pelo patrimonialismo das forças vivas, pode levar a que as decadências dos crepúsculos durem uma ou duas décadas, dando a ilusão aos comandantes da alternância que mão serão coveiros do regime… Mas o novo discurso instaurado, se falhar pela falta de autenticidade, pode não propagar o estilo ao PS. Deste modo, apenas ficaremos condenados à democracia por razões geopolíticas, sofrendo os efeitos de a maioria dos factores de poder já não ser doméstica, ou intra-nacional… O português comum não assume a utopia como sítio sem lugar e sem tempo. Prefere o Canto IX d’ “Os Lusíadas” ou uma casa tipo “maison”, na santa terrinha. Por isso, é um “sonhador activo” e está farto de “traduções em calão” de democracias exógenas… Importa que a partidocracia compreenda que há um povo com fome de causas e uma pulsão para a solidariedade. Faltam é engenheiros de sonhos que nos mobilizem e assumam as nossas visões de paraíso bem terráqueas, da procura, no aqui e agora, da beatitude celeste, como Sérgio Buarque de Hollanda caracterizou o “português à solta”..

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