Abr 16

Conversa em Leiria no dia 16 de Abril de 2010

Na passada sexta-feira, tive mais uma intervenção comentarista na TSF, a pretexto da chamada reforma do sistema político. Porque, depois do PS ter levantado a bandeira da reforma do parlamento, o PSD, usando a técnica da melhor defesa ser o ataque, decidiu seguir o conselho de Jaime Gama e tratou de lançar mais uma das eternas apostas de reforma do sistema político, dando este nome aos velhos e desgastados projectos de reforma do sistema eleitoral.

 

Por outras palavras, os partidocratas dominantes continuam a sua antiquada táctica dos jogos florais, fingindo que chamam a sociedade civil a debater o que apenas está dependente de um acordo neofeudal entre os dois partidos-sistema. Basta, aliás, recordar que as próprias revisões constitucionais vieram de acordos de salão entre o PS e o PSD, como o poderão atestar Marcelo Rebelo de Sousa, Fernando Nogueira ou António Vitorino, quando funcionaram como notários do regime.

 

Trata-se do habitual bailado da oligarquia dona do poder, desse clube fechado, de rigoroso direito de admissão, e seria tolo pedirmos aos que usam e abusam dessa posição dominante para se auto-subverterem, através das habituais reformas vindas de cima para baixo, onde quem está em cima nunca deixará que se gere uma subversão vinda de baixo, ou do lado.

 

Porque, tal como na União Europeia, também no plano doméstico vigora o princípio da hierarquia das potências, com dois partidos directores, o PS e o PSD, e vários poderes secundários, onde os primários não querem a subida dos secundários e os secundários se unem aos primários, na exclusão dos marginais que se colocam à porta do sistema.

 

Basta recordar que a lei eleitoral vigente ainda vem de um grupo de trabalho criado pelo I Governo Provisório, da era pré-PREC, assim confirmando como, em Portugal, duram especialmente as reformas emitidas em ditaduras revolucionárias e reformistas.

 

Como as que foram lançadas pela ditadura das finanças salazarista, com o 28 de Maio; pelo laicismo afonsista do governo provisório da república, em 1910-1911; pela liquidação das alcavalas do “ancien régime” semeadas por Mouzinho da Silveira na regência do Duque de Bragança, ex-rei D. Pedro IV; ou pela arquitectura de Estado do despotismo ministerial do Carvalhão.

 

Cada esquerda tem a direita que merece e vice-versa. Vale mais pôr os pés no chão deste portugalório e confirmar a esquizofrenia. Até dos que dizem que pensam, ditando…

 

Só há esquerda se houver direita e direita se houver esquerda. Aqui voltámos à decadência. Há uma maioria de bonzos e uns acompanhantes da procissão, ora endireitas, ora canhotos, para que vire o disco e toque o mesmo… Já Maritain dizia que os governos mais fracos são os governos ditos de esquerda com temperamento de direita, tal como os mais fanfarrões são o vice-versa. Por isso é que também caminhámos ao contrário, de Barroso/Santana/Portas para Sócrates/Freitas do Amaral…

 

Estou farto de complexos de esquerda e fantasmas de direita! Continuo de direita, liberal e tudo, nomeadamente azul e branco. Até parto dessa parcialidade para aceder ao universal, como a coroa aberta do manuelino assumiu o abraço armilar. Nunca quis ser da direita que convém à esquerda…sobretudo ao centrão mole e difuso do situacionismo. Mas porque sou de direita, assumo a atitude clássica do radical do centro excêntrico…

 

Porque vontade geral nunca foi vontade de todos (Rousseau). Esta é sondajocracia… Vontade geral é quando cada um decide, desprezando os próprios interesses. Porque, se todos, quando escolhem, pensam apenas nos seus interesses, não há democracia. Vontade geral é quando cada um actua de modo tão exemplar que, dessa conduta, se pode extrair lei universal

 

Só juntando Rousseau a Kant se pode fugir da guilhotina de Robespierre e do despotismo de todos. Ensinam a coisa, que agora repito, um António Sérgio ou um Karl Deutsch. Sondajocracia não é democracia e corrida ao “share” partidocrático também. Teatrocracia também não é comunicação, podemos comer gato por lebre!

 

 

 

Porque é esta nebulosa da passagem de certo privado para alguns cargos públicos e, pior do que isso, a passagem de certos ministros e “boys for the jobs”, para certas funções privadas, ou para cargos empresariais de nomeação pública, que cria um ambiente onde a palavra corrupção transforma em fantasmas uma série de actos que não cabem na restrita compra do poder, agravando a desconfiança pública face ao bloco central político e o seu irmão gémeo, o bloco central de interesses. Quando os “lobbies” não podem uivar institucionalmente, isto é, registar-se e manifestar-se publicamente como formais grupos de interesse e, consequentemente, como inevitáveis grupos de pressão, gera-se este ambiente de desconfiança pública.

 

E não há democracia de sociedade aberta que não assente na poliarquia, com forças vivas predadoras navegando no pluralismo e promovendo a defesa dos interesses instalados, cristalizando-se em “establishment”, com a consequente tentativa de criação de um “status” dentro do Estado. Também não há democracia sem caciques, sem influentes, com a sua personalização do poder pela prestação de serviços que vão além da mera representação política.

 

Do mesmo modo, não constitui pecado que os grandes partidos que navegam nestas águas que, de alterosas, podem volver-se em pantanosas, se transformem em grandes federações de grupos de interesse e de pressão, interclassistas, sem o domínio dos militantes e dos notáveis. Surgem assim os partidos “catch all”, “attrape tout”, dotados de um programa “omnibus”, como são o PS, o PSD e o próprio CDS.

 

 

 

Logo, os ministros podem cair por uma qualquer negligência fiscal que a vindicta de um antigo aliado deixou escorregar para o sensacionalismo de um qualquer semanário da má-língua. Os candidatos a presidentes da comissão europeia podem ter sido vítimas da falta de diálogo do albergue espanhol. Mas, a partir de Outubro, podemos ter que recorrer a esse tipo de personalidades para a chefia ou a subchefia do eventual governo de acordo interpartidário, se nenhuma das presentes forças políticas atingir o cheque em branco da maioria absoluta. Só que o excesso de ética da responsabilidade, de segredo de Estado e de sigilo judiciário pode fazer com que tudo volte a morrer à vista de costa e que continue a falhar o modelo anímico da ética da convicção.

 

O plano B das forças vivas que pretendia continuar a controlar os incautos, ao ritmo do lançamento das crónicas pimbas do “menino de oiro”, foi chão que deu demissões do Conselho de Estado. E o presente plano C, pelo recurso aos porta-vozes das homilias da televisão estatal e estatizada, pode também não servir para dar voz àquele azedume que levou a mais sessenta por cento de abstenções. Há ministros, como Mário Lino, que já anunciaram o respectivo abandono, mas desses guardamos saudades, porque souberam defender com o mesmo vigor a Ota e Alcochete, o TGV e o respectivo adiamento, entre o “jamais” e o seu contrário, mas sempre sem a pose do estadão e com essa qualidade rara dos que mantiveram o sentido do humor e não perderam o sentido do homem comum. Devemos, pelo menos, respeitá-los.

 

 

E há políticos que são mais importantes do que ministros, como os presidentes das autarquias de Lisboa e do Porto, donde costumam sair candidatos a presidentes da república, como um que tivemos em Belém, que nunca atingiu nenhuma cadeira ministerial. Ou como o actual presidente do município portuense, que já venceu eleições a Pinto da Costa e que, apesar de ser o primeiro vice-presidente do principal partido da oposição, só sairá da estação de Campanhã para o sul, a caminho do cargo de governador do Banco de Portugal ou de presidente do parlamento. Ministro vem de “servus ministerialis”, isto é, de “escravo da função”, do ministério, do encargo público para que foi investido pelo povo.

 

Talvez seja melhor notarmos que o actual sistema político, com a sua partidocracia controleira, não passa, hoje, de um simples subsistema, onde a maioria dos factores de poder já não são nacionais. E onde até o próprio poder político está fortemente condicionado pela união dos interesses económicos.

 

Aliás, tanto a integração europeia como a globalização transformaram o PS e o PSD em meras secções de multinacionais europeias que nem sequer têm autonomia programática, principalmente em matérias de projecto europeu, porque partido integrado, deles, se pisar o risco leva expulsão.

 

Pior do que isso: face a este concentracionarismo capitaleiro e castífero, a partidocracia nem sequer tem força para fingir que não é dominada pelos grupos de pressão patronais, como é bem patente na saga aeroportuária.

 

A CIP, que nem sequer vai a votos, como a sua antecessora da I República, até se permite patentear guerras de patrões como os seus colegas nortenhos.

 

Mesmo velhas heranças da democracia da sociedade civil, como eram os liberais clubes de futebol, acabam por poder ser comprados por singulares capitalistas, através de uma simples OPA.

 

Isto para não falarmos da reforma do ensino superior, impulsionada pela cláusula geral do espírito de Bolonha, onde corremos o risco de não nacionalizarmos a racionalidade importada, e tendo como ideia matricial o mesmo relatório da OCDE exportado para a Coreia.

 

Por isso é que não me admiriria que pedissem à secção de engenharia da delegação indiana do MIT para, em nome do salto tecnológico, escrevinharem umas linhas matriciais para a reforma do nosso pronto-a-vestir eleitoral, mesmo que seja um simples plágio do relatório emitido para o reino do Butão.

 

Até poderiam chegar à conclusão que a melhor solução para Portugal passa pela extinção do governo e da governação, pondo a concurso público internacional a gestão da coisa por uma qualquer firma de consultadoria da Patagónia. Eu até já vi um estudo estratégico-económico de um ilustre cipense pondo a hipótese de encerramento da Ilha do Corvo, tal como poderei ver outro, vindo dos vizinhos de Harvard, confirmando a inviabilidade da autonomia portuguesa, com esta classe política a que chegámos.

 

Entretanto, seria bem mais aconselhável que os lusitanos que restam tivessem um reforço da autonomia das suas autarquias locais e regionais, entre zonas livres e zonas estipendiárias, que se federariam numa segunda câmara, a instalar no Porto, enquanto se continuariam a realizar eleições directas por sufrágio universal apenas para um parlamento partidocrático de listas nacionais e para um presidente que bem poderia ser um rei eleito.

 

Julgo que o dinheiro dos portugueses poderia ser melhor gerido, evitando assim a nossa provável expulsão da zona euro, caso se mantenha esta confusão entre o mundo dos negócios, do futebol e da política, com lobistas, que são mais ratos do que lobos do homem, a não terem que se refugiar sob os honrados nomes de advogado e de deputado.

 

Até não teríamos que levar outros lobísticos dirigentes partidários, a acumularem direcções de clubes de futebol e de associações patronais, com intervalos deputáveis cheios de muita barganha e requerimentos, em nome do realismo económico e ao serviço de quem lhe paga. Lobi há, oligarquia o põe. Em choco. Com gripe das aves a ameaçar, para que volte a Passarola.

 

 

Alguns dos meus amigos e companheiros de estrada vivem ainda entre o sonho perdido da revolução e da sua irmã-inimiga, a contra-revolução, seja o contrário de uma revolução, seja uma revolução ao contrário, mesmo que seja a revolução nacional. Uns colocam como marco a Revolução Francesa, interpretando-a “a posteriori” como 1848 e, depois, como a Comuna, para se assumirem como socialistas, chegando a dizer que foi para isso que fizeram o 5 de Outubro, ou o 25 de Abril. Outros são o exacto inverso, seguindo a viradeira do intendente, José Agostinho de Macedo e o ti António dos galinheiros no jardim de São Bento. Por mim, continuo a preferir as revoluções evitadas, como foram a inglesa e a norte-americana, e, quando muito, tenho simpatias pelo modelo girondino, embora julgue que o cartismo pós-revolucionário dos franceses acabou por se aproximar dos primeiros impulsos das duas anteriores revoluções atlânticas, produzindo este “mare magnum” do demoliberalismo que nos deu a democracia como poliarquia. Vivam Constant, Herculano, Tocqueville, Silvestre Pinheiro Ferreira, José Estêvão e Passos Manuel, porque era com estes que estaria Manuel Fernandes Tomás, dado que Costa Cabral andava pelo Clube dos Camilos, nesse arremedo de Saint Jacques que até no nome é fradesco…

 

Reconheço, contudo, que o pensamento dominante que tem marcado algumas das defesas da democracia em Portugal ainda está preso a algumas formas jacobinas, muito convenientes para a adesão de adeptos recentes do sovietismo, do trotskismo e do maoísmo. Isto é, para muitos retardatários aderentes à concepção pluralista e de sociedade aberta. Porque muitos demoraram a abandonar o terror revolucionário, usando ainda hoje argumentos que servem para a dialéctica com muitos talassas e reacças neoconservadores e neocatólicos que, como irmãos-inimigos, preferem combater esta visão redutora da democracia.

 

Há um velho jacobinismo, ainda toldado pelos resquícios do sovietismo, russo, albanês ou chinês, que ainda marca alguns subsolos filosóficos de tardios aderentes ao abrilismo do 25 de Abril de 1975, das eleições para a constituinte, e do 25 de Novembro, que as concretizou em poder contra os vigilantes da legalidade revolucionária. Isto é, há muitos que conservam, muito reaccionariamente, uma certa pulsão totalitária e que continuam a enredar-se no terror sistémico do doutrinarismo abstracto. E Portugal tem de libertar-se dessa teia do complexo revolucionário passadista. Por mim, pouco dado ao republicanismo afonsista, não deixo de reconhecer que, mesmo entre 1910 e 1926, houve Basílio Teles, Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro, Raul Brandão, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão e até Álvaro de Castro, Machado Santos, António José de Almeida e Raul Proença. Mas nem por isso, deixo de reconhecer que esse ambiente produziu alguns otelos, como o ex-radical Gomes da Costa, apesar de deixar obra de grande militar na Índia ou no CEP. Tal como a personalização do poder gerou as ilusões sidonistas, directamente proporcionais à esquizofrenia franquista, que acabou por ser a coveira da monarquia.

 

Quando o revolucionarismo se coloca ao serviço do velho despotismo pretensamente esclarecido e tira direito de voto ao povão, regressando ao censitário dos que já se consideram bem educados pelo novo pensamento dominante de certas elites, é a democracia que se volta contra o povo e contra o necessário gradualismo. Julgo que são estas concepções de democracia que precisavam de ser compensadas por mais pluralismo, mais autonomia da sociedade civil e menos estadão. Por outras palavras, o democratismo continua a precisar de uma correcção liberal, bem menos hipócrita. Por exemplo, pela recriação de um novo espaço parlamentar que admita o pluralismo societário, para evitarmos esta ficção da segundas câmaras clandestinas, marcadas pelos grupos de interesse e pelos grupos de pressão. Porque seria pior emenda do que soneto cairmos na esparrela presidencialista, mesmo que seja o presidencialismo de primeiro-ministro, com uma câmara única como entidade que bate palmas ao chefe do directório partidocrático.

 

Democracia, o que é?

A expressão democracia surge bastante tarde no vocabulário grego, substituindo a anterior ideia de isonomia, conforme a defesa feita por Heródoto. Se em 468 a.C. é utilizada por Ésquilo, juntando demos e kratos, só em finais do século V, é que, com Tucídedes, entra na linguagem comum.

Se, para o sofista ateniense Protágoras, significa que todos os homens têm capacidade para fazer um juízo político, eis que, a partir do discurso de Péricles, se transforma em aspiração universal, ao assentar nos princípios da igualdade e da maioria, numa altura em que o modelo ateniense ainda era uma democracia mais directa do que representativa, por dominar a metodologia do uso da palavra, com a preponderância do debate oral no processo de formação das decisões e com um efectivo diálogo directo entre os governantes e os governados.

Actualmente, a democracia não é o governo directo do povo, mas o governo de todos através de representantes escolhidos por todos, assentando nos mecanismos da igualdade de direito, da liberdade de expressão e do fair trial. Em termos sintéticos, podemos, pois, dizer que a democracia é o governo do povo, para o povo e pelo povo, de acordo com a regra da maioria, mas tolerando a oposição das minorias.

Tanto exige a participação política da massa popular nas decisões, como impõe que a regra da maioria se submeta ao processo de separação dos poderes e ao regime de controlo do poder, impedindo o esmagamento das minorias. Assenta na liberdade de expressão de pensamento e de associação e tem como fundamentalismo a autonomia e a dignidade da pessoa humana, bem como a noção de indivíduo, tendendo a consagrar, como meta justicialista, a igualdade de oportunidades.

Subscrevemos a definição de democracia de João Paulo II, como aquele sistema que assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se trone oportuno.

Repetimos o que dela disse o sexto presidente norte-americano, John Quincy Adams: a democracia é o autogoverno da comunidade pela vontade conjunta da maioria dos seus membros.

Podemos até caracterizá-la, de acordo com a perspectiva de Robert Dahl, em Democracy and its Critics, de 1989, como uma ordem política que exige sete condições: cargos electivos para o controlo das decisões políticas (elected officials); eleições livres, periódicas e imparciais (free and fair elections); sufrágio universal (inclusive suffrage); direito a ocupar cargos públicos (right to run for office); liberdade de expressão (freedom of expression); existência e protecção, dada por lei, da variedade de fontes de informação (alternative information); direito a constituir associações e organizações autónomas, partidos e grupos de interesse (associational autonomy).

Sabemos, contudo, que há sempre degenerescência, essa mudança pela qual uma coisa perde as qualidades que tinha na sua origem, desviando-se da sua natureza, abastardando-se e mudando de sentido, pelo que entra em disfunção.

Os clássicos do pensar a polis já salientavam que todo o poder político está sujeito a corromper-se, salientando que movimento da degenerescência é provocado pela desagregação do múltiplo a partir do uno, quando o uno não consegue a harmonia. Quando cada cidade não é uma, mas muitas, como salienta Platão. Quando são pelo menos duas, inimigas uma da outra, uma dos pobres e outra dos ricos. Quando a cidade não consegue aumentar, permanecendo unida. Quando a cidade cresce na multiplicidade e não na unidade e não se alarga como um círculo.

 

Partido, o que é?

Na polis grega, a palavra correspondente era stasis, que começando por corresponder à nossa conotação de partido, depressa passou a corresponder a uma denominação pejorativa, entendida como facção e depois como sedição. Como o sinal de uma guerra interior, de uma guerra civil, um estado doentio, uma degenerescência da política.

Aliás, num dos primeiros inventários funcionalistas sobre as características dos partidos políticos, de Joseph La Palombara e Myron Weiner, são enumeradas as seguintes características dos mesmos: durabilidade, estrutura complexa, vontade de implantação popular, vontade deliberada de exercer directamente o poder).

Porque os partidos organizam a opinião pública, comunicam as reivindicações aos centros de decisão; articulam para os seus seguidores o conceito e o significado de uma comunidade em geral; estão intimimanete ligados ao recrutamento político.

Deles, pode dizer-se o que vem em qualquer manual de estasiologia do princípio do século. Por exemplo, seguindo Ostrogorski, de 1902, podemos dizer que os nossos partidos também são meros instrumentos de elites escondidas por trás daquilo que designava por programas omnibus (programas que oferecem soluções universais que nunca se realizam, programas tipo pai natal que oferecem tudo a todos). Que quanto mais cresce o elitismo dos organizadores dos partidos, mais cresce o indiferentismo das massas (o não vale a pena).

Acrescentemos o que deles disse Robert Michels, em 1911. Que todos eles estão sujeito à lei de ferro da oligarquia; que a democracaia desemboca naturalmente numa oligarquia, marcada pela vontade de poder, porque quanto mais massificação mais organização. Que quanto mais divisão de trabalho, mais necessidade de uma classe de políticos profissionais e de peritos. Até porque todo o partido político, para ganhar votos, tem de perder a sua virgindade política e entra em relação de promiscuidade com os elementos políticos mais heterógéneos;

Robert Michels analisando o SPD, o principal partido de organização de massas na viragem do século XIX para o século XX, vem falar na lei de ferro da oligarquia, segundo a qual quem diz organização diz necessariamente oligarquia, na emergência dentro destes novos grupos, de uma nova minoria organizada, que se eleva à categoria de classe dirigente.

Com efeito, o que escreviam Ostrogorski em 1902 e Michels em 1911, analisando os recentes partidos de militantes, agrava-se quando enfrentamos os novos modelos de partidos do pós-guerra, os partidos catch all, attrape tout ou pigliatutto, especialmente em tempo de  teledemocracia e de sondajocracia.

 

Já no começo da década de cinquenta Maurice Duverger, na sua classificação tripartida do unipartidarismo, bipartidarismo e multipartidarismo, relacionando-a com o regime eleitoral salientava que um modelo de escrutínio maioritário a uma volta apontaria para o bipartidarismo.

Neumann veio, entretanto, acrescentar que o bipartidarismo seria acirrado por uma série de circunstâncias como a homogeneidade social e a continuidade política. Isto porque, em tal modelo, os partidos procuram ganhar votos ao centro, a fim de conquistarem uma maioria. Pelo contrário, o sistema multipartidarista seria marcado pelas tendências centrífugas dos diversos grupos políticos, sendo típico de sociedades multiformes e pouco conexas.

Contudo, Arend Lijphart salientou a existência de modelos de estabilidade política com multipartidarismo, como nos países escandinavos, contrariando o pressuposto de que o modelo bipartidário seria o único existente em sociedades politicamente estáveis, como aconteceria nos países anglo-saxónicos. Assim, distinguiu um multipartidarismo integral de um multipartidarismo moderado ou temperado pela existência de alianças estáveis e coerentes, porque grandes coligações, que apresentassem aos eleitores uma plataforma comum e que actuassem concertadamente no parlamento, modificariam profundamente o multipartidarismo. E quando se desse o dualismo das alianças até poderia cair-se num modelo quase bipolarista, a chamada bipolarização.

Utilizando a terminologia de Lapolombara e Weiner, diremos que, em Portugal, vivemos em regime de sistema político relativamente competitivo para os dois partidos dominantes do sistema, que têm tido ciclos de hegemonia, findos os quais se geram situações de alternância. Contudo, ultrapassando o espaço desta bipolarização dentro do grande centro, o sistema é claramente não competitivo, dado que os grandes partidos marginais não podem aspirar autonomamente à governação.

Saltando agora para o modelo de Giovanni Sartori, diremos que interessa considerar, para além do número de partidos, a multiplicidade da dinâmica política, procurando saber em que medida o poder político está fragmentado ou não fragmentado, disperso ou concentrado. Assim, podemos dizer que, entre nós, existe um pluralismo limitado, dado que é polarizado por dois grandes partidos com pouca fragmentação e alguma competição.

Abr 14

Vou mesmo falar do Vaticano

Vou mesmo falar do Vaticano, depois das declarações de ontem do cardeal Bertone. Para dizer que dois mil anos depois, não podemos confundir a floresta com algumas das suas árvores. E quem está mal, muda-se, entra em cisma, torna-se herético, protesta em Reforma ou advoga uma Contra-Reforma… Por mim, que estou de fora, com mais cinco séculos em estoicismo, apenas posso coincidir em irmandade, nunca como inimigo, ou com a raiva de dissidente. Logo, reconheço que Bento XVI é bem mais do que a imagem com que ele se enredou na comunicação social global. A coisa é bem mais complexa do que uma consulta de sexologia, tem a ver com a metafísica! No país da Casa Pia, atirar pedradas ao Vaticano por causa da pedofilia é não reconhecermos que tanto os Estados como as Igrejas ainda não sabem fazer justiça nesses casos concretos e padecem da falta de autenticidade típica das organizações de homens concretos de carne, sangue e sonhos… Todos conhecem qual era a tradicional postura eclesiástica sobre tais infracções, remetidas para a clausura da autonomia do direito canónico, com o silêncio e o ostracismo, mesmo quando o trabalho de pesquisa já estava inventariado pelo próprio jornalismo de investigação que, aliás, continua a cooperar, remetendo certo… Esta postura eclesiástica tradicional também foi a seguida pelos primeiros tempos da nossa democracia, quando os pais-fundadores tiveram de ostracizar alguns destacados corruptos da partidocracia. Foram imediatamente afastados, mas não se deixou que o público conhecesse os pormenores da trama… Outros são hoje os sinais dos tempos e as pesadas máquinas do eclesiástico e do estadual demoram a adaptar-se às novas circunstâncias e a uma moral social intolerante para com pedófilos e corruptos. De qualquer maneira, não se confunda a árvore com a floresta e exija-se que o primeiro exemplo venha do jornalismo de investigação que, mais uma vez, não deve ser arrastado pelas parangonas dos chamados tablóides…

Abr 13

Viagem aos meandros sub-estatais do sistema elogiado pelo banqueiro do regime…

O regime vai falando endogamicamente, para as suas próprias tripas e volutas: diz pensar nas escolas-seminários do circuito fechado da subsidiologia; diz punir a corrupção, pedindo discursos a sobrejuízes, super-polícias, ex-criadores de elefantes brancos e oficiais de diligências de planos de combate à dita, todos postos em acetatos e “powerpoint”… Suas Senhorias estão todos de consciência tranquila e irão todos à missinha de Sua Santidade em pleno Terreiro do Paço remodelado, porque a música celestial, a literatura de justificação e os barcos a remos que partem do Cais das Colunas os podem levar sempre à outra banda, para voltarem, de barco à vela, em dia de nevoeiro e buzinão… Os pequenos e médios micro-autoritarismos subestatais, plenos de “outsourcing” e de paradigmas enrolados, vão gaguejando as modas que passam de moda, com que os cursilhos para altos dirigentes os formataram, num misto de saudades estalinistas, barroquismos teológicos e meia dúzia de neologismos do tecnocratês gestionário… Os pequenos e médios altos dirigentes do SIADAP, e da avaliologia suicida, continuam a ganga do construtivismo destruidor, em que sublimaram o revolucionarismo frustrado. E assim se perpetua o despotismo ministerial, entre seminaristas frustrados, doutores da mala ruça, salazarentos ajaconizados, educacionólogos e cantilenas neoPombalistas, a que chamam integração europeia ou turismo científico, assim enobrecidos pelo terceiro mundo cá do contenente…. Qualquer modernizador que pensa ser reformador encartado julga que, por usar duas ou três palavrões do calão anglo-americano, de contratar as consultadorias dos cartões de visitas dos formadores, ou de se envolver no neofeudalismo clientelar do “outsourcing”, se torna, “ipsofacto” engenheiro social, mesmo sem reconhecimento da Ordem…. O Estado é este estado a que chegámos, porque persiste o inquisitorialismo, a persiganga e o antiquado despotismo ministerial, quando quem está em cima é exactamente igual a quem está em baixo: instrumentaliza a máquina dependente da cobardia e do carreirismo oportunista! Até algumas autarquias locais querem serem Estados absolutistas em miniatura. Sobretudo as que se suburbanizam em dormitórios e se destribalizam, com autarcas entalados entre engenheiros de pontes, calçadas, lombas e parques de estacionamento e frustrados professores do ensino secundário. Todos deixam de compreender a pluralidade identitária dos povos que foram chamados a governar… Algum autarquismo de paraquedistas politiqueiros pode volver-se em mero agente colonizador do centralismo e do capitaleirismo, servindo inconscientemente abstracções unidimensionalizadoras, mesmo que o activista comandante não consiga que o verniz socialista, ou social-democrata lhe apague o rasto do teólogo sem Deus, ou do revolucionário sem ideia…

Abr 12

Borrão Abril 2010

Somos todos polacos!

Morreu o Presidente da Polónia e quase uma centena de altos dirigentes de Varsóvia. Dirigiam-se à Rússia, para as comemorações do massacre de Katyn, quando, em 1940, o estalinismo assassinou cerca de vinte mil membros da elite político-militar da Polónia livre. Lech Kaczynski, até há pouco ridicularizado por certa politiqueirice ocidental, era um resistente ao comunismo da geração do Solidariedade e da ascensão ao papado de João Paulo II. E tinha como valor supremo uma pátria que foi vítima dos totalitarismos nazi e comunista. Hoje, é uma das fronteiras orientais da nossa liberdade europeia. E na Rússia já não residem as garras da vingança, mas os sinais libertacionistas de Soljenitsine, embora, de ambos os lados haja expectativas frustradas e sonhos por cumprir. Mas o caminho da casa comum europeia e da democracia pluralista e justa faz-se caminhando e semeando, de geração em geração, peregrinando aquelas raízes profundas que nos podem dar saudades de futuro.
13

Viagem aos meandros sub-estatais do sistema elogiado pelo banqueiro do regime…

O regime vai falando endogamicamente, para as suas próprias tripas e volutas: diz pensar nas escolas-seminários do circuito fechado da subsidiologia; diz punir a corrupção, pedindo discursos a sobrejuízes, super-polícias, ex-criadores de elefantes brancos e oficiais de diligências de planos de combate à dita, todos postos em acetatos e “powerpoint”…

Suas Senhorias estão todos de consciência tranquila e irão todos à missinha de Sua Santidade em pleno Terreiro do Paço remodelado, porque a música celestial, a literatura de justificação e os barcos a remos que partem do Cais das Colunas os podem levar sempre à outra banda, para voltarem, de barco à vela, em dia de nevoeiro e buzinão…

Os pequenos e médios micro-autoritarismos subestatais, plenos de “outsourcing” e de paradigmas enrolados, vão gaguejando as modas que passam de moda, com que os cursilhos para altos dirigentes os formataram, num misto de saudades estalinistas, barroquismos teológicos e meia dúzia de neologismos do tecnocratês gestionário…

Os pequenos e médios altos dirigentes do SIADAP, e da avaliologia suicida, continuam a ganga do construtivismo destruidor, em que sublimaram o revolucionarismo frustrado. E assim se perpetua o despotismo ministerial, entre seminaristas frustrados, doutores da mala ruça, salazarentos ajaconizados, educacionólogos e cantilenas neopombalistas, a que chamam integração europeia ou turismo científico, assim enobrecidos pelo terceiro mundo cá do contenente….

Qualquer modernizador que pensa ser reformador encartado julga que, por usar duas ou três palavrões do calão anglo-americano, de contratar as consultadorias dos cartões de visitas dos formadores, ou de se envolver no neofeudalismo clientelar do “outsourcing”, se torna, “ipsofacto” engenheiro social, mesmo sem reconhecimento da Ordem….

O Estado é este estado a que chegámos, porque persiste o inquisitorialismo, a persiganga e o antiquado despotismo ministerial, quando quem está em cima é exactamente igual a quem está em baixo: instrumentaliza a máquina dependente da cobardia e do carreirismo oportunista!

Até algumas autarquias locais querem serem Estados absolutistas em miniatura. Sobretudo as que se suburbanizam em dormitórios e se destribalizam, com autarcas entalados entre engenheiros de pontes, calçadas, lombas e parques de estacionamento e frustrados professores do ensino secundário. Todos deixam de compreender a pluralidade identitária dos povos que foram chamados a governar…

Algum autarquismo de paraquedistas politiqueiros pode volver-se em mero agente colonizador do centralismo e do capitaleirismo, servindo inconscientemente abstracções unidimensionalizadoras, mesmo que o activista comandante não consiga que o verniz socialista, ou social-democrata lhe apague o rasto do teólogo sem Deus, ou do revolucionário sem ideia…
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Quem está mal, muda-se, entra em cisma, torna-se herético, protesta em Reforma

Vou mesmo falar do Vaticano, depois das declarações de ontem do cardeal Bertone. Para dizer que dois mil anos depois, não podemos confundir a floresta com algumas das suas árvores. E quem está mal, muda-se, entra em cisma, torna-se herético, protesta em Reforma ou advoga uma Contra-Reforma…

Por mim, que estou de fora, com mais cinco séculos em estoicismo, apenas posso coincidir em irmandade, nunca como inimigo, ou com a raiva de dissidente. Logo, reconheço que Bento XVI é bem mais do que a imagem com que ele se enredou na comunicação social global. A coisa é bem mais complexa do que uma consulta de sexologia, tem a ver com a metafísica!

No país da Casa Pia, atirar pedradas ao Vaticano por causa da pedofilia é não reconhecermos que tanto os Estados como as Igrejas ainda não sabem fazer justiça nesses casos concretos e padecem da falta de autenticidade típica das organizações de homens concretos de carne, sangue e sonhos…

Todos conhecem qual era a tradicional postura eclesiástica sobre tais infracções, remetidas para a clausura da autonomia do direito canónico, com o silêncio e o ostracismo, mesmo quando o trabalho de pesquisa já estava inventariado pelo próprio jornalismo de investigação que, aliás, continua a cooperar, remetendo certo…

Esta postura eclesiástica tradicional também foi a seguida pelos primeiros tempos da nossa democracia, quando os pais-fundadores tiveram de ostracizar alguns destacados corruptos da partidocracia. Foram imediatamente afastados, mas não se deixou que o público conhecesse os pormenores da trama…

Outros são hoje os sinais dos tempos e as pesadas máquinas do eclesiástico e do estadual demoram a adaptar-se às novas circunstâncias e a uma moral social intolerante para com pedófilos e corruptos. De qualquer maneira, não se confunda a árvore com a floresta e exija-se que o primeiro exemplo venha do jornalismo de investigação que, mais uma vez, não deve ser arrastado pelas parangonas dos chamados tablóides…
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A democracia pode ser usurpada pela partidocracia…

A democracia pode ser usurpada pela partidocracia, uma gangrena do Estado (Caboara), e tal sistema enredar o regime, especialmente quando somos marcados pelo abuso de posição dominante dos representantes das principais multinacionais partidárias da Europa…

Se, com a vitória da AD, a partir de 1980, encerrámos o fatalismo do partido-sistema da I República, quando Soares e o PS sonhavam com a mexicanização do partido revolucionário institucional, clamando pela TINA (“there is no alternative”), mantivemos, contudo, o atavismo de certo rotativismo devorista da monarquia liberal…

E rotativismo, alimentado pelo patrimonialismo das forças vivas, pode levar a que as decadências dos crepúsculos durem uma ou duas décadas, dando a ilusão aos comandantes da alternância que mão serão coveiros do regime…

O PSD de Passos Coelho assume uma regeneração vinda de dentro de um dos partidos doentes, quando se libertou do cavaquismo sem Cavaco e do barrosismo sem Barroso e dos consequentes processos dos ausentes-presentes… Mas o novo discurso instaurado, se falhar pela falta de autenticidade, pode não propagar o estilo ao PS. Deste modo, apenas ficaremos condenados à democracia por razões geopolíticas, sofrendo os efeitos de a maioria dos factores de poder já não ser doméstica, ou intra-nacional…

O português comum não assume a utopia como sítio sem lugar e sem tempo. Prefere o Canto IX d’ “Os Lusíadas” ou uma casa tipo “maison”, na santa terrinha. Por isso, é um “sonhador activo” e está farto de “traduções em calão” de democracias exógenas…

Importa que a partidocracia compreenda que há um povo com fome de causas e uma pulsão para a solidariedade. Faltam é engenheiros de sonhos que nos mobilizem e assumam as nossas visões de paraíso bem terráqueas, da procura, no aqui e agora, da beatitude celeste, como Sérgio Buarque de Hollanda caracterizou o “português à solta”…

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Um imenso império colonial…. sem citar Mário Soares

Adoraria que Cabo Verde fizesse parte de uma república maior, em que também participassem o Brasil e a república dos portugueses que restam. Sonho que, um dia, com Angola, esse seja, mais um passo para a super-nação futura, a do velho triângulo estratégico do Atlântico Sul que el-rei D. Sebastião tentou concretizar sem adequada táctica e consequentes serviços secretos (não reparou que os huguenotes franceses e os anglicanos estavam por trás da facção marroquina que o derrotou em Alcácer-Quibir….). Por isso agradeço que Cabo Verde se tenha tornado independente, para parafrasear o presidente António José de Almeida em 1922, por ocasião do primeiro centenário do acto de D. Pedro IV!

De acrescentar que António José teve uma avaria no navio que o levava a atravessar o Atlântico e não conseguiu chegar ao Brasil a tempo. Estávamos num tempo daquelas crises financeiras que são os nossos normais anormais e só um desenrascado como era o ilustre republicano liberal conseguiu transformar essa vulnerabilidade numa potencialidade ainda citável…

Cabo Verde, um povo africano com cinco séculos de nação, ao tornar-se independente, livrou-se, pelo menos, de ter de aturar certa gerontocracia de algum capitaleirismo lusitano de ausentes-presentes. Há encruzilhadas da história onde os Ipirangas são necessários. Sobretudo quando o velho centro perde a lucidez de ter saudades de futuro.

A estrutura política dos portugueses europeus tem sido sucessivamente reinventada e refundada. O velho Portugal devia, aliás, ter mudado de nome em 1822, tal como em 1975 se encerrou o ciclo do último passo imperial, o da geração de Mouzinho e do imperialismo republicano que nos levou à Grande Guerra e, finalmente, à guerra colonial.

Somos herdeiros de todos os ciclos imperiais da nossa história. O primeiro, foi o marroquino, entre a conquista de Ceuta e o abandono de Mazagão. O segundo, foi o do Oriente que, simbolicamente, terminou em 18 de Dezembro de 1961, mas ainda permaneceu em Timor e Macau. O terceiro foi o do Brasil, até 1822. O quarto e último foi o africano, o desencadeado nos últimos anos do século XIX…

A chamada descolonização exemplar, ainda gerou uma foram anti-imperial de procura do além: a integração europeia, desencadeada a partir das memórias da emigração dos anos de 1960, na geração da mala de cartão. Só agora começamos a regressar à Lusitânia e à frustração dos Habsburgos. Mas não há 1640 no horizonte, porque a principal consequência do 1º de Dezembro foi a construção do Brasil!

Por outras palavras, só poderemos superar a frustração imperial pelo sonho do abraço armilar. Mas ainda faltam algumas décadas para inventariarmos as nossas memórias das várias sementes lançadas pelo Portugal Universal, decepando o neocolonialismo pretensamente anticolonialista que ainda nos amargura…

PS: O célebre cartaz de propaganda é da autoria do inspector superior colonial Henrique Galvão, o mais anti-salazarista de todos os anti-salazaristas, mas delineado quando ainda ele era salazarista, coisa que o deixou de ser quando teve a coragem de, na própria Assembleia Nacional, apresentar um relatório sobre o trabalho forçado que logo o jornal clandestino do PCP, o “Avante”, editou…
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Entre animais humanos e animais não-humanos, mesmo com forma dos primeiros…

Leio cuidadosamente o “dossier” do Expresso sobre a operação dita Mercúrio, mas não do cromo. Sou obrigado a concluir sobre o supérfluo da gravitas de uma comissão parlamentar de inquérito, agora em curso de discurso. Para mim, já está tudo, mas mesmo tudo, esclarecido. Basta conseguir ler as linhas e compreender as entrelinhas e não ter que as traduzir para parlamentarês. O que apenas servirá para confirmarmos como certas operações retóricas apenas servem para se medir a distância que vai entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica.

Por outras palavras, com tanto jogo de cintura matosinha e micaelense, a casa da democracia pode gastar-se pelo mau-uso. Pode juntar o pior que há numa investigação judiciária sobre relações jurídicas, as tais que não coincidem, nem podem coincidir, com a vida, e o pior das parangonas do jornalismo tablóide, o que, normalmente, gera expectativas frustradas e pode vir a prostituir-se pelo abuso…

Para acrescer à esquizofrenia, só faltava que um teste de um dos muitos exames de uma escola pública de direito virasse primeira página e pretexto para um duelo de concepções do mundo e da vida, entre o Professor Doutor Paulo Otero e a jovem doutoranda Isabel Moreira, com o primeiro no ouro do silêncio e a segunda na prata da palavra jugular. Não tomarei partido, porque isto da academia não é para partir. Porque, sem ser por acaso, foram, os dois, dos melhores e mais queridos alunos que tive.

Aliás, tomei conhecimento do teste num desses almoços de camaradagem académica, por acaso, momentos depois de o mesmo ter sido lançado nos claustros da escola. Dei-lhe a importância que ele, na verdade, merece, e até gargalhei imaginativamente, observando que, se fosse aluno testado, responderia ao dito como um dia fiz a um teste do meu saudoso professor de direitos reais, Orlando de Carvalho, isto é, demonstrando que, com os dados fornecidos, haveria uma impossibilidade lógica de resolução…

Porque, mesmo com o estímulo provocatório, à boa maneira do Paulo, as relações jurídicas são impossíveis de fecundação pelas concepções do mundo e da vida do jurista que finja que não é jurista. Até porque a personalidade jurídica já não depende do nascimento completo, com vida e figura humana, conforme a letra do Código de Seabra, quando se temiam fantasmagóricas emanações entre animais racionais e animais não-humanos…

Sobre a matéria de fundo, declaro que Paulo Otero é humanamente generoso e academicamente genial, não podendo ser condicionado pela adjectivação diabólica, até pela coragem que sempre demonstrou. E nisto, a Isabel Moreira parece seguir-lhe as pisadas, até no desassombro cívico dos combates que a mobilizam. Ambos são precisos. Para indisciplinarem este cinzentismo de um politicamente correcto que até nem deixa que surja uma terceira via que nos livre da tenaz do branco e do preto, a que nos afunila em crise de convicções.
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Valia mais sermos pigmeus, mas ascendendo à cabeça dos gigantes

Quem andou pelas festas de Sant Jordi, com uma rosa contra o dragão e a descobrir a origem das riscas blaugranas, teve que reforçar a mística liberal e a fraternidade peninsular. Foi uma bela jornada de trabalho, sobretudo na Biblioteca Arús, nessa terra de boa gente que é Barcelona, mas que me impedir ir à jantarada do Albergue…

Regresso e confirmo: só tipos de sete línguas e gatos de sete vidas é que se safam nesta encruzilhada. Para além do parlamentarês, do judicialês, do economês. do educacionalês, do medicalês, do engenheirialês e do padrecofilês, temos de levar marretadas frequentes do “paga primeiro, protesta depois”, em multas, taxas, impostos, côngruas e gorjas…É tudo uma questão de fluxo de tesouraria…

Com efeito, as parangonas lusitanas estão cheias de árvores queimadas, ramos de árvore, folhinhas, ramículos, borradelas de pássaro e outras questiúnculas das guerrazinhas de homenzinhos… Ate já se glosa um António Martins! Prefiro continuar pigmeu, mas subindo à cabeça do gigante adormecido

Tenho a impressão que o parlamento, mesmo sem maioria absoluta, começa a enredar-se em truques de regimentalismo de certa metalinguagem que o afasta das angústias e das esperanças do homem comum. Porque o óbvio demora sessões e sessões a passar pelo filtro retórico do parlamentarês…

Agora são os comboios, dentro de dias, os camionistas, para que todos andemos de papamóvel, mas não consta que o governo, em sinal de tolerância, esteja disposto a oferecer um preservativo em forma de filigrana, da autoria de Joana Vasconcelos, a Sua Santidade. A Câmara de Lisboa prefere manter, no alto do Eduardo VII o projecto da catedral de Santo Antoninho…

Novidades do “day after”, apenas a criação de altos tribunais em Santarém para a concorrência e a propriedade industrial, dentro da feira nacional de agricultura, a mudança do parlamento para o Porto, onde não há “lock out”, e a instalação da Liga de Futebol Profissional em Campo Maior…

Queríamos saber se Ele sabia. Mas toda a gente sabe que ele, quando é Ele, já não pode saber, embora soubesse o que toda a gente sabia. A teoria da conspiração sempre à procura de uma casca de banana que possa fazer parangona… Ele é quem É. Por enquanto, apenas…

Porque Vara, conforme o previsto, foi festival de retórica, típico dos registos contidos dos políticos de rabo pelado. Brincou ao gato e ao rato sobre a verdade e a mentira, apesar da metalinguagem de Pacheco, nunca quebrou o “não tenho ideia disso… pode perguntar-me cem vezes que eu digo sempre o mesmo”. Nada a acrescentar…

Nesta teatrocracia sem emoção nem a audição de Manela aqueceu as almas, porque, afinal, nem ela tinha alguma coisa para dizer. Só Vitalino tentou que ela desvendasse segredos de alcova no tempo do governo dos afonsinos. Estamos condenados ao afunilamento e mandam os que não se assumem como pigmeus que podem ascender à cabeça dos gigantes para verem mais além. Os que mandam são daquela espécie que é capaz de matar o pai, a mãe, os irmãos e os filhos, para obterem um naquito de poder e honrarias, na sua insaciável sede de protagonismo. Somos dominados por psicopatas sentenciadores que, como cadáveres adiados, vão emprenhando de ouvida e reproduzindo os ódios que lhes transmitem os fiéis e aduladores.

Enquanto persistir esta vaidade predadora dos eucaliptos semoventes, a democracia continuará enredada pelas teias da conspiração dos gerontes que pensam deter o monopólio da cultura política e do bom-senso, reproduzindo o esquemático do sebenteiro de uma banal engenharia de conceitos que apenas disfarça os sucessivos plágios de muitas modas que passam de moda. E o crime tem compensado…
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O neofeudalismo das companhias de economia mística que nos vão corroendo a democracia…

Hoje não há comissão parlamentar de inquérito, devido à greve dos funcionários de São Bento e ao medo da administração da entidade mostrar a verdade ao país. Mas ontem a democratíssima e representatívissima comissão permitiu-nos fazer uma viagem pelo neopombalismo das companhias de economia mística, essas entidades a que alguns dão o nome de empresas e por circulam sujeitos nomeados pelos favores e compadrios do clientelismo banco-burocrático.

Os tais que, feitos gestores, utilizam tais molduras como brinquedos com que vão gastando o dinheiro que não é deles, como almoçaradas de trabalhos, carros de alta cilindrada, antes de serem ou depois de serem membros da alta governança do estadão.

E assim vamos nacionalizando os prejuízos e privatizando os lucros das forças vivas que vão manipulando a vaidade de uma fauna daquele bloco centraleiro que pouco se importa com ganhos ou gastos. Basta-lhes um contratozinho onde acautelem indemnizações por despedimento, mesmo que seja por justa causa, recebendo ampla protecção da consultadoria e dos grandes escritórios da advocacia e das avenças, nessa federação de colegas que nos continua a pesar no lombo. E é em torno destas falsas luminárias que continua a gravitar certa comunicação social e certo comentarismo opinativo, dados à encomendação.

Só quando os interesses da oligarquia accionista, dos velhos e novos ricos, perceberem que correm risco é que esses escudos invisíveis dos favores poilitiqueiros e plutocráticos poderão começar a estilhaçar. Por enquanto ainda persistem os cânticos celestiais sobre o “rating” e a dívida, a ditadura da incompetência continuará a amargurar-nos, com estes bonzos instalados nos vários lemes destas grandes e pequenas governanças, entre o ministerialismo e o micro-autoritarismo sub-estatal.

O neofeudalismo patrimonialista que vai corroendo a legitimidade racional-normativa já não cumpre a ideia de Estado de Direito. Espero q ue antes de se agravarem os sinais de bancarrota tenhamos a coragem de demonstrar a existência de uma grandiosa estátua de calhaus com os pés fragmentados pela poeira dos pequenos interesses dos sucessivos incompetentes devoristas…
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29.4.10
Doze pedaços, para discurso de homem revoltado!

Passos foi a São Bento, Sócrates a Belém, todos reconheceram o óbvio da turbulência e celebraram o medo dos mercados. Chamaram-lhe ataque dos especuladores ao euro. Na prática, a teoria continua a ser outra e quem se lixa é sempre o mexilhão do povo. Os banqueiros bem avisaram, os políticos bem equivocaram, os burocratas bem executaram…

Os partidos lavam as mãos como Pilatos. E a culpa continua a morrer solteira. O malandro é o monstro capitalista e a consequente falta de regulação da geofinança. Até Louçã corre o risco de ser nomeado supremo inquisidor da futura ASAE da União Europeia, que o Constâncio já subiu, Guterres já voltou ao picareta falante e Freitas com Soares vão articulando, como sermão de ex-ministros de Salazar sobre a teoria da democracia….

Soares já elogia Passos Coelho, mas ainda não lhe chama Obama. Quase todos continuam a tapar o sol com a peneira do propagandismo… Não tarda que Ricardo Salgado se junte a Jota Berardo em missa pontifical.

Só nos safaremos deste encurtar da rédea ao “rating” da república, se tal também acontecer ao da monarquia espanhola. Para que os grandes da Europa desapertem os cordões à bolsa, assumindo que os PIGS fazem parte do mesmo clube…

Por cá, muitos burocratas e reformadores de burocratas continuam como os primitivos actuais que vivem do preenchimento dos formulários, entre livros de ponto e fichas de avaliação. Isto é, domina o paradigma construtivista, onde a generalidade e a abstracção confundem os nomes com as coisas nomeadas…

Burocrata é estilo Frei Tomás: olha para aquilo que ele diz e não para aquilo que ele faz… Agora até afixam as entrevistas do chefe da quintarola no átrio de entrada… com fotocópia a cores, debaixo da nova sinalética….

Burocrata é sapateiro de Braga: não há moralidade nem comem todos… Comem apenas os que foram da lista dele e que o apoiam entusiasticamente como grande educador dos que querem ser promovidos à custa do trabalho dos outros….

Porque nem todos os animais da mesma espécie podem ser coisas da mesma categoria. Quem nos unidimensionaliza não admite a justiça do mérito!

Só há igualdade de oportunidades se houver competição, aquela que permite dar a cada um o que lhe é devido (“suum cuique tribuere”), proibindo que não se lese o outro (“alterum non laedere”) e que a cultura dominante seja a do viver honestamente (“honeste vivere”)…

Se continuar a rotina que leva o crime a compensar, vai perpetuar-se o clientelismo, a engenharia da cunha e a subsidiocracia. E os donos do poder continuarão a chamar gestão democrática à mais desdentada das gerontocracias e ao mais arbitrário do despotismo de todos… mesmo que previamente tenham investidos em números dois do PSD em tempo de mandar PS, ou vice-versa.

Quando só a cobardia falar e o carreirismo for regra, apenas se confirmará como as instituições perderam a espinha da ideia de obra, não gerando a comunidade das coisas que se amam e transformando as normas naquilo que os principais dizem ao sabor dos ventos, estando dispensados das que impõem aos outros.

Ditadura, nunca mais! Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Quem diz isto é maluco e deve ser processado…

 

Abr 06

Muitos portugueses são dotados de uma ponta de misticismo…

Ontem, lá fui à minha santa terrinha, numa conferência que tinha como pretexto invocar carbonária, Maçonaria e república, no contexto da implantação da república. Foi emotivo esse regresso à memória de menino e moço desses campos, marcado pela experiência política dos meus seis anos de idade, quando vi pela primeira vez a colar um cartaz de propaganda política nas paredes da casa da minha avó, no Largo da Praça de Cernache: era o Dr. João Ribeiro que afixava um de Arlindo Vicente, antes de se tornar num apoiante de Humberto Delgado. E comecei, precisamente, por homenagear esse santo laico da minha infância, talvez o resistente anti-salazarista da zona que mais vezes deve ter sido preso e que, para mim, se tornou no paradigma de um político que sempre viveu como pensou e que, nem depois da vitória das suas ideias, no 25 de Abril de 1974, se conformou. Encontrei-o, um dia, no tribunal, onde fazia estágio de advocacia: tinha voltado a ser detido, agora, conspirando num dos grupos de extrema-esquerda contra o situacionismo do PREC… O meu querido dr. Ribeiro que a tantos fez bem, com o seu dois cavalos, circulando de aldeia em aldeia, de casa em casa, tratando de toda a gente, sem máquina registadora de pagamento de consultas, foi um semeador de sonhos a quem continuarei fiel para sempre. A conferência foi também um pretexto para o meu luto. Porque a minha querida Ana era trineta do Francisco de Lemos Ramalho, que nunca usou o título de Conde de Condeixa, o tal que fugiu de casa aos 14 anos para servir no cavalaria 4, que lutou do lado miguelista, mas que, depois, renunciou, para voltar às armas com a Patuleia, à frente de 600 homens que armara e equipara. Também não aceitou ser Marquês de Pereira, título oferecido por D. Maria II a quem hospedou, juntamente com D. Fernando e o futuro D. Pedro V. E que dizer da carbonária, depois desta mistura de setembristas e legitimistas? Que a velha sociedade napolitana, surgida entre 1807 e 1810, contra a ocupação napoleónica, tinha a mesma explosividade de idênticas sociedades secretas portuguesas que resistiram a El-Rei Junot e que, na pequena pátria dos campos de Coimbra, se destacou o maçon José Bonifácio, em nome da liberdade portuguesa, para, depois, erguer o sonho da independência brasileira que foi a melhor maneira de se reproduzir Portugal à solta no lado de baixo do Equador. Porque houve sempre muitas carbonárias: a de 1848, ligada a José Estêvão (o filho deste, Luís de Magalhães, ministro dos progressistas, há-de casar com uma descendente de Francisco Lemos Ramalho, e terá destino paradoxal de crente, quando assume a legitimidade de líder político da Monarquia do Norte, em 1919, mas sempre em amiga relação com os republicanos, como o demonstrou a defesa que teve em tribunal de Basílio Teles); a de 1862, ligada ao Partido Regenerador de Coimbra, com o Padre António de Jesus Maria da Costa); ou a de Artur Duarte da Luz de Almeida, recriada em 1897, onde vai enfileirar António Maria da Silva que, nas suas memórias, nos desfaz o mistério de uma organização mobilizadora, porque, segundo as suas próprias palavras: muitos portugueses são dotados de uma ponta de misticismo; e, para esses, era de capital importância a liturgia, principalmente para os mais humildes. Descansem, leitores, não vou reproduzir a conferência, nem registar o debate. Voltei à minha pequena pátria moçárabe dos campos de Coimbra, entre a serra e o mar, onde há sinais de uma república maior, a de Portugal a caminho do Sul, esse que lutou em Aljubarrota, que resistiu no cerco de Lisboa, que elegeu o rei nas Cortes de Coimbra e que a todos nos fez porto de partida para o navegar é preciso do abraço armilar. E não deixei de homenagear os meus avoengos, mais da patuleia do que da capitaleira carbonária, esses resistentes da Revolta do Grelo e da revolta de Cernache de 1936. Foi com eles que soletrei os sinais da terra prometida e dos planetas que nos dão esse além de um mundo sem fim, o da espiritualidade, mesmo quando herética e neopagã (veja-se o S. Mateus de Soure, a queima do Judas em Cernache ou as cavalhadas do Espírito Santo em Vila Pouca, mesmo quando apenas autorizadas no Santo António). Sobretudo, o valor do trabalho, de sol a sol e de lua em noites de rega, e o sentido do sagrado da propriedade humanizada do minifúndio que permitiu o individualismo e o familiarismo da casa, da horta e do pinhal, essa enraizada liberdade na comunidade viva das tradições. As minhas origens, de nobre linhagem plebeia, regeneraram-se nesta breve viagem ao sonho que me deu sentido de luta e obrigam-me a ser fiel à tribo e aos meus. Daí que, em plena comemoração do centenário da república, tenha continuado a proclamar o meu liberdadeirismo azul e branco, defensor da restauração da república… mas com a posterior eleição do rei. E o ambiente dos meus amigos, colegas e irmãos da assistência, maioritariamente antimonárquicos, apenas demonstrou como não posso ser, como realista antigo, anti-republicano. Até recordei o “Livro da Virtuosa Benfeitoria” do Infante D. Pedro, talvez o primeiro tratado político em português, o do ambiente da constituição política de 1385, que o grupo republicano da Biblioteca Pública do Porto editou…

Abr 06

Muitos portugueses são dotados de uma ponta de misticismo…

Ontem, lá fui à minha santa terrinha, numa conferência que tinha como pretexto invocar carbonária, Maçonaria e república, no contexto da implantação da república. Foi emotivo esse regresso à memória de menino e moço desses campos, marcado pela experiência política dos meus seis anos de idade, quando vi pela primeira vez a colar um cartaz de propaganda política nas paredes da casa da minha avó, no Largo da Praça de Cernache: era o Dr. João Ribeiro que afixava um de Arlindo Vicente, antes de se tornar num apoiante de Humberto Delgado. E comecei, precisamente, por homenagear esse santo laico da minha infância, talvez o resistente anti-salazarista da zona que mais vezes deve ter sido preso e que, para mim, se tornou no paradigma de um político que sempre viveu como pensou e que, nem depois da vitória das suas ideias, no 25 de Abril de 1974, se conformou. Encontrei-o, um dia, no tribunal, onde fazia estágio de advocacia: tinha voltado a ser detido, agora, conspirando num dos grupos de extrema-esquerda contra o situacionismo do PREC… O meu querido dr. Ribeiro que a tantos fez bem, com o seu dois cavalos, circulando de aldeia em aldeia, de casa em casa, tratando de toda a gente, sem máquina registadora de pagamento de consultas, foi um semeador de sonhos a quem continuarei fiel para sempre. A conferência foi também um pretexto para o meu luto. Porque a minha querida Ana era trineta do Francisco de Lemos Ramalho, que nunca usou o título de Conde de Condeixa, o tal que fugiu de casa aos 14 anos para servir no cavalaria 4, que lutou do lado miguelista, mas que, depois, renunciou, para voltar às armas com a Patuleia, à frente de 600 homens que armara e equipara. Também não aceitou ser Marquês de Pereira, título oferecido por D. Maria II a quem hospedou, juntamente com D. Fernando e o futuro D. Pedro V. E que dizer da carbonária, depois desta mistura de setembristas e legitimistas? Que a velha sociedade napolitana, surgida entre 1807 e 1810, contra a ocupação napoleónica, tinha a mesma explosividade de idênticas sociedades secretas portuguesas que resistiram a El-Rei Junot e que, na pequena pátria dos campos de Coimbra, se destacou o maçon José Bonifácio, em nome da liberdade portuguesa, para, depois, erguer o sonho da independência brasileira que foi a melhor maneira de se reproduzir Portugal à solta no lado de baixo do Equador. Porque houve sempre muitas carbonárias: a de 1848, ligada a José Estêvão (o filho deste, Luís de Magalhães, ministro dos progressistas, há-de casar com uma descendente de Francisco Lemos Ramalho, e terá destino paradoxal de crente, quando assume a legitimidade de líder político da Monarquia do Norte, em 1919, mas sempre em amiga relação com os republicanos, como o demonstrou a defesa que teve em tribunal de Basílio Teles); a de 1862, ligada ao Partido Regenerador de Coimbra, com o Padre António de Jesus Maria da Costa); ou a de Artur Duarte da Luz de Almeida, recriada em 1897, onde vai enfileirar António Maria da Silva que, nas suas memórias, nos desfaz o mistério de uma organização mobilizadora, porque, segundo as suas próprias palavras: muitos portugueses são dotados de uma ponta de misticismo; e, para esses, era de capital importância a liturgia, principalmente para os mais humildes. Descansem, leitores, não vou reproduzir a conferência, nem registar o debate. Voltei à minha pequena pátria moçárabe dos campos de Coimbra, entre a serra e o mar, onde há sinais de uma república maior, a de Portugal a caminho do Sul, esse que lutou em Aljubarrota, que resistiu no cerco de Lisboa, que elegeu o rei nas Cortes de Coimbra e que a todos nos fez porto de partida para o navegar é preciso do abraço armilar. E não deixei de homenagear os meus avoengos, mais da patuleia do que da capitaleira carbonária, esses resistentes da Revolta do Grelo e da revolta de Cernache de 1936. Foi com eles que soletrei os sinais da terra prometida e dos planetas que nos dão esse além de um mundo sem fim, o da espiritualidade, mesmo quando herética e neopagã (veja-se o S. Mateus de Soure, a queima do Judas em Cernache ou as cavalhadas do Espírito Santo em Vila Pouca, mesmo quando apenas autorizadas no Santo António). Sobretudo, o valor do trabalho, de sol a sol e de lua em noites de rega, e o sentido do sagrado da propriedade humanizada do minifúndio que permitiu o individualismo e o familiarismo da casa, da horta e do pinhal, essa enraizada liberdade na comunidade viva das tradições. As minhas origens, de nobre linhagem plebeia, regeneraram-se nesta breve viagem ao sonho que me deu sentido de luta e obrigam-me a ser fiel à tribo e aos meus. Daí que, em plena comemoração do centenário da república, tenha continuado a proclamar o meu liberdadeirismo azul e branco, defensor da restauração da república… mas com a posterior eleição do rei. E o ambiente dos meus amigos, colegas e irmãos da assistência, maioritariamente antimonárquicos, apenas demonstrou como não posso ser, como realista antigo, anti-republicano. Até recordei o “Livro da Virtuosa Benfeitoria” do Infante D. Pedro, talvez o primeiro tratado político em português, o do ambiente da constituição política de 1385, que o grupo republicano da Biblioteca Pública do Porto editou…


Um espaço complexo demais para o “more geometrico” mental de um ministro dos estrangeiros de um governo socialista que já foi vice-presidente da associação europeia das democracias cristãs e que pretende o eclético do estar bem com Deus e com o Diabo naquele estático centrismo do ficar de cócoras perante a gestão das dependências, sem se afligir até com o fanatismo daqueles manipuladores de massas que mandam queimar as bandeiras medievais da cruz, como é a dinamarquesa, quase igual à do nosso D. Afonso Henriques. Portugal foi a aula que dei na segunda-feira sobre a matéria, quando tomou a palavra uma aluna maometana, de origem fula, vestida à Sara Tavares e explicando aos colegas católicos, agnósticos e ateus, que a tolerância não é uma sebenta de jurisprudência dos conceitos. E quando foi formulada a hipótese académica de um grande jornal de grande expansão poder publicar uma caricatura ofensiva de Nossa Senhora de Fátima, foi ver a fúria compreensiva dos outros crentes. Apenas lhes disse que tudo só poderia ser resolvido com o Código Penal aplicado pelo poder judicial e não com notas oficiosas do MNE. Até porque, em direito civilizado, a rotina da acção directa não é meio de defesa. Portugal talvez seja irmos todos à igreja/mesquita de Mértola fazer uma oração conjunta no mesmo espaço divino, em português, expresso por judeus, muçulmanos, cristãos e maçons, todos portugueses, na presença de um bispo cristão e com as beatas alentejanas benzendo-se quando o Corão era lido por um oficiante mometano em lusitano linguajar. Já assisti a uma cerimónia destas, que ajudei a organizar, sob a batuta da saudosa Helena Vaz da Silva. Aconselho o senhor ministro a ler mais Camões e Agostinho da Silva. E a perceber como na nossa mais recente guerra, o factor islâmico até foi nosso aliado, morrendo por aquilo que se decretava ser Portugal. Portugal nunca rimou com a pseudo-ortodoxia cartesiana do neo-dogmatismo pretensamente antidogmático. Alguma coisa está podre neste reino da nossa Dinamarca. Viva a bandeira afonsina que outros vão queimando com a gasolina cobarde que re-exportamos para as praças do ódio. Oxalá! E até amanhã se Deus quiser!