Out 01

ESTA DITADURA DA INCOMPETÊNCIA…

Depois de tantos educacionólogos, reformólogos e avaliólogos, a pátria está definitivamente murcha em sua criatividade explosiva, face a esta claustrofobia de quintal feito com cimento armado e ar condicionado. Assim, afogados nesta modorra decadentista para que fomos conduzidos pela ambição de dois ou três demagogos feitos ministros, ou de quatro ou cinco agenciadores de cunhas e subsídios feitos deputados, começamos a perceber que os nossos donos do poder são bonzos demais para domarem a inevitável fúria dos mansos que se avizinha. Até começa a ser difícil continuar a tapar o sol da verdade com a peneira comunicacional, porque tanto há mais delegados de propaganda médica do que médicos, como são mais assessores delegados da propaganda ministerial do que as direcções-gerais.

Se a nossas ditas elites continuarem a ser medidas pelo ritmo do cartão de crédito e do livro de cheques, apenas repetiremos o capitulacionismo que marcou a classe política monárquica diante do Ultimatum. E a nossa sociedade dita hiper-informada só topará os desastres que se avizinham depois do factos serem consumados. Porque quem pensa baixinho não vê um boi à frente dos olhos…

Se continuar esta ditadura da incompetência, até poderá acontecer que a nossa criatividade constitucional resolva o problema do presidente Sampaio, dado que tudo aponta para a emergência de uma auto-dissolução do sistema, sem necessidade dos discursos de Sócrates, Louçã e Carvalhas. Basta assinalarmos como se vai assistindo impassivelmente à destruição das nossas escolas superiores públicas de filosofia, história e literatura, só porque alguns as reduziram a meras fábricas de professores.

Não tardará em que sejamos mais uma das repartições de reparadores de “hardware” importado, onde apenas haverá repetidores e pirateadores de “software” alheio, perdendo a capacidade de criação de um pensamento enraizado nas circunstâncias, com instituições ditas universidades que não passarão de federações de centros de mera formação profissional, onde dominarão notáveis papagaios que vão monitorizando manuais de programação de outras ecologias.

De facto, até há pouco, a politologia contemporânea dizia que o “spoil system“, o sistema dos troféus, correspondia ao sistema norte-americano de nomeação de novas equipas, depois da eleição de um presidente. Dizia-se também que o modelo fora instituído por Andrew Jackson no primeiro quartel do século XIX.

E Max Weber definia-o como a atribuição de todos os postos da administração federal ao séquito do candidato presidencial vitorioso e que, a partir de então, surgiu um novo modelo de partido, entendido como simples organização de caçadores de cargos, sem convicção alguma.
Com António Guterres, o spoil system passou a ser traduzido em português por “jobs for the boys”, antes de Durão Barroso o volver em “boys for the jobs”. Terá sido com base nesta experiência que Bailey considerou a política como um jogo onde os competidores actuam numa arena visando a conquista de troféus.

O que levou ao aparecimento, no modelo norte-americano, do “boss”, do empresário político capitalista que procura votos em benefício próprio, sem ter uma doutrina e sem professar qualquer espécie de princípios. Um político profissional típico que trata de atacar os outsiders que lhe podem ameaçar os futuros rendimentos, isto é o futuro poder.

Em nome de Deus nos deram a Santa Inquisição. Em nome da Santa Razão nos deram a Junta da Providência Literarária e a Dedução Cronológico-Analítica. Vieram depois a Junta Expurgatória dos Estudos, a Junta Nacional de Educação, os grupos de trabalho, os PRECs e os recentes distribuidores de subsídios estatais, nomeados por favoritismo partidário. Todos esses paralelogramas de forças de que as presentes ministras apenas são a manifestação.

O mal, afinal, está no princípio, quando, no princípio, não há princípios. O problema não são os justinos, os abílios, as comptas ou o espírito de Bolonha. Com esta mentalidade gestionária dos merceeiros orçamentais, refazer o patriotismo científico, sem cedermos aos exercícios da manipulação emotiva, implica sementeira de razão, de vontade e de imaginação. Implica darmos nação ao Estado, darmos povo à nação e darmos homens ao povo. Foi por isso que pouco depois de termos o povo em Cortes, em 1254, fundámos a universidade, em 1290.

Julgo que, ainda hoje, as universidades europeias, mais ou menos companheiras da nossa, de Paris a Oxford, de Cambridge a Heidelberg, não estão dependentes das traduções em calão que por aí pululam muito decretinamente, em nome do absurdo centralismo concentracionário do ministerialismo e dos seus serôdios conselheiros, esses que há três ou quatro décadas continuam a pensar que são as únicas pessoas que pensam, arrogando-se no monopólio do reformismo. O marquês para Pombal, já!