Da conquista do poder

Os políticos que nos dominam apenas pretendem conquistar o poder, mas esquecem-se que o verdadeiro poder tem que assentar na autoridade. Eles são meros actores que não conseguem ser autores, meras criaturas que não são criadores, onde passam a guionistas os donos dos bastidores. E, como actores que são, pretendem reduzir-nos à unidimensionalidade de auditores de uma cidadania passiva, sujeita ao rolo compressor do respectivo delirium tremens. Mas há certos episódios que revelam pormenores típicos de uma récita de amadores em qualquer festa de bairro suburbano e, com todo o respeito pelos gloriosos actores de comédia, a coisa já atinge os píncaros de uma tragicomédia bufa que copia mal as boas cenas da nossa antiga revista à portuguesa. A verdadeira conquista do poder implica que se conquiste a palavra, que se use a persuasão, em vez da força, para levar o outro a obedecer pelo consentimento. Quando a palavra perde o sentido e o político tende a deixar de ter autenticidade, o dito assume-se como alguém que está por cima, falando para baixo, a partir do pretenso lugar em que se acumula o poder, a fim de gerar uma corrente ascendente de influência. Assim se compreende que os recém-chegados à plataforma directiva de qualquer instituição tratem de legitimar-se invocando os antecessores e até os próprios fundadores da coisa, como acontece com a instrumentalização que os líderes do PSD fazem com a fotografia de Sá Carneiro e os do CDS com a de Adelino Amaro da Costa, dado que os do PS têm o fundador vivo e, ainda por cima, como um activo ausente-presente. Pior do que isso: quando os políticos não conseguem convencer o auditor pela palavra e pela invocação do fundador, logo passam à fase dois do convencimento, pelo recurso aos ideologismos ou pelo manuseamento propagandístico. Aqui, a nossa direita em desespero costuma usar aquilo que se qualificava como o “anticomunismo primário”, o exacto inverso do “antidireitismo” da própria esquerda sem argumentos. E, como dizia Brito Camacho, para argumento fraco, voz forte, que argumento forte pode apenas ciciar-se… De qualquer maneira, a conquista do consentimento pela palavra implica a necessária fidelidade ao sentido grego da política, onde a palavra “razão” (logos) é o mesmo do que “discurso”, porque o animal racional é o animal que discursa e o homem é único animal que fala e que, por isso mesmo, deve ter respeito pela palavra dada e cumprir o sentido do discurso,  Ora, todos sabemos que neste tempo de teledemocracia, de videopoder e de mediocracia, se continua a ser verdade que, em política o que parece é, e que só existe politicamente aquilo que se comunica, há que atender à circunstância de não se poder comunicar aquilo que não existe e de poderem cometer o erro de fazerem propaganda de uma marca, ou de uma forma, que não corresponde ao conteúdo, com os riscos de rejeitar-se o propagandeado por falta de autenticidade.  Não há dúvida que os grandes líderes políticos têm que ser bons actores. Assim o foi Ronald Reagan no auge da revolução conservadora, onde nunca houve falta de autenticidade. Assim o continua a ser João Paulo II, notável actor que também é um dos mais extraordinários autores do século XX. Assim o fez Mário Soares quando recebeu uma bofetada na Marinha Grande. Assim o tentou Marcelo Rebelo de Sousa, quando pretendeu derrotar Sampaio através de um banho nas águas frias de Tejo quase morto. Assim o praticou Cavaco Silva quando se encenou como o homem de Boliqueime, num guião da autoria de Luiza Manuel de Vilhena.

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