Fronteiras já! Com testes de gravidez e tudo!

Já não sei onde li a entrevista do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, onde este sugeria ao seu rebanho, através de uma recomendação pastoral, que iria votar “sim” no referendo sobre a Constituição europeia, ao mesmo tempo que apelava ao “não” no caso do referendo sobre a liberalização da IVG. Fiquei sem saber em que secção dos jornais veio a prancha. Na da política, talvez não, porque a Igreja não actua como os partidos, os grupos de pressão e os grupos de interesse. Na dos assuntos internacionais, também não, porque a matéria não é concordatária e a entrevista não veio no jornal do Vaticano. Talvez na da cultura, por causa das recensões ao livro de Dan Brown. Certamente na da sociedade, onde finalmente a encontrei. Meditei mais uma vez em tão isentas palavras do condutor do povo católico lusitano e fiquei cheio de dúvidas sobre a segura hermenêutica usada pelo cardeal quanto à leitura atenta da letra e do espírito do chamado tratado constitucional, que já nada tem a ver com a vaticana proposta de Schuman, Adenauer e De Gasperi. De outro modo, o patriarca teria de notar que os adversários confessos do actual modelo giscardiano de construção da Europa não coincidem com “os anti-europeístas do costume”, como demagogicamente afirmou. A não ser que continue a ter a lógica dos martelos dos heréticos e dos inquisidores que, dividindo o mundo entre o preto do diabo e o branco do divinal, tornaram tudo cinzento. Esse maniqueísmo a que nem Santo Agostinho foi fiel, porque disse que a Cidade do Diabo podia circular no interior dos que se pensam institucionalmente como Cidade de Deus, porque dentro do bem há pedaços de mal, tal como, no mal, há pedações de bem, não se coaduna com o bordão a que deve segurar-se um pastor isento. Basta rodar a coisa para a questão da interrupção voluntária da gravidez e verificarmos como uma Europa giscardianizada levará inevitavelmente a uma unidade de legislações sobre a matéria e ficará sujeita a recomendações de órgãos supranacionais que entrarão inevitavelmente nessa área anteriormente reservada às soberanias estaduais. De qualquer maneira, numa Europa sujeita, como actualmente, e ainda bem, à liberdade de circulação de pessoas, conservarmos as fronteiras para efeitos de IVG soa a ridículo. E se levássemos até às últimas consequências os actuais ordenamentos jurídicos e considerássemos como absoluto o conceito patriarcal de defesa do direito à vida, teríamos que, imediatamente, suspender os acordos de Schengen para pessoas do sexo feminino, em idade fecunda. Com efeito, para salvarmos os fetos potencialmente existente nas barrigas em causa, seria obrigatório dotar todas as nossas fronteiras aéreas, marítimas e terrestres de postos de teste de gravidez, a fim de evitarmos deslocações a clínicas de IVG sitas noutros locais da degenerada Europa, nomeadamente em Badajoz. O senhor cardeal não percebeu que, ao dizer “sim” a uma coisa e “não” a outra, está a deitar pela porta fora aquilo que tentou impedir, ao querer fechar uma janela. Basta fazermos uma leitura rápida dos mapas comparados das legislações europeias sobre a criminalização da IVG. Basta consultarmos as várias recomendações das instâncias europeias em matérias de não-discriminação. E compreendermos as razões politiqueiras que o não levaram a apoiar a postura de Rocco Buttiglione, quando este foi saneado de comissário europeu. E não estamos a ver a Conferência Episcopal Portuguesa a ter um novo ministro da defesa eurocalmo que mande fragatas evitar a atracagem de muitos barcos das “Women on Waves”… Só depois de todas estas meditações é que percebi a razão de ser desse patriarcal apelo ao “sim” a Giscard. Queria ser finalmente elogiado pelo Professor Doutor Vital Moreira que, lendo apenas a parte euro-entusiasta da peça cardinalícia, veio agora declarar que se tratou de “uma clara desautorização da utilização da religião para combater a Constitução, como tem sido insinuado por alguns círculos católicos tradicionalistas, pretextando a ausência de uma referência à ‘herança cristã’, em que o Vaticano se empenhou, sem êxito“. No fundo, trata-se daquela velha técnica da bissectriz, ou da equidistância, da clerical postura dos situacionismos, onde a esquerda da espada e a direita do báculo levam a que os rebanhos, muito à maneira da parábola de Platão, compreendam que a política se tornou complexa desde que os carneiros deixaram de ter os deuses como pastores e passaram a ser autogovernados, em leviatânica alma artificial. Amen! PS: Qualquer referência aos ovinos e caprinos, no texto supra, não passa de mera metáfora, que, antes de ser da Igreja Católica, já pertencia aos textos profanos da politologia greco-latina.

Comments are closed.