Abr 15

Contra o absolutismo, a ignorância e o provincianismo, marchar, marchar!

A frase que melhor exprime a decadência da nossa classe política terá sido proferida por um ex-ministro, quando dizia ao ilustre cacique, fumador de charuto, que temos de ser uns para os outros. Isto é, o ilustre autarca e futebolítico, ao meter suas cunhas  em vernáculo, em nenhum caso, ousou pedir favorecimentos pessoais, mas apenas facilidades para a respectiva região, autarquia ou amigalhaços, assim confirmando como foi esmagadoramente sufragado pelo respectivo povo. Pena é que continue esta cultura anti-Estado de Direito, do princeps a legibus solutus e do quod princeps dixit legis habet vigorem. Isto é, que o grupo que conquista o poder, segundo a lógica do spoil system, não está sujeito à lei que ele pode fazer, refazer e desfazer, porque não compreende que o mesmo Estado de Direito é a tal chatice das pesos e contrapesos (as forças do bloqueio) e da separação de poderes, servida por funcionários com direito à carreira, de acordo com a legitimidade racional-normativa que Weber teorizou e que, por cá, continuam a ser ostracizadas como burocráticas. Logo, mesmo que o povão prefira o governo dos espertos (Hannah Arendt), onde a interpretação da lei é mais favorável para os amigalhaços, temos obrigação de fazer a necessária revolução cultural que nos livre destas heranças absolutistas, começando, nomeadamente, pela liquidação do centralismo do Terreiro do Paço e de outros terreiros de paços locais, promovendo uma efectiva regionalização que, em vez de espalhar centralizações, nos leve à reconstrução horizontal e federativa do político.

Abr 15

Entrevista a um jornal de estudantes sobre relações internacionais

DOMINGO, 15 DE ABRIL DE 2007
Entrevista ao Professor Doutor José Adelino Maltez
É do interesse geral a transcrição de uma entrevista realizada com o Professor Doutor Adelino Maltez no decorrer deste ano lectivo de 2006/07, pois trata de temáticas cuja pertinência não deixa de ser actual.

Como contributo a um melhor entendimento do estado da nossa licenciatura, quer à luz do “Processo de Bolonha” como também em relação ao lugar das Relações Internacionais no vasto leque de Ciências Sociais, é importante que a transcição fosse realizada. A saber:

 

NERI – Qual a sua opinião sobre a reformulação da licenciatura em Relações Internacionais que está a ser levada a cabo?

José Adelino Maltez (JAD) – Dou toda a minha solidariedade institucional ao coordenador e meu colega que a protagonizou, mas como não sou construtivista e desconfio bastante das engenharias e dos chouriços curriculares, muito principalmente quando tais modelos são levadas a cabo por desafios decretinos, apenas gostaria que não inventássemos o que já está inventado, nem descobríssemos o que já está descoberto.

Daí que , sobre a matéria, prefira tratar da árvore que me encomendaram, uma disciplina semestral de introdução e metodologia das relações internacionais e outra de história do presente. E nisso estou a trabalhar entusiasmadamente com excelentes colaboradores, treinando até o processo como professor visitante na Universidade de Brasília que, no começo da década de oitenta, tanto influenciou o nosso modelo de ensino das relações internacionais.

Aliás, os acasos procurados dessa cooperação universitária, fizeram com que não estivesse presente na reunião do conselho científico que optou pela presente reforma, o que faz de mim uma espécie de abstencionista institucional, posição que, felizmente, não coincide com a de Pilatos.

Mas confesso que preferia ver a questão do ensino das relações internacionais numa perspectiva supra-endogâmica, como um problema da universidade portuguesa no seu conjunto e como um problema do próprio Estado Português na sua necessidade de recurso a cientistas e a profissionais na matéria. E aqui, julgo que vivemos no tradicional modelo decadentista do Portugal dos Pequeninos com a mania das grandezas, dado que não temos matéria prima de recursos científicos para tantas escolas e escolinhas de relações internacionais, tanto nas Universidades públicas como nos diversos ministérios.

Deveríamos concentrar esforços, até para assumirmos que quem nos paga é o contribuinte, garantindo um só sistema público de ensino da matéria, com a cooperação das áreas dos negócios estrangeiros, da defesa, da inteligência e da economia, através de uma sã concorrência, como fazem outros países da União Europeia e até potências bem mais ricas do que nós, de maneira a que a matéria pudesse sair deste nível quase terceiromundista, onde mandam os tradutores em calão, feitos vedetas mediáticas do comentarismo ou subsidiados por potências que nos querem colonizar.

Julgo que falta muito patriotismo científico ao nosso sistema universitário púbico de relações internacionais e por isso nem sequer conseguimos ter os necessários estrangeirados que nos permitiriam aceder à padronização internacional destas matérias. E julgo também que abundam reformadores que precisavam de uma valentíssima reforma, dado quem não parecem preocupar-se com a empregabilidade dos formandos, para não falarmos em certas sumidades que nem sequer sabem o que é viver a aventura de nos últimos vinte anos terem surgido novas gerações que querem “atravessar o limiar da esperanaça”. Mas colaborarei com todos os que querem continuar a ter no ISCSP a melhor escola de relações internacionais do país e apoiarei especialmente os que permitirem que os nossos alunos já doutores por outras escolas nacionais e estrangeiras regressem à casa mãe através de urgentes concursos públicos para docentes, a fim de garantirmos o dinamismo da concorrência. Navegar é preciso para que possamos a continuar a viver como pensamos.

NERI – Segundo algumas opiniões, as Relações Internacionais não são uma ciência pois carecem de metodologia própria. Enquanto académico e decano da nossa área de estudo, que comentário faz a esse respeito?

JAD – Não subscrevo tal perspectiva, habitualmente emitida por membros de uma certa seita científica quando assumem a respectiva derrota no contexto da fertilização teórica. Relações internacionais são aquilo que os internacionalistas fazem, conforme os modelos das associações profissionais da área e os “rankings” dos mais citados no processo. É desta opinião comum dos que pensam de forma racional e justa sobre a matéria que deriva o objecto formal, ou metodologia da ciência. Infelizmente, a ciência das relações internacionais em Portugal ainda não está imune a certas doenças infantis e algumas borbulhagens adolescentes, pelo que ela tem sido campo de colonização de outras áreas científicas que nela coincidem quanto ao objecto material, como, por exemplo, aconteceu com a composição das comissões de avaliação do sector e como se vislumbra no nascimento de novas unidades universitárias, onde parecem fazer desaguar especialistas das antigas Faculdades de Letras, contribuindo para que a imagem da ciência se aproxime daqueles híbridos interdisciplinares com muito turismo científico e algumas interferências da própria partidocracia.

NERI – Na sequência das comemorações dos Cem Anos de Investigação e Ensino em Ciências Sociais e Políticas do nosso Instituto, considera que o que se tem produzido na área das RI no ISCSP é suficiente para continuar a fazer Escola?

JAD – Não gosto participar em cerimónias dos discursos de justificação do poder e decidi abster-me, porque ainda não chegou a altura de nos libertarmos de certas sombras de um passado recente que até não deixam que se faça uma leitura integral de todo o passado, nomeadamente o da monarquia liberal e da Primeira República. Como o actual poder acha conveniente continuar apenas a dialogar com a fase salazarista da escola, apesar de ter sido convidado para participar no discurso, prefiro ir plantar macieiras nos dias de tais cerimónias.

O que escrevi sobre a matéria, em livros que não puderam ser publicados no ISCSP, obrigam-me à coerência do silêncio. Mas estou totalmente disponível para me associar a qualquer cerimónia que peça perdão a quem, amando a escola e sendo figura relevante da ciência em Portugal, dela foi recebeu a perseguição e a própria expulsão da função pública. Enquanto não esconjurarmos estes fantasmas da nossa vertente autoritarista, não conseguiremos ganhar o respeito dos homens livres. Enquanto desconhecermos quem efectivamente foi Luciano Cordeiro, Álvaro de Castro, Jorge Dias, Alfredo de Sousa, D. António Ribeiro, José Hermano Saraiva, Manuel Belchior, Vitorino Magalhães Godinho ou Luís Sá, estamos a tomar um partido que não é o meu e a ter a ilusão de escrevermos uma pseudo-história dos vencedores. Se me quiserem continuar a qualificar como dissidente, tenho muita honra no epíteto. Eu não vou por aí.

NERI – Qual a sua reacção face ao anunciado investimento do governo em ciência e tecnologia?

JAD – Depende do conceito de ciência e de tecnologia. Parece-me que o conceito dominante nos discursos do poder estabelecido, tanto a nível do governo como dos reitores-primazes, ainda balbuciam as cartilhas cientificistas de Augusto Comte, olhando as ciências sociais e humanas como ciências ocultas a que de vez em quando se pede um discurso de cereja para ornamentar o bolo de uma decadência que nos atira para a periferia do desenvolvimento humano.

Preferia que copiássemos o modelo existente nas potências dominantes, onde não me parece que considerem como simples ideologia o tratamento das ciências do espírito. Até parece que se esquecem que cibernética, conforme o conceito matricial de Norbert Wiener, vem da palavra grega que quer dizer governo e nasceu num ambiente de teoria dos sistemas gerais, quando se procurava uma aproximação das ciências ditas exactas às ciências ditas sociais. Basta repararmos como se escolhem os avaliadores e os distribuidores de subsídios estatais para a área das ciências sociais, onde não se obedece à hierarquia conquistada pela via dos concursos públicos, preferindo-se o amigo do partido ou a figuara mediática, ao contrário do que acontece nos países civilizados, onde o regime da cunha já há muito foi superado por um sistema minimamente objectivo.

NERI – Portugal irá assumir a presidência da União Europeia no segundo semestre do próximo ano; quais as suas expectativas para esses seis meses?

JAD – Espero que se continue a garantir a nossa independência através de uma sábia e experimentada gestão de dependências. Como já não somos um quintal murado, mas uma simples província do euro, com os dois principais partidos portugueses vinculados aos programas europeus dos partidos multinacionais de que são meras secções nacionais, o nosso espaço de manobra é bem estreito, dependendo apenas do bom senso dos governantes e da capacidade técnica dos assessores. Como confio no patriotismo dos nossos governantes e até conheço muitos alunos da escola que circulam neses meios tecnocráticos, tenho apenas expectativas realistas de quem sabe que não vamos cair na ratoeira dos aventureirismos. Infelizmente não vislumbro sinais que nos libertem do presente desencanto sistémico que nos vai dissolvendo a cidadania, em nome da “tirania do statu quo ” e do modelo TINA (there is no alternative).

NERI – Que balanço faz dos primeiros dez anos de CPLP?

JAD – Um bom espaço para o exercício da retórica de um lusotropicalismo “aggiornato”, visando a alimentação das brasas dos Estados Unidos da Saudade, dado que ainda não é possível gerir factores de poder internacional adeauados ao sonho dos povos que integram a comunidade. Porque tudo depende do Brasil e este país ainda não tem direito a ser potência liderante do grupo, dado que ainda não abandonou o isolacionismo de Estado-Continente e não ouviu as vozes dos portugueses, angolanos e moçambicanos que clamam pela respectiva “Weltpolitik”. Quando o Brasil acordar, Angola tiver direito à paz e ao desenvolvimento e outros puderem participar, julgo que Portugal não pode renunciar à sua função de irmandade. Até a União Europeia precisa desta dimensão universal de Portugal. Apenas espero que nessa altura ainda haja portugueses treinados para a cultura do abraço armilar.

Abr 13

Temos o primeiro-ministro que merecemos, uma mossa atrás, duas bossas em frente, a caravana passa e só os vermes vão ladrando

Virada a página dos meandros curriculares do Engenheiro Sócrates, digo-o sem ironia, mas por cortesia, como o exige esta sociedade da Corte, e das pressões que, em boa hora, substituíram os cortes da censura, quase me apetecia sugerir que voltássemos às boas tradições parlamentares, quando a assembleia vintista não quis dispensar um jovem redactor parlamentar da época, que precisava de ir a Coimbra concluir a respectiva graduação, e tratou de lhe atribuir, pela via da legalidade, o título em falta…

Em contraponto, talvez mais realista, importa recordar que algumas das mais sufragadas personalidades políticas do país, em termos demoliberais, no auge das suas maiorias absolutíssimas, acabaram por abandonar o poder por coisas minimalistas. Foi Fontes Pereira de Melo em torno de uma dessas quezílias à moda do Minho, entre Guimarães e Braga (a primeira cidade, sem ser por causa de Vizela, queria passar para o distrito do Porto…). Foi Cavaco Silva, por causa de um “tabu” ainda não revelado (não me parece que tenham sido as guerras de Nogueira contra Loureio por causa das portagens…). Foi Guterres, quando sentiu o pantanal (não me parece que bastem as estórias do cunhado…). Isto é, tem sido sempre o fogo lento a transformar os membros inferiores dos gigantes em vulneráveis pés de barro.

Sejamos claros: ninguém de bom senso quer que o Presidente Cavaco dissolva o parlamento e provoque eleições gerais. Julgo até que os principais interessados na não dissolução são os barões assinalados, mas já poucos, do PSD, que ainda não se consensualizaram quanto a um líder predador que seja capaz de os voltar a levar ao poder. Reparo até que nem os anti-socratistas do PS querem provocar a instabilidade, mesmo sabendo que, se agora voltássemos às urnas, obteriam uma refrescada maioria absoluta. Por outras palavras, as forças mais interessadas na subversão da credibilidade do actual situacionismo governamental apenas estão a lançar balões de ensaio para a habitual guerrilha do “poker” interno, no âmbito dos blocos de conquista do poder do decadente Bloco Central de interesses e cunhocracia. Daí o regresso de Santana Lopes ou de Paulo Portas, dois excelentes profissionais desse tipo de paúlismo, com rumsfeldismos à mistura…

Aliás, o episódio Independente ainda vai em certo átrio processual e espero, com alguma curiosidade, a defesa que Rodrigo Santiago vai levar a cabo face às tradicionais fragilidades técnicas dos juristas do Ministério das Universidades, bem expressas nos projectos de diplomas que já semearam sobre as fundações universitárias ou o estatuto da carreira docente. E as anunciadas voracidades, também já manifestadas pelas privadas da concorrência, a fim de receberem as propinas das principais vítimas deste processo, se forem objecto da necessária, independente e rigorosa inspecção, poderão deixar mossas gravíssimas na já fragilizada credibilidade do sector. Ao contrário do que proclamou o ex-ministro Mendes e com a ingenuidade de quem nunca experimentou essa sensação do supremo mando ministerial, julgo que as inspecções estaduais, apesar de tuteladas, devem estar dependentes de uma ideia de Estado de Direito… caso contrário, contratem advogados que possam vir a ser seus futuros vice-presidentes partidários.

Ao contrário do que aconteceu no caso Moderna, onde se encontrou a media via, de um ilustre catedrático, ex-ministro do sector e futuro deputado europeu, assumir a reitoria, mantendo a transição, agora temos uma ameaça de vazio e debandada, que podem não ser boa alternativa. Basta recordar-me do que há uns anos aconteceu a uma privada em falência, onde vi professores da mesma a serem contratados pela rival, desde que também transportassem os alunos da anterior, coisa que até no âmbito das regras de concorrência do mercado meramente económico seria punida, mas onde todos lavámos as mãos como Pilatos…

O Engenheiro Sócrates, como Primeiro-Ministro, mantém toda a sua legitimidade. Do alto de um absolutismo democrático e de uma opinião pública que não lhe fará guerrilha global, ele ainda pode dar o salto costumeiro de uma mossa atrás para duas bossas em frente, porque os cães ladram, mas a caravana passa, tal como os ex-maoístas, neocons e neolibs que mordem e remordem, mas se ficam pela vermicidade da vindicta. Contudo, ficou para sempre o registo de uma ameaça de tempestade e as consequentes olheiras de angústia, como todos poderão confirmar nas political quotations da Internet.

Mas não foi isto que levou Aznar à derrota eleitoral. E também não foi por esta causa que Collor de Mello acabou “cassado”. Seria ridículo que a PGR repetisse um inquérito à Lewinski contra Clinton. O episódio não passará de uma nota de pé-de-página da história, bem ao nível das conversas gravadas de Valentim Loureiro, hoje reveladas no “Correio da Manhã”, onde o barrosismo ficou com as orelhas em rubro.

Por mim, não quero que o chefe do governo de Portugal seja reduzido a essa dimensão. Sobretudo, por causa de Portugal. Temos o primeiro-ministro que merecemos, a culpa já não vai morrer solteira e os sucessores de Ramiro Valadão já não são delgados.

Abr 12

A nova queda dos anjos, dos temperamentais aos papudos

Assisti atentamente à conversa em família que ontem foi emitida pela televisão pública e que, neste mesmo lugar, profetizei como pescada, isto é, como enlatado de aquário que antes de o ser já o era, com possibilidade de prognósticos antes de um apito final, mesmo sem ser dourado. Por isso, fui reler o romance de Camilo Castelo Branco, A Queda de um Anjo, de 1886, onde se satiriza a classe política de há cento e vinte e um anos. Deixei de ler as fichas escolares e as fichas parlamentares dos novos anjos em queda, os que nos continuam a tratar como anjinhos, apesar de sermos cada vez menos papudos, mesmo quando são vítimas das tais insinuações onde foram crescendo, não deixam de usar o esquema da insinuação. Como outros o poderiam fazer há cento e vinte e um anos quanto aos que escreviam em jornais ou, há vinte e cinco séculos, sobre os que apenas escreviam, como homens livres, sobre as coisas políticas, nomeadamente os que ainda hoje estão mais interessados na questão da constituição de Atenas, ou no referendo sobre o futuro tratado constitucional da casa comum. Aqueles que têm crenças já não as podem exercitar na esfera pública. Ficam-se pela solidão dos lares, pelas pequenas catacumbas das redes de amigos e até pelos blogues que não são abruptos. Porque de quase de nada valem os signos institucionais de outras procuras, dado que a república caiu na ambiguidade discursiva do presidencialismo metapolítico, nesse texto sem palavra que apenas serve para interpretações da racionalidade importada, nesse discurso onde há apenas entrelinhas tortas e insinuações curvas, onde nem Deus escreveria direito nem o Diabo marraria. E, quanto menos a ideia e a emoção de nação nos mobilizarem, mais seremos estadualizados de forma alienígena. Sem uma comunidade afectiva que nos dê justiça e bem comum, apenas reclamaremos direitos e nunca daremos ao todo a necessária justiça e o indispensável amor. Contestar, protestar, exigir podem ser fracturantes se não assumirem a dimensão militante da resistência. E caso não haja alma que nos identifique, não passaremos de mera sociedade anónima gestionária. Só com uma necessária tensão espiritual, poderemos vencer as teias da demagogia, da incompetência e do negocismo. Tenho de chegar à conclusão que o velho Estado moderno se deixou enredar nas teias dos especialistas na conquista e manutenção no poder no âmbito do clubismo, do facciosismo e do campanário. Competentíssimos nesses domínios da fulanização, da galopinagem e do caciqueirismo, grande parte dos figurões que nos regem não percebem que atingiram, há muito, as raias do princípio de Peter, a partir das quais estão condenados a pisar os terrenos da incompetência.

Abr 11

Os pecados de Sócrates…

Os problemas de Portugal não podem ser derimidos por teológicas bizantinices. A questão da Independente não pode ser resumida a esse pormenor, o drama dos milhares de estudantes com a ameaça do vazio de escola e de professores e estudantes no desemprego são bem mais importantes do que um ofício de um responsável governamental do ambiente à procura de equivalências numa universidade onde também era docente o actual líder da oposição. Julgo que esse período de alguma embriaguez das privadas já nos deixou suficientes ressacas e que não é o regresso ao farisaico que nos pode salvar a cidade e a universidade. Sobre a matéria, vale mais dizer que falharam os ministros, os inspectores e os avaliadores, como também falharam os próprios professores, especialmente os publicamente titulados, quando deixaram que os seus nomes cobrissem com um manto diáfano do prestígio coisas para onde eles não mandariam os próprios filhos, parentes, amigos ou conhecidos. Isto é, falhámos todos, quando, reparando nos buracos laxistas do sistema os instrumentalizámos em benefícios individualistas, ou de lógica de instinto do crescimento do poder, nomeadamente da cunhocracia neofeudal. Sócrates errou tanto quanto outros politiqueiros que assumiram a confusão dos títulos e as fraudes àquilo que muitos pensavam estar em vigor, as velhas leis sumptuárias destes restos de fidalguices, onde muita falsa nobreza e muito falso clero quiseram continuar a sociedade de ordens, em plena ética republicana, segundo as concepções de Kant. Por mim, que sou de Coimbra, nado, criado e estudantado, sempre soube que na minha terra natal reduzíamos o “sôtôr” ao “vase de nuit”. Contudo, bem gostava que houvesse, por cá, alguma ética puritana que tanto punisse os eventuais erros de Sócrates quando o corrupto ou o evasor fiscal. Se, por milagre do céu, acabássemos de entrar nesse ambiente, onde, em vez dos colectivismos morais das seitas, houvesse o sentido moral da autonomia das pessoas, com profundo estoicismo à mistura, eu ficaria muito feliz. Era sinal que todos iriam viver como pensavam, sem pensarem como, depois disso, iriam viver…

Abr 10

Os moços são bacharéis e querem bacharelar acerca da coisa pública e à custa da mesma coisa acerca da qual bacharelam

Tentando contribuir para o estudo das causas que levaram, ontem, o ministro Gago à dolorosa operação de contenção do apodrecimento da ideia de universidade, reparo que já na entrada do último quartel do século XIX, Ramalho Ortigão observava que a mocidade vive nas antecâmaras do governo como os antigos poetas do século passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são agiotas ou servidores do estado. Os moços são bacharéis e querem bacharelar acerca da coisa pública e à custa da mesma coisa acerca da qual bacharelam. Porque o nosso profundo mal está na nossa profunda indiferença. E explicava a causa: o sistema representativo tem sido sempre, por toda a parte, considerado como uma forma de transição entre a condenação da monarquia absoluta e o advento da soberania popular. Ora é bastante duro obrigar um povo ou uma parte de um povo a conservar-se eternamente fiel a uma instituição interina.

Com efeito: em Portugal os partidos acabaram há muitos anos. Não existem divergências de opinião sobre qualquer princípio capital que interesse ao país inteiro. Como o interesse do país desapareceu, a urna fica entregue ao arbítrio da autoridade, e os círculos eleitorais convertem-se em burgos podres. Os regeneradores com os cabos de polícia elegem a maioria, os grandes proprietários com os seus caseiros e os seus amigos votam nas oposições. A vontade popular é muda e passiva, o que quer dizer que as fontes íntimas da vida nacional estão obstruídas ou secas.

O mesmo Ramalho, prosseguindo a análise demolidora, lamentava não termos uma dialéctica à maneira britânica: não há uma oposição perfeitamente e fortemente constituída e assinalada, não há uma maioria consistente e robusta e para manter os apoios oscilantes o governo acode submissamente às exigências dos pequenos corrilhos, promete, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cai de fadiga, apupado e corrido.

Assim, sem os partidos fortes, único motor capaz de imprimir um jogo tão regular às engrenagens do regime constitucional como o que existe na Bélgica e na Inglaterra, achamo-nos quase no estado atomístico de Hegel, na desagregação em virtude da qual cada molécula social, entregue por sua desgraça à liberdade quase absoluta, volteia às cegas em busca de um novo centro de atracção.

Ramalho escrevia um quarto século depois de termos instaurado, ainda estremunhados pelo autoritarismo cabralista, uma sociedade pluralista e aberta. Gago, ontem, lancetava uma degenerescência típica desse ambiente. Confundir o fundo da questão com a exemplar vida de estudante do senhor Primeiro-Ministro poderá ser trágico. Eu que continuo a ter a lucidez de ser ingénuo, apenas julgo que José Sócrates Pinto de Sousa foi uma vítima das circunstâncias e que, por isso mesmo, tem toda a legitimidade para evitar que outros incautos sejam apanhados.

Julgo que, sobre a matéria universitária, seria útil que o Presidente Aníbal Cavaco Silva pedisse ao principal líder da oposição, o descendente do Luizinho do Paçal (ver JN de hoje), antigo docente da mesma UnI, para estabelecer, com o PS, um pacto regenerador de luta contra a doença da bacharelização e do doutorismo.

Por mim, confesso que era capaz de fazer, ao conselho científico da minha universidade pública, uma proposta de contratação, como professores convidados, tanto de José Sócrates como de Luís Marques Mendes, de acordo com a lei vigente e com aquilo que considero a avaliação do mérito, assente num “curriculum”. Atribuía a um a regência da disciplina de “Partido Socialista”, e não de engenharia, enquanto que desafiava o outro para a de “PSD” e não de direito processual civil.

Espero que, amanhã, José Sócrates tenha a grandeza de ser humilde e que nos ajude a libertar deste ambiente poluído que confunde o poder com o saber e com o qual não poderemos enfrentar os desafios da democracia e da sociedade do conhecimento. Que ele seja um político exemplar que, para isso, tem os suficientes títulos de legitimidade. Porque se voltássemos às manias da “república dos catedráticos”, o único líder oposicionista que tem uma vida universitária de grande mérito é o Professor Doutor Francisco Louçã e não me parece que, por isso, o tenhamos que sufragar em termos de opções políticas.

Demos a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, mas sem que a César ou a Deus pertença tudo…

Abr 10

Neofeudalismo. Depoimento a O Diabo

Neo-feudalismo

 

10-Abr-2007
«Há em Portugal um neo-feudalismo no controlo da comunicação social». Seja através de telefonemas para as redacções ou pela «via administrativa», os socialistas têm sido alvo de críticas por estarem a pressionar os «media». Para Sarsfield Cabral são preocupantes as intenções legislativas de colocar a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas «a exercer sanções». Costa Pinto alerta para o perigo de «reacções negativas e de desconfiança» por parte da comunicação social relativamente ao Executivo e Adelino Maltez sublinha que «o Governo não dá condições de liberdade de informação aos homens livres».

IMPULSO irresistível de controlar». É desta forma que tem sido descrita a forma como o Governo de José Sócrates tem lidado com a comunicação social. Nas últimas semanas têm surgido inúmeros episódios que envolvem o Executivo e que têm revelado a forma como os socialistas gerem a sua relação com os jornalistas, tendo o caso mais flagrante surgido com a polémica sobre a licenciatura do Primeiro-Ministro.
«Pela via administrativa, mais ou menos disfarçada, o poder político está a ceder à tentação de controlar a informação». A frase é de Francisco Sarsfield Cabral, director de Informação da Rádio Renascença, publicada no «site» deste órgão de informação. Apesar de todos os meios de comunicação rejeitarem a ideia de que o Governo tem exercido pressão sobre os «media», a polémica continua na ordem do dia tendo, inclusivamente, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) convocado vários jornalistas e o assessor de Sócrates para uma audição na próxima quinta-feira.
A O DIABO os politólogos Adelino Maltez e António Costa Pinto e o director de informação da Renascença, Sarsfield Cabral, falam sobre a tentação do Governo de controlar os meios de comunicação social.

«Não há igualdade de oportunidades»
O politólogo José Adelino Maltez considera que «nas sociedades espectáculo» a existência de um «controlo indirecto»sobre os mecanismos que surgem na comunicação social «são intensos». Afirma que este Governo se caracteriza Porter «um alto grau de profissionalismo e de imagem»: «não há secretários de Estado, directores-gerais ou ministros que não tenham um gabinete de imprensa e de controlo de opinião».
Lembra que, hoje, quando falamos em controlo de opinião «estamos a pensar no regime da censura, dos primeiros tempos do Portugal pós-revolucionário, onde o secretário de Estado da comunicação social fazia o alinhamento do Telejornal». E sublinha que actualmente «tal não se faz porque o verdadeiro controlo não o parece simplesmente porque não deixa rasto».
Maltez recorda ainda que não conhece nenhum Governo «que não tenha tentado controla ra comunicação social» e afirma que «isso é indispensável»e «faz parte da governação dar uma imagem através de formas, muitas vezes, artificiais de propaganda inteligente e naquilo que pode não corresponder à verdade».
Contudo, acrescenta que a questão é outra e que passa pelo facto de no Executivo de Sócrates «a política de imagem ser das mais profissionais que tivemos até hoje em Portugal».
«Essa diferença exerce-se através de circuitos altamente profissionalizados. Este Governo, por exemplo, baseia-se em estudos de opinião que não são conhecidos do público onde há toda uma aparelhagem institucional de alto profissionalismo», sustenta.
No que respeita aos perigos decorrentes desta tentativa do Governo para controlar a comunicação social, e «invertendo o tom dramático», Maltez frisa que os mesmos residem «na verdadeira falta de liberdade de informação». «Julgo que o grande controlador da comunicação não é propriamente o poder público, mas sim os grupos privados de comunicação. Esses, sim, são os perigosos, porque podemos ficar na mão de grupos de comunicação estrangeiros, ou de dois ou três capitalistas que manipulam de uma forma indirecta todo o noticiário económico. É esse o grande perigo que neste momento temos», argumenta.
Adelino Maltez acusa o Governo de «não dar condições de liberdade de informação em Portugal relativamente aos homens livres». «Neste momento, no nosso País, um homem livre não pode dar uma notícia. Todos nós sabemos que não se podem fazer investigações jornalísticas porque os pequenos grupos de comunicação não têm meios financeiros para sustentar uma perseguição que em nome da lei depois seria feita por um determinado número de pessoas, com dinheiros e com processos», critica.
Além disso, o politólogo considera que «não há igualdade de oportunidades quanto à liberdade de expressão de pensamento»e exemplifica com as diferenças que existem entre as investigações na «blogosfera» e dos jornais. «O caso da licenciatura de José Sócrates já há mais de um ano corre na “blogosfera”. Passou para o jornal quando foi conveniente ao patrão desse jornal tramar o Governo porque este não lhe deu o que estava à espera que desse», frisa, sublinhando que «há um neo-feudalismo claríssimo em termos de controlo da comunicação social».
No que respeita ao facto de a ERC ter chamado vários jornalistas e directores de meios de comunicação para esclarecer a questão das pressões do Executivo sobre alguns profissionais, Maltez diz que «o problema não passa por uma entidade reguladora», mas sim pela «existência de igualdade de oportunidades», algo que «não existe neste País».

«Sanções só nos tribunais»
Sarsfield Cabral, director de Informação da Rádio Renascença, diz que mais preocupante que os telefonemas do Governo para as redacções são as intenções legislativas no que respeita a colocar a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas a «ter poderes de fiscalizar e de aplicar sanções». «Se houver sanções elas devem ser aplicadas pelos tribunais e não pela Comissão da Carteira», defende.
Contudo, garante que o Executivo socialista «tem uma forma muito eficaz de lidar com a comunicação social», sobretudo no «timing» e «nas acções de propaganda que promove». «Se interferem ou não em órgãos de comunicação social, nomeadamente públicos, não sei. Mas o facto é que realmente existe a tendência de controlar por outros meios», refere.

«Efeito ricochete»

Para o politólogo António Costa Pinto o controlo da comunicação social é, apesar de tudo, «limitado» já que «uma parte muito significativa da comunicação social é privada e dificilmente controlável».
No entanto, reconhece que «este Governo tem sido mais eficaz e profissional». «Na realidade, até agora, tem havido uma boa gestão da comunicação e dos contactos com a comunicação social», sublinha, lembrando que «o único antecessor deste Governo nos contactos com a comunicação social foi o do professor Cavaco Silva, que também tentou, com alguma eficácia, gerir e evitar a comunicação social».
Costa Pinto adianta que «governar hoje em dia é cada vez mais o tentar passar uma mensagem que, muitas vezes, nem sequer é o acto mais importante da governação» e lembra ser «natural que o Governo tente, sobretudo, nas medidas mais inócuas, fazer passar uma mensagem positiva».
Quanto aos perigos que podem resultar de tentativa de pressão governamental sobre os «media», afirma que «o que pode acontecer é que a comunicação social pode começar a ter uma reacção negativa e de desconfiança à estratégia governamental». Exemplifica com o caso das habilitações do Primeiro-Ministro e lembra que «são este tipo de ricochetes que podem surgir». «Há uma altura da governação em que a conjuntura se altera, independentemente até da circunstância económica ou das boas ou más medidas governamentais, os chefes das mensagens do Governo pode provocar ricochetes», conclui.

ANA CLARA | O DIABO | 10.04.2007

 

http://www.verbojuridico.net/inverbis/index.php?option=com_content&task=view&id=441&Itemid=31

Abr 09

Será que uma andorinha pode cumprir a Primavera?

O senhor ministro não gaguejou, cumpriu o que considera ser o seu dever de função. Disse querer lancetar uma infecção e mais declarou que a doença é recente… Trouxe muitos papéis, muitos papéis, demonstrando que, desde sempre, nesta década, tudo foi publicamente auditado e publicamente avaliado, ninguém vendo, ninguém lendo, ninguém ouvindo. Por mim, posso concluir que a lei não presta, que os auditadores não viram, que os avaliólogos não detectaram. As causas. Não podemos ignorar. As causas.

Será que o problema do ensino superior está apenas nesta árvore apodrecida? Será que os responsáveis pela floresta podem continuar a lavar as mãos como Pilatos, atirando para o comunismo burocrático as culpas pela má gestão do cartório? Será que este acto ministerial é apenas uma andorinha sem posterior Primavera? Ou será que, condenado um bode, todo o rebanho poderá renascer das cinzas, sempre ignoradas? Não haverá por aí um ex-ministro do sector que, antes de mais altos voos, queira ser reitor da instituição?

Abr 04

Entrevista a O Encoberto

Gostaríamos de lhe agradecer por esta entrevista. 

Ao publicar não faremos quaisquer alterações, quer às nossas perguntas, quer às suas respostas.

Haviam muitas mais perguntas para fazer, mas devido ao pouco espaço do nosso “jornal”, fomos obrigados a racionar. 

Preencha a entrevista e reenvie-nos o documento, sff.

 

“O Encoberto” fala com o Prof. Maltez

 

O corpo editorial d’”O Encoberto” gostaria de agradecer ao Prof. Maltez, pela oportunidade que gentilmente nos concedeu, de uma “Mail to Mail Interview”  ( em inglês fica sempre melhor , não fica?).

 

“O Encoberto” –  O que acha de uma iniciativa como “O Encoberto”? E bebe ou não bebe Sumas de Ananol?

 

Prof. Maltez – Em tempos de nevoeiro, quando até os tecnocratas manipulam o processo de fabricação de desejados, planeando o D. Sebastião científico, através da do clientelismo e da encomendação feudal, nada melhor do que baralhar e dar de novo, com um pouco de criatividade, inconformismo e irreverência, sem medo de ter medo. Por isso, quando um colega me telefonou alarmado com a circunstância de um grupo de alunos, num jornal clandestino, me ter feito uma caricatura, eu me senti orgulhoso de viver numa instituição onde nem todos cantam o “lá vamos cantando e rindo”, transformando em mais valia criativa, aquilo que é a caricatura e a anedota que todos contam sobre os professores, como eu próprio fiz nos meus tempos de estudante.  Apenas protestei porque, prefiro a “coca light”, embora compreenda que me tenham ligado a um produto português… Logo, aceitei o vosso pedido de entrevista, porque sei o risco que correm , quando  os habituais espiões reciclados vos ligarem à minha pessoa, em nome de mais uma teoria da conspiração, forjada em locais misticamente clandestinos, onde uns dizem ser fascista, outros, maçónica, não faltando até os que falam no congreganismo jesuítico, embora me assuma como homem livre, adepto do liberdadeirismo, sempre contra a ignorância, a intolerância e o fanatismo, mesmo que seja pela revolta dos sem poder.

 

“O Encoberto” – O caos em que aparenta estar o processo de Bolonha no nosso Instituto, é simplesmente aparente ou estão a fazer muito pouco, tarde de mais?

 

Prof. Maltez – Direi que se houvesse caos, ainda poderia haver quem ousasse a perfeição, mesmo que fosse a da anarquia ordenada ou a da desordem bem organizada. O dito processo de Bolonha, esse conceito indeterminado ou cláusula geral que apenas serve para os detentores da via decretina a usurparem, constitui uma espécie de placebo a que alguns põem o rótulo de racionalidade importada e que confundem com uma chouriçada de “curricula” feitos a “copy and paste” a partir da “Internet”. Sobre a matéria, apenas direi que temos de submeter-nos para podermos sobreviver, mas que seria bom continuarmos a lutar para podermos viver como pensamos. Acrescentarei apenas que pôr o velho vinho azedo em pipas novas talvez apenas sirva para notarmos como ele vai azedar ainda mais. Tentem, por exemplo, a via dita da tutoria, que poderia ser aplicada imediatamente nos actuais mestrados e doutoramentos, acabando com os nossos decadentes segundos e terceiros graus que apenas funcionam porque ainda há clientela interna de assistentes à procura de progresso na carreira, mas reparem nos encargos financeiros que ela traz. Por exemplo, ninguém deveria poder inscrever-se num mestrado sem projecto de investigação prévio e sem nomeação de um tutor que interviria em todos os actos de exame, de acordo com um “menu” concertado, a fim de evitar que os mesmos mestrados continuem a ser repetições dos cursos de licenciatura. Por outras palavras, quem não reparar que precisamos de urgentes medidas de salvação pública, face ao número significativo de alunos que abandonam as graduações, depois de nelas terem entrado, e perante o decréscimo dramático nas inscrições nos mestrados, está a hipotecar o futuro da escola, mesmo que fique encantado com os belos anúncios e os excelentes cartazes da propaganda, esquecendo-se que os padrões de avaliação já não dependem  do anterior crivo.

 

“O Encoberto” – Muitos alunos já tiveram aulas neste Instituto com Prof’s que aparentemente não reconhecem a palavra pedagogia, como fazendo parte da língua portuguesa e esqueceram-se que um Prof. é na verdade um professor (na verdadeira acepção da palavra). Já ouviu falar deste problema no nosso Instituto?

 

Prof. Maltez – Muitos vêem, ouvem e lêem, mas preferem ignorar e esperar pela próxima reunião do Conselho dito Pedagógico, onde, felizmente, a cultura herdada do nacional-porreirismo do Professor Pereira Neto foi elevada a hipérbole nos tempos que correm, especialmente num país onde a avaliação das competências de um professor, depende das bocas conjunturais, emitidas no efémero de uma reunião, e não de um sistema objectivo de avaliação que lhe forneça créditos para a própria carreira, bem como de um adequado regime contencioso interno de reclamação de notas.  Sou adepto de outro modelo, radicalmente diverso. Que todos os professores nasçam de um concurso público, com prévias provas pedagógicas, e que o processo de carreira não dependa das lealdades louvaminheiras ou de pagamento de serviços eleitorais, mas dos critérios de uma sociedade aberta, pluralista e competitiva, que eliminem esta  doença endogâmica e tribalista onde decadentemente nos embrenhámos.

 

“O Encoberto” – Considera que os nossos Prof’s, estão preparados para as exigências dos novos padrões de ensino?

 

Prof. Maltez –O problema tem que ser perspectivado fora da lógica do rebanho e dos discursos de música celestial em que somos excelsos. Também por cá há bons e maus professores e óptimos e péssimos processos de ensino, mas não podemos continuar a tapar o sol da concorrência com a peneira do mais do mesmo nem entrarmos na loucura decadentista que fez falir as universidades privadas que professores do ISCSP de outras eras em má hora fundaram, quando também se fingiu que qualquer professor doutor poderia ser especialista “out of área” e que, com promessas, todos os monitores poderiam por obra e graça de uma chouriçada decretina passarem a catedráticos, para gáudio de eternas promessas cinquentonas ou sessentonas que só eram reconhecidas nas quatro paredes da tribo. Por mim, abriria imediatamente concursos para professores auxiliares, onde posso enumerar muitos antigos alunos da casa, titulados pelas melhores universidades europeias, estabelecendo um efectivo regime de concorrência pela igualdade de oportunidades e pelo reconhecimento do mérito, através de um programa que não daria votos, mas que salvaria a instituição, mesmo sem alguns contratos automaticamente renovados. Do mesmo modo, permitiria que as unidades ditas científicas e pedagógicas passassem todas a ser geridas por detentores de título da especialidade para a área, aconselhando alguns colegas que abdicassem de tantas acumulações inevitavelmente inimputáveis, de tantas turmas a reger e a coordenar, de tantas orientações de teses e tantos cargos, que lhes devem  dar compensações  psicológicas, mas que fora deste quintal soam a gargalhada.

 

“O Encoberto” – Tendo em conta as várias reclamações que os alunos têm quanto a notas, maneiras de dar aula… parece-nos suspeito, haverem tão poucas (ou nenhumas) reclamações “oficiais”, pedidos de reapreciação de exame… Qual é para si a melhor opção? 1ª Os alunos são cobardolas 2ª Instalou-se no I.S.C.S.P.(e O.) um regime de medo (quase Salazarista… tipo faca e queijo na mão…) que impede os alunos de reagir. 3ª O Problema “não existe”.

 

Prof. Maltez –O problema existe porque a maioria sociológica de estudantes e professores tem os representantes que escolheu e que merece. A cultura do Estado de Direito e do entendimento da democracia como uma institucionalização dos conflitos ainda não se difundiu na cultura da instituição e, portanto,  ainda dominam atavismos de Escola de Regime e do consequente micro-autoritarismo sub-estatatal, onde os antigos aparelhos de repressão se volveram em subsistema de medo, gerando este ambiente de servidão voluntária, plena de medos e de falsos temores reverenciais, filhos do velho absolutismo de facto de uma escola onde sempre tivemos “senhores directores” omnipotentes que nunca souberam o que era o princípio da separação de poderes, nesse ridículo autoritarismo bem expresso pela distribuição de gabinetes aos professores, onde basta irmos ao terceiro andar para vermos quem manda, isto é, quem está mais próximo do simbólico sítio de sua alteza. Em democracia pós-autoritária, o salazarentismo continua, mesmo que se pinte de neofascista ou de esquerda moderada ou revolucionária.

 

 

 

“O Encoberto” – Quais são para si as características de um bom professor universitário?

 

Prof. Maltez – Dar cada aula como se ela fosse um acontecimento que nunca se repete, dada por um ser que nunca se repete perante pessoas de alunos que também nunca se repetem e, para tanto, não ser um mero lente de fotocópias obtidas em resumos de bibliografia alheia, mas detentor de produção própria, nascida da mistura de adequada teoria com as circunstâncias do tempo e do lugar em que labuta. Por outras palavras, viver cada momento desta vida de professor como se ele fosse o último. Isto é, fazer desta profissão uma vocação e não um posto de vencimento ou um trampolim que nos dá cartão de visita ou trampolim para mais altos e bem remunerados cargos. Quem não tiver vocação para esta missão que a deixe!  Acresce que esta exigência íntima impõe que as escolas sejam instituições, isto é, que tenham uma ideia de obra, que gerem manifestações de comunhão e que sejam reguladas por normas processuais que a todos vinculem, para que possam ser escolas de cidadania e de abertura para aquele transcendente situado a que damos o nome de cultura. Se transformarmos o professor num burocrata de uma direcção-geral da administração directa do Estado ou num esquema partidário, sujeito ao “spoil system”, não poderemos cumprir a missão civilizadora daquela entidade onde o essencial do homem ocidental é o sentido crítico do “ser do contra”, para depois poder ser qualquer outra coisa em coerência de pensamento e acção.

 

“O Encoberto” – O que recomenda para o I.S.C.S.P.(e O.) ?

 

Prof. Maltez –Que seja uma universidade, uma “universitas scientiarum” e que não caia na tentação politécnica que o levará ao suicídio, mesmo que os senhores directores e coordenadores ganhem imagem e trampolim. Que se liberte do tribalismo endogâmico e suicida, com muita música celestial, onde muda a retórica para que continue tudo na mesma. Que abra as portas e as janelas à sociedade, mesmo que apanhe constipações e que permita que os homens livres que aqui ainda permanecem deixe que a respectiva imaginação possa ter o poder a ajudá-los e não o contrário. Mas tenho medo que, nesta encruzilhada, regressem os fantasmas do “salve-se quem puder” e do “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. Que não confessemos nossos antigos pecados saneadores, para irmos ao passado e recuperarmos as boas heranças que também temos, nomeadamente uma cultura de escola de proximidade e de “small is beautiful” que a presente doença do “Portugal dos pequeninos com a mania das grandezas” nos parece comprometer.

 

“O Encoberto” – Comentários finais Sr. Prof. O que gostaria de dizer aos alunos?

 

Prof. Maltez –Importa resistirmos para lutarmos contra o regime do mestre-escola e podermos salvar o pluralismo de paradigmas sem o qual deixaremos o campo da universidade. Importa compreendermos que, com mais de cem anos, já passámos quatro regimes e que não podemos estar dependentes do oportunismo e da conveniência dos que querem servir aquilo que julgam ser os novos senhores. Isto é, sermos humildes, transformando as nossas vulnerabilidades em potencialidades e evitando que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades. Isto é, praticarmos a arte da estratégia, onde dizemos ser pioneiros, voltando ao sonho que move montanhas, mas com um pouco mais de aventura e pragmatismo, isto é, reconhecendo pecados passados, como os dos saneamentos por razões ideológicas e de invejas, onde foram afastados os mais competentes, à esquerda e à direita, sempre com inúmeros adjectivos de teoria da justificação, para que explodissem os cogumelos dos conformistas e “yesmen”. Uma escola que afastou Vitorino Magalhães Godinho, Hermano Saraiva, D. António Ribeiro, Martim de Albuquerque ou Luís Sá e ainda não se redimiu desse pecado, não pode continuar a viver em regime de teoria da conspiração explicativa, vendo manobras da maçonaria, do “opus dei”, dos comunas ou dos fachos em todos os cantos, só para que continuem a dominar os filhos de algo, mesmo que teologicamente benzidos, que já nem sequer nobreza têm. O segredo está na velha regra da igualdade de oportunidades, livre da encomendação feudal deste permanente regime de convidados para a mesa do orçamento. Não tenhais medo!

 

Abr 03

Ser professor

 

Hoje, um professor universitário, se se assumir como funcionário da comunidade e se ousar libertar-se das teias dispersivas das mobilizações burocráticas, da chamada gestão de poder, terá de ousar viver como pensa e deixar de preocupar-se com as eternas mudanças decretinas que os ventos governativos vão sucessivamente soprando.

 

O meu princípio está em não cumprir os três primeiros mandamentos de Moisés, dado que sou um militante daquela heresia panteísta que gostaria de voltar ao pluralismo dos divinos, acreditando que, mesmo no tocante ao transcendente, vale a pena distinguir para unir.

 

Em segundo lugar, não sigo as regras do método da modernidade cartesiana, rejeitando os deicídios de uma racionalidade finalística que nega o mistério e confunde o humanismo com a ilusão de podermos ser “donos e senhores da natureza”.

 

Em terceiro lugar, uso e abusar do paradoxo, essa “forma mentis” que, conforme nos ensina Mounier, brota do ponto de união da eternidade com a historicidade, do infinito com o finito, da esperança com o desespero, do trans-racional com o racional, do indizível com a linguagem. Porque a certeza das certezas, ou, melhor, o acto de fé central é para a razão uma antinomia, e a sua solidez está composta do impulso mútuo que se dá nos dois pólos da antinomia.

 

Não chega o mero investigar, para que outros investigadores o leiam ou para que possa entrar na rede do sindicato neocorporativo das citações mútuas. Tenho de libertar-me dos enredos dessa casta de amigos que cordialmente se odeiam e assumir-me como publicista, usando os novos meios de comunicação que tenho ao dispor.

 

 

 

Aliás, seguindo assim o lema de Miguel de Unamuno, considero que a essência do homem ocidental é ser do contra, o que reforça a minha posição de conservar, porque, não sendo conservador do que está, sou um acérrimo conservador do que deve ser. Apesar de viver em Lisboa e de ser pai de três naturais de São Sebastião da Pedreira, continuo um resistente camponês, com nostalgia da terra natal. Apesar de ter sido adjunto de seis governos e de ter seguido a “via crucis” da função pública, de técnico superior de segunda a assessor, com passagem por chefe de divisão, director de serviços e subdirector-geral, abdiquei da coisa quando me doutorei e corri o risco de assumir as minhas ideias liberais fora da proteccção da hierarquia vertical.

 

Seguindo o paradoxo, continuo a ser considerado estadualista entre os neoliberais, heterodoxo anti-americano entre os “neocons”, autor de livros de poesia entre os doutorados em politologia, saloio entre os capitaleiros. Mesmo assim prefiro ser um homem livre que ousa viver como pensa, sem pensar como vive, nomeadamente na avença ou no subsídio que assim não recebo, porque também os não peço.

 

Porque se a liberdade não nasce da certeza, mas da incerteza (Kierkegaard), apesar de professor de coisas políticas, não aceito que toda a realidade possa ser definida, isto é, reduzida a conceitos, porque o objecto é uma realidade que existe independentemente do sujeito, essa realidade entendida como o tal objecto de conhecimento que pode ser definida, classificada, analisada e manipulada através dos conceitos.

 

Acresce que, como cientista, subscrevo aquele ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss, é a tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas, a passagem do exotérico, do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico, isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado. Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Weil, não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido de experiências.

 

Acredito mais no pensamento problemático do que no pensamento sistemático, pelo que tento pesquisar sempre o problema, isto é, toda a questão que aparentemente permite mais de uma resposta, mas que também requer, necessariamente, o entendimento preliminar, só passível de compreensão. Onde se reclama que só pode haver diálogo entre posições adversárias, quando entre elas se estabelecem pontes de consensualidade ou lugares comuns.

 

 

 

Aliás, titulado que sou numa área científica bastante recente na universidade portuguesa, a de ciência política, considero que não bastam os debates nos passos perdidos dos capítulos universitários, pelo que tenho tentado o publicismo, dos que querem ser fiéis ao antigo, mas não antiquado nome de republico, que é bem mais honroso do que o galicismo do politólogo, usando o blogue para assumir a plenitude da cidadania.

 

 

 

Importa viver cada aula como se ela fosse um acontecimento que nunca se repete, dada por um ser que nunca se repete perante pessoas de alunos que também nunca se repetem e, para tanto, não ser um mero lente de fotocópias obtidas em resumos de bibliografia alheia, mas detentor de produção própria, nascida da mistura de adequada teoria com as circunstâncias do tempo e do lugar em que labuta.

 

 

 

Por outras palavras, viver cada momento desta vida de professor como se ele fosse o último. Isto é, fazer desta profissão uma vocação e não um posto de vencimento ou um trampolim que nos dá cartão de visita ou trampolim para mais altos e bem remunerados cargos. Quem não tiver vocação para esta missão que a deixe!

 

Acresce que esta exigência íntima impõe que as escolas sejam instituições, isto é, que tenham uma ideia de obra, que gerem manifestações de comunhão e que sejam reguladas por normas processuais que a todos vinculem, para que possam ser escolas de cidadania e de abertura para aquele transcendente situado a que damos o nome de cultura. Se transformarmos o professor num burocrata de uma direcção-geral da administração directa do Estado ou num esquema partidário, sujeito ao “spoil system”, não poderemos cumprir a missão civilizadora daquela entidade onde o essencial do homem ocidental é o sentido crítico do “ser do contra”, para depois poder ser qualquer outra coisa em coerência de pensamento e acção.