Nov 26

A tutela neocolonial da chamada tecnocracia multicultural

A tutela neocolonial da chamada tecnocracia multicultural, as muitas e desvairadas gentes de todas as sete partidas que, vindas de inúmeros Estados falhados, se assumem como super-especialistas no “state building”, são coisas que muitos apenas julgam só porque nunca as puderam chegar  a experimentar. Esta nebulosa apátrida de certo funcionalismo supra-estatal, que vai lançando seus acampamentos em todos os sítios ditos da desgraça, pode, desenraizadamente, ajudar a destruir as energias libertadoras da política.  A democracia não é uma qualquer engenharia social que seja abstractamente cega. Eu, pelo menos, não consigo admitir que ex-políticos, adeptos e praticantes dos planeamentismos centralistas, possam ser recrutados agora para a construção de capitalismos a retalho, com retórica de desenvolvimento sustentável, apenas porque assentam, como chefes de contínuos, numa legião de recrutados estagiários, saidíssimos das faculdades do fabrico em série, ou das avaliações de sargentos, das tais que nos põem em fila indiana no dia da inspecção, à procura do funcionário a promover por mérito excepcional, medida pela ficha da classificação de serviço. Há, por estas e muitas outras bandas, alguns imensos e pretensos gurus que não são peritos de qualquer coisa, em qualquer lugar com tempo, mas que sabem exercitar a arte do relatório cinzento, desses “papers” que transformam as crises políticas, económicas e sociais numa espécie de modo de vida de alguns desempregados estruturais, com os seus “caterings”, os seus “briefings”, os seus “compounds” ambulantes, coisas exógenas e exóticas, com que se vai poluindo a paisagem das coisas humanas e sociais. Nesse jardim zoológico que vai invocando a superioridade quase celestial da metapolítica, não sei se vamos gastando dinheirinhos que bem poderiam servir para dar segurança, matar a fome e lutar contra a doença de todos. Uma organização ou uma cooperação internacionais, quando se tornam infuncionais, podem transfigurar-se em entidades feitas de poder pelo poder, mas já perderam o sentido dos gestos.