O pior problema português é o da justiça

O pior problema português é o da justiça. Não apenas o da administração da justiça, que esse até um processualista e um ministro resolvem, de ciência certa e poder democrático, mas sobretudo de justiça como estrela do norte da política, como diria Aristóteles, essa ciência de tratar desigualmente o desigual, como sempre se definiu a igualdade dinâmica…

Porque justiça é, desde os greco-romanos, atribuir a cada um o que lhe pertence (suum cuique tribuere), não prejudicar o outro (alterum non laedere) e viver honestamente (honeste vivere). Estou convencido que esses preceitos, ou pré-captos, enquanto fundamentos, não é captado pelo pensamento único…

Para os donos do poder, igualdade é estabelecer uma grelha de generalidade e abstracção que ao não valorizar a diferença da individualidade criativa nunca é capaz de atingir o universal. Porque até um sargento verbeteiro se ousa por na gaveta da ficha um Prémio Nobel…

Pior do que isso: a educação ainda não se libertou da instrução! Ainda não assumiu que era preciso libertar o indivíduo que há em cada aluno, através do exemplo e do estímulo de quem pode “docere” e, portanto, é “doutor”, ajudando a crescer por dentro…

As vacas sagradas do colectivismo de seitas, entre comunistas e ex-comunistas, entre catolaicos e despadrados, continua com maus catecismos de imagem, sondagem e sacanagem e nem sequer atingiu que importa cultivar a rebeldia e a insolência do que deveria ser um português à solta…

Foi pena que António Sérgio não tivesse conseguido aplicar os métodos de Dewey no primeiro quartel do século XX. Foi pena que nessa altura não reparássemos que um tal de Fernando Pessoa teve a sorte de ser educado no modelo britânico de Durban, ficando muito adiantado no tempo, face ao positivismo serôdio que irmanou o positivismo naturalista de Afonso Costa e Oliveira Salazar…

Os pedagogos salazarentos nem sequer leram “A Igreja e o Pensamento Contemporâneo” de D. Manuel Gonçalves Cerejeira, consideravam Leonardo Coimbra um tresloucado e António Sérgio um efectivo alienado. Foi talvez por isso que, mesmo depois de Abril, Agostinho da Silva passou nas televisões como um excêntrico a quem devíamos apenas passar a mão pela metáfora…

Educativamente falando, somos todos bastardos da síntese do educacionês vérmico que o colectivo de educacionólogos ditos de Veiga Simão lançou no concentracionismo da Cinco de Outubro, semeando o capitaleirismo pelo país. Por isso, estamos agora entalados entre o Professor Pardal do positivismo do século XIX e o Professor Manitu da falsa metafísica do pós-guerra, tudo com traduções em calão!

O caldo de cultura positivista que nos enreda, de tanto ser anticatólico, acabou por volver-se também em antimaçónico, isto é, continua a secar o essencial da nossa raiz do humanismo cristão e do humanismo laico, perdendo tempo em proibir a metafísica, Deus e os deuses, em nome da falsidade das revoluções, das utopias e do sucedâneo dos esquemas construtivistas dos pós-revolucionários frustrados…

Que bom! O PS põe o Vitalino e o Ricardo a pedir uma revisão constitucional sobre o ministério público. Se o outro quer ser a rainha de Inglaterra que reduza o MP àquilo que ele é no Reino Unido: nada! Era uma boa forma de os socialistas defenderem a tradição das respectivas doutrinas: serem racha-sindicalistas! Nomeiem Vara para ministro da justiça!

Os magistrados do MP são maus, o PGR é bom. O PGR é bom, os magistrados do MP são maus. Arquivaram e inovaram, ao enunciarem zonas do incógnito. Valia mais reconhecer que esta justiça é impotente. Mesmo que Sócrates e Silva Pereira estejam minimamente inocentes, com tanto fumo, muitos dirão que houve fogo, ou vice-versa. E entre o arquivamento e a condenação, venha o diabo e escolha.

 

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