Jan 26

Carta do Manuelinho de Évora

Tiraste-me o direito à vida mas eu vivo
Mandaste-me prender mas eu sou livre
Que não pode morrer não pode ser cativo
Quem pela Pátria morre e só por ela vive.

Mandaste-me prender e preso não me prendes
Tu ministro do reino por vontade estranha
Tu que tudo vendeste e só não vendes
Quem luta por seu povo e não por Espanha.

Vi os campos sorrir mas não ouvi
Raparigas cantando em nossas eiras
Nossos frutos eu vi levar e vi
Na minha Pátria as garras estrangeiras.

Vi pesados tributos sobre o pobre
E vi no Paço o oiro da traição
Negros corvos eu vi pairando sobre
Minha Pátria com sombras pelo chão.

E vi velhos e meninos assentados
Nos degraus da tristeza vi meu povo cismando
Vi os campos desertos vi partir soldados
Sobre o meu povo negros corvos vi pairando.

E em cada noite ouvi o silvo do açoite
Em cada noite sempre sempre não se cansam
Os carrascos nos grandes longos turnos
Em que somente as sombras dos chicotes dançam
Como se fossem pássaros nocturnos
A encher de sangue a grande grande noite.

E em cada noite dormes sobre o sangue da cidade
Nenhuma dor te dói. Nenhum grito. Mas dói-te
Saber que se a tristeza tem a nossa idade
Da nossa idade é este sonho: Liberdade
Rosa de sangue flor da grande noite.

Não sei de quantas lágrimas se tece a dor.
Tu saberás as lágrimas choradas
Tu que só dor plantaste tu verás a flor
Da tristeza florir em ódio e espadas.

São estas as notícias que te dou
Na minha Pátria prisioneiro mas de pé.
Vai dizer ao teu rei que o meu preço não é
O baixo preço porque te comprou.

Vai dizer a Filipe quem eu sou.
Alguém que o desafia e que sabe porquê
Alguém que vê o que o teu rei não vê
Que nunca à vossa lei meu povo se curvou.

Tu ministro do Reino por vontade estranha
Vai dizer ao teu rei que viste algo de novo:
Quem luta por seu povo e não por Espanha.

E se a Pátria confundes eu distingo-a:
A Pátria não és tu mas este povo
Que não entende as leis que ditas noutra língua.

E tu que do País fizeste a triste cela
Tu que te fechas em teu próprio cativeiro
Tu saberás que a Pátria não se vende
E em cada peito em cada olhar se acende
Este vento este fogo de lutar por ela.

Tu saberás que o vento não se vende.

E não terás nas tuas mãos de carcereiro
O sol que mora nas canções que nós cantamos
Nem estas uvas penduradas nas palavras
Tu que servis as pretendeste ou escravas
Em silêncios de morte e de convento
Tu ouvirás na língua que traíste
Palavras como um fogo como um vento
Estas palavras com que Portugal resiste.
Tu saberás que há línguas que recusam amos.

Tu saberás que nós não aceitamos
O céu de que nos falas se o teu céu é feito
Do espaço estreito dessa negra cela
Que em vez do coração trazes no peito.
Tu saberás as lágrimas choradas
Quando na Pátria a dor florir em espadas
Em cada peito que sangrou por ela.

Manuel Alegre “A Praça da Canção”

Jan 26

Ribeiro Sanches

“O povo não faz boas nem más acções e raríssimas vezes se move por sistema nem por reflexão: será cortês ou grosseiro, sisudo ou ralhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado pelo seu cura, pelo seu juiz, pelo escudeiro ou lavrador honrado. O povo imita as acções dos seus maiores. A gente das vilas imita o trato das cidades à roda; as cidades o trato da capital; e a capital o da corte. Deste modo, que a mocidade plebeia tenha ou não mestre, os costumes, que tiver serão sempre a imitação dos que virem nos seus maiores, e não do ensino que tiveram nas escolas…” (António Nunes Ribeiro Sanches, já lá vão séculos, antes de haver televisão e Assembleia da República).

Jan 26

Discurso de Péricles

O discurso fundador da democracia, em homenagem aos soldados mortos pela pátria: “O nosso sistema político não inveja as leis dos nossos vizinhos, pois temos mais de paradigmas para os outros do que de seus imitadores. O seu nome é democracia, pelo facto da direcção do Estado não se limitar a poucos, mas se estender à maioria; em relação às questões particulares, há igualdade perante a lei; quanto à consideração social, à medida em que cada um é conceituado, não se lhe dá preferência nas honras públicas pela sua classe, mas pelo seu mérito; nem tão pouco o afastam pela sua pobreza, ou pela obscuridade da sua categoria, se for capaz de fazer algum bem à cidade.
(…) Além disso, pusemos à disposição do espírito muitas possibilidades de nos repousarmos das fadigas. Temos competições e sacrifícios tradicionais pelo ano fora; e usufruímos de belas casas particulares (…). Devido à grandeza da cidade, afluem aqui todos os produtos (…) e acontece que desfrutamos dos bens locais com não menos abundância (…).
Em resumo, direi que esta cidade, no seu conjunto, é a escola da Grécia.”

Discurso de Péricles, citado por Tucídes em A Guerra do Peloponeso (século V a.C.), in Claude Mossé, As Instituições Gregas, Lisboa, Edições 70, 1985, p. 53

Jan 26

Alexandre O’Neil

Uma excelente proposta para o desenvolvimento em plástico da marca Portugal, apenas com três sílabas, de plástico, um relatório para o Conselho da Con(s)ertação Sucial, com adequada “alvura arrendada para o meu devaneio”, da autoria do Alexandre, evidentemente:

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…

Jan 26

Feriados

A questão dita dos feriados é tão absurda quanto isto: em cada uma das cinquenta e tal semanas do ano, além de um feriado não religioso, o sábado, há um feriado religioso, o domingo. Pior do que isso, cada um dos dias da semana na nossa língua tem o nome de “feriado”, isto é, feira, derivado do latim “feria”, isto é, festa religiosa. Por outras palavras, se incluirmos o sábado judeu, todos os dias do ano em Portugal são de feriado. Somos, de facto, uma feira. Amen!

Jan 26

Hino da maçonaria

Junto segue, muito provocatoriamente, um hino da autoria do pai de D. Maria II, avô de D. Pedro V. e de D. Luís, bisavô de D. Carlos e tetravô de D. Manuel II. Tem estátua na Praça do Rossio em Lisboa e na Praça da Liberdade no Porto. E como regente instituiu a bandeira azul e branca como símbolo nacional, na sequência da deliberação das Cortes de 1821 que as fizeram laço nacional.

Jan 26

Guerra Junqueiro

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
[.] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Guerra Junqueiro, “Pátria”, 1896.

Jan 26

Frapas 26 de Janeiro de 2011

Preparando a minha intervenção neste colóquio. Onde vou procurar demonstrar que a regeneração do Estado enquanto república, depois do vintismo e do cartismo, gerou escolas de quadros, onde a técnica estava ao serviço de uma estratégia nacional, visando o racional-normativo, onde os idealistas sempre foram os mais práticos, isto com os olhos no sonho e os pés no chão. Até a minha universidade, quando era federação vinda da sociedade civil, foi assim gerada, antes de ceder à tentação de decretino. Ou o espaço que vai de Gomes Freire a Moses Bensabat Amzalak.

Subscrevo inteiramente o grito de revolta de Manuel Alegre: “É um acto contra a História e contra a cultura. É um acto anti-história e anti-cultura”. Nem cito o ministro que veio a microfone dizer que, depois, se reforçará o 10 de Junho. Também sou radicalmente intransigente nessas matérias de mínimos de identidade patriótica. Lamento os ditos monárquicos que vieram fazer campanha contra o 5 de Outubro e os ditos republicanos que subscreveram o preconceito de o 1º de Dezembro ser dos monárquicos. Acabaram ambos alvarizados.

Acabei de prestar um depoimento à TSF sobre esta decisão do Governo. Apenas apelei a uma adequada revolta dos senhores deputados, em nome da comunidade das coisas que se amam. É uma matéria de não-disciplina partidária e de fidelidade a valores maiores, em nome de uma lealdade básica. Há algemas que libertam.´

“Antes de eu ser de esquerda, ou de direita, já era da Pátria. A Pátria é a minha política”. Palavras de Passos Manuel, em carta dirigida a José da Silva Carvalho, em Novembro de 1836.