A POLÍTICA PÓS-SOCRÁTICA


Chegou Sócrates e o tempo mudou, mas a esperança ainda não voltou. Ferro foi-se, Carvalhas anunciou o abandono, Barroso mudou-se e, pasme-se, Portas assumiu o decanato da liderança partidária e até da governação. Eis a nova era, a vida nova, a direita mexida, a esquerda moderna, tudo pós-moderno, com teleponto, elixir da juventude eterna, quotas, cotas, tias, lambada e “barbies”.

Eis o “pedregulho” que caiu em cheio neste charco… (Emídio Guerreiro dixit). Porque cita modernizadamente Kennedy, o John de quase há meio século, o tal que se foi em Dallas, depois ter ido com a Mafia e as Monroes, e de nos ter mandado p´rós Vietnames e a dos Porcos. Só que, entre Sócrates e Lopes, dois géneros zoológicos para o mesmo Louçã, há o idêntico perfume “hollywoodesco”, entre o cineclubismo de esquerda e o gosto pela cóboiada da brilhantina, como o exige a salsicharia teledemocrática.

Logo, acabamos por ter que chafurdar nestas águas chocas das direitas que convêm à esquerda situacionista e das esquerdas que são subsidiadas pela direita dos interesses, onde continua a punição por delito de crença. Como aconteceu ao indigitado Rocco Buttiglione para comissário europeu, esse destacado professor e filósofo político, um dos mais marcantes nomes do jusnaturalismo neo-tomista, centrista de sempre, bem próximo do pensamento de João Paulo II, o que revela um dos mais graves vícios da nova Europa, o da censura implícita do novo politicamente correcto que prefere frades vindos do MES e do governo de Vasco Gonçalves.

Confesso que, apesar de não ser um praticante do catolaicismo e não nutrir qualquer simpatia pelo modelo berlusconiano, tenho de reconhecer que, com este neo-dogmatismo dito anti-dogmático, um tal Karol Wojtyla nunca poderia ter sido eleito e transformar-se na personalidade mais marcante da segunda metade do século XX.

Quem quiser ser alguém neste mercado intelectualês e politiqueiro não convém que se mostre um fervoroso católico, republicano, comunista, monárquico ou maçon, pois logo passa a ser integrista, histórico e fundamentalista, só porque tem espinha. Do mesmo modo, se manifestar as suas convicções heterossexuais, corre o risco de ser perseguido pelos trejeitos inquisitoriais dos inúmeros “lobbies” de “gays” que estão no poder mediático, político, diplomático e editorial, para gáudio das alqueidas e alqueidões.

Aqueles que têm crenças já não as podem exercitar na esfera pública. Ficam-se pela solidão dos lares, pelas pequenas catacumbas das redes de amigos e até pelos blogues que não são abruptos. Porque de quase de nada valem os signos institucionais de outras procuras, dado que a república caiu na ambiguidade discursiva de Sampaio, nesse texto sem palavra que apenas serve para interpretações da racionalidade importada, nesse discurso onde há apenas entrelinhas tortas e insinuações curvas, onde nem Deus escreveria direito nem o Diabo marraria. E, quanto menos a ideia e a emoção de nação nos mobilizarem, mais seremos estadualizados de forma alienígena. E com a política reduzida à heteronomia, a cidadania pode reduzir-se à fragmentação contestatária e ao protesto faccioso, como recentemente aconteceu em Coimbra, com o regresso da Falange Demagógica de 1910 à Sala dos Capelos.

Sem uma comunidade afectiva que nos dê justiça e bem comum, apenas reclamaremos direitos e nunca daremos ao todo a necessária justiça e o indispensável amor. Contestar, protestar, exigir podem ser fracturantes se não assumirem a dimensão militante da resistência. E caso não haja alma que nos identifique, não passaremos de mera sociedade anónima gestionária. Só com uma necessária tensão espiritual, poderemos vencer as teias da demagogia, da incompetência e do negocismo.

Discutir a educação não-universitária é sofrermos o “ranking” e o drama da colocação dos professores. É sabermos que os primeiros são os que podem pagar 330 euros por mês e que graças ao poder de compra serão abençoados pelo privilégio catolaico da igualdade cristã. Quem não paga e vai à missa é do interior, sítio dos parolos, provincianos, feios, porcos e sujos, desses que tem de pagar impostos para este socialismo da treta, feito em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, com muita ética republicana à mistura.”Ranking” é esta nossa querida pouca-vergonha que transformou a educação num campeonato de futebolícia, com árbitros corruptos pelo sistema, freirinhas postas ao serviço de novos-ricaços que, em vez de educação, fazem investimento educacional nos rebentos dos IRSs de sucesso, assim continuando a copiar o capitalismo de faca na Liga e na quinta das celebridades. E eu a recordar como era bela a igualdade evangélica, ou maçónica, da velha escola pública, onde efectivamente eram iguais em oportunidades o filho do contínuo e o filho do milionário…

O que mais me incomoda nas recentes movimentações das marceladas e pedralhadas é que tenho de chegar à conclusão que o velho Estado moderno se deixou enredar nas teias dos especialistas na conquista e manutenção no poder no âmbito do clubismo, do facciosismo e do campanário. Competentíssimos nesses domínios da fulanização, da galopinagem e do caciqueirismo, grande parte dos figurões que nos regem não percebem que atingiram, há muito, as raias do princípio de Peter, a partir das quais estão condenados a pisar os terrenos da incompetência.

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