O presente estado de graça

O presente estado de graça pós-pantanal corre o risco de se transformar numa mistura da governação dos bloquistas centrais com os bloqueiros da ideologia e que se atinja aquele estado de serôdia análise, segundo a qual só seremos bons sociais-democratas aos cinquenta anos se tivermos sido entusiásticos estalinistas, ou trotskistas, aos vinte. Uma análise bem típica dos oitenta anos de Soares que ainda não disse que também à direita se tem de começar por ser nazi para atingirmos a moderação do desencanto no centro-direita. Por outras palavras, entrar na maturidade equivale ao desencanto do fim das ideologias e à esperança no livro de cheques, através da conquista de um lugar ao sol no esquema do carreirismo. Assim, é condição essencial não sermos carne nem peixe andando sempre cautelosamente nos trilhos do nem tanto ao mar, nem tanto à terra, para, muito moderadamente, podermos ser arrastados pelo vento novo e seguirmos de feição as ondas da moda, nessa mecânica mistura que é dada pelos impulsos da extrema-direita e da extrema-esquerda. De facto, quando se considera que a moderação é uma simples consequência mecânica de impulsos externos, onde os solavancos, que são dados pela soma do mais um com o menos um, geram um lugar passivamente geométrico, apenas abdicamos das convicções próprias de quem devia ser minimamente autónomo. Só que, deste modo, podemos correr o risco da servidão, desse que gosta de ser mandado, colonizado ou escravizado. E pode ser que nos aconteça uma dessas tempestades imprevistas que nos venha a dizer que o desastre antes de o ser já o era.

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