Os últimos dias do regime do governo dos espertos

Nenhum dos donos do poder está para aturar quem, gostando de cultivar a virtude da insolência, procura cumprir a lealdade básica que serve correntes de ideias ou sentidos institucionais e não se deixa manietar pelos temores revenrenciais e pelos fidelismos face a personalizações de poder, onde há sempre líderes sem fé. Desses em quem não podemos ter confiança porque eles não sabem comungar em instituições nem respeitam os sagrados contratos da palavra dada. Às vezes, a inteligência não rima com a honra, neste país onde muitos ainda não perderam aquele defeito otomano do governo dos espertos, nomeadamente os que repetem os tiques escleróticos das administrações coloniais ou dos autoritarismos de marca salazarenta  que, às vezes, se acumulam. Desses que procuram, através de sucessivas utilizações da lixívia, praticar “ad nauseam” o revisionismo historicista. O cala-te-boca típico do regime do come-e-cala não serve para quem, tendo as mãos livres, nunca recebeu dessas luvas de pelica pressionante que recobrem peles bem sujas. E há estranhos silêncios por parte de quem, tendo o dever de não calar, prefere fingir que lava as ditas como Pilatos, só para aceder à mesa onde servem Papas de sarrabulho dos que não querem enfrentar a verdade. Quem não tem telhados de vidro não pode continuar a sofrer bombardeamentos por parte dos que não gostam daqueles a quem não podem contabilizar buracos negros de passados ocultos. Infelizmente, continuam os que, para sobreviverem, têm que comer o pão amargo da dependência e da servidão, neste país político que foi feito para não haver homens livres. Onde, apesar de haver democracia, permanecem as redes dos aparelhos criados pelo absolutismo para que não haja homens de antes queberar que torcer e que homens da Corte não podem ser. A rede de dependências e medos vai continuar enquanto não assumirmos que em situações pós-totalitárias e pós-autoritárias, mesmo depois de se eliminarem os aparelhos visíveis da repressão e da corrupção, permanecem os subsistemas de medo e de venalidade que os mesmos geraram. Pior: abundam os micro-autoritarismos sub-estatais e esses modelos de temor reverencial podem aí ser substancialmente agravados e fomentados, principalmente quando as pequenas e os pequenos chefes do bando actuam em legítima defesa, em épocas de transição ou de crepúsculo. É então que os anteriores agentes do totalitarismo e do autoritarismo activam o modelo, para se poderem conservar no comando de tais micropoderes. Assim, a activação dessa permanecente repressão, visível ou invisível, pode até levar a que os mesmos finjam que estão a ser vítimas de perseguições imaginárias, para que muitos caiam no engodo e alinhem num processo de instauração do espírito de seita, a que não faltam coisas como o revisionismo histórico, a literatura de justificação e o abundante recurso a milhentas hipóteses de teoria da conspiração, através de encenações cientificamente orientadas, nomeadamente pelo recurso ao boato, à difamação, à insinuação e à própria ameaça, através de um processo que seria ridículo se não fosse trágico e não gerasse amplos prejuízos pessoais a todos aqueles que não aceitam alinhar na procissão. Tudo o que aqui escrevemos não é mera hipótese académica. Está a acontecer aqui e agora. Não contra o signatário, mas contra pessoas vivas, de carne, sangue e sonhos. Os nomes das instituições em causa serão adequadamente divulgados quando o processo de obtenção das provas concluir os seus meandros. E os perseguidos nem sequer são da minha área ideológica. Apenas fazem parte dos povos mudos deste país que não podem contribuir para o financiamento das campanhas eleitorais dos vencidos e dos vencedores.

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