Mar 07

Biblioteca Gulbenkian

Ao ver uma imagem de uma carrinha das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian no seu blogue, explodi em memórias e, ao correr da tecla, quero declarar que muito de quem sou culturalmente, o devo a essa lata com rodas que ia visitar a minha terra, uma pequena vila sem direito a concelho a dez quilómetros de Coimbra, onde nos anos sessenta tive o direito a formar-me, graças aos conselhos de um notável bibliotecário-motorista, cujo nome não registei, mas que pegando num miúdo de dez anos me orientou bibliograficamente até à minha entrada na Universidade. Graças a ele, formei-me em marxismo quase clandestinamente logo aos catorze anos, o que foi uma adequada vacina, e talvez uma desilusão para o formador, mas agradeço, sobretudo, a perspectiva estética que me deu, sobretudo o Arrabal e a fundura daquele magnífico boletim inspirado por António Quadros que me trouxe a filosofia portuguesa, o Leonardo Coimbra, o Álvaro Ribeiro e o Agostinho da Silva. E eis como o meu bibliotecário, misto de surrealista e marxista, produziu em mim uma complexidade formativa deslumbrante, bem como o acesso a um mundo de sociedade aberta que as janelas e as portas fechadas do salazarismo  elevavam à esquizofrenia. Bendita biblioteca que a tantos fez este bem de nos dar a liberdade de escolher. Bem gostaria de saber o nome de tal benfeitor, para o homenagear. Se alguém me souber dizer quem era esse empregado da Gulbenkian que percorria a zona rural de Coimbra nos anos sessenta, agradecia.

Mar 05

O regresso dos Medici, com Borgia nos meandros

Muitos dos nossos politiqueiros e intelectuários, apostados na caça ao financiamento partidário e ao subsídio, têm dado à fauna banqueiral que nos domina suficientes pretextos para que a mesma continue a considerar que os poderes político e cultural são subordinados hierárquicos do poder económico-financeiro. Assim se gerou aquela casta banco-burocrática que leva alguns poderes fácticos a assumirem-se como os donos deste Portugal que resta, nomeadamente quando sugerem ministros e directores-gerais que a mesma nebulosa elevou anteriormente à categoria de serviçal ou de jagunço, enquanto certos discursos bem intencionados contribuem para o conceito de corrupção seja limitado aos pequenos autarcas ou aos grandes dirigentes do futebol, num evidente racismo social dos que salvaguardam as mãos limpas das cidades, atirando toda a porcaria para o lado dos parolos que ainda vivem no deserto das serras. Há, em primeiro lugar, que denunciar o ambiente de sórdida pedinchice com que muitos têm confundido o chamado financiamento partidário e que tem contribuído para que o povo deixasse de ser a efectiva fonte da soberania. Compreende-se assim que alguns não-comunistas de sempre e certos anticomunistas para sempre comecem a ter saudades de um partido comunista minimamente forte, capaz de amedrontar esta paz de cemitérios chamada concertação social, feita de hipócritas equilibrismos que não denunciam a presente podridão plutocrática, assente no domínio de um clube de velhos e novos ricos, os quais continuam a considerar os que trabalham como os causadores da falta de competitividade e de produtividade. Apenas se esquecem que quem efectivamente trabalha é que paga os impostos que sustentam os cobradores de comissões e os intermediários do esforço dos outros, esses gestores de bens alheios que controlam essa terra de silêncios e segredos, onde campeiam os privilégios e as isenções, só porque o fogo de artifício do politiqueirismo e a pouca-vergonha da demagogia nos continuam a algemar. Não apetece contribuir para a continuação de tal enriquecimento sem causa. Paradoxalmente, a casta dos donos do poder pouco se incomoda que sejamos o país mais à esquerda da Europa e até vê com bons olhos o crescimento do partido que inventou o “slogan” dos “ricos que paguem a crise”. O “discurso da tanga” até favorece os que, através das hipócritas campanhas da caridadezinha mediática, tratam de encobrir o essencial: aqui e agora, são os chamados “remediadados” da classe média baixa que continuam a ser sugados pela canalha dourada que se disfarça em benzeduras bancárias. Começo a sentir raiva perante os que, cobertos pela democracia formal, usurpam o sagrado da própria democracia, especialmente quando eles se escondem atrás desse bailado de patranhas ideológicas, cujo verniz nominal continua a ocultar a unhas aduncas dos clássicos vigaristas. É que estes conseguem sempre mobilizar uma legião de escribas jagunçais, a quem os mesmos unheiros pedem que lancem adjectivações inquisitoriais para que sejam fulminados os mal-amados pela estirpe. Eles, os donos do poder, que podem aparecer nas televisões chorando pelos mandaram morrer, até são capazes de uma qualquer generosa oferta de um caixote de cobertores a esses sem-abrigo que estão literalmente a morrer de frio neste país que a respectiva ética construiu. O discurso da enlatada tecnocracia não rima com justiça, verdade e coragem. Se esta canalha continuar a arvorar-se em controladora dos armazéns de valores da chamada direita, juro que não participarei nas procissões de candidatos presidenciais dos que se apresentarem vitoriosamente apoiados tanto pelos pretensos banqueiros de Deus como pelos supremos teólogos dos magnos conventos que os ditos subsidiarem. Não quero que o tempo possa voltar atrás sem uma pinga de espírito livre. Mesmo que os tempos de antena tragam poemas patrioteiros, sessões do “perdoa-me” ou eventuais elogios a anteriores inimigos que com eles convivem como curadores do tacho. Eliminar a doença que todos, hoje, dignosticamos na tal direita, pelo recurso à matriz que difundiu a virose, é seguirmos uma táctica imposta pela estratégia derrotista, por mais que os revanchistas digam o contrário.

Mar 04

Lágrimas de crocodilo da politiqueirice

Não tardará que os solos calcinados da nossa terra sejam humedecidos pelas lágrimas de crocodilo da politiqueirice, dado que os científicos avisos sobre os incêndios de Verão continuam a não ser suficientemente amedrontadores para aqueles que fazem da profissão a prostituição da palavra pelo fala-baratismo dos discursos que põem a chorar as pedras da calçada, enquanto o povo automobilístico vai pagando mais um pequeno imposto para se sustentarem as promessas feitas por um ministro a uma só empresa que ameaçou largar o país. Já o recém-eleito presidente do STJ, depois de denunciar os advogados, os juízes e os governos quanto às demoras na justiça, onde uns não nomeiam mais juízes, outros não ajuízam rápido e os primeiros empatam e complicam os processos, acaba por não denunciar quem deve. A culpa está acima de tudo nesta elefantíase legislativa que permite aos operadores fazerem fraudes à justiça em nome da lei, face à manta de retalhos em que se transformou o chamado ordenamento jurídico. Julgo que um qualquer José Alberto dos Reis chamado por um qualquer Manuel Rodrigues permitiria que a democracia fosse superior à Ditadura em matérias de técnica judiciária. As corporações e os sindicatos devem ser postos nos seus devidos lugares de meras sociedades imperfeitas que não podem ser especialistas nos assuntos do todo, coisa que apenas cabe à sociedade política, através daquilo a que chamamos Estado. Quando os principais representantes dos corpos especiais em que vamos despedaçando a unidade da república, mal-habituados ao mediático, continuam a cair na rasteira do falso populismo, é de temer que cresça este enrodilhar de discursos e de promessas, para que novas frustrações gerem ainda mais revoltas, que não serão cerceadas se se mantiver o mero malabarismo vocabular, ou conceitual, com que continuamos a encanar a perna à rã. Porque a crescente despolitização do Estado tanto não levou a menos Estado como também não produziu um melhor Estado, dado que fez com que as gorduras neocorporativas crescessem em adiposidades dilatórias, ao mesmo tempo que foram inchando o peito de ar os monstros da corrupção, os quais só podem ser debelados por aquela energia que dimana da confiança pública, coisa que nunca acontecerá se continuar a grassar o indiferentismo, o cansaço e o desencanto.

Mar 03

Pela teoria consensualista democrática! Vivam as crianças!

Não vou argumentar teologicamente, invocando escritos de muitos católicos e professores de teologia católica que adoptam a minha postura. Não citarei retroactivamente as teorias de São Tomás de Aquino sobre a matéria da “hominização tardia” ou a concepção de espermatzóide que o cientificismo ainda tinha no século XIX. Tal como seria estúpido chamar a atenção para o secular caminho que levou à luta das mulheres pelo direito à igualdade, contra aqueles que as consideraram como “res impudica”. Digo apenas que seria melhor estudarmos as causas que levam os nossos serviços públicos de saúde a não aplicarem a lei vigente sobre a interrupção voluntária da gravidez, da mesma maneira como o fazem os espanhóis. Os religiosos não têm o monopólio da moral. Os moralistas não podem invocar dogmaticamente certos fragmentos científicos e difundi-los de forma terrorista. Direi que, sobre a matéria, a humanidade inteira está numa encruzilhada que não pode ser resolvida por polícias, tribunais e cadeias, mas por todos, incluindo filósofos, teólogos, cientistas, juristas, politólogos e homens e mulheres comuns. É um problema de cultura, não é um problema de biologia. Porque ser pessoa é algo que o homem acrescentou à natureza quando superou o animal que tem dentro de si e descobriu o infinito. Não sou relativista, acredito que somos um transcendente situado. E digo que a esfera pública não pode invadir o espaço da minha autonomia, desde que entenda a mesma autonomia como um implacável espaço de regras próprias. Apenas defendo que a utilização de métodos contraceptivos e a decisão moral sobre a interrupção voluntária da gravidez, no espaço de tempo que as leis das “nações polidas, cristãs e civilizadas” consensualizaram, devem pertencer à ciência dos actos do homem enquanto indivíduo e não à heteronomia estadual. Com isto, não me atirem para o campo dos abortadeiros que, algumas vezes, parecem mais interessados na defesa dos linces, aranhas e lobos do que na defesa do bicho homem, principalmente num país como o nosso que se vai suicidando por não colocar a defesa do direito à vida como a prioridade das prioridades. Mas será que reparamos na hipocrisia de não haver tanta quebra demográfica por causa da gravidez das adolescentes? Será que efectivamente defendemos a maternidade? O desastre demográfico que se avizinha devia ter outra resposta. E não vale a pena inventarmos o que já está inventado, nem descobrirmos o que já está descoberto. Copiemos imediatamente leis e sistemas de apoio, já consagrados no Canadá, na Suécia e na Noruega, visando o pagamento estadual a mães, pais, avós ou até empregados que queiram utilizar a casa de família para o apoio às crianças e não digamos que estamos a repetir o “Deus, Pátria, Família” do salazarismo, insinuando que o papel das mulheres é o “K, K, K” de má memória (crianças, cozinha e igreja). Se efectivamente fossem perseguidas e condenadas todas as mulheres que, entre nós, praticam o aborto clandestino, o que o Estado gastaria em tal internato prisional serviria para sustentar esse subsídio e muito mais. E que tal o nosso Estado apoiar os tratamentos contra a infertilidade, da mesma maneira como subsidia os antidepressivos? Não, não sou relativista. Apenas julgo que as leis, sobretudo as leis criminais, têm que optar por valores, hierarquizando-os, comunitariamente. E qualquer observador das práticas sociais pode concluir que, nestes domínios, vale mais a profilaxia do que a terapêutica, isto é, vale mais prevenir do que remediar. Ora, quando assistimos ao colossal desastre da sangria de um povo, há que ter a coragem de inverter o discurso e assumir as grandes conquistas da luta pela liberdade, consagradas depois do século XVIII e das grandes revoluções evitadas como foram as liberais. As tais grandes conquistas que deceparam teocracias e inquisições, que aboliram a escravatura, que consolidaram a soberania popular, o pluralismo, a tolerância, a liberdade religiosa e a igualdade de oportunidades, nomeadamente a da mulher e do homem. Que o século XXI possa ser o século da criança! Apenas acrescento: se a direita lusitana se restringir ao duvidoso conceito de hominização do feto que, neste momento, é adoptado pelo Vaticano e que não me vincula, porque não sou católico, que tal direita fique no seu lugar. Quem está mal, muda-se! Há muitas outras direitas e muitos outros lugares desta Europa e deste Ocidente que me deixam lá ter espaço de combate pelo meu conceito de direito à vida.

Mar 02

Sobre os mesmos cânones, há interpretações diversas

Sobre os mesmos cânones, há interpretações diversas, conforme o púlpito do eclesiástico que emite o sermão. Tal como sobre o conceito de direito à vida. Porque, no rigor da postura católica, a própria lei vigente permite “a morte de seres humanos inocentes”. Julgo que quem quer ser católico deve obedecer às regras da instituição e defender os respectivos valores e admito que, no foro especial da respectiva autonomia, sejam punidos espiritualmente os que cometem aquilo que consideram infracções. Julgo que, a nível do Estado e da lei penal, não podemos ficar dependentes de tais concepções do mundo e da vida. De outra maneira, não tardará que aqueles que pisam os terrenos da heresia possam ser relaxados para o braço secular. A Deus o que é de Deus, a César o que é César e nem aos agentes de Deus nem aos de César pode pertencer tudo! Ainda não voltámos a Bizâncio…

Mar 02

O país mais à esquerda da Europa, o nosso

O país mais à esquerda da Europa, o nosso, onde começa a tornar-se preocupante o consumo de antidepressivos e antibióticos pelos que daqui não podem escapar, para poderem ser portugueses à solta, parece ter jornais que se preocupam em estabelecer a lista dos mendistas, menezistas, portistas e monteiristas, por causa dos cavaquistas, santanistas, barrosistas, freitistas e adrianistas, bem como de outras faunas e “troupes” da nossa fragmentária e feudal decadência. Se continuarmos a feudalizar-nos em contabilidades suicidas de quem trocou os princípios pelo neo-maquiavelismo dos pretensos homens e mulheres de sucesso; se continuarmos a não reparar como as modas do pimba, depressa, passam de moda, mesmo em tempo de saldos político-mediáticos, culturais ou morais, até poderemos assistir a novos programas televisivos com uma grande mesa dos comentadores teológicos sentados à volta do memorial do convento a comentar Maria Madalena, assim se demonstrando como o serviço público da RTP não sabe encontrar em Portugal suficientes universitários isentos de eclesiasticismo que sejam especialistas no simbólico e que possam cumprir a exigência de pluralismo que é imposta pelo conceito de serviço público. Isto, na terra de Fernando Pessoa, do Padre António Vieira e da Ordem de Cristo. A Santa Inquisição fez os seus efeitos.

Mar 01

Direitas

Depois de tanta bebedeira de politiqueirismo fulanista, não apetece agora gastar o que resta de meu verbo, contabilizando as hipóteses desta direita que resta e que anda à procura de autor, enquanto vai preferindo os órfãos e as viúvas dos presentes ausentes-presentes, trocando o necessário investimento no longo prazo pelo lucro imediato do eleitoralismo autárquico e presidencial. Só que o povo percebeu indeferiu liminarmente esta moluscular oferta. Porque a personalização do poder se revelou um fracasso e as “marcas” oferecidas, enquanto modas, passaram de moda. A atracção pela mediacracia e a ilusão populista levaram ao olvido de algumas importantes propostas. Há três direitas que saíram derrotadas: a direita que teme o povo; a direita que teme os pretensos agentes de Deus; e a direita teimosa. Quem também perdeu foi o Portugal mais profundo e esquecido, o dos habitantes das aldeias e das vilas, chamados pagãos e vilãos pela onda unidimensionalizadora de uma ilusória civilização urbanóide que pretende eliminar as nossas memórias e valores de resistência e colonizar-nos de acordo com a doutrina de um pensamento único que quer aprisionar o homem livre. Os capitaleiros que geram sempre legiões de mentecaptos e os louvaminheiros de lideranças personalizadas ainda por aí circulam em glosas e comentários. E até é possível que centrais ocultas se dispersem pelas engrenagens e influenciem o todo de forma eficaz, impedidno o reconhecimento de alguns símbolos regeneradores.