Intelectuais. Neofeudalismo. Servidão voluntária

Faço parte daquela imensa maioria de portugueses que estão cansados do gato por lebre em que se tem partido o ritmo da participação política desta democratura. Com efeito, os ínvios caminhos da servidão voluntária que vão esmagando os canais da democracia representativa, principalmente a nível da partidocracia, a nível de grandes, médios e pequenos, incluindo os pequeninos que querem fazer o jogo dos velhos e grandes, impedem que todos os que conhecem de forma experimentada ou científica os meandros do poder, principalmente quanto à face invisível da políticam estejam dispostos a aturar as sucessivas barreiras de falta de autenticidade, protagonizados pelos homens, mulheres e jotas do aparelhismo vigente. Está em causa a proibição do prazer da missão cívicam o sentido de enraizamento cultural e a própria criatividade individual. Tanto têm culpas os arquitectos do sistemismo vigente, desde os constitucionalistas aos ordinários legisladores, como os sucessivos executivos da máquina, porque todos foram transformando as mesmas em rotinas degenerativas. Já não temos apenas a velha corrupção do negocismo, onde abundam os jagunços e patos bravos, esses que foram ocupando, anos a fio, os interstícios do aparelhismo, mas também a própria corrupção dos ditos intelectuais, incluindo os que fazem discursos contra a primeira forma de corrupção. Surgiu, com efeito, uma casta de “intelectuários” que deram corpo a uma nova forma de “intelligentzia”, esse pretensa nova classe que se assume como uma espécie de clube fechado, onde abundam os que, sem carreira de legal “cursus honorum”, mas com todo o carreirismo, vivem endogamicamente na subsidiodependência desse sindicato de citações mútuas que elevou a cunha  ao requinte dos clubes de reservado direito de admissão. Uma zona que não é passível de análise pelas velhas lentes da teoria da conspiração, onde tudo se continua a explicar pelas invocações protectivas dos maçons e “opus Dei”, dado que talvez importe detectar outros modelos de feudalização, bem mais eficazes.  Julgo que está fundamentalmente em causa o medo que muitos sentem pelo abismo do proletariado intelectual, num país onde ninguém consegue viver dos produtos do respectivo pensamento, do literário e artístico ao científico. Basta notarmos as bichas do encómio que notáveis artistas, homens de letras e jornalistas fazem às portas de certas fundações e de outros locais de distribuição da prebenda, coisa que afecta o próprio sistema público de financiamento da chamada investigação científica, onde ninguém avalia os avaliadores oficiais. Basta notar como muitos têm transformado a zona das ciências sociais e humanas e novas formas de ciências ocultas, principalmente quando gente nomeada partidariamente se deixa enredar nas teias da sedução de certos pretensos gurus de mão bem sujas, nomeando-se gente sem curriculum apenas por fidelidades pessoais, alguns dos quais sem um único grau de suor na área onde distribuem tostões. Quando a influência da despudorada partidarite afecta a nomeação de altos gestores da banca do Estado e da própria investigação científica, não é de estranhar que o favoritismo e o nepotismo ocupem escalões dos pequenos poderes autárquicos, empaturrando esta feira das vaidades em que se tornou a senhora dona política, de um Portugal cada vez mais sujeito às golpadas dos influentes do nosso terceiromundismo mental, desses que se fazem Mecenas com os dinheiros públicos. Contudo, tudo se disfarça no higiénico de um qualquer relatório tecnocrático e no discursos de requentadas abstraccionices de pretensos pais da pátria, da ciência, da cultura e da universidade, os quais irão, dentro de meses marcar as comissões de honra das candidaturas de outros mais altos pais da pátria, neste neofeudalismo que marca a presente desorganização bem organizada pelo interesseirismo.

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