Quando o país, dito profundo, se vai ardendo

Quando o país, dito profundo, se vai ardendo, com dezenas de “ignições” ditas por negligência e as belas metas dos frescos e formosos montes passam a colinas calcinadas e a montes calvos de cinza, a revolta defensiva das populações, com mangueiras e ramos verdes, em vez de chuços e sachos, se mostra ineficaz para defender a terra, eis que os ministros que não andam nos safris, sempre interrompem suas férias e enfrentam bronzeadamente as câmaras e os microfones, usando as palavras contidas politiqueiras da promessa que para o ano é que é e que afinal podia ter sido pior, dado que as casas queimadas até serão repostas graças ao crédito que foi imediatamente aberto bonificadamente pelo senhor ministro das finanças. A classe política anda mais preocupada com os efeitos do mensalão e com a nova gestão dos nacionalizadamente nossos daquilo que foi a caixa e agora é a Santa Casa misericordiosa do Bloco Central, onde até as mulheres de outros banqueiros podem ser consultoras culturais, nesse circunspecto sindicato dos gestores das arcadas, dado que neste país, seguindo um dito de Afonso Costa, continua a haver muitos pés e poucas botas, abundando ex-ministros e ex-deputados de pé ao léu, porque são mais os “boys” do que os “jobs”, face a essa imensa fauna de assessores, adjuntos e amigos de escola que cirandam e circundam feudalmente os raros nomeados, nomeáveis e cunháveis dessa casta banco-burocrática, como Antero de Quental chamou aos rotativos da Regeneração.  Tal como antes Garrett denunciou os barões do devorismo e, depois, Oliveira Martins clamou contra os influentes, quando os chefes dos regeneradores e dos progressistas se substituíam mutuamente na gestão do Crédito Predial. Coisa que não acabou com as companhias da I República e que se perpetuou com os administradores por parte do Estado durante o salazarismo, nessa eterna caça ao tacho e de criação de estados dentro do Estado, onde o venha a nós o vosso reino transforma a política na suprema pulhítica. A falta de autenticidade da chamada “pantouflage”, que faz, da casta banco-burocrática, a almofada para o desemprego dos políticos profissionais, se não é inédita, dado que existiu noutros momentos da nossa história e se nota noutras realidades políticas dos tempos que passam, torna-se mais caricata nas presentes circunstâncias portuguesas, abrangendo tanto entidades bancárias privadas, como até espaços ditos culturais das fundações, amplamente subsidiada pelos poderes públicos, para não falarmos dos sacos de subsídios de certos gabinetes ministeriais, mais propícios à avença e à consultadoria técnica.

 

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