Eu, que me aproximo mais da Cabala que do Corão

Eu, que me aproximo mais da Cabala que do Corão, não acho graça nenhuma a quem não repara que a política consensualizada da República Portuguesa é bastante coincidente com aquilo que, sobre a matéria, tem sido proclamado pelo Bispo de Roma (neste momento, Bento XVI). Ambas as entidades defendem a criação de um Estado Palestiniano que garanta o Estado de Israel.

As quatro parangonas do “i” de amanhã são bem achadas. Os ovos ficam caros para quem os quer atirar aos ministros. A procissão de Mação dói. Ferreira Leite pesa e mede. Louçã continua Francisco. E a venda do mar a retalho, do mar salgado, pode fazer as lágrimas de Portugal:

Não gosto destes anúncios de viagens de intervenção, quase em regime de intervencionismo. A força usa-se. Sem propaganda.Para bem das escolhas populares de Bissau, em cooperacao

O quinquagésimo secretário da reforma administrativa desde que Marcello Caetano, como ministro da presidência, há mais de cinquenta anos, elevou a coisa a direcção geral, promete levar a matéria a conselho de ministros, embora se queixe da avaria dos Magalhães. Nova comissão parlamentar de inquérito já prometeu estar atenta.

O problema da política em Portugal está na rede dos que nela confluem, dos actores, dos guionistas, dos recensores e das claques. Os que vão a tal teatrocracia andam entre contínuos, operadores de reprografia, impedidos e emplastros. E os chefes das comadres e compadres, do país oficial, odeiam que se eleve o nível de exigência, não vá alguém descobrir que, há muito, as chefaturas atingiram o princípio de Peter. É a chamada tirania do “status quo”, ou melhor, a ditadura da incompetência, a dos salazarentos que continuam a usurpar o sistema, julgando que os nomes correspondem à coisa nomeada.

O meu pessoal e intímo desejo é que se cumprissem os princípios gerais de direito, a hierarquia clássica da legalidade, isto é, a lei acima do regulamento, porque seria pedir demais aos politiqueiros e burocratas que acedessem ao Estado de Direito e cumprissem a Constituição. Basta o curto-circuito de uma comichão ornada com o filho do coiso e um protegido do mesmo coiso, para que as viúvas da coisa continuem a propagar o vérmico da contrafacção.

Cá vou meditando na diferença que separa a ética de um militante de causas da ética da razão dita de Estado. Como professor, dessa coisa universitária a quem chamam clube dos poetas mortos, estou sempre do lado do poder dos sem poder. Julgo que apenas tento cumprir o meu dever. O magistério, o que vem de “magis”, nada tem a ver com ministério, o que vem de “minis”.

Todos os golpes de Estado querem ser sempre legitimados “a posteriori”. O 28 de Maio plebiscitou Carmona em 1928. Depois do 28 de Setembro até elegemos um presidente com apenas o voto de um par. E foi preciso o 25 de Novembro para que se cumprisse o voto popular de 25 de Abril de 1975. Noutros pequenos micro-autoritarismos sub-estatais continua a plebiscitar-se o golpe prévio, superiormente ratificado pela conveniência e pela oportunidade. Não é apenas na foz do Geba que funciona o conselho dos oligarcas de ocasião.

Sobre o alerta que ontem emiti, quanto ao Hugo Leal, verdade já pode ser dita: a máquina do Estado português e das instituições europeias parece ter defendido um cidadão, português e europeu, e um universitário, neste caso, europeu.

Convém não darmos tempo de antena a assassinos. Mesmo que sejam da Noruega. Pior ainda: com imagens.

“Pudemos entrar para lhe entregar os medicamentos…Ele está bem como uma pessoa pode estar bem nestas circunstâncias. É uma situação sem dúvida muito complicada para ele.” O candidato a presidente, vencedor da primeira volta. Na Guiné.

No tempo em que havia chefes de posto, os crimes prescreviam quando o chefe de posto chegava a chefe dos chefes de posto e, por postura circular, interpretava a lei e violava o direito, porque nunca soube o que era justiça e achava poética, e pouco política, essa do nem tudo o que é lícito é honesto. No eterno processo otomano, que Hannah Arendt qualificava como governo dos espertos, parece que até devemos agradecer o facto de não termos sido assassinados, embora tentassem. Os chefes de posto mudaram de nome quando um deles foi supremo e procedeu a adequada requalificação de carreiras, como muitas notações, para que, decretinamente, uma coisa seja o regulamento para os amigos e outra para os inimigos. Quem ainda não acredita, confirmará, quando já estivermos todos chagados.

Nos últimos doze anos, há uma diminuição de católicos (de 86,9% da população para 79,5%), duplicou a percentagem de pessoas com uma religião diferente da católica (2,7% em 1999 para 5,7%), assim como cresceu o número de pessoas sem qualquer religião (de 8,2% para 14;2%), um aumento que se sentiu em todas as categorias: os indiferentes passaram de 1,7 para 3,2; os agnósticos de 1,7 para 2,2 e os ateus de 2,7% para 4,1%. Raio de contas: eu não sou indiferente, tal como não sou agnóstico nem ateu. E não integro os de religião, seja católica, ou diferente da católica. Logo, não faço parte dos 100%.

Quando ouço e vejo o palrar dos papagaios, do europeísmo cá-cá-rá-cá, desligo. Prefiro reflectir no paradoxo do golpe da Guiné-Bissau. Cá-cá-rá-cá. “Na primeira metade do século passado, o grande poeta português Fernando Pessoa, inconformado com a situação, no seu país, em que “ninguém sabia que coisa queria, nem conhecia que alma tinha”, convocava o seu país e a sua gente, com um grito que ecoa, até hoje, no coração dos portugueses, nas horas difíceis: “Ó Portugal… é a Hora!”. Quero saber como é que a bota vai bater com a perdigota…

 

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