Jan 25

Nem tudo o que é lícito é moralmente recomendável ou politicamente exemplar

Neste fim de semana, com três sucessivas intervenções na TSF, na Sic-Mário Crespo e no Rádio Clube Português, em todas elas fui apanhado pelos dejectos do caso de polícia que faz as primeiras páginas. A situação pantanosa e os muitos tabus, dependentes do equilíbrio dos queijos limianos, de mais um ou de menos um deputado, com o parlamento ao ritmo de RGA, são péssimos sinais de um tempo que exige uma governança assente na confiança pública, para que toda a república possa ser mobilizada para o bem comum. Não podemos continuar dependentes de cartas rogatórias das autoridades britânicas, as mesmas que mandaram matar Gomes Freire ou que enredaram um anterior chefe do governo num escândalo, o do “affidavit”, que enlameou Costa Cabral e a rainha D. Maria II.

Por causa de toda esta fumarada, não reparámos na falência da Quimonda nem tivemos suficiente altura para acompanharmos a esperança de Obama. Porque, mesmo sabendo que uma andorinha em Washington não faz a Primavera, nem por isso era de preferir a continuação dos abutres. E recordando os norte-americanos, talvez fosse útil lembrar que foi o jornalismo de investigação que denunciou o Watergate, mas que tais “mass media” não conseguiram vislumbrar o lado negro de John Kennedy, hoje provado.

Do Freeport, apenas apetece voltar a glosar Cícero: nem tudo o que é lícito é moralmente recomendável ou politicamente exemplar. Guterres, com Sócrates, tal como Santana, com a febril actividade de despachos nos últimos segundos de vida de um governo de gestão, devem ser banidos como paradigmas. Porque, um quarto de hora antes de morrerem, todos os governos devem não pisar tanto as fronteiras do ilícito como as do politicamente reprovável, ou do moralmente execrável, em termos cívicos. Até porque não são os magistrados que os podem absolver em termos políticos ou morais. Um Estado de Direito não é apenas um Estado de Legalidade, como pode ser uma ditadura. O despacho depende do regulamento, este depende da lei, a lei está abaixo do direito, o direito é irmão da política e ambos dependem da justiça, da tal justiça que implica uma moralidade cívica, uma moral de costumes, uma way of life marcada pelo alterum non laedere, pelo suum cuique tribuere e, acima de tudo, pelo honeste vivere, onde o honesto não tem a ver com o certificado passado pelo regedor da paróquia, mas antes com o imperativo categórico, não medido pelo meramente útil, mas pelo actua de tal maneira que, da tua conduta, se possa extrair um exemplo de vida.

A própria prudência deve aconselhar os ministros em gestão a não despacharem os maiores “outlets” e e “casinos” da Europa nesse tempo de vésperas. Porque, depois, ficam todos enlameados, mesmo que não tenham pessoalmente rabos de palha. Valia mais que os grupos de pressão e os grupos de interesse fossem legalizados e actuassem à luz do dia, como nos Estados Unidos ou no Parlamento Europeu. Valia mais que os promotores do Freeport ou os Casinos de Stanley Ho pudessem ter contratado lóbis registados, em vez de servirem de pretexto para a nossa Dona Maria da Cunha da endogamia e da sociedade matriarcal, plena de tios e sobrinhos, cunhados e genros, onde o que parece acaba por enredar alguns que não devem ter nada a ver com as trapalhadas. E quem atirar pedrados aos telhados de vidro do vizinho ou adversário pode chegar a casa e achar as suas vidraças totalmente quebradas.

Por mim, confesso, não se me afigura que Sócrates possa estar envolvido em recebimentos e pagamentos, do género dos insinuados, de forma directa ou indirecta. As eventuais imoralidades ou irregularidades políticas têm sido pasto em todos os governos de todas as áreas políticas. Até acredito que Sócrates quis continuar a ser um gajo porreiro, ao ceder ao pedido do tio, ou do camarada autarca, naturalmente interessado em trazer para o seu concelho aquele investimento.

Infelizmente, todos actuaram em terreno minado pelo mau ambiente e sofrem agora os efeitos da desfragmentação. De qualquer maneira, o jornalismo de investigação cumpriu o respectivo dever. As polícias e os magistrados, ao investigarem, depois de novos impulsos processuais, eventualmente vindos da cooperação judiciária europeia, também não se detiveram perante a figura de um político com a dimensão do primeiro-ministro. E o PGR fez bem ao acordar o que estava no limbo. Tal como quase todos os meios de comunicação social seguiram o evento, com anteriores comentadores de simpatias socráticas, a enunciarem críticas dolorosas para o chefe. Isto é, a democracia ganhou e o governo PS, apesar de muitos propagandismos e alguns intervencionismos mais esquisitos, merece ser elogiado pela co-responsabilização face ao actual perfil de magistraturas e de polícias, mesmo que não concordemos com o modelo, dado que preferimos o norte-americano, com um ministro da justiça politicamente responsável que fosse procurador-geral, com um programa de política do direito, à maneira do pretor da república romana … sempre era melhor do que sofrer ataques de fugas de informação, manejadas por agências de comunicação de lóbis, que eventualmente recrutem ex-assessores de imprensa, ex-espiões e ex-polícias para campanhas negras, segundo o ritmo neopidesco.

 

Porque estamos perante um caso de polícia. E é desgradável que a pessoa do primeiro-ministro de Portugal sofra as consequências de uma sociedade endogâmica e matriarcal, entre a D. Maria da Cunha e muito nepotismo em sentido etimológico. Para bem de todos, seria conveniente que, a curto prazo, ele conseguisse libertar-se das insinuações. Porque se ele deve ser atacado politicamente, é totalmente cobarde que o seja pela estratégia indirecta de certo inquisitorialismo e certo neopidismo de que também já foi vítima, nomeadamente com a campanha de boatos que o tentou despudoradamente destruir na última campanha eleitoral.

Jan 25

Nem tudo o que é lícito é moralmente recomendável ou politicamente exemplar

Neste fim de semana, com três sucessivas intervenções na TSF, na Sic-Mário Crespo e no Rádio Clube Português, em todas elas fui apanhado pelos dejectos do caso de polícia que faz as primeiras páginas. A situação pantanosa e os muitos tabus, dependentes do equilíbrio dos queijos limianos, de mais um ou de menos um deputado, com o parlamento ao ritmo de RGA, são péssimos sinais de um tempo que exige uma governança assente na confiança pública, para que toda a república possa ser mobilizada para o bem comum. Não podemos continuar dependentes de cartas rogatórias das autoridades britânicas, as mesmas que mandaram matar Gomes Freire ou que enredaram um anterior chefe do governo num escândalo, o do “affidavit”, que enlameou Costa Cabral e a rainha D. Maria II. Por causa de toda esta fumarada, não reparámos na falência da Quimonda nem tivemos suficiente altura para acompanharmos a esperança de Obama. Porque, mesmo sabendo que uma andorinha em Washington não faz a Primavera, nem por isso era de preferir a continuação dos abutres. E recordando os norte-americanos, talvez fosse útil lembrar que foi o jornalismo de investigação que denunciou o Watergate, mas que tais “mass media” não conseguiram vislumbrar o lado negro de John Kennedy, hoje provado. Do Freeport, apenas apetece voltar a glosar Cícero: nem tudo o que é lícito é moralmente recomendável ou politicamente exemplar. A febril actividade de despachos nos últimos segundos de vida de um governo de gestão, deve ser banida como paradigmas. Porque, um quarto de hora antes de morrerem, todos os governos devem não pisar tanto as fronteiras do ilícito como as do politicamente reprovável, ou do moralmente execrável, em termos cívicos. Até porque não são os magistrados que os podem absolver em termos políticos ou morais. Um Estado de Direito não é apenas um Estado de Legalidade, como pode ser uma ditadura. O despacho depende do regulamento, este depende da lei, a lei está abaixo do direito, o direito é irmão da política e ambos dependem da justiça, da tal justiça que implica uma moralidade cívica, uma moral de costumes, uma way of life marcada pelo alterum non laedere, pelo suum cuique tribuere e, acima de tudo, pelo honeste vivere, onde o honesto não tem a ver com o certificado passado pelo regedor da paróquia, mas antes com o imperativo categórico, não medido pelo meramente útil, mas pelo actua de tal maneira que, da tua conduta, se possa extrair um exemplo de vida. A própria prudência deve aconselhar os ministros em gestão a não despacharem os maiores “outlets” e e “casinos” da Europa nesse tempo de vésperas. Porque, depois, ficam todos enlameados, mesmo que não tenham pessoalmente rabos de palha. Valia mais que os grupos de pressão e os grupos de interesse fossem legalizados e actuassem à luz do dia, como nos Estados Unidos ou no Parlamento Europeu. Valia mais que os promotores do Freeport ou os Casinos de Stanley Ho pudessem ter contratado lóbis registados, em vez de servirem de pretexto para a nossa Dona Maria da Cunha da endogamia e da sociedade matriarcal, plena de tios e sobrinhos, cunhados e genros, onde o que parece acaba por enredar alguns que não devem ter nada a ver com as trapalhadas. E quem atirar pedrados aos telhados de vidro do vizinho ou adversário pode chegar a casa e achar as suas vidraças totalmente quebradas. Por mim, confesso, não se me afigura que o chefe do governo possa estar envolvido em recebimentos e pagamentos, do género dos insinuados, de forma directa ou indirecta. As eventuais imoralidades ou irregularidades políticas têm sido pasto em todos os governos de todas as áreas políticas. Até acredito que o nossos primeiro quis continuar a ser um gajo porreiro, ao ceder ao pedido do tio, ou do camarada autarca, naturalmente interessado em trazer para o seu concelho aquele investimento. Infelizmente, todos actuaram em terreno minado pelo mau ambiente e sofrem agora os efeitos da desfragmentação. De qualquer maneira, o jornalismo de investigação cumpriu o respectivo dever. As polícias e os magistrados, ao investigarem, depois de novos impulsos processuais, eventualmente vindos da cooperação judiciária europeia, também não se detiveram perante a figura de um político com a dimensão do primeiro-ministro. E o PGR fez bem ao acordar o que estava no limbo. Tal como quase todos os meios de comunicação social seguiram o evento, com anteriores comentadores de simpatias socráticas, a enunciarem críticas dolorosas para o chefe. Isto é, a democracia ganhou e o governo PS, apesar de muitos propagandismos e alguns intervencionismos mais esquisitos, merece ser elogiado pela co-responsabilização face ao actual perfil de magistraturas e de polícias, mesmo que não concordemos com o modelo, dado que preferimos o norte-americano, com um ministro da justiça politicamente responsável que fosse procurador-geral, com um programa de política do direito, à maneira do pretor da república romana … sempre era melhor do que sofrer ataques de fugas de informação, manejadas por agências de comunicação de lóbis, que eventualmente recrutem ex-assessores de imprensa, ex-espiões e ex-polícias para campanhas negras, segundo o ritmo neopidesco. Porque estamos perante um caso de polícia. E é desgradável que a pessoa do primeiro-ministro de Portugal sofra as consequências de uma sociedade endogâmica e matriarcal, entre a D. Maria da Cunha e muito nepotismo em sentido etimológico. Para bem de todos, seria conveniente que, a curto prazo, ele conseguisse libertar-se das insinuações. Porque se ele deve ser atacado politicamente, é totalmente cobarde que o seja pela estratégia indirecta de certo inquisitorialismo e certo neopidismo de que também já foi vítima, nomeadamente com a campanha de boatos que o tentou despudoradamente destruir na última campanha eleitoral.

Jan 23

Pelo verdadeiro método de estudar e a “ratio studiorum”…

Pouco me interessam os resultados da votação parlamentar de hoje, não me entusiasmam as especulações sobre as buscas policiais de ontem, nem sequer vale a pena glosar o confronto entre as palavras de Mário Soares de ontem e as respostas de Vitalino Canas, de hoje. Interessa ir além da espuma dos combates políticos conjunturais, marcados pelo ritmo dos queijos limianos. Vale mais notarmos que, além dos bailados de Mário Nogueira e do secretário de Estado vindo da Beira Interior, há um inequívoco conflito entre o aparelho de Estado e toda uma ordem profissional, onde as concepções dominantes numa máquina centralizadora são quase unanimente rejeitadas pelo que era uma certa autonomia institucional.
Por outras palavras, o aparelho de Estado, na sua sanha de uniformização centralista, procura unidimensionalizar, em nome de uma qualquer tradução em calão, uma variedade nascida de quem faz da profissão de professor uma espécie de missão, e não apenas o pretexto para um posto de vencimento. Assistimos a mais um capítulo do processo de desinstitucionalização em curso, levado a cabo por ex-revolucionários que estiveram e estão no lugar errado da história, quando agora, transformados em ministros e secretários de Estado, voltam à estadualização centralista de uma das velhas autonomias da sociedade civil, transformadas em grandes corpos do Estado. Sem notarem, voltam a actuar como o falecido absolutismo e quase parece que regressa o Marquês de Pombal, com a sua Dedução Cronológica e Analítica, onde, afinal, os novos fantasmas jesuíticos são todos os professores, incluindo os universitários. Isto é, retomamos, com alguns anos de atraso, certo neojacobinismo francês contra a autonomia daquilo que além-Pirinéus era a autonomia do ensino privado, nomeadamente das escolas católicas.

Mesmo com inequívocos erros propagandísticos dos sindicatos dos professores, que, através do comunista Mário Nogueira, caíram na esparrela de transmitir a imagem dos professores contra a avaliação, só porque dialogaram em guerra com o secretário de Estado da Beira Interior, que foi sancionado em anteriores funções políticas autárquicas, por falta de comparência, só porque não aplicaram a disciplina partidária. A este triste espectáculo, a governança continua a responder com a velha táctica do menino birrento, do tal que pensou vencer a guerra da co-incineração de Souselas, mas cujas leis, passados tantos anos, ainda não foram aplicadas pelo paladino.

Prefiro recordar que este governo é o mesmo que paralisou toda a Universidade, sitiando-a por inúmeras lutas pelo poder e pelo carreirismo. É o mesmo que suspendeu todo o anterior sistema de avaliação do ensino dito superior, em mais uma operação de desinstitucionalizaçãõ, feita em nome de um eventual novo esquema reformista, talvez de um qualquer SIADAP, que só poderá ser integralmente aplicado dentro de alguns anos. Isto é, nesta febre de mudanças, surgem sempre piores emendas reformistas do que o anterior soneto envelhecido.

O mal destas reformas tem a ver com a falta de ideias de obra e a ausência de manifestações de comunhão, só mobilizáveis pela gestão motivacional do bem comum. E a crise espiritual resulta da invasão dos tecnocratas, dos tais educacionólogos e avaliólogos, uma fauna ornitológica que está a destruir tanto a educação nacional como a própria instrução pública, em nome de uma nebulosa reforma pela reforma que não passa de mera tradução em calão de reformas estranhas à nossa índole e à nossa experimentação. Umas traduções em calão que nem sequer são dignas daqueles antigos estrangeirados do verdadeiro método de estudar, ou da “ratio studiorum” dos jesuítas, dos que souberam nacionalizar tendências importadas.

Valia mais voltarmos ao conhecimento modesto sobre tais coisas supremas, valendo-nos da experiência e do amor à arte dos professores e dos pais, dos professores que têm vocação para professores e das escolas que precisam de voltar a ser integradas nas comunidades que devem servir. É por isso que vou tratar de reler as páginas antigas, mas não antiquadas, de Coménio ou do nosso António Sérgio, desse misto de idealismo e de didáctica que não visa a criação de centros de formação profissional de sargentos verbeteiros e de mangas de alpaca. Pouco me interessa a vitória ou derrota da moção de desconfiança por mais um ou menos um deputado. Por mim, caso me tirassem a profissão e a missão de professor sentir-me-ia assassinado. E para a semana tenho aulas que vou continuar a preparar. As rodriguinhas, os gagos e os sócras passam, as escolas continuam, em nome da Academia de Platão ou do Liceu de Aristóteles.

Jan 23

Pelo verdadeiro método de estudar e a “ratio studiorum”…

Pouco me interessam os resultados da votação parlamentar de hoje, não me entusiasmam as especulações sobre as buscas policiais de ontem, nem sequer vale a pena glosar o confronto entre as palavras de Mário Soares de ontem e as respostas de Vitalino Canas, de hoje. Interessa ir além da espuma dos combates políticos conjunturais, marcados pelo ritmo dos queijos limianos. Vale mais  notarmos que, além dos bailados de Mário Nogueira e do secretário de Estado vindo da Beira Interior, há um inequívoco conflito entre o aparelho de Estado e toda uma ordem profissional, onde as concepções dominantes numa máquina centralizadora são quase unanimente rejeitadas pelo que era uma certa autonomia institucional. Por outras palavras, o aparelho de Estado, na sua sanha de uniformização centralista, procura unidimensionalizar, em nome de uma qualquer tradução em calão, uma variedade nascida de quem faz da profissão de professor uma espécie de missão, e não apenas o pretexto para um posto de vencimento. Assistimos a mais um capítulo do processo de desinstitucionalização em curso, levado a cabo por ex-revolucionários que estiveram e estão no lugar errado da história, quando agora, transformados em ministros e secretários de Estado, voltam à estadualização centralista de uma das velhas autonomias da sociedade civil, transformadas em grandes corpos do Estado. Sem notarem, voltam a actuar como o falecido absolutismo e quase parece que regressa o Marquês de Pombal, com a sua Dedução Cronológica e Analítica, onde, afinal, os novos fantasmas jesuíticos são todos os professores, incluindo os universitários. Isto é, retomamos, com alguns anos de atraso, certo neojacobinismo francês contra a autonomia daquilo que além-Pirinéus era a autonomia do ensino privado, nomeadamente das escolas católicas. Mesmo com inequívocos erros propagandísticos dos sindicatos dos professores, que, através do comunista Mário Nogueira, caíram na esparrela de transmitir a imagem dos professores contra a avaliação, só porque dialogaram em guerra com o secretário de Estado da Beira Interior, que foi sancionado em anteriores funções políticas autárquicas, por falta de comparência, só porque não aplicaram a disciplina partidária. A este triste espectáculo, a governança continua a responder com a velha táctica do menino birrento, do tal que pensou vencer a guerra da co-incineração de Souselas, mas cujas leis, passados tantos anos, ainda não foram aplicadas pelo paladino. Prefiro recordar que este governo é o mesmo que paralisou toda a Universidade, sitiando-a por inúmeras lutas pelo poder e pelo carreirismo. É o mesmo que suspendeu todo o anterior sistema de avaliação do ensino dito superior, em mais uma operação de desinstitucionalizaçãõ, feita em nome de um eventual novo esquema reformista, talvez de um qualquer SIADAP, que só poderá ser integralmente aplicado dentro de alguns anos. Isto é, nesta febre de mudanças, surgem sempre piores emendas reformistas do que o anterior soneto envelhecido. O mal destas reformas tem a ver com a falta de ideias de obra e a ausência de manifestações de comunhão, só mobilizáveis pela gestão motivacional do bem comum. E a crise espiritual resulta da invasão  dos tecnocratas, dos tais educacionólogos e avaliólogos, uma fauna ornitológica que está a destruir tanto a educação nacional como a própria instrução pública, em nome de uma nebulosa reforma pela reforma que não passa de mera tradução em calão de reformas estranhas à nossa índole e à nossa experimentação. Umas traduções em calão que nem sequer são dignas daqueles antigos estrangeirados do verdadeiro método de estudar, ou da “ratio studiorum” dos jesuítas, dos que souberam nacionalizar tendências importadas. Valia mais voltarmos ao conhecimento modesto sobre tais coisas supremas, valendo-nos da experiência e do amor à arte dos professores e dos pais, dos professores que têm vocação para professores e das escolas que precisam de voltar a ser integradas nas comunidades que devem servir. É por isso que vou tratar de reler as páginas antigas, mas não antiquadas, de Coménio ou do nosso António Sérgio, desse misto de idealismo e de didáctica que não visa a criação de centros de formação profissional de sargentos verbeteiros e de mangas de alpaca. Pouco me interessa a vitória ou derrota da moção de desconfiança por mais um ou menos um deputado. Por mim, caso me tirassem a profissão e a missão de professor sentir-me-ia assassinado. E para a semana tenho aulas que vou continuar a preparar. As rodriguinhas, os gagos e os sócras passam, as escolas continuam, em nome da Academia de Platão ou do Liceu de Aristóteles.

Jan 22

Entre incorruptíveis que gerem corruptos e corruptos que gerem incorruptíveis

Qualquer pescador de memórias dos bastidores, que se passeie pelas jantaradas capitaleiras, entre átrios de hotel e bares do Bairro Alto, pode recolher, mesmo sem isco, meia dúzia de informações que agravarão em certos desesperados alguma propensão para as teorias da conspiração. Os tais que, para dormirem descansados, precisam de encontrar culpados ocultos de qualquer manobra. Uns querem que o processo tal avance, outros que determinada operação de compra do capital resulte, e eu limito-me a sorrir quando vejo na televisão o diplomático encontro de corredor entre o engenheiro Mira Amaral e o Primeiro-Ministro José Sócrates. Porque ele não se realizou num cemitério, entre coveiros e carpideiras, dado que, graças ao plano tecnológico, até os coveiros são tecnólogos de cremação e enterramento e as carpideiras, especialistas em política de imagem e sondagem, e não apenas de sacanagem.

Pensando na relação bancária e política entre Londres e Lisboa, assinalo que, para além da Maddie e do Ultimatum, há também a Poor’s e o nevoeiro na zona de Alcochete e do futuro aeroporto do Barrete Verde, bem como a definição do capital de um semanário que teve a cobertura do BCP do Paulo Teixeira Pinto e agora anda às bolandas entre Tondela e os habitantes do mercado do Roque Santeiro, com Scotland Yard pelo meio. Apenas assinalo que, em pleno século XIX, também houve, por lá, em Londres, um processo dito do affidavit, que envolveu o nosso chefe do governo, António Bernardo da Costa Cabral, num tempo em que Guizot ainda proponderava, com a velha máxima do incorruptível que gere corruptos. O estilo manteve-se em muitos sítios no século XXI, não faltando até o corrupto que gere incorruptíveis, para que a soma dos bons e dos maus dê no sincrético estado a que chegámos, onde o crime da ilegalidade acaba por compensar, face à ditadura das situações de facto que se vão acumulando ao ritmo da golpada. Porque depois de instalados, o que interessa a declaração ”
a posteriori” da ilegalidade pelos órgãos competentes? O Estado de Direito é um brinquedo que os especialistas em Maquiavel manipulam, carimbando como incorruptível o anterior gestor e fabricante de corruptos, à velha maneira de Talleyrand e de Kissinger, rendidos agora o pensamento único da “social-democracia” e do “socialismo democrático” e dos seus “desinstitucionalizadores”…

Julgo que foram bem mais duras as palavras de outro antigo ministro das finanças de Portugal na RTP2, João Salgueiro, que ontem caracterizava a actuação deste governo como a pior no desempenho, nos últimos cem anos, e também a pior, na Europa. Depois de tantos silêncios de Cavaco, dos estrondos de Manuela Ferreira Leite, das campanhas de Medina Carreira ou do cáustico egotismo de Miguel Cadilhe, o tal que tem direito a ser egotista, já são cinco os ex-ministros das finanças que saem das meias palavras, nestas sucessivas aulas de leitura da realidade que as respectivas lentes nos vão comunicando. Por mim, apenas assinalo que não gostava de continuar a ser semicolónia de sua majestade. Digam tudo e encerrem os nevoeiros destes prenunciadores técnicos de dias de tempestade. Por mim, apenas fiquei entusiasmado com o crescimento eleitoral do FDP, o partido liberal alemão, desejando também boa sorte aos meus companheiros britânicos “liberais-democratas”…

Jan 22

Entre incorruptíveis que gerem corruptos e corruptos que gerem incorruptíveis

Qualquer pescador de memórias dos bastidores, que se passeie pelas jantaradas capitaleiras, entre átrios de hotel e bares do Bairro Alto, pode recolher, mesmo sem isco, meia dúzia de informações que agravarão em certos desesperados alguma propensão para as teorias da conspiração. Os tais que, para dormirem descansados, precisam de encontrar culpados ocultos de qualquer manobra. Porque ele não se realizou num cemitério, entre coveiros e carpideiras, dado que, graças ao plano tecnológico, até os coveiros são tecnólogos de cremação e enterramento e as carpideiras, especialistas em política de imagem e sondagem, e não apenas de sacanagem.  Pensando na relação bancária e política entre Londres e Lisboa, assinalo que, para além da Maddie e do Ultimatum, há também a Poor’s e o nevoeiro na zona de Alcochete e do futuro aeroporto do Barrete Verde, bem como a definição do capital de um semanário que teve a cobertura do BCP do Paulo Teixeira Pinto e agora anda às bolandas entre Tondela e os habitantes do mercado do Roque Santeiro, com Scotland Yard pelo meio. Apenas assinalo que, em pleno século XIX, também houve, por lá, em Londres, um processo dito do affidavit, que envolveu o nosso chefe do governo, António Bernardo da Costa Cabral, num tempo em que Guizot ainda proponderava, com a velha máxima do incorruptível que gere corruptos. O estilo manteve-se em muitos sítios no século XXI, não faltando até o corrupto que gere incorruptíveis, para que a soma dos bons e dos maus dê no sincrético estado a que chegámos, onde o crime da ilegalidade acaba por compensar, face à ditadura das situações de facto que se vão acumulando ao ritmo da golpada. Porque depois de instalados, o que interessa a declaração ” a posteriori” da ilegalidade pelos órgãos competentes? O Estado de Direito é um brinquedo que os especialistas em Maquiavel manipulam, carimbando como incorruptível o anterior gestor e fabricante de corruptos, à velha maneira de Talleyrand e de Kissinger, rendidos agora o pensamento único da “social-democracia” e do “socialismo democrático” e dos seus “desinstitucionalizadores”… Julgo que foram bem mais duras as palavras de outro antigo ministro das finanças de Portugal na RTP2, João Salgueiro, que ontem caracterizava a actuação deste governo como a pior no desempenho, nos últimos cem anos, e também a pior, na Europa. Já são cinco os ex-ministros das finanças que saem das meias palavras, nestas sucessivas aulas de leitura da realidade que as respectivas lentes nos vão comunicando. Por mim, apenas assinalo que não gostava de continuar a ser semicolónia de sua majestade. Digam tudo e encerrem os nevoeiros destes prenunciadores técnicos de dias de tempestade. Por mim, apenas fiquei entusiasmado com o crescimento eleitoral do FDP, o partido liberal alemão, desejando também boa sorte aos meus companheiros britânicos “liberais-democratas”…

Jan 20

Quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia

Reli hoje um pequeno texto que publiquei no “Diário de Notícias” há alguns anos. Fui uma das poucas vozes que publicamente apareceu a defender dois dos meus professores. Um já faleceu. O outro esqueceu-se. Aqui o republico, para que ele se relembre e para que eu não me arrependa de nele ter confiado. Apenas me esquecerei se ele continuar no reino da ignorância sobre os pormenores de certa trama. Saneei aqui as eventuais ligações não categoriais. Mas este texto está “on line”, e sempre esteve, na minha página profissional.

“Depois de séculos de pretenso santo ofício, remodelado sucessivamente pelos juízos de inconfidência, pelos moscas dos intendentes, pelos agentes do maneta, num modelo perpetuado pelos formigas brancas, pelos polícias de defesa do Estado e pelos comités de vigilância revolucionária, parece continuar em vigor entre nós aquele princípio do regimento da dita santa inquisição, segundo o qual a denúncia é um dos meios principais, mesmo com escritos não assignados e denunciações de ouvida.

Se já não há mesas do santo ofício, com as suas sessões de genealogia e in specie; se o denunciado não tem que temer os cárceres do dito, a morte civil ou outras afrontas, continua a bastar uma carta anónima remetida a duas ou três instituições públicas (incluindo o DIAP), desde que se encene uma fuga ao segredo de justiça, para certos órgãos de comunicação social tratarem de lançar alguém para o pelourinho da suspeita. O terrorismo nihilista que percorre os meandros de certa opinião publicada, se pode não afectar a opinião pública nem beliscar a opinião crítica, nem por isso deixa de arrastar alguns nomes para o pelourinho da suspeita, numa política de camartelo que vai unidimensionalizando quem ousa sair da fileira das modas estabelecidas e sabe que só é moda aquilo que passa de moda, que só é novo aquilo que se esqueceu.

Vem isto a propósito de uma parangona pseudo-jornalística que acusa de … dois catedráticos da … . Se os especialistas na matéria não estranharão tal processo, os incautos ledores das prosas publicada, onde a imaginação criadora do transmissor da notícia já vislumbra agentes da Polícia Judiciária na consulta de incunábulos e na denúncia dos novos piratas de autores medievos, poderão considerar que não há fumo sem fogo e, certamente, não terão paciência para aturar a resposta técnico-científica que os dois mestres já deram. Porque, como dizia Voltaire, menti, menti, que da mentira alguma coisa fica. Por outras palavras, o objectivo dos denunciantes já compensou a denúncia, porque o efeito do golpe, nunca pode ser remediado pela letra miúda da defesa da honra.

De qualquer modo, como seria estimulante sentir os nossos agentes de investigação penal correrem lestos pelos glosadores e comentadores e pedindo peritagem técnica aos eruditos mundiais na matéria, numa acção digna de um romance de Umberto Eco e quase tão estimulante como foi a cena da polícia política salazarista a interrogar os desvios filosóficos de Abel Salazar, recorrendo a Leonardo Coimbra, que saiu da polícia insultando os pobres agentes que o tentaram usar como mero intérprete. Tudo seria ridículo, se não fosse trágico e se, nos meandros do processo, não tivesse havido mentira e intenção de ofender a honra de quem por não dever, não deve temer.

Tristes são estes nossos tempos quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia, escondida sob o anonimato. Tristes de nós se continuarmos amarrados àqueles pretensos analisadores de notas de pé de página que preferem arrazoar sobre o sexo dos anjos de uma pequena folha ou de um pedaço de ramo, esquecendo a árvore e perdendo o sentido da floresta. Tristes são os tempos se dermos o nome de autores àqueles que não têm autoridade e se qualificamos como autoridades aqueles que não são autores.

Quanto apetece plagiar Camilo Castelo Branco, quando este, em 1852, falava numa época essencialmente analisadora, onde o nosso público é zelosamente empenhado em julgar os grandes e pequenos acontecimentos, desde a revoltosa queda de uma dinastia de quinze séculos até à demissão imprevista de um cabo de polícia. Também julga os grandes e pequenos homens, desde o heróis de cem batalhas até bagageiros inofensivos: desde César a João Fernandes.

O defeito continua quando se fotografa um homem de Estado em trajes menores, ao mesmo tempo que se conjectura sobre a moeda única, se elabora uma teoria sobre o erro crasso de um determinado árbitro num jogo de futebol ou se disserta sobre um qualquer jurista medieval.

Não quero entrar na polémica … a propósito dos fragmentos de casca árvore que a motivaram, nem sequer imaginar quem serão os inspiradores da falsa denúncia, certamente alguns mais alfarrabistas-historiadores do que historiadores de histórias de alfarrábios, mas não posso deixar de lastimar a lama que foi atirada a dois autores, a uma escola e a uma profunda tradição universitária portuguesa. …

O nihilismo inquisitorial, adepto da terra queimada pela intriga, instrumentalizando a liberdade de expressão e, sobretudo, a liberdade de imprensa, não pode ser compensado pelo rigor da protecção coactiva de uma qualquer lei, nem pelos meios de defesa do poder judicial. Para além do direito, há a moral, aquele valer a pena estar de acordo consigo mesmo, mesmo que pareça estar-se em desacordo com todos os outros.

O velho provérbio de que os cães ladram, mas a caravana passa, não é reconfortante e pode não ser verdade, porque implica deserto, caravana, camelos e cães disponíveis para ladrar. Há quem não ande em caravanas, há sítios que não gostam de ser deserto e há os cães que obedecem sempre à voz do dono ou daqueles que os assanham. Talvez não valha a pena termos de escolher, do mal, o menos, isto é, entre o canino e o camélico, quando se prefere a terra dos homens, quando apetece caminhar e há tanto que fazer neste nosso tempo que já não é de vésperas, mas de insensível caminhada para um vazio de poder cultural, para onde correm lestos os iconoclastas dos novos camartelos colonizadores.

Neste tempo de globalização, de diluição das diferenças nos todos unidimensionais das modas culturais, só aqueles espaços culturais que estão cansados de autonomia se autoflagelam derribando as pedras vivas dos homens livres que vão plantando as macieiras do amanhã. Esses que no silêncio dos claustros semeiam, no longo prazo, o valer a pena continuarmos a autonomia cultural portuguesa”.

Jan 20

Uma república mestiça, feita por subscrição universal!

Lá assisti ao discurso de Obama. E, confesso, entusiasmei-me. Exactamente por aquilo que alguns imediatos críticos denunciaram: não trouxe nada de novo. Podia ser um discurso de há duzentos anos, repetindo palavras dos pais-fundadores da república norte-americana. Porque assim se confirma o que disse Hannah Arendt, repetindo Burke, sobre a revolução desse outro lado do Atlântico: foi uma revolução evitada, à boa maneira liberal. Logo, tanto não gerou uma contra-revolução, como não precisa de uma pós-revolução. Só é novo aquilo que se esqueceu. Só é moda aquilo que passa de moda. Só há o verdadeiro fora do tempo, como diria Vieira.

As palavras básicas foram as de “nós, o povo”, confiança, felicidade, esperança, homens livres, imaginação, contra o poder sem convicções, contra a política sem princípios. Estava ali Montesquieu, estava ali Cícero, estava ali Péricles. E, ao fundo, uma arquitectura de edifícios neo-clássica, tentando imitar as formas da velha República Romana, diante de uma multidão simbolizando a praça pública, o “forum”, o “ágora”. Felizmente, a democracia norte-americana não tem a palavra Estado, herdeira do absolutismo, porque a respectiva modernidade sempre assentou nos fundamentos do velho consensualismo pré-absolutista e tudo se mobiliza pelas ideias de Comunidade e de Nação.

Por isso, o Professor Obama voltou a dizer que a América vai continuar a querer iluminar o mundo, em nome de uma ideia de Deus, entendida à maneira de Bento Espinosa. A América como uma república feita por subscrição universal e, portanto, mestiça, à imagem e semelhança do respectivo presidente de hoje. Uma espécie de regresso à terra prometida, cujo sonho gerou a comunidade política mais plural e mais liberal do mundo, naquele paradoxo criativo que a fez ser também a mais cristã e a mais maçónica de todas. Por outras palavras, foi o discurso de um velho liberal idealista, contra o pretenso realismo de neoconservadores e neoliberais. Por isso, também eu quero continuar a ter esperança e todos os que assim pensam e acreditam precisam de uma democracia norte-americana que abandone a treta dos neomaquiavélicos, pretensos defensores da liberdade, para quem eventuais bons fins justificariam os maus meios.

Nenhum dos grandes problemas do mundo pode ser resolvido em solidão por uma eventual república imperial. Mas nenhum desses grandes problemas tem solução sem a cooperação norte-americana, ou com um qualquer regresso ao isolacionismo. A luta contra os interesses, contra a corrupção, contra o poder sem convicções, precisa de aliados. O Ocidente precisa desta renovação do sonho norte-americano. E eu apenas recordo que, quando ele foi eleito, estava em Timor, no meio de mestiços, recordando que o embaixador norte-americano em Jakarta, no tempo da invasão autorizada por Kissinger, era um dos altos hierarcas de Bush. Não o esqueço. Nem deixarei de recordar que a libertação de Timor só foi possível com a presidência do marido da actual “secretária de Estado” de Washington. Que não me engane. A esperança volta a ser discurso e a imaginação pode acontecer, pela Santa Liberdade!

Jan 20

Quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia

Depois de séculos de pretenso santo ofício, remodelado sucessivamente pelos juízos de inconfidência, pelos moscas dos intendentes, pelos agentes do maneta, num modelo perpetuado pelos formigas brancas, pelos polícias de defesa do Estado e pelos comités de vigilância revolucionária, parece continuar em vigor entre nós aquele princípio do regimento da dita santa Inquisição, segundo o qual a denúncia é um dos meios principais, mesmo com escritos não assignados e denunciações de ouvida.  Se já não há mesas do santo ofício, com as suas sessões de genealogia e in specie; se o denunciado não tem que temer os cárceres do dito, a morte civil ou outras afrontas, continua a bastar uma carta anónima remetida a duas ou três instituições públicas (incluindo o DIAP), desde que se encene uma fuga ao segredo de justiça, para certos órgãos de comunicação social tratarem de lançar alguém para o pelourinho da suspeita. O terrorismo nihilista que percorre os meandros de certa opinião publicada, se pode não afectar a opinião pública nem beliscar a opinião crítica, nem por isso deixa de arrastar alguns nomes para o pelourinho da suspeita, numa política de camartelo que vai unidimensionalizando quem ousa sair da fileira das modas estabelecidas e sabe que só é moda aquilo que passa de moda, que só é novo aquilo que se esqueceu. Vem isto a propósito de uma parangona pseudo-jornalística que acusa de … dois catedráticos da … . Se os especialistas na matéria não estranharão tal processo, os incautos ledores das prosas publicada, onde a imaginação criadora do transmissor da notícia já vislumbra agentes da Polícia Judiciária na consulta de incunábulos e na denúncia dos novos piratas de autores medievos, poderão considerar que não há fumo sem fogo e, certamente, não terão paciência para aturar a resposta técnico-científica que os dois mestres já deram. Porque, como dizia Voltaire, menti, menti, que da mentira alguma coisa fica. Por outras palavras, o objectivo dos denunciantes já compensou a denúncia, porque o efeito do golpe, nunca pode ser remediado pela letra miúda da defesa da honra. De qualquer modo, como seria estimulante sentir os nossos agentes de investigação penal correrem lestos pelos glosadores e comentadores e pedindo peritagem técnica aos eruditos mundiais na matéria, numa acção digna de um romance de Umberto Eco e quase tão estimulante como foi a cena da polícia política salazarista a interrogar os desvios filosóficos de Abel Salazar , recorrendo a Leonardo Coimbra, que saiu da polícia insultando os pobres agentes que o tentaram usar como mero intérprete. Tudo seria ridículo, se não fosse trágico e se, nos meandros do processo, não tivesse havido mentira e intenção de ofender a honra de quem por não dever, não deve temer. Tristes são estes nossos tempos quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia, escondida sob o anonimato. Tristes de nós se continuarmos amarrados àqueles pretensos analisadores de notas de pé de página que preferem arrazoar sobre o sexo dos anjos de uma pequena folha ou de um pedaço de ramo, esquecendo a árvore e perdendo o sentido da floresta. Tristes são os tempos se dermos o nome de autores àqueles que não têm autoridade e se qualificamos como autoridades aqueles que não são autores. Quanto apetece plagiar Camilo Castelo Branco, quando este, em 1852, falava numa época essencialmente analisadora, onde o nosso público é zelosamente empenhado em julgar os grandes e pequenos acontecimentos, desde a revoltosa queda de uma dinastia de quinze séculos até à demissão imprevista de um cabo de polícia. Também julga os grandes e pequenos homens, desde o heróis de cem batalhas até bagageiros inofensivos: desde César a João Fernandes.  O defeito continua quando se fotografa um homem de Estado em trajes menores, ao mesmo tempo que se conjectura sobre a moeda única, se elabora uma teoria sobre o erro crasso de um determinado árbitro num jogo de futebol ou se disserta sobre um qualquer jurista medieval. Não quero entrar na polémica … a propósito dos fragmentos de casca árvore que a motivaram, nem sequer imaginar quem serão os inspiradores da falsa denúncia, certamente alguns mais alfarrabistas-historiadores do que historiadores de histórias de alfarrábios, mas não posso deixar de lastimar a lama que foi atirada a dois autores, a uma escola e a uma profunda tradição universitária portuguesa. … O nihilismo inquisitorial, adepto da terra queimada pela intriga, instrumentalizando a liberdade de expressão e, sobretudo, a liberdade de imprensa, não pode ser compensado pelo rigor da protecção coactiva de uma qualquer lei, nem pelos meios de defesa do poder judicial. Para além do direito, há a moral, aquele valer a pena estar de acordo consigo mesmo, mesmo que pareça estar-se em desacordo com todos os outros.  O velho provérbio de que os cães ladram, mas a caravana passa, não é reconfortante e pode não ser verdade, porque implica deserto, caravana, camelos e cães disponíveis para ladrar. Há quem não ande em caravanas, há sítios que não gostam de ser deserto e há os cães que obedecem sempre à voz do dono ou daqueles que os assanham. Talvez não valha a pena termos de escolher, do mal, o menos, isto é, entre o canino e o camélico, quando se prefere a terra dos homens, quando apetece caminhar e há tanto que fazer neste nosso tempo que já não é de vésperas, mas de insensível caminhada para um vazio de poder cultural, para onde correm lestos os iconoclastas dos novos camartelos colonizadores. Neste tempo de globalização, de diluição das diferenças nos todos unidimensionais das modas culturais, só aqueles espaços culturais que estão cansados de autonomia se autoflagelam derribando as pedras vivas dos homens livres que vão plantando as macieiras do amanhã. Esses que no silêncio dos claustros semeiam, no longo prazo, o valer a pena continuarmos a autonomia cultural portuguesa”.

Jan 20

Uma república mestiça, feita por subscrição universal!

Lá assisti ao discurso de Obama. E, confesso, entusiasmei-me. Exactamente por aquilo que alguns imediatos críticos denunciaram: não trouxe nada de novo. Podia ser um discurso de há duzentos anos, repetindo palavras dos pais-fundadores da república norte-americana. Porque assim se confirma o que disse Hannah Arendt, repetindo Burke, sobre a revolução desse outro lado do Atlântico: foi uma revolução evitada, à boa maneira liberal. Logo, tanto não gerou uma contra-revolução, como não precisa de uma pós-revolução. Só é novo aquilo que se esqueceu. Só é moda aquilo que passa de moda. Só há o verdadeiro fora do tempo, como diria Vieira. As palavras básicas foram as de “nós, o povo”, confiança, felicidade, esperança, homens livres, imaginação, contra o poder sem convicções, contra a política sem princípios. Estava ali Montesquieu, estava ali Cícero, estava ali Péricles. E, ao fundo, uma arquitectura de edifícios neo-clássica, tentando imitar as formas da velha República Romana, diante de uma multidão simbolizando a praça pública, o “forum”, o “ágora”. Felizmente, a democracia norte-americana não tem a palavra Estado, herdeira do absolutismo, porque a respectiva modernidade sempre assentou nos fundamentos do velho consensualismo pré-absolutista e tudo se mobiliza pelas ideias de Comunidade e de Nação. Por isso, o Professor Obama voltou a dizer que a América vai continuar a querer iluminar o mundo, em nome de uma ideia de Deus, entendida à maneira de Bento Espinosa. A América como uma república feita por subscrição universal e, portanto, mestiça, à imagem e semelhança do respectivo presidente de hoje. Uma espécie de regresso à terra prometida, cujo sonho gerou a comunidade política mais plural e mais liberal do mundo, naquele paradoxo criativo que a fez ser também a mais cristã e a mais maçónica de todas. Por outras palavras, foi o discurso de um velho liberal idealista, contra o pretenso realismo de neoconservadores e neoliberais. Por isso, também eu quero continuar a ter esperança e todos os que assim pensam e acreditam precisam de uma democracia norte-americana que abandone a treta dos neomaquiavélicos, pretensos defensores da liberdade, para quem eventuais bons fins justificariam os maus meios. Nenhum dos grandes problemas do mundo pode ser resolvido em solidão por uma eventual república imperial. Mas nenhum desses grandes problemas tem solução sem a cooperação norte-americana, ou com um qualquer regresso ao isolacionismo. A luta contra os interesses, contra a corrupção, contra o poder sem convicções, precisa de aliados. O Ocidente precisa desta renovação do sonho norte-americano. E eu apenas recordo que, quando ele foi eleito, estava em Timor, no meio de mestiços, recordando que o embaixador norte-americano em Jakarta, no tempo da invasão autorizada por Kissinger, era um dos altos hierarcas de Bush. Não o esqueço. Nem deixarei de recordar que a libertação de Timor só foi possível com a presidência do marido da actual “secretária de Estado” de Washington. Que não me engane. A esperança volta a ser discurso e a imaginação pode acontecer, pela Santa Liberdade!