Dez 25

Rabanadas electrónicas

Neste dia em que costumam ser notícia as mensagens do costume, emitidas pelo Papa e pelo cardeal, sobre o bem e a moralidade pública, convém reparar no resultado das eleições do Egipto e no consequente significado de Al Nur. Bom Natal!

 

Sinais de rabanadas electrónicas na mesa de uma casa de jantar, tradicionalmente portuguesa, nas profundas do Minho.

 

“Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram.” Ou como Almada Negreiros conseguiu retratar o permanecente método salazarento da gerontocracia decadente em que nos vamos deglutindo.

Dez 24

Hoje sou da minha família

Hoje sou da minha família, dos meus amores, dos meus irmãos, dos meus amigos, e escrevendo isto, sou como todos os outros, de todos os outros, para todos os outros, sendo ninguém, sou de todo o mundo, procurando o universal pela diferença. É Natal, todos podemos ser homens comuns à procura de Deus e dos deuses.

 

De Barcelos, no jardim de minha mãe.

Dez 23

O almirante Cheng Ho

O almirante Cheng Ho, ou Zheng Ho, acaba a viagem iniciada em 1371. Finalmente, os chineses descobrem o caminho eléctrico para a barra do Tejo, assim completando ao contrário as viagens de Vasco da Gama e Fernão Mendes Pinto. Boa chegada, antes de nova afundação.

 

PCP vota contra manifestação parlamentar de pesar pela morte do anticomunista checo Vaclav Havel. Ainda bem que o recordam. Já não é proibido morrer pela pátria, como aconteceu a Jan Palach.

 

Aqui, nas profundas do Minho, nadamelhor do que começar o dia trincando uma maçã da porta da loja. A minha mãe guarda-me sempre meia dúzia que vai buscar à feira de Barcelos.

 

Essa do pai de Sarkozy, do avô de Erdogan, do neto do Kaiser, do trineto de Junot e do tetraneto da Europa, obrigam-nos a que a emenda não se torne pior que o soneto.

Dez 22

Tempos difíceis, mesmo muito, muito difíceis

“Tempos difíceis, mesmo muito, muito difíceis”. Mas o Seguro ainda não morreu de velho.

 

Todas as mensagens da manhã me mandam: “vai trabalhar, malandro!”. O problema da organização do trabalho nacional é que quem manda é mesmo uma malandragem. Quem tem paixão pelo trabalho não sabe o que são férias, feriados ou horas de sono. Basta que nos deixem ser felizes no trabalho, sem ordens, decretos, fichas e desordens com que enfeitam respectivos mandos. Basta mandá-los para o olho da rua.

 

A desordem bem organizada desta anarquia ordenada que se chama poder precisa de ser substituída pelo poder dos sem poder que nos liberte da falsidade. Ainda gostava de ver isto, um dia. Já chega de opressão com música celestial e literatura de justificação. Sem regeneração não sobreviveremos. Estou disponível para passar da resistência à construção

 

Antigamente, havia forças de bloqueio, agora há forças levianas. Destes bloqueios levianos, começo mesmo a ficar farto.

Dez 20

Aqui acaba toda a terra antiga

Aqui acaba toda a terra antiga,/começa aqui a tentação do mar./ Europa – ainda era rapariga -,/ Sentou-se aqui um dia a descansar./ Vinha de longe, andando com fadiga,/ vinha de longe, andando sem parar…/ Em frente ao mar, que o rosto lhe fustiga,/ logo pensou Europa em se casar./ / Pediu-a p’ra mulher o Padre-Oceano./ Entre sereias, conchas e golfinhos,/ as ondas lhe bordaram o enxoval.// E quando o noivo a recebeu, ufano,/ nestes penhascos rústicos, sòzinhos,/ deram os dois o ser a Portugal

 

Cavaco Silva repete as teses de Strauss-Kahn, tal como as de Kohl, Schmidt, quanto à Europa, bem como na necessidade de diálogo do PS e do PSD e na procura da coesão social. As ideias são nacionalmente consensuais e, da parte da opinião pública, apenas temos que dar mais uns empurrões.

 

Aqui, os submarinos acedem mais rapidamente às profundezas oceânicas, mesmo que desenrolem o periscópio.

 

“Sozinha, nos penhascos do Ocidente,
ouvindo ao mar o ímpeto brutal,
pariste longa e dolorosamente
um moço a quem chamaste Portugal!”

 

A coerência do PCP na solidariedade do internacionalismo estalinista não é um defeito, é uma virtude, a da continuidade, com pouca evolução.

 

Como dizia Raymond Aron, o principal problema da democracia é que praticamente todos os regimes do mundo se dizem hoje democráticos.

 

Ai do nosso tempo, se tivesse de acabar com todos os mistérios! Não existe apenas aquilo que se explica.

Dez 19

Aí dos estadões que assentam em constipações maltratadas

Aí dos estadões que assentam em constipações maltratadas. E das antimonarquias que fazem com que o neto suceda ao avô, na montra. Porque o mecanismo totalitário é o de um complexo militar-industrial, alimentado a fome e a escravatura, para gáudio da montra de chefia. Morreu um pedaço do mecanismo de guerra que ainda envergonha a humanidade. Aí dos que ainda têm a complacência cobarde da invocada ideologia.

 

Um outro olhar da Porta da Loja. Também o meu agradecimento. Até ao sismógrafo dos comentários ao postal.

 

Passos disse em voz alta o que todos os anteriores Pedros consideraram um alívio. Como no século XIX, os governantes do tempo da fome de terra. Como Salazar com a valse de carton. Até poderia dourar a pílula, falando no novo império sombra como clímax da integração europeia, para recuperarmos a grandeza perdida pela demografia, a dívida e as medidas da troika, isto é, do PS, do PSD e do CDS. Por outras palavras, é urgente fundarmos o Partido da Partida. Para procurarmos Portugal fora de Portugal. Aqui, voltámos a ser Ilusitânia …

 

Às vezes, ofendemos pessoas queridas porque não respondemos a todas as mensagens que recebemos nas caixas. Como estou a tentar esvaziar as da categoria de não-lidas ainda me faltam algumas. Peço perdão a quem possa ter ofendido pela a falta de acção adequada. Apenas deficiência minha, mas tentarei cumprir o meu dever.

 

Dominique não deve ter lido Saramago.

Dez 18

A voz do establishment

A voz do establishment

Por José Adelino Maltez

 

A existência de planos de contigência como a indiscrição do “Sunday Times” faz parte do normal-anormal dos engenheiros de cenários do securitismo, sendo tão mirabolantes quanto os da evacuação de todos os muçulmanos de França, ou até ideia norte-americana de ocupação dos Açores pelos brasileiros, durante a Segunda Guerra Mundial. São coisas que não se estranham, mas que, infelizmente, podem vir a entranhar-se. E o mais significativo está na pretensa seriedade que enquadra a respectiva divulgação, quase equiparável à ameaça paivense de bomba atómica, a ser lançada sobre os nossos credores. Felizmente, o ridículo, por enquanto não mata e mais interessante seria saber como o nosso segredo diplomático e de segurança, externa e interna, acompanhou os meandros da emissão da informação, antes de ela aterrar na opinão pública, sem o recurso aos nossos próprios planos de contingência e de coordenação com os da própria NATO. Talvez seja mais avisado notarmos que no Reino Unido persiste uma tradicional aliança do “establishment” que gerou um modelo político de governo pela sociedade civil que, se é mais centralizado que o modelo político norte-americano, é bem menos estatizado do que a França.  Porque o mercado precedeu o Estado e o aparelho de poder central nunca tentou controlar a sociedade e a economia, surgindo um modelo de capitalismo e de free trade a partir da autonomia da sociedade civil e não pelos estilos mercantilistas do estadualismo absolutista.

Dez 15

Dos traseiros do “não pagamos”

Dos traseiros do “não pagamos”

Por José Adelino Maltez

 

Talvez não mereça ser nominalmente citado o deputado que, por palavras, reproduziu aquilo que foi o símbolo gráfico da geração dita rasca e que agora se disse marimbando. Porque a expressão é equívoca, dado que tanto pode referir-se a um instrumento musical formado por lâminas de vidro ou metal, graduadas em escala, que se percutem com baquetas, como a um jogo de cartas em que a dama de espadas é o maior trunfo. Antigamente, chamava-se a isso demagogia jota, mesmo sem mostrar o “não pagamos”, antes de ter triunfado o modelo da velha conspiração de avós e netos. É evidente que há calinada, mas ninguém pode dar palmatoadas neste irascível da visita à parvónia, porque, de vidraças, de insultos rascas, está o parlamento cheio. É mais preocupante o regresso de velhos movimentos unitários de intelectuais ao “agenda setting”, bem como o surgimento, quase diário, de mais um abaixo-assinado, reveladores da crescente falta de adequadas canalizações representativas da democracia. Escândalo, do grego scandalon, é apenas a pedra em que se tropeça quando se está a marchar. Como ainda não houve protestos da comunidade internacional quanto à ameaça atómica, talvez importe acrescentar que este economista de boa escola apenas disse em voz alta, aquilo que todos gostaríamos que acontecesse, se fosse possível usarmos o nosso poder funcional nas relações europeias. Merkel, Obama e Sarkozy já nos insultaram mais, menos civilizadamente.

 

Dez 14

Reflexões sem conjuntura, para quem quiser enfiar a carapuça

Quase todos os dias, tento resistir aos velhos fantasmas que tive e talvez ainda tenha sob a forma de preconceitos, sobretudo contra as categorias políticas que considerei inimigas. Quase todos os dias, tento educar-me, procurando distinguir certos “ismos” das pessoas concretas que os enquadram e servem. Pelo menos tento reconhecer que, entre os meus, há tão maus exemplos pessoais quanto nos meus antigos, ou presentes, adversários. Os homens não se medem pelos redutores “ismos” com que os classificam. Todos somos imperfeitos, sobretudo na falta de autenticidade. Mas isso não me impede a revolta contra certas bestas que nos querem oligarquizar. Nem o agressivo combate espiritual por minhas crenças, valores e princípios, os da minha perspectiva, da minha concepção do mundo e da vida, ou da minha própria irmandade. Lamento sempre não ter partido. Não tenho sequer o partido dos sem partido, com que se costumam vangloriar os chamados independentes, os que estão sempre à espera que os contratem, para um qualquer estágio de adesão à partidocracia, período em que demonstram o máximo de facciosismo, nomeadamente quando cantarolam o seguidismo face a um qualquer novo príncipe do populismo das elites, mesmo que não chegue a césar de multidões.

Dez 14

Lançamento do Abecedário Simbiótico

 

No famoso políptico do século XV atribuído a Nuno Gonçalves, conhecido como Tábuas de S. Vicente de Fora e existente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, reencontramos o tema do «livro ocluso»: no painel central da direita, a que António Quadros chama «Painel da Missão das Ordens de Cristo e de Aviz» (Quadros 11-1987, 173 segs.), o Hierofante tem o «livro ocluso» debaixo do braço, além de empunhar a vara simbólica da Iniciação: é o tempo passado e presente dos mistérios por abrir; no painel central da esquerda, «Painel da Aliança no Espírito Santo» (Quadros ibidem) o Hierofante já apresenta o livro aberto, o Evangelho de João, onde Jesus anuncia a vinda futura e desveladora do Paracleto (João 14, 16.26; 15, 26; 16, 7) – a verdadeira História do Futuro de que se haveria de encarregar António Vieira. Não deixa de saltar à vista, para quem contemple os painéis no seu conjunto, tal como se encontram agora, a organização hermética dos três grandes grupos humanos que os integram, num total de 60 personagens: o grupo de pessoas de negro («obra em negro» ou nigredo), o grupo de branco(«obra em branco» ou albedo) e o grupo de vermelho («obra em rubro», ou rubedo). Destaca-se, neste último, a majestosa figura do Hierofante, totalmente vestida de vermelho em suas duas aparições, que Lima de Freitas identifica com il Messo di Dio, o que virá como «Consolador», ou Paracleto (Freitas 2003, 303-312): com efeito, o vermelho é a cor simbólica do Espírito Santo, tal como o azul é a do Pai e o amarelo-dourado a do Filho.

 

 

 

 

 

 

É possível semear no tempo que passa. Só atingimos a essência pela existência e só podemos aceder ao eterno pelo fugaz do dia a dia.

 

Os templos não são do céu. Têm as fundações no magma que vai crescendo por mim dentro.

 

A vida é o máximo de além vida que nos permite ascender.

 

Para nos diluirmos na corrente de vivermos uns com os outros em cadeia de união.

 

Quando alguém ,por acaso um antigo aluno aqui presente, me deu a adequada explicação da capa deste livro, eu próprio me comecei a interpretar a posteriori.

 

Aliás, não é por acaso que não trago a origem da ilustração da capa na presente edição.

 

Porque a ela acedi por mera adesão íntima, de emoção estética e compreensão poética, na linha do título do recente livro de Steiner, “The Poetry of the Tought”.

 

Nunca o fiz por comunhão de especialidades alquímicas, cabalísticas ou esotéricas.

 

Apenas confirmei que a poesia pode ser mais verdadeira, no sentido de mais filosófica, do que a própria história.

 

Confesso-o, aqui e agora, com toda a humildade de quem se sente mero elo de uma corrente que ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai.

 

Nem sequer tenho aquela erudição esotérica, capaz de articular segredos e símbolos, perdidos no livro ocluso.

 

Por minhas mãos apenas escrevo um livro que na verdade não sei nem tenho de saber.

 

Os mistérios antigos, os que nos podem dar futuro, não são passíveis de adequadas engenharias reconstrutivas, mesmo que possam ser despertados pelos rituais.

 

Apenas quero inscrever-me como soldado das velhas religiões e heresias. E confesso que já era herege antes de me reconhecerem como tal.

 

Até não passo de eterno aprendiz, mesmo depois dos decretos e cânones do Estado me titularem no terceiro e último grau do chamado universitarês.

 

Tenho pelo menos aquela sabedoria daquele que sabe que só sabe que nada sabe.

 

Pelo menos, mereço que a perfeição me reconheça como autor de obras imperfeitas e que, por isso mesmo, procuram a imperfeição.

 

Já agora, uma confissão. Orgulho-me de fazer parte de uma sociedade secreta iniciática que teve a sua saída da caverna no ano de 1140.

 

Pretendo continuar obreiro desse grito de nós somos livres, numa pátria livre. E estarei com todos aqueles que queiram continuar a resistir a um qualquer merceeiro da geofinança que nos queira extinguir, mesmo que seja ministro do reino por vontade estranha.

 

Porque D. Afonso I ou D. João I também não percebiam nada de finanças, nem consta que tivessem biblioteca. Como aquele palestiniano que as únicas palavras que escreveu foram sobre a mobilidade de um qualquer pó de terra.

 

E as pátrias, tal como todos os filhos do homem, nesta terra de homens, podem alcançar o direito a seu voltar, quando se der a regeneração que lhes permita ascender. Quando quiserem vencer a lei da morte e assumirem que cada um as pode regenerar em suas vidas terrenas.

 

A esperança é como essa esfera que tem eixo em cada um dos homens em seu indiviso, mas que são do todo quando crescem por dentro.

 

Por enquanto apenas sabemos que podemos caminhar para o eterno. Alguns, os que nacionalizaram uma tendência importada de 1717, chamam Oriente a tal lugar comum da civilização, desde 1802.

 

Mas só o podem dizer, não por causa da invocação de outras lendas e livros sagrados, quando as letras não matarem o espírito.

 

Como, depois de nós, outros irão dizer, caso não confundam os nomes com as coisas nomeadas, nesta raiz do mais além, onde continuamos a procurar. Porque esse navegar é preciso para que o sobreviver apenas seja o suficente para a luta pela vida, isto é, pelo necessário.

 

Se soubermos ser homens de boa vontade.

 

Isto é, de uma comunidade pelas coisas que se amam. Mesmo que continuemos a fazer amor através das próprias palavras que dissemos e por vezes já não lembro.

 

Porque o máximo de espírito que podemos atingir é quando, depois de um acto de criação, adormecemos a conversar, para sonharmos.