Jan 11

Viva o bom senso, abaixo o contra senso

“Quinze a cinco”, não foi o resultado da vitória do Benfica no Dubai ou do brilharete do meu vizinho Atlético no estádio do Dragão, mas o que muitos pensam ser a pescada do antes de o ser já o ter sido, como parece ser o timbre dos novos e pulpitulares “grandes educadores do proletariado”, na campanha do referendo sobre a IVG. Sobre a matéria, prefiro subscrever, na íntegra, o seguinte comentário: Ao que parece este fim de semana, depois de passarem as festas e de começarem os saldos, abriu em força a campanha dos movimentos cívicos pró e contra aborto.

Saltam os argumentos de peso metafísico do género, quando começa a vida e a quem pertence o corpo da mulher; de peso económico do género, quanto custa ao SNSaúde um aborto versus quanto custa tratar as sequelas de um aborto clandestino, quanto custa abortar numa clinica privada em Portugal e quanto custa em Badajoz; de peso psicológico do género, uma mulher que aborta terá depressões e tendências suicidas, uma mulher que não aborta nem poderá ter condições para ter depressões.

Todos os argumentos são válidos mas a verdade é que existe uma lei que não é cumprida. Por isso, ou se a cumpre ou se a revoga, sob pena de qualquer um de nós poder invocar que cometeu um crime mas que não deve ir preso porque aquela lei também não deve ser cumprida. Este não é o único caso de leis que existem e que não são cumpridas mas este é um dos mais flagrantes.

Existem muitos actos que condeno moralmente e me chocam profundamente enquanto ser humano mas não defendo a sua criminalização. Por não querer que ninguém aborte mas por não querer que ninguém vá preso por abortar, a escolha é só uma.

Concordo, em plenitude. Como disse Sócrates, o primeiro, o de Platão e não o Pinto de Sousa, quando se recusou a fugir à execução da sentença de morte que lhe havia sido determinada pelos órgãos competentes da cidade : crês, porventura, que uma “polis” pode subsistir e deixar de ser afundar, se as sentenças proferidas nos seus tribunais não tiverem valor algum e puderem ser invalidadas e tornadas inúteis pelos cidadãos?

Quando os adeptos do “não” dizem que vale a pena este apodrecimento da legalidade e dos fundamentos do Estado de Direito, proclamando que deve manter-se o que está porque a lei vigente não é aplicada pelos mecanismos de administração da justiça, só porque não há mulheres condenadas, eles estão a desmentir-se a si mesmos

 

Eles estão a dizer que há uma lei positiva que foi revogada pelo desuso. Que perdeu a vigência porque deixou de ter a adesão valorativa da comunidade a que se destina, através da interferência do momento valorativo no momento da vigência e da eficácia.

Julgo que chegou a hora de voltarmos a dar justiça e direito a este segmento da lei, adequando-a à vida. Fazer isto na IVG pode ser o começo de um processo que faça da lei uma profissão de fé da religião secular do Estado de Direito. Porque também o deveríamos praticar na evasão fiscal e noutras áreas críticas do nosso viver colectivo. Dizer sim é termos a humildade da cidadania.

Jan 11

Nesta época essencialmente analisadora, vivam os apitos dos inteligentes!

Sobre este mês de Janeiro do ano de 2007, os historiadores futuros hão-de confirmar que, de forma quase clandestina, a intelectualidade portuguesa se dividiu civilizacionalmente, não entre o bem e o mal, que são sempre relativos, pois o mal tem sempre pedaços de bem e o bem pedações de mal, mas sobre a maneira como usamos argumentos a favor de um dos lados binários que um qualquer referendo nos impõe. De repente, cairam as máscaras, raspou-se o verniz e o rei passou a ir nu e sem folha, um rei velhinho em cima do burro, tendo ao lado um rapazinho que ora anda a pé, ora quer saltar para o dorso da besta, conforme os gritos da matulagem que foi à rua ver o cartaz, ou gozar com o desfile da manif.

O chico esperto é o que prefere ficar atrás dos cortinados e espreitar o espectáculo atrás da janela, tentando lavar as mãos como o velho Pilatos, dizendo que, no dia do referendo, tem uma importante viagem de turismo científico, mudando de argumentário conforme o camaleão, a fim de poder saudar o vencedor e atirar as pedradas com que a matulagem costuma punir o relaxado ao braço secular que acabou de arder na praça dos sanbenitos, ou que malhou com os ossos num dos cárceres, com reservado direito de admissão para os dissidentes.

Há pedações de mal entre as gentes que vão escolher o mesmo do que eu no próximo referendo, como há imensas zonas de bem entre os que se me opõem, embora eu considere que o pior dos males está naqueles que, no meio da discussão, adquirem o principal vício dos chamados críticos da democracia e a que damos o nome de ódio.

Noto com alguma curiosidade laboratorial a quantidade de vermes que por aí circulam entre alguns dos leitores destes meus postais que eu não qualifico como estimados. Não me refiro aos que vão para o combate com vivacidade argumentativa, respondendo-me com letras e garfos, porque esses sabem driblar e assumem que o essencial da democracia é o diálogo com o adversário, porque conseguem circular em torno de lugares comuns (esses até os cito e a eles dou réplica, embore não goste do argumento da piada catedrática, que, no debate, nunca usei).

Refiro-me a outros, com destaque para os titulados academicamente que, por deformação profissional, mantêm a postura típica dos moscas da inquisição e do intendente que, depois de serem restaurados pelo bufismo pidesco, se disfarçam agora de profissionais da pretensa inteligência, fazendo, dessas águas chocas, um modo de vida que vão vendendo à peça. Apenas repito o que há um bom par de anos publiquei num jornal diário, em defesa de dois professores catedráticos de que não estava dependente e antes de ser catedrático. E não temo que o órgão que os acolhe me passe a atacar anonimamente. Não tenho medo.

“Depois de séculos de pretenso santo ofício, remodelado sucessivamente pelos juízos de inconfidência, pelos moscas dos intendentes, pelos agentes do maneta, num modelo perpetuado pelos formigas brancas, pelos polícias de defesa do Estado e pelos comités de vigilância revolucionária, parece continuar em vigor entre nós aquele princípio do regimento da dita santa inquisição, segundo o qual a denúncia é um dos meios principais, mesmo com escritos não assignados e denunciações de ouvida.

Se já não há mesas do santo ofício, com as suas sessões de genealogia e in specie; se o denunciado não tem que temer os cárceres do dito, a morte civil ou outras afrontas, continua a bastar uma carta anónima remetida a duas ou três instituições públicas (incluindo o DIAP), desde que se encene uma fuga ao segredo de justiça, para certos órgãos de comunicação social tratarem de lançar alguém para o pelourinho da suspeita.

O terrorismo nihilista que percorre os meandros de certa opinião publicada, se pode não afectar a opinião pública nem beliscar a opinião crítica, nem por isso deixa de arrastar alguns nomes para o pelourinho da suspeita, numa política de camartelo que vai unidimensionalizando quem ousa sair da fileira das modas estabelecidas e sabe que só é moda aquilo que passa de moda, que só é novo aquilo que se esqueceu.

Vem isto a propósito de uma parangona pseudo-jornalística que acusa de … . Se os especialistas na matéria não estranharão tal processo, os incautos ledores das prosas publicada, onde a imaginação criadora do transmissor da notícia já vislumbra agentes da Polícia Judiciária na consulta de incunábulos e na denúncia dos novos piratas de autores medievos, poderão considerar que não há fumo sem fogo e, certamente, não terão paciência para aturar a resposta técnico-científica que os dois mestres já deram.

Porque, como dizia Voltaire, menti, menti, que da mentira alguma coisa fica. Por outras palavras, o objectivo dos denunciantes já compensou a denúncia, porque o efeito do golpe, nunca pode ser remediado pela letra miúda da defesa da honra.

De qualquer modo, como seria estimulante sentir os nossos agentes de investigação penal correrem lestos pelos glosadores e comentadores e pedindo peritagem técnica aos eruditos mundiais na matéria, numa acção digna de um romance de Umberto Eco e quase tão estimulante como foi a cena da polícia política salazarista a interrogar os desvios filosóficos de Abel Salazar, recorrendo a Leonardo Coimbra, que saiu da polícia insultando os pobres agentes que o tentaram usar como mero intérprete. Tudo seria ridículo, se não fosse trágico e se, nos meandros do processo, não tivesse havido mentira e intenção de ofender a honra de quem por não dever, não deve temer.

Tristes são estes nossos tempos quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia, escondida sob o anonimato. Tristes de nós se continuarmos amarrados àqueles pretensos analisadores de notas de pé de página que preferem arrazoar sobre o sexo dos anjos de uma pequena folha ou de um pedaço de ramo, esquecendo a árvore e perdendo o sentido da floresta. Tristes são os tempos se dermos o nome de autores àqueles que não têm autoridade e se qualificamos como autoridades aqueles que não são autores.

Quanto apetece plagiar Camilo Castelo Branco, quando este, em 1852, falava numa época essencialmente analisadora, onde o nosso público é zelosamente empenhado em julgar os grandes e pequenos acontecimentos, desde a revoltosa queda de uma dinastia de quinze séculos até à demissão imprevista de um cabo de polícia. Também julga os grandes e pequenos homens, desde o heróis de cem batalhas até bagageiros inofensivos: desde César a João Fernandes.

O defeito continua quando se fotografa um homem de Estado em trajes menores, ao mesmo tempo que se conjectura sobre a moeda única, se elabora uma teoria sobre o erro crasso de um determinado árbitro num jogo de futebol ou se disserta sobre um qualquer jurista medieval.

Não quero entrar na polémica … a propósito dos fragmentos de casca árvore que a motivaram, nem sequer imaginar quem serão os inspiradores da falsa denúncia, certamente alguns mais alfarrabistas-historiadores do que historiadores de histórias de alfarrábios, mas não posso deixar de lastimar a lama que foi atirada a dois autores, a uma escola e a uma profunda tradição universitária portuguesa.

….

O nihilismo inquisitorial, adepto da terra queimada pela intriga, instrumentalizando a liberdade de expressão e, sobretudo, a liberdade de imprensa, não pode ser compensado pelo rigor da protecção coactiva de uma qualquer lei, nem pelos meios de defesa do poder judicial. Para além do direito, há a moral, aquele valer a pena estar de acordo consigo mesmo, mesmo que pareça estar-se em desacordo com todos os outros.

O velho provérbio de que os cães ladram, mas a caravana passa, não é reconfortante e pode não ser verdade, porque implica deserto, caravana, camelos e cães disponíveis para ladrar. Há quem não ande em caravanas, há sítios que não gostam de ser deserto e há os cães que obedecem sempre à voz do dono ou daqueles que os assanham. Talvez não valha a pena termos de escolher, do mal, o menos, isto é, entre o canino e o camélico, quando se prefere a terra dos homens, quando apetece caminhar e há tanto que fazer neste nosso tempo que já não é de vésperas, mas de insensível caminhada para um vazio de poder cultural, para onde correm lestos os iconoclastas dos novos camartelos colonizadores.

Neste tempo de globalização, de diluição das diferenças nos todos unidimensionais das modas culturais, só aqueles espaços culturais que estão cansados de autonomia se autoflagelam derribando as pedras vivas dos homens livres que vão plantando as macieiras do amanhã. Esses que no silêncio dos claustros semeiam, no longo prazo, o valer a pena continuarmos a autonomia cultural portuguesa”.

Apenas acrescento: meu caro “mosca” reciclado, faça “print”, tire fotocópia, mas tire tudo, e continue a ir entregar tal higiénico papel perfumado ao seu pretenso dono de quem assume ter o monopólio da voz. Não é por isso que “vossamercê” se pode arrogar situar-se no lado da conspiração de avós e netos. Até tenho a elegância de aqui não publicar os “mails” que ainda guardo das cunhas que me meteu e os encómios que me teceu quando ficou desempregado dos serviços que o despediram por aquilo que continua a fazer. Infelizmente, meti mesmo a cunha que me pediu.

Jan 10

Hoje tenho estado bem silencioso

Hoje tenho estado bem silencioso, só porque fui mobilizado por uma enorme carga de aulas desde segunda-feira. Silencioso, mas com aquele sentido de dever cumprido e um enorme prazer de poder exercer esta tarefa de professor, especialmente quando vejo jovens caloiros com uma efectiva vontade de crescer para cima e crescer para dentro, bem como jovens assistentes em plenitude de dedicação, assumindo que as escolas não são questiúnculas e muitas “guerrazinhas de homenzinhos”. Hoje tenho estado silencioso, porque sinto que a plurissecular corrente da universidade ainda tem futuro. E mais não digo. Vivo.

Jan 08

A angústia de um cientista social com manias neokantianas e revolta contra o charlatanismo dos que assaltaram cientificamente o Estado

Daqui a bocado, vou dar as primeiras aulas do ano de 2007 em duas licenciaturas de ciências sociais que, segundo o método da generalidade e da abstracção, estão hoje no “index” das notícias do dia, porque, no ano lectivo 2005/2006, indica o Observatório da Ciência e do Ensino Superior, havia quase 116 mil alunos inscritos em cursos de ciências sociais como direito, história, filosofia, geografia ou sociologia, cursos baratos, de papel e lápis. A segunda área com maior número de alunos aparece a grande distância engenharias, indústria transformadora e construção, com 80 mil inscritos. São, portanto, as ciências sociais que mais licenciados formam todos os anos e um número significativo acaba nos centros de emprego. Em Outubro, o IEFP somava quase 16 450 pessoas inscritas como desempregadas, com origem num destes cursos. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), mas de 2005, apontam para mais de 13 mil os licenciados oriundos destas áreas e no desemprego.

Muito próximo das ciências sociais estão as licenciaturas ligadas à educação e formação de formadores que, em Setembro, chegam mesmo a atingir o primeiro lugar na lista dos mais desempregados do IEFP, fruto das não colocações de professores nos concursos públicos do Ministério da Educação. Em Outubro, 60% dos desempregados de canudo tinham um curso de ciências sociais ou de educação.

Faço assim parte dos portugueses de segunda, dos professores universitários de segunda, das universidades de segunda. Porque, além de uma licenciatura em direito, sou doutor em ciências sociais, na especialidade de ciência política, com uma agregação também em ciência política e dois concursos públicos para associado e catedrático, também na área das ciências sociais.

Reparo, contudo, que, com as minhas qualificações académicas, não chegamos em Portugal à meia dúzia. E, no âmbito dos doutorados com especialidade nas áreas globais da ciência política e das relações internacionais, quase bastam os dedos das minhas mãos e dos meus pés para os contar. Paradoxalmente, o senhor Estado autorizou que, pela charlatanice da multiplicação dos pães, através da cunha e da golpada, frutificassem mais cursos do que o mesmo padrão dos meus próprios pés e mãos.

Basta reparar que, na área jurídica, chegaram a existir mais licenciaturas do que doutorados e que hoje, qualquer faculdade de letras sem alunos se estendeu à area das ciências sociais, tal como vemos teólogos a proliferarem nessas zonas de pretenso misticismo, dado que a avaliação do mérito nos domínios da teoria continua a viver em conúbio com o próprio charlatanismo.

Acresce também que sou professor de uma centenária escola de ciências sociais, onde, pela técnica do “cluster”, não havia desempregados até que chegou o sistema das avaliações e dos especialistas estaduais em estatística…, esses que talvez não saibam que “estatística” foi o primeiro nome da ciência do Estado e que “cibernética” foi um neologismo que Norbert Wiener foi buscar à expressão grega de “governo”, num MIT que sempre cultivou as tais ciências sociais que o pretenso cientismo terceiromundista, que recentemente nos invadiu, agora demoniza.

Como denuncia Sartori, “há filósofos disfarçados de cientistas”, tal como existem charlatães em busca de misturas de literatura, filosofia, política, quem sabe, também de poesia e outros ingredientes”. Não podemos, contudo, deixar de reconhecer que também há cientistas que mais não fazem do que dar uma ilusão de cientificidade a uma determinada ideologia e, muito aristotelicamente, que a poesia pode ser mais filosófica, no sentido de mais verdadeira, do que a história.

Diz Popper que “todos somos vítimas do nosso próprio sistema de preconceitos…todos consideramos muitas coisas como evidentes por si mesmas; de que aceitamos sem espírito crítico e, inclusive, com a convicção ingénua e arrogante de que a crítica é completamente supérflua”. Vale-nos que o Presidente Cavaco vai agora descobrir o caminho comercial para a Índia, levando consigo essa cientificidade pura que é o secretário de Estado Manuel Heitor, talvez porque o principal dirigente de Nova Delhi é um físico nuclear, mas que também é poeta.

Entre a teoria e a prática, apenas podemos dizer que o Estado é teoricamente prático e praticamente teórico. Saber se “o que é verdadeiro em teoria também o é na prática”, como dizia Kant, em 1793, ou se “a prática é tanto melhor quanto mais prática;a teoria é tanto melhor quanto mais teórica”, como replicava Vilfredo Pareto, é tarefa ingrata. Até porque nestes domínios talvez se aplique a caricatura que nos diz que “na prática a teoria é outra”.

Também o nosso Fernando Pessoa considerava que “toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria”.

Do mesmo modo Leo Strauss, quando considera que “a filosofia ou ciência a mais alta actividade do homem é a tentativa de substituir opiniões acerca de todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas”, pelo que “respeitar opiniões é algo completamente diferente de aceitá las como sendo verdadeiras”, porque haveria um verdadeiro ensinamento, o ensinamento esotérico, e o “ensinamento socialmente útil, ou seja, o ensinamento exotérico; enquanto este é de compreensão fácil para qualquer leitor, aquele só se revela aos leitores muito bem e cuidadosamente preparados, após um estudo demorado e concentrado”.

Mais recentemente Jürgen Habermas salienta que a teoria como “contemplação do cosmos”, como contemplação da “ordem imortal”, leva o teórico a ter que se “assemelhar à medida do cosmos, de, em si mesmo, o reproduzir”, dado que a teoria “mediante o ajustamento da alma ao movimento ordenado do cosmos, penetra na praxis vital a teoria impregna a vida com a sua forma, reflecte se na atitude daquele que se submete à sua disciplina , no ethos”, dando-se um “ajustamento mimético da alma às aparentemente contempladas proporções do universo”.

Entre nós, o idealismo neokantiano de António Sérgio chega à conclusão que “uma teoria é comparável a uma renda de bilros toda ela tecida pela nossa mente, e para a qual a sensação deu alguns alfinetes, e nada mais do que alfinetes”. Para este autor, “a origem do pensar não está fora dele, e de que o seu ponto de partida já é pensar”. Considera que “o pensamento não seria estruturação de quaisquer ‘dados’ prévios, não teria unicamente uma função ‘expressiva’, mas seria algo ‘construtivo’ e activo; algo indecomponível em que se cria o objectivo pelo ordume das malhas das relações conceitos, produto do acto mental do juízo. Todo observar seria de facto um operar. O espírito (por outras palavras) seria criador já nos seus feitos mínimos, já no que chamamos dado”. E isto porque “aquilo que se chama um ‘facto’ seria sempre no âmago uma construção mental,uma estruturação do intelecto … desde o início o papel da inteligência seria essencialmente activo, tomando a iniciativa das perguntas e a iniciativa das respostas … não haveria factos com anterioridade à ideia”

Na verdade, como assinala Raymond Aron, “poucas palavras são tantas vezes utilizadas pelos economistas, sociólogos ou politólogos como a de teoria, poucas conduzem a tantos equívocos”. E isto porque a palavra tem duas significações e duas tradições.

A etimológica que confunde teoria com filosofia e a considera como o conhecimento contemplativo da ordem essencial do mundo.

A cientista, marcada pela vontade do “saber para prever e poder”, que a considera como “um sistema hipotético dedutivo constituído por um conjunto de proposições cujos termos são rigorosamente definidos e onde as relações entre os termos (as variáveis) revestem as mais das vezes uma forma matemática”.

Ora, acontece que quem trata de política sente, por vezes uma espécie de complexo de inferioridade face a outras ciências sociais, como , por exemplo, a matematizável economia pura, e trata de assumir se como “científico” à imagem e semelhança das ciências da natureza.

No fundo, como que está a atribuir um carácter de ciência subdesenvolvida à ciência que não é ciência dita exacta.Está a esquecer que o teórico se pode, no princípio, ser hipotético-dedutivo, acaba, como conclusão, por pisar os terrenos da grande interrogação da teoria contemplativa.

Basta que tenha necessidade de integrar os fenómenos que não se repetem, que são os acontecimentos da história, produzidos pelos seres que não se repetem, que são os homens, no todo da existência humana.

Porque, como dizia Pascal, “o homem supera infinitamente o homem”. Porque não é a história que faz o homem, mas sim o homem que faz a história. Porque o normal é haver anormais…

Aliás, Aron, acaba por concluir, quanto à teoria das relações internacionais , que, no fim do itinerário, o “conjunto” levou o , contrariamente ao que pensava no começo, à “determinação do sistema inter-estadual” e à “prudência do homem de Estado”, passando pela “análise das regularidades sociológicas e das singularidades históricas”, o que “constitui o equivalente crítico ou interrogativo de uma filosofia”. Isto é, ele que quis começar por ser cientista de uma teoria cientista, acabou por ser cientista de uma teoria contemplativa.

Jan 06

No princípio tem de estar o fim…

No “day after” ao hastear de uma bandeira própria que, aliás, não consta graficamente do “site” da AR, o principal dos nossos órgãos de soberania assumiu-se como efectiva arena da partidocracia, mandando para o domínio da hipocrisia o que resta de democracia directa: o direito de petição. A equipa da reforma da administração central do Estado viu assim confirmada a paralamentarização do conceito de “l’État c’est moi” e os cidadãos que não se reconhecem nos mecanismos de canalização da opinião pública, a que damos o nome de partidos, correm o risco de alinhar com o modelo retórico de desespero gritante assumido por Manuel Monteiro, sobre a questão da Ota.

Até porque, na minha última intervenção de “inconformismo responsável”, mas sujando as mãos numa candidatura a deputado, alinhei com um programa de projecto partidário e com um programa de candidatura distrital que o actual partido do fundador do PP e do seu grupo de amigos de sempre, legitimamente revogou, já depois de a maioria dos autores dos textos fundacionais da instituição, de um Paulo Ferreira da Cunha a um Carlos Abreu Amorim, se terem descontratualizado daquilo que era um ponto de encontro de independentes e ex e futuros militantes do PS, do PSD e do CDS, em torno de um modelo liberal, com gentes do humanismo cristão e do humanismo laico, que nem sequer estavam, como grupo, à direita do então PSD.

Basta passar os olhos pelos registos desse novo Arquivo da Torre do Tombo, chamado blogosfera, para percebermos como é que um defensor da regionalização e do radicalismo liberal não poderia subscrever o combate à Ota, precisamente uma das bandeiras do então projecto de partido, na candidatura por Leiria. Ser heterodoxo, mas coerente, tem os custos da renúncia que costumam sofrer os homens livres, os tais que continuariam a subscrever tudo quanto propuseram aos cidadãos como contrato eleitoral, sempre assumido como um testemunho de experiência cívica, onde quem não vence pode ter razão.

Por mim, tenho sujado as mãos algumas vezes. Candidatei-me a deputado pelo CDS de Lucas Pires por Beja, contra a reforma agrária e por Alqueva, contra o cavaquismo. Voltei à arena como candidato do mesmo partido por Braga, ao lado, e a seguir, ao José Luís Nogueira de Brito, quando o CDS ficou com a dimensão do táxi, ainda contra o cavaquismo, ainda em nome do nacionalismo liberal. Regressei numa candidatura ao Parlamento Europeu, com a mesma ideia, e contra a frustrada constituição valéria. Estou assim em condições de elaborar um belo manual de crónicas de várias eleições perdidas por quem jogou sempre fora das torres de marfim e preferiu alinhar naquilo que todos viam como capítulos da história dos vencidos que adoram o prazer do jogo democrático.

Paradoxalmente, até cheguei a formal deputado em São Bento sem o saber. O presidente do meu grupo parlamentar, que entrara como substituto do Francisco Lucas Pires, apenas me comunicou a circunstância um quarto de hora depois de já o não ser, cumprindo ordens do presidente do respectivo partido, o tal que escreveu recentemente um livro de memórias sobre quinze meses como ministro dos estrangeiros do PS e a quem sempre me opusera… Quem tiver dúvidas que consulte os registos de São Bento!

Jan 05

Esse falso D. Sebastião científico que nos continua a ilusionar. Um revolucionário não pode ser humanista…

Há quem seja da situação e quem seja do contra, especialmente os que agora são situação e ontem eram do contra, diferentes, mas iguais, face aos que hoje são do contra e ontem eram situação, num toma-lá-dá-cá deste modelo de modorra e paz putrefacta, com plurisseculares cumplicidades. Há também muitos antigos piratas ornados com os chapéus de coco da respeitabilidade banqueira, as becas clericais ou as flores de estilo dos encartados intelectuais. Há, sobretudo, os cronistas e homens de letras que andam de mão estendida, para venderem linguados aos jornais comprados com dinheiro branqueado pela pouca vergonha do latrocínio e da corruptela. Todo o sistema tem o seu centro de irrigação sanguínea assente num qualquer “off shore”, todo ele “out of record”, onde impera o vazio de regras, onde não há moralidade e onde só os detentores da super “inside information” é que vão mamando. Conheço muitos ilustres catedráticos que estão disponíveis para aceitação de uma avença de Alves dos Reis e muitos homens de letras que venderão a pena para biografarem um qualquer vigarista de dente dourado e unha adunca de assassino por procuração. Poucos são os homens livres que podem continuar a atirar pedradas. São poucos, mas são suficientes. E podem vir a desmentir um dito do fundador da extrema-esquerda lusitana, o “Xico” Martins Rodrigues, segundo o qual um revolucionário não pode ser um humanista. Porque muitos dos que justificam a violência genética da ditadura ou da revolução têm as mãos sujas de sangue, mesmo que o crime tenha prescrito com esse decurso do tempo a que chamamos pós-autoritarismo e pós-revolução. Porque rara é a propriedade que não assente no roubo, como nos ensinou Proudhon. Tal como escasso é o poder instalado que não tenha tido um impulso genético de não-humanismo. Os nossos sucessivos situacionismos, marcados pela hipocrisia sacrista do equilibrismo nunca se importaram com os que ardiam na Inquisição, comiam o pão amargo do exílio ou eram malhados pela repressão. O inquisidor, o caceteirto, o formiga, o pide ou um vigilante revolucionário, todos são feitos da mesma massa informe, sem espinha que os faça olhar as estrelas, onde só varia a cor do verniz das aparências. Mesmo agora, falta coragem para a federação dos homens livres da finança e da partidocracia, para essa urgente coligação dos liberais e liberdadeiros da esquerda e da direita. O piloto automático da governação sem governo aí continua a abalar as profundas instituições da dita sociedade civil, em nome de uma espécie de D. Sebastião científico que nunca leu a trovas de Bandarra. Ele o falso rei, enevoado pela imagem publicitária do “action man”, mesmo quando não se assemelha ao habitual George Clonney de agente secreto de casino, também, às vezes, se disfarça com o desenho animado do Professor Pardal, com ar de ficção científica do Canal História. Todos merecem uma bela gargalhada. Prefiro as asas que me permitem a procura do além, mesmo que seja o além que está dentro de mim. É preciso crescer para cima e crescer para dentro. Libertai-vos, lusitanos que restam!

Jan 03

No princípio estão os princípios…ou de como voltaria a desembarcar no Mindelo

3.1.07

 

(se clicarem em qualquer uma das imagens deste postal, encontrarão uma teológica postura sobre a IVG, bem diversa da doutrina oficial vaticana… não sei se os movimentos do “sim” já repararam nela ou se os jornalistas do sensacionalismo já foram além das declarações da fatimista Fina da Armada…)

 

Continuam alguns civilizados oponentes a rebater-me em “mails” privados, sobre a posição que publicamente aqui assumi sobre a IVG. Um deles disse que, ao crismar-me como não “republicano” e não “socialista”, apenas comungava com a tríade soarista no tocante ao “laico”, o que, sendo bene trovato, pode não ser totalmente vero. Sou assim obrigado, por razões de consciência, a desenvolver o tema, face a esse militante do Partido Popular, coisa que nunca fui. Apenas lhe quero dizer que laico, etimologicamente falando, vem do grego laikos que quer dizer precisamente popular. Evidentemente que a expressão portuguesa laicismo tem outra conotação e outro intermediário, o francês laicisme, tendo sido introduzida na nossa língua apenas no século XIX.

Em sentido amplo, diz-se da doutrina que defende a independência da sociedade e do Estado face à influência religiosa ou eclesiástica, sendo marcante no início do século XX, principalmente a partir da experiência da III República Francesa, depois do affaire Dreyfus. Equivale ao movimento britânico do secularismo, tendo as suas origens na reacção contra a doutrina das duas espadas assumida pelo papa Bonifácio VII na bula Unam Sanctam de 1302, luta assumida por autores como Marsílio de Pádua e Guilherme de Ockham. Desenvolve-se com o Renascimento, desde as novas concepções políticas de Maquiavel às perspectivas de ciência assumidas por Galileu.

Só que há um modelo de Estado Laico, caracterizado pela morte de Deus e que, no plano político, considera que a César pertence tudo, uma variante, marcada pelas teses de Saint-Simon e Comte, que tem tendência para substituir a religião tradicional por uma nova religião da humanidade, marcada pela confiança na razão. Por mim, mais britanicamente conservador, não a assumo.

Prefiro invocar ilustres santidades para o efeito. Começo por São Tomás de Aquino, o verdadeiro fundador do meu laicismo de homem religioso, mas sem igreja (leiam Régio), quando, aceitando que o poder político tem origens remotas em Deus, que deu liberdade ao homem, apenas emerge com o mediador popular, ao contrário do providencialismo augustiniano que vê o poder político com origem diabólica.

Retomando Aristóteles e São Tomás, a neo-escolástica peninsular de Francisco Suárez, jesuíta e tudo, considera que o poder político, ou principado, é um produto da natureza racional do homem e não do pecado ou da revelação. Não vem do pecado nem da revelação, mas da razão natural, da natural condição dos homens.

 

Partindo do princípio que os homens, segundo a ordem da natureza não se regem nas coisas civis pela revelação, mas pela razão natural, proclamou, contrariamente a Santo Agostinho e a Lutero, que o poder político não se funda no pecado ou em alguma desordem, mas na natural condição do homem. Porque o poder de dominar ou reger politicamente aos homens, a nenhum homem em particular lhe foi dado imediatamente por Deus, este poder só em virtude do direito natural está na comunidade dos homens, está nos homens e não em cada um ou num determinado.

Assim, o poder político é visto como algo de direito humano, como instituição dos homens e doação da república, algo que surge por vontade de todos (per voluntatem omnium). Esta tese democrática e laica diverge das ressurgências diabólicas de certos luteranos e de quase todos os maquiavélicos, recentemente casados pelo neo-conservadorismo puritano, e é totalmente contrária às teorias do providencialismo contra-revolucionário, adeptas das monarquias de direito divino, para quem o poder dos reis deriva directamente de Deus, sem intermediário popular.

A tese suarezista foi, aliás, seguida na fundação do Partido Popular Italiano de Luigi Sturzo (na imagem segunda deste postal), para quem a democracia cristã deveria assumir-se como movimento laico, não confessional, ao contrário do que aconteceu como o movimento português congénere, o Centro Católico Português, que até foi directamente inspirado pela Conferência Episcopal Portuguesa.

Também Jacques Maritain apenas defendia uma “cidade laica de inspiração cristã” ou de um “Estado laico cristamente constituído”, isto é,”um Estado onde o profano e o temporal tenham plenamente o seu papel e a sua dignidade de fim e de agente principal, mas não de fim último nem do agente principal mais elevado” e que levaria também à “extraterritorialidade da pessoa face aos meios temporais e políticos”.

No princípio, estão os princípios e eu continuo, neste domínio, a subscrever o camponês do Garona, São Tomás e Suárez, rejeitando positivismos e haeckelianismos. Viva o Estado Laico! Abaixo o providencialismo e as monarquias de direito divino! Continuo adepto da metodologia neo-escolástica, pela qual chegámos a Aristóteles e ao estoicismo. E porque sou um consensualista tradicionalista, continuaria a desembarcar no Pampelido contra os agentes da Santa Aliança! Neste sentido, subscrevo o jesuíta e teólogo Karl Rahner: “não se pode interpretar, através das definições dogmáticas da igreja, que assumir que o conceptum humano (alma e corpo) ocorre somente durante o curso de desenvolvimento do embrião seja que contrário a fé. Nenhum teólogo pode pretender provar que a interrupção de uma gravidez, ou seja a realização do aborto, seria em toda e qualquer circunstância o assassinato de um ser humano”

Jan 03

Porque vivo num país livre

Porque vivo num país livre, feito por esquerdas e direitas que não padeciam do neodogmatismo dito antidogmático, posso confirmar que, de acordo com a teologia católica oficial, tanto não sou um fiel do Vaticano, como também não sou um gnóstico ou um agnóstico, da frente antiteísta e do eixo do mal. Apenas reclamo o direito de expressar a liberdade do meu pensamento nos domínios da heresia, podendo exprimir as angústias de navegar naquela zona de fronteira do transcendente situado, como acontece a muitos que tentam as suas confissões de homem religioso. Por outras palavras, de Nietzsche, não tenho nada, dado que muito agradeço o complexo herdado deste diálogo da liberdade ocidental, entre o humanismo maçónico e o humanismo cristão, sem o qual seremos decepados por aqueles fundamentalismos que costumam transformar-se em caricaturas e que se arregimentam em carneirada nos dois lados da mesma aventura do espírito. Continuo a não ser “de esquerda”, nem socialista, nem republicano do 5 de Outubro, ou do 28 de Maio. Não passo de um velho liberal, bem azul e branco, mesmo que esteja contra certos bobos da Corte que não sabem conjugar a antiga, mas não antiquada, fibra do senão, não. Tão liberal quanto a maioria dos governos e parlamentos europeus, incluindo todos os reinos vigentes, que permitiram os resultados legislativos que o próximo “sim” poderá promover em Portugal. A minha pluralidade de pertenças tem uma irmandade profunda com um Edmund Burke ou um Winston Churchill, o tal humanismo activista de um conservador tradicionalista e liberdadeiro que, sendo da direita universal e europeia, começa não poder conviver em harmonia com os letreiros da direita lusitana, só porque provoca urticária argumentativa em todos os que só prezam a liberdade de consciência quando com eles concordamos. E assim se confirma como continuamos a ter uma direita que convém à esquerda. Como se toda a esquerda fosse pelo sim e toda a direita, pelo não, como parece ser o desígnio de certos refundadores dos endireitas e de alguns continuadores do bonzismo canhoto.

Jan 03

As redes de instalados que ocuparam a cidade

As redes de instalados que ocuparam a cidade mantêm o quase monopólio da palavra que nos controla e resta-nos desobedecer por dentro, não cumprindo aquilo que os controleiros pensam que é o nosso destino. Democracia é aquele regime que permite golpes de Estado sem efusão de sangue, através da urna. Basta que na respectiva ranhura se introduza o adequado gesto do Zé Povinho, para que o voto volte a ser a arma do povo, derrubando os fundamentos da desordem instalada. O estado a que chegámos é uma desordem bem organizada. E os neofeudalismos da anarquia ordenada duram tempo demais, quando os injustiçados vão ao terreno do adversário e usam as armas que lhes são convenientes. Só através da guerrilha espiritual se pode indisciplinar a desordem que nos enjoa. Continuo a ser do contra o que está… Uma democracia não são votos. A ditadura que acabou em 1974 começou com votos em 1928, quando Carmona foi plebiscitado com muito mais sufrágios do que aqueles que receberam todos os partidos juntos nas eleições parlamentares de 1925. Em democracia pluralista, depois do voto em urna, há o voto permanente da cidadania e da participação. A nossa democracia está a perder o viço pelo indiferentismo e pela corrupção. Tem que ser reinventada e refundada. Basta contabilizar, somando os que estão a favor e os que estão contra. Todos juntos são bem menos do que os indiferentes. E todos sabem que quem manda efectivamente não são os candidatos nem os eleitos, mas os autores dos guiões que se escondem do palco. Chegámos a novo tempo de Interregno. E, como diria o Mestre, “é a hora”. Que, “quanto mais ao povo a alma falta, mais minha alma atlântica se exalta”. Na véspera da tragédia do 28 de Maio de 1926, um editorialista anónimo de jornal, que não era inimigo da democracia, definia o situacionismo apodrecido da 1ª República como uma ditadura da incompetência, dominada por bonzos e com muitos bailados de falsas alternativas, entre endireitas e canhotos. Subscrevo e repito.

Jan 03

O homem é um ser que nunca se repete…viva a heresia!

Dizem que temos ano novo e vida nova só porque mudaram as marcas que assinalam os dias e os sinais. Só porque os novos sinais nos dão a ilusão de um tempo que julgamos diverso, nessa permanente procura do que não temos. Apenas mudou o sinal, não mudou quem somos, se as janelas permanecerem fechadas, sem um breve intervalo, ou um secreto recanto onde guardemos as sementes que a invernia ameaça destroçar. Apenas porque tememos que o incontrolável da mudança possa desfazer os equilíbrios onde nos acoitamos, em ilusão de bonança, quando, afinal, apetece retomar um qualquer cais que nos dê viagem destemida. Porque há sempre um sinal de mar no ciciar da folhagem, na brisa que nos chega em madrugadas de espera. Acabou mais um ano deste tempo que passa, mas continuam a circular as sementes de sonho e estas mãos que ainda sabem moldar o tempo dito futuro, para que o fruto semeado possa amadurecer, dando tempo ao tempo. Basta aprender com quem mais sabe e que ainda há dias me dizia: nunca há uma verdade verdadeira, a verdade é sempre uma composição. E há sempre um muro intransponível que nos separa do que nunca podemos saber. Não é preciso gritar nem bater para dizermos que temos razão… Vou abrir as janelas e deixar entrar a madrugada. Há um sinal de mar que nos traz a noite. Basta que um qualquer pássaro da manhã nos ajude a capturar o sinal da esperança e que um vento imaginário nos leve para um qualquer cais de partida, onde a espera nos dê além, um tempo de ter tempo onde possamos semear quem sonhamos… Há um Deus que pode nascer todos os dias dentro de quem somos. Porque, às vezes, é na rebeldia que está a lealdade, nessa suprema ortodoxia do heterodoxo, e não na diluição no rebanho seguidista. Deus pode ser o mundo e haver mais mundos, sobretudo aqueles que continuam a criação, dando novos mundos ao mundo. As seitas sempre foram a própria negação da verdade. Não passam de rebanhos de dilectos que apenas reagem aos exoterismos, mesmo que se disfarcem em rituais, sobretudo quando estes perderam o sentido dos gestos. Nas seitas já não há sacerdotes, mas apenas sacristães e sacristas. Até nem há generais, mas apenas sargentos de economato. Não há mestres, mas apenas lentes, repetidores da vulgata. Desses que se extinguem nas eternas sessões de esclarecimento dos sindicatos das citações mútuas, transformados em correias de transmissão da unicidade. Odeio todos os grupos e movimentos que procuram assumir o monopólio da verdade, do espírito, da vida e do próprio bem, só porque alguns exibem uma contrafacção da chave da verdade e dizem ser o caminho. Odeio catecismos e formulários, bem como os seminaristas de cordel que procuram transformar-se nos cardeais da propaganda da falsa fé e nos comandantes de uma nova Inquisição que nos quer a todos relaxar para o braço secular da persiganga. Os que retomam a hermenêutica disciplinada da unicidade preferem a liturgia da subserviência à religiosidade da libertação. Até nem compreendem que só há pátria quando se cultivam as complexas heranças que nos sagraram a terra das árvores, dos rios e dos montes. Eles nunca entenderão que é possível o não através do sim e o sim através do não. A heresia continua a ser a única foram criativa de fecundarmos este caminho repleto de dejectos, ditos os filhos dilectos, mas que sabem que a revolta individual dos que procuram é o que mais se aproxima de sua imagem e semelhança. O homem é um ser que nunca se repete.