Dez 03

Chávez, Putine, Marinho e o banqueiro anarquista

O dezembrismo, a nível da política global, parece enredado na antiquíssima degenerescência da democracia, o cesarismo. Se na Rússia, que vai até a Vladivostoque (em russo, a dominadora do Oriente), Putine deixará a presidência, mas com uma esmagadora maioria parlamentar que o fará aceder a primeiro-ministro, já nos calores do Petro-Estado venezuelano deu-se mal com os referendos e não conseguiu, pela via do voto, entrar no vitalício dos césares de multidões. Por cá, com águias e leões sem muita tranquilidade, por causa das ressacas tripeiras e leirienses, apenas nos orgulha mais uma sessão de “jogging” do nosso primeiro, agora interrompendo a principal rua da capital da Índia. A única novidade está em quase três quartos de hora de entrevista em directo de um banqueiro anarquista, onde, sem Papas na língua e sem pesar as palavras, se emitiram palavras como roubo, garotada e pouca vergonha, relatando coisas que nem em África já existiriam. A vítima foi gente do Opus Dei e de uma ilustre e cimeira instituição do capitalismo financeiro do Portugal que resta. Tal como um elefante num armazém de porcelana, a imagem de banqueiros e de políticos, que estes recrutam para a fiscalização e a assessoria, ficou sujeita aos vicentinos plebeísmos. O situacionismo, entre as águas chocas e o pantanal, já não pode tapar com a habitual peneira da retórica oficiosa este foco de instabilidade. Já não há discursos de música celestial que aguentem este ensurdecedor ruído que tratou de chamar os bois pelos nomes. Por outras palavras, chegou o neopopulismo entre as manifestações para as massas do capitalismo financeiro. Resta saber se estes movimentos de mudança retórica pretendem mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma. Com efeito, os dados que se vão conhecendo sobre os meandros banqueirais, se não têm o picante das velhas histórias de Alves dos Reis, apenas mostram a urgência de um qualquer novo romance de costumes que retrate este ambiente de apodrecimento do Bloco Central de interesses, onde os apadrinhamentos não têm o dramatismo mafioso, mas os brandos costumes do amiguismo, à empregomania e ao salve-se quem puder da moral do sapateiro de Braga. Por outras palavras, apenas confirmam a velha lei do  Portugalório das minúsculas com a mania das grandezas, onde o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido. Os banqueiros e gestores de conta, em cumplicidade com a classe partidocrática, costumam sempre compensar os bons alunos do sistema, ao mesmo tempo que vão semeando influências e patrocínios junto dos jornais e dos intelectuais. A engenharia de influências, neocorporativa e neofeudal, conseguiu transformar aquilo que eram os tradicionais conceitos de serviço público, resistência cultural e independência académica numa massa invertebrada, sem princípios, crenças e valores. Apenas domina o clássico utilitarismo do homem de sucesso, segundo o qual o que importa é o máximo de prazer com um mínimo de dor, onde sempre tem razão quem vence. Assim, segundo este pensamento único, a moral deixou de ter a ver com a autonomia dos indivíduos e já não consegue identificar-se com concepções do mundo e da vida daquela moral social a que alguns chamam ética republicana. Refiro-me à de Kant e do Estado de Direito e não à de Afonso Costa e de Mário Soares, dado que esta padece de alguns desvios bolivarianos. Por outras palavras, abrimos as portas a certas interpretações que levam alguns a convencer-se que não há moral cívica terrena, permitindo que seitas, religiosas, ideológicas ou fundamentalistas, a pretendam assumir como monopólio do além. E, raspado o verniz, tornam-se patentes os mecanismos de subterrâneo controlo do poder infra-estrutural do situacionismo: o neocorporativismo que o não parecia; o neofeudalismo que se ocultava. A estátua da hipocrisia social parece ceder pelos respectivos pés de barro. Um quarto de hora antes de morrer o situacionismo pós-revolucionário continua a conjugar a velha esquerda politiqueira com a mais velha direita dos interesses, onde líderes socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos disputam o pódio dos feitores dos ricos. Resta saber se resistem à destruição criadora desta revolução sem PREC que passa pelo mercado ibérico, pela integração europeia e pela globalização, realidades que estilhaçaram as antiquadas políticas proteccionistas do nacionalismo económico e do condicionamento industrial. Isto é, o nosso velho capitalismo pouco liberal, ao deixar de ser doméstico, não parece aguentar o anterior quadrado banco-burocrático do rotativismo. As velhas costuras que resguardavam esta estufa das ventanias da liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais ameçam rebentar, assim se demonstrando como a nossa economia privada, bem longe de ser uma economia de mercado, foi afinal feita sem as burguesas virtudes burguesas dos míticos cavalheiros da indústria, antes de haver financiamento partidário. Nasceram daquelas pós-revoluções situacionistas que sempre praticaram a privatização dos lucros e a nacionalização dos prejuízos.